Tanto faz dizê-lo imediatamente

Depois que saí de casa, o plano da minha mãe foi separar-se definitivamente de meu pai. Isso demorou um tempo para acontecer, mas agora que ela está de namorado novo, decidiu que ao lado dele viajaria por todo o Brasil, nessa férias de fim de ano. Meu pai está em casa, nesta exata noite de domingo, tentando acostumar-se à dor da perda, enquanto escrevo essa narrativa.
A quem interessar possa, a carta que escrevi anteriormente surtiu efeito. Não positivamente. Recebi uma resposta curta, via rede social, de que o destinatário não se recorda da minha pessoa. Engraçado como sete anos se passam nos quais você sente que fora uma protagonista solitária de uma história que ainda não aconteceu. Quando eu o vi naquele ônibus para nunca mais esquecer seu olhar, parecia o ápice daquele romance que li do Murakami: quando a Miu sobe na roda-gigante e fica por lá presa, em função do fato de que o parque de diversões fechara, pois já era tarde da noite. Munida de um par de binóculos, decide averiguar o que se passa na noite parisiense, que cintila. Logo enxerga o seu apartamento. Percebe que há uma mulher lá dentro – sendo beijada por um homem que a observadora detesta. Mas essa mulher, dentro de seu apartamento, é ela mesma. Miu percebe ter entrado em um universo paralelo, no qual a realidade fora-lhe roubada. Utilizarei um exemplo melhor: em Serendipity, filme estrelado por John Cusack e Kate Beckinsale, os personagens de John e Kate se conhecem em um feriado invernal e sentem uma atração mútua. O problema é que ambos são comprometidos. John pede o telefone da Kate, mas ela decide que o destino deve mandar na situação. Ela anota o seu contato, se não me engano, num livro que decide vender para um sebo. Ele faz o mesmo, em uma nota de um dólar, que passa adiante. Se o futuro garantir o reencontro de ambos, algo pode dar certo. Mas a vida real sempre depende de outros efeitos, menos românticos, mais realistas. Ele não se recordou de mim. E a vida segue, obrigada.

Kate Beckinsale e John Cusack em cena para o filme "Serendipity".

Acontece que o protagonista de As Lembranças (editora Rocco, 264 páginas), do escritor e cineasta francês David Foenkinos, também vive de remoer esses sentimentos do que já não está sob o seu controle e daquilo que ainda está para surgir.
Capa da edição brasileira do livro "As Lembranças", de David Foenkinos.Narrado em primeira-pessoa, o livro começa com o enterro do avô, documentado pelo neto. Basta uma nota: ele não chorou. E recorda-se disso enquanto se encaminha para outro velório: o da amiga de sua avó, uma bailarina famosa. Neste dia, ele encontra uma moça, provável neta da falecida, e pensa na frase que o seu pai pronunciara para conquistar sua mãe, quando jovem: “você é tão linda que eu prefiro nunca mais revê-la”. O que vem depois disso, no entanto, não são bons momentos: sua avó sofre uma queda em casa e, na condição de “viúva e sozinha”, é forçada pelos três filhos a morar numa casa de repouso. Os recém-aposentados pais do nosso narrador se divorciam. Seu único “privilégio” é viver o clichê do escritor: trabalha à noite como recepcionista/vigia de um hotel, cujo dono lhe trata como um filho. Escreve incessantemente sobre a sua vida e os últimos fatos que lhe sucederam. Mas gostaria de possuir inspiração para um romance. O que ele lapida, no entanto, são perfis imaginários de pessoas famosas, hóspedes e desconhecidos, todos em forma de lembrança, como a que se segue abaixo, uma lembrança de Alzheimer:

[Alois] Alzheimer é um neuropsiquiatra brilhante, mas ainda não sabe que vai dar seu nome à sua descoberta médica. Para isso, uma mulher vai sacudir sua vida. É Auguste D., que foi admitida no hospital de Frankfurt em 25 de novembro de 1901. Alzheimer tem trinta e sete anos quando decide acompanhar esta paciente, que sofre de uma degradação progressiva das faculdades cognitivas. Ele não compreendeu imediatamente que ela se tornaria seu caso de referência, que ela seria como a musa de um artista. Registrando quase quotidianamente as evoluções de Auguste, suas alucinações e seus comportamentos incoerentes, ele sentou-se perto dela para interrogá-la:
– Qual é o seu nome?
– Auguste.
– Qual é o seu sobrenome?
– Auguste.
– Qual é o nome de seu marido?
– Auguste.
A cada questão, ela respondia com seu prenome.
Enquanto se tornava obcecado por essa paciente, Alois se lembrou subitamente de que a vizinha da casa onde ele vivera em criança se chamava igualmente Auguste. Ele amava profundamente essa mulher, que ia frequentemente cuidar dele, lhe fazia bolos, o mimava quanto podia. Era uma mulher que não podia ter filhos. Um dia, ela teve de mudar-se para acompanhar o marido, transferido para Hamburgo. Ela veio dizer adeus a Alois, e o beijou longamente sobre a fronte. Ela lhe disse: ‘Espero que você não me esqueça’. Ele foi sacudido pela partida dessa mulher, mas, alguns meses depois, a esquecera completamente. Trinta anos depois, em face desta Auguste que já não se lembrava de nada, em face desta Auguste que ia torná-lo inesquecível, ele voltava a pensar na Auguste de sua infância, e ponderava que cada pessoa importante de uma vida traz em si o eco do futuro.”

Mas as desventuras desse jovem se iniciam, de fato, quando a família descobre que sua avó fugira da casa de repouso. Entre uma pista e outra, o paradeiro da matriarca é encontrado por seu neto. E não apenas a singularidade de um local, mas também o encontro com a beleza de Louise: uma professora do ensino fundamental, por quem o nosso herói se apaixona.

“(…) Há algo de muito emocionante no primeiro aparecimento de uma pessoa que vai ser importante em sua vida.
Naquele instante, eu não sabia nada dela. Ela era ainda uma mulher entre três bilhões de mulheres; uma anônima de minha vida. (…) Eu não sabia que tinha aulas de teatro, mas que ia logo parar, pois estava persuadida de que não tinha talento. Eu não sabia que seus cineastas preferidos eram Woody Allen e Aki Kaurismäki. Ela gostava também de Michel Gondry, sobretudo por Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças, um filme sobre a extinção da memória amorosa. De maneira geral, era louca pelo cinema francês dos anos 1970. Gostava de Claude Sautet, Maurice Pialat e Yves Robert. Isso lhe recordava sua infância. O fim dos anos 1970 é uma impressão física da cor laranja . Ela se sentia proveniente daquele laranja. Pequenina, gostava de caminhar na natureza e sonhava em possuir um chorão. Alternava momentos em que era aborrecida e momentos em que era sonhadora. Gostava de chuva, pois ela lhe permitia calçar suas botas vermelhas. O vermelho são os anos 1980. Ela caçava caramujos, mas os soltava sempre, tomada de culpa. Durante anos, cada outono ela juntava folhas mortas com o objetivo de enterrá-las dignamente. Quando andou na minha direção, eu ainda não sabia que ela gostava das bonecas russas e do mês de outubro. Tampouco sabia que gostava de berinjelas e da Polônia. Não sabia que ela tivera algumas histórias, todas mais ou menos decepcionantes, e que começava a perder a paciência esperando o amor. Ocorria-lhe realmente já não acreditar nele. Imaginava-se então às vezes como uma heroína russa, um pouco trágica. (…) Sua maior história, vivera-a com um rapaz que se chamava Antoine. Mas ele partira para Paris para estudar; finalmente, ele decidira principalmente estudar uma parisiense. (…) Ela continuava a avançar para mim e eu ainda não sabia que ela gostava de ler na banheira, e que podia tomar até seis banhos por dia. Seu prazer era deixar escorrer a água quente pelos pés. Ah, sim, eu ia esquecendo sua grande paixão por Charlotte Salomon. Ela gostava de sua vida, sua profundidade, seus desenhos. Eu sou ignorante de tudo isso, agora que ela avança para mim, na primeira vez que a vi, para me perguntar:
– Posso ajudá-lo?”

Eu queria ter lido A Delicadeza, que tornara-se filme com a linda da Audrey Tautou como protagonista. Sem contar que esta é a obra mais famosa de Foenkinos, mas, por falta da disponibilidade deste título em minha livraria, As Lembranças veio como uma grata surpresa. Quando divulguei que o estava lendo nas redes sociais, muitas pessoas vieram saber a minha opinião, questionaram se haveria resenha. O resultado é este. Sinto que cada capítulo do livro é um amadurecimento do personagem, e o divido em alguns períodos determinantes, tanto faz dizê-lo imediatamente: quando a avó desaparece, quando ele conhece Louise, e quando ambos fazem um balanço de seu relacionamento. É uma obra sobre a busca e o resultado do inesperado, um romance que paira na filosofia de que “o amor da gente é como um vão”, pois nada é eterno. Uma narrativa que deixa a vida mais leve, apesar de tudo. E recomendadíssima.

Cronista AmadoraQuer apreciar outros trechos que selecionei dessa obra? Clique aqui.

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23 respostas em “Tanto faz dizê-lo imediatamente

  1. Mais um para a minha lista de desejados. Tuas resenhas me deixam com vontade de ler cada livro e eu adoro isso. Gostei da história e principalmente dos trechos. *-*

  2. Nina!
    Este livro já estava nos meus desejados por motivos de: capa linda, título lindo. ahsuhauhsa Joguei pra você a responsabilidade de mantê-lo ou não na minha humilde listinha e é com felicidade e grande satisfação que digo ELE FICA!
    Confesso que não conheço o autor (nem por uma coisa nem pela outra), mas essa “coisinha” realmente falou comigo. Achei que seriam recordações do personagem, mas pelo que entendi há essa espécie de colagem de lembranças de coisas que não aconteceram (?!). Pronto, morri, já quero. u.ú

    Beijo enorme e obrigada por essa resenha deliciosa!
    PS: Serendipity ♥
    PS2: também sou de ficar pensando em coisas que aconteceram há séculos enquanto a outra pessoa SEQUER LEMBRA DE MIM. ><

  3. Acabei de quebrar minha promessa de não comprar livros até que tivesse lido os já comprados. Mas… sabe o que? Obrigada <3
    (eu vou assinar aqui – Isabela do 100ml, pra vc saber quem é – porque o wordpress tá muito safado e não deixa mais aparecer o login do blogspot. baixezas de concorrentes…) beijo!

  4. Sabe que eu li e reli Minha Querida Sputnik e cometi a babaquice de dar de presente pra um amigo japonês ler a versão traduzida. A parte da roda gigante é, de longe, a mais marcante de todo o livro. Mas outra cena de que eu gosto muito é do momento em que Sumire escreve no computador os seus sentimentos, seus pensamentos; aquilo supera o erotismo barato de Murakami e revelou o melhor lado dele.

  5. Li o post da carta. Eu já vivi uma história bem parecida. A diferença é que, anos depois, ele também se lembrou de mim. E a gente viveu um rápido ~affair~. Mas foi só pra nós dois descobrirmos que, às vezes, algumas das nossas histórias ficam melhor não vividas.

  6. Poxa, que pena ele ter se lembrado de você… Incrível como podemos viver histórias diferentes, sem se dar conta… Coincidentemente, assisti A Delicadeza ontem e gostei demais.

  7. Que maldade!! Mais um livro para minha listinha o/
    Já vi que de amigo secreto só vou pedir livros rsrs
    P.S.: Li a carta e não consigo deixar de pensar que algumas vezes as impressões que os outros deixam em nós são maiores do que deixamos neles.

    Beijos

  8. Ótima resenha… e que vontade de ler o livro!
    Ainda bem que, de todas as vontades que passo na vida, essa é a que satisfaço mais rapidamente :))

  9. Depois de ler sobre a sua carta tive que correr para ler (curiosidade é um mal de todos, né? rs) e acho que vivi coisas parecidas. Talvez não com tamanha intensidade, mas vira e mexe quando me lembro da minha paixão de adolescente (mais ou menos na mesma idade que você) ou quando o vejo (infelizmente ele mora próximo de mim atualmente) sempre bate aquela dúvida do que poderia ter acontecido e surge aquela história que fantasiei por tanto tempo quando achei que poderíamos estar juntos.
    Mas como você bem colocou, a vida segue. E talvez tenha sido o melhor (esse talvez que mata, mas vamos ignorá-lo por hora).
    Lembro-me vagamente de Serendipity e de minha vontade de assistí-lo novamente.
    Sobre os livros, ainda preciso ler. O romance de Murakami me deixou interessada e agora também estou com vontade de assistir o filme com a Audrey.
    Eu demorei um tempo até descobrir que você é a Nina Livreira lá no Facebook e Skoob. Menina, como você é linda!
    Beijo!

  10. Nina, me conta, como eu posso não me apaixonar por todos os livros que você escreve aqui? Como eu posso não me apaixonar pelo jeito que você escreve, sempre contando um pouquinho de você? Adoro o cuidado que você tem pra escolher os trechos, e o quanto eles me fazem ainda mais querer ler o livro…
    Sinceramente, se um dia eu aparecesse na sua livraria, acho que teria dívidas pro resto da vida. haha

    É claro que fui lá ler a sua carta, e eu tenho algumas histórias parecidas. Não tão bonitas ou intensas, mas parecidas. E nem sei se gostaria que eles se lembrassem de mim ou não, a magia não ia ser a mesma… A vida segue, porque ele nem se lembra de você, mas a felicidade já está aí, do seu lado.

    Beijo!

  11. Oba! Mais uma resenha maravilhosa que me fez anotar o nome do livro e incluir na lista de presentes para o fim de ano do namorado. Eu logo fui entrando de cabeça no seu post pq pensei que só eu e minha prima conhecíamos Serendipity! Juro, é um filme tão simplista mas tão amado… e especial que pensei que só eu me lembrava dele com amor e carinho. Aí no meio do texto acabei voltando pra ler o seu último post e surtei! Porque eu fiz exatamente o que você fez há uma semana atrás – só que foi com um e-mail, dizendo saudade e carinho e desejando um ótimo 2013.
    Ainda não obtive resposta. Será que foi a lua que nos baixou os cinco minutos pra mandarmos cartas – mesmo que estejamos felizes e completas em relacionamentos firmes – para pessoas perdidas e queridas do passado?

    Vai entender…

    Beijoca

  12. Nina, tinha lido uma pequena conversa entre Jana e você no Twitter sobre esse livro. Nunca tinha lido nenhuma sinopse desse livro, nenhuma resenha, nada. Mas confesso que a sua postagem foi o suficiente pra me deixar com vontade de ler esse livro. Os trechos que você colocou nesse post tem um ‘q’ de encantadores, de poéticos, de filosóficos. Eu realmente preciso ler esse livro. Ótima dica, moça.

    Sacudindo Palavras

  13. Se eu já estava com vontade de ler Foenkinos depois de ver – e amar – o filme com a Tautou q vc citou, agora estou decidida a lê-lo!
    Também fiquei curiosíssima quanto esse Serendipity, obrigada pelas dicas!
    Achei o desfecho da história do outro post um tanto quanto melancólica, mas gostei do efeito que isso causou e como vc escreveu a respeito.
    Estou adorando seu blog, continue continue!!!

    Bjaum

  14. Meu Deus, que coisa mais linda. O trecho em que o protagonista conhece Louise (adoro esse nome, a propósito) é uma das narrações mais lindas que já vi na vida. O li duas vezes, e adoro bonecas russas… Estava pensando justamente na capacidade que algumas pessoas tem de se fixar em nossa memória, mesmo que o contato que estabelecemos com algumas tenha sido ínfimo. Coincidência?! Parece ser um livro para ser saboreado aos poucos, como o último pedaço de um pudim.

    Beijos ;*

  15. É certo que preciso ir um dia te conhecer. Além da alegria em te ver de perto, pediria a ti uma bondade: fazer uma essencial assessoria literária pra mim, e claro, revertendo num poupudo carrinho cheio de livros. Na tua loja, óbvio. hehe

    Lembranças parece ser ótimo, a julgar pela forma como a escrita flui. A trama, inicialmente, tendo como base tua resenha e uma sinopse, parece ser bem atrativa, muito embora não goste de dramas. Alguns romances, em particular, sempre me encantam.

    =)

    Beijo!!

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