Alta-ajuda

Em meados desse ano, o representante de uma editora religiosa passou em minha livraria. Por cinco minutos, tivemos uma conversa breve, mas bastante significativa. Ele observava as mesas, via que os títulos estavam bem dispostos. A divulgação acontecia. “Vendemos muito auto-ajuda”, eu dissera. Então ele respondeu: “sabia que é uma ideia péssima presentear com auto-ajuda pessoas que estão passando por um problema sério? Pessoas que enfrentam um divórcio – ou até mesmo o câncer – e que estão na cama de um hospital, à beira da morte… A auto-ajuda não é para essas pessoas. A auto-ajuda é para uma pessoa que já está bem e deseja melhorar em sua vida pessoal. Uma pessoa que sabe que está morrendo não obterá consolo através do ‘pensamento positivo’. A minha editora não vende auto-ajuda, mas a ‘ajuda do alto’. Entre esses dois gêneros de nomes tão parecidos, há uma enorme diferença”.
Ele tinha razão. Eu nunca mais o vi, mas levei aquela constatação à sério. Certa vez, antesNa ordem: "Feliz Ano Velho", de Marcelo Rubens Paiva; "Diálogos Impossíveis", de Veríssimo; "Feliz Por Nada", da Martha Medeiros e "Alta-Ajuda", de Francisco Bosco. desse acontecimento, uma moça queria levar uma obra de auto-ajuda para o irmão, no hospital. Ele havia acabado de sofrer um acidente de carro. Provavelmente ficaria sem andar. Questionei se, por acaso, ela não gostaria de presenteá-lo com um livro que o distraísse de seus problemas – e não que, supostamente, tentasse resolvê-los. Afinal de contas, é muito raro um ser humano que sofreu um grave acidente voltar a andar porque leu O Segredo. Mas talvez ele encontre uma serenidade enorme e vontade de seguir em frene após a leitura de um relato divertido que não se difere muito da história dele: o livro Feliz Ano Velho, do Marcelo Rubens Paiva.
O Brasil é o país da auto-ajuda. Todo mundo quer um Augusto Cury ou um Deepak Chopra para resolver suas picuinhas cotidianas. Sempre vi a auto-ajuda como um estilo literário muito limitado ao marketing pessoal (do autor, não seu); que promete horrores de satisfação, tal como a vizinha da minha mãe – que lê búzios e promete o seu amor de volta em até três dias. Auto-ajuda é perfeita para quem não sabe pensar por conta própria.
Tudo bem, posso estar sendo preconceituosa, que seja. Nada contra quem lê auto-ajuda e gosta – desde que exercite o seu senso crítico e não passe a acreditar (ou aplicar) tudo que está ali escrito. A prática é muito diferenciada. Auto-ajuda é teoria. Me deu horror o ser humano que passou em minha livraria, outro dia, e comentou com o amigo: “cê sabe que eu sou o ‘rei da auto-ajuda’, né? Adooooro”. Sério, se você só consegue ler isso, está na hora de alterar aos poucos seus hábitos literários, hein?
O Natal está mais do que batendo à porta e eu já prevejo o tanto de gente que deixará para a última hora a compra daquele presente bacaninha para o parente ou o amigo-secreto da empresa. É no Natal que praticamente todas as livrarias desse país vendem um número absurdo de itens. Se as suas únicas opções são auto-ajuda ou Cinquenta Tons de Cinza (e adjacentes), faço questão de lhe emprestar algumas dicas.
O futuro presenteado está morrendo? Distraí-lo de sua dor é a melhor solução. Que tal um livro do Luís Fernando Veríssimo? Ou do Mario Prata? O Veríssimo está com um livro novinho, o Diálogos Impossíveis. Um drama ou uma auto-ajuda, repito, não será o melhor para o indivíduo;
A pessoa está passando por um divórcio difícil de lidar? Quase sempre essa pessoa é uma mulher. Nesse caso, Martha Medeiros nunca perde. O Feliz Por Nada, um de seus maiores sucessos, é um livro de crônicas sobre amor, amizade, amadurecimento… Tudo sob a mesma máxima: é possível que sejamos felizes tendo pouco, felizes por nada. Quando uma pessoa está triste, enfrentando o desamor, a tendência é que ela se vitimize bastante. O truque aqui é adquirir uma obra que retome sua auto-estima, mas sem exagerar. Simone de Beauvoir também é uma boa escolha. Jennifer Egan, idem. E, embora eu também não seja muito adepta do chick-lit, constato que essa também pode ser uma opção válida. Livros da Cecelia Ahern e da Sophie Kinsella são uma boa (nada de Nicholas Sparks, pelo amor de Deus!);
Amigo-secreto: se você conhece a pessoa, maravilha. Estima-se, nesse caso, que você saiba exatamente o que ela deseja (e pode nem ser um livro). Mas, se você não a conhece, não rode por aí procurando a “mesa de lançamentos e/ou mais vendidos”. Escolha um livro de crônicas – histórias curtas sobre o cotidiano e que costumam agradar a todos. Na maioria das livrarias, existem estantes apenas para isso. Outra oportunidade excelente é o recém-lançado Alta-Ajuda, de Francisco Bosco. A capa chama atenção, de cara. É também um livro de crônicas sobre o Brasil e a filosofia nossa de cada dia. Vale à pena presentear.
Lembre-se do fato de que livros são os melhores presentes. Eles educam e exercitam a imaginação. Você não precisa levar minhas dicas ao pé da letra. Presenteie com autores nacionais, de preferência. Assim, damos oportunidade e valor ao que é nosso. Tenham um Natal feliz.

***

Sim, mudei o layout daqui. Na realidade, ele deveria ser lançado no ano que vem. Mas, por uma bobagem que fiz, o tema de 2013 está aqui, no fim de 2012. “Navegar é preciso”, para viajar na magia dos livros, sempre. Infelizmente, não consegui encontrar o responsável por essa ilustração marítima, aí no canto. Se alguém souber, por favor, avise-me. Também fiz alterações parecidas para facebook, twitter e tumblr. Aliás, esse último está primoroso, confiram. E a novidade é que agora estou também no Instagram.

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33 respostas em “Alta-ajuda

  1. auto-ajuda sempre foi um gênero desprezível pra mim. não consigo entender como alguém precisa ler um livro pra saber o que fazer da sua vida. entre aspas, ainda. enfim, gente esperta conseguindo o dinheiro de fracassados.

  2. Já devo ter citado, mas cito de novo: “…aquela seção infecta da livraria local, que deveria ase chmar autopiedade mas em vez disso é chamada de auto-ajuda”. (BARNES, Julian, “Em tom de conversa”)

    Mas ainda prefiro aquele diálogo entre dois editores: “Você publica livros de auto-ajuda?” “Ué, existe algum que não seja?”

  3. É, auto-ajuda é complicado, mas como vc falou, acho que o grande problema é quando a pessoa só lê aquilo. Se leu um ou dois e tirou algo de bom, nem que seja risadas, tá valendo, mas viver em função dessas dicas não dá.
    Ficou lindo o layout ;)

    beijo

  4. Gente que absurdo falar tão mal desses livros, cada um lê o gosta, toda crítica é bem-vinda, mas desprezar os livros de auto-ajuda é demais!

  5. Me lembra uma crônica que li ontem, de Mario Quintana, chamada “Lazer”:
    “Um bom lazer, mesmo, é não assistir a esses cursos de lazer.”
    Acho que a gente encontra o que precisa sem procurar. Não sou grande leitora, mas tenho um forte preconceito com a auto-ajuda e concordo com as ideias do representante da editora.

  6. Entrei em uma briga intensa com minha antiga professora sobre livros de auto-ajuda. Ela, claro, defendeu Augusto Cury com toda a emoção que uma adolescente defende a qualidade musical de Miley Cirus. Eu, por outro lado, radical ao extremo que realmente desprezo esse tipo de literatura, aleguei que são livros repetidores de um conjunto de ideias e frases prontas. Não há uma receita milagrosa para se livrar dos problemas, resolvê-los com sucesso. A vida não tem um manual prático. Os tropeços, as vertiginosas quedas, o desenrolar das relações, a morte, e até mesmo, o recomeço são frutos incontestáveis da prática de se viver, não aprender a viver. É como penso, há milhares de pessoas medrosas, incapazes de ir adiante sem se basear nas experiências (supostas experiências e Ph.D alheios) de desconhecidos, acreditando sempre na mesma história de que “tudo ali é verdade”. Tornam-se cegos, manipulados e assumem uma forma de viver falsificada, acreditando que se tornam mais leves e aptos aos cadafalsos da vida somente porque descobriram o tal “Segredo”, e adianto, o único segredo que conheço permanece além do firmamento, na mácula penumbra que a ciência ainda não desvendou.
    Não tenho costume de discutir sobre isso. Antes, confesso, adentrava nesses debates munida de argumentos e alegria, hoje, sinto dizer, me cansei; não vejo esperança de alertar aos necessitados de abrigo falso que estão perdendo tempo. No mais, posso ser a errada ao pensar diferente de tantos, mas acredito que não me encaixe nesse grupo imenso de medrosos que buscam qualquer dúzia de palavras com toque de espiritualidade e bem-estar para vender milhões de livros que serviriam para limpar a caixinha do meu cachorro. =)

  7. Adorei :) Nunca fui muito fã de auto-ajuda. Existem livros que não são desse gênero e são bens inspiradores.

  8. Também não sou muito fã de auto-ajuda, afinal a vida não vem com manual de instrução. Sobre os livros que você indicou, Veríssimo e Martha me ganham de cara, não preciso nem saber o título do livro rs.
    Beijos!

  9. Nina, comprei este livro da Martha há poucas semanas, e posso dizer, sem dúvida alguma, que foi uma das minhas melhores aquisições do ano. Super aprovado! Ela já é uma das minhas autoras brasileiras favoritas – se não A favorita.
    Não li este do Veríssimo, mas sendo ele o gênio que é, aposto que é uma ótima escolha.
    Ainda aguardo pelo dia em que finalmente lerei “Feliz Ano Velho”.

    Beijos!

  10. Nina, suas dicas são sempre valiosas. Também suas resenhas. Este é o meu blog oficial quando quero obter uma dica de leitura.

    Beijos.

  11. Adorei as dicas, Nina! Nunca havia pensado sob essa perspectiva. Eu também tenho um pouco de preconceito com livros de auto-ajuda mas mais por eu ter lido alguns na adolescência e ter achado tudo uma grande baboseira. E concordo que a pessoa não deva se limitar a esse tipo de leitura, que é o que geralmente acontece pra quem curte o gênero. Enfim, o blog tá lindo, como sempre! ;)

    Beijos

  12. Achei lindo o novo layout. melhor que o outro, eu me perdia um pouco aqui haha. Unico livro que eu li de auto-ajuda que eu gostei foi A úitlima grande lição, do Mitch Albom, e eu acho que gostei tanto porque até entao só descobri que era de auto-ajuda quando já estava no fim dele, porque tem toda uma história – que me cativou – e nao é daqueles tipos que ficam pregando as coisas a fazer.

  13. Moça, te indiquei pra um meme no meu blog, você que parece ser super fã de livros vai gostar, é uma campanha de isentivo a leitura. Passa lá pra conferir.
    Beijão s2

  14. Gostei muito do seu layout Nina.

    Muito bacana seu post, não leio livros de auto-ajuda, dos poucos que li de curiosidade não gostei muito, eu os acho muito mecânicos, e na vida não há como ser uma máquina e seguir tudo o que eles dizem, há tantos sentimentos.

    Um beijo para você, e um muito obrigada por suas visitas em meu blog.

  15. Eu queria poder dizer que alguns auto-ajudas são bons no meio de vários que não valem nada, porém: nunca li um bom. Abandonei todos que já tentei ler. E, confesso, desanimei um pouco com a leitura, porque estava deixando de ler gibis e novelas infanto-juvenis para ir pra livros mais “sérios”, até que encontrei algo além dos auto-ajudas na biblioteca da minha escola.
    BENDITO MOMENTO.

  16. Traduziu em algumas linhas o que penso sobre livros de auto-ajuda. A incoerência deles já está no próprio título da categoria. “Auto-ajuda”, é pra quem vai SE ajudar, sem ajuda de outra pessoa, sendo assim, você teria de escrever um livro pra se ajudar, não? Ou então a ajuda só serve pra quem escreveu aquele livro, na minha lógica. Passo longe dessas estantes carregadas de dicas fixas que são exaustivamente repetidas ://
    Sou super a favor da ficção, crônicas e praticamente tudo que não seja auto-ajuda para alguém que precisa. Distração e incentivar os sonhos é o que muita gente precisa, não alguém falando que tem a fórmula pra vc ser feliz.

    Ótimo post novamente! :D

    Beijos

  17. Ótimo texto, Nina. Gostei muito. Acredito que toda leitura seja válida: desde que ela seja uma opção, e não a falta de…
    Você nos deu muitas opções. Valeu!!
    ;)

  18. Gostei dessa citação “A minha editora não vende auto-ajuda, mas a ‘ajuda do alto’.”

    Confesso que já li muito auto-ajuda e que meu genero preferido é chicklit. Os da Sophie Kinsella, “Diário de Bridget Jones”, a série das Calças Viajantes… gosto mesmo!

    Gostei das sugestões, vou me lembrar de recorrer a posts como esse quando estiver em dúvida…

  19. Por um bom tempo, só li autoajuda praticamente. Isso porque era tudo o que ganhava: pilhas e pilhas de livros de autoajuda. Me consideravam uma guria muito… perdida, por sinal, hahaha! Graças a Deus que encontrei meu amor pela leitura em meio aos livros do meu irmão. Wuthering Heights ♥ Foi amor instantâneo.
    Considero autoajuda e Nicholas Sparks com o mesmo efeito: mimimi sentimental metido a psicológico.
    Agora, ajuda do alto é um termo bonito. Eu gostei. Apesar de ainda achar que a melhor “ajuda” se encontra em meio a escritos reflexivos e nada cansativos, como o que se pode encontrar em A insustentável leveza do ser – meu livro de cabeceira.
    Beijos!

  20. Livros de auto-ajuda algumas vezes caem bem, desde que a pessoa não vicie no tipo de leitura. Há uma infinidade de outros tipos livros que trazem ensinamentos e nos mostram jeitos de vencer barreiras sem que o autor esteja dando “dicas”. Ler apenas auto-ajuda é cilada, é o que penso.
    Agora essa dicas que você deu de livros de crônicas achei fantástica porque eles trazem uma leveza que acaba sendo uma ajuda para nós, seja para esquecer um pouco dos nossos problemas, seja para refletir sobre a questão que a gente está passando. Aliás, nada melhor do que ler algo sobre o que você está passando sob a perspectiva de outra pessoa, sendo que essa pessoa não esteja te dando conselhos o tempo todo ou uma lista de coisas a fazer para resolver o problema.
    Gostei das dicas, Nina, como sempre. Você e suas resenhas deliciosas!

    Seu layout está fofíssimo, amei!

    Beijos :)

  21. hahaha Concordo, todos os livros são uma inspiração, uma ajuda para quem os lê. Feliz por nada e Diálogos impossíveis estão na minha lista de leitura.

  22. Livros de auto ajuda são péssimos. Isso porque, se você for ver, quase todos falam a mesma coisa, e falam como se fosse tudo lindo e fácil e só dependesse de você, o que todos sabem que é verdade. Acho que tem livros que estão nos mais vendidos que são bons, pelo menos pra distração, mas outros como “Cinquenta Tons de Cinza” são mal escritos e até agora não entendi COMO tanta gente lê.

    http://www.dedilhar.com

  23. Eu só li uns dois livros de auto-ajuda, mas na internet eu leio vários textos jogados por aí de “PSEUDO-auto-ajuda” que eu acho que é ainda pior! Hahaha.
    Eu fiquei doida com esta imagem de uma máquina de escrever no seu blog :) Meu sonho é ter uma, só pra ficar olhando (e uma vez a cada mês escrever algo).

    Feliz natal e um ótimo ano novo! Beijos!

  24. Agora que li a sua crônica lembrei: recebi um livreto de auto-ajuda no meu aniversário,no ano passado. Quem disse que eu li? LOL
    Também não curto muito.

  25. Oi meu anjo, boas festas de fim de ano pra ti. Que 2013 lhe reserve experiências enriquecedoras. Porque o que te desejo é sempre muita felicidade. Beijo amiga!!

  26. gosto da forma como você sempre traz suas dicas…
    a autoajuda, acredito eu, não deve ser um gênero a ser extinguido do meio literário, mas apenas revisto. tanto pelos que leem, quanto pelos que escrevem.

    gostei muito das dicas, vou procurar saber mais sobre os títulos!

    um bom final de ano pra você, que eu tenho certeza que trabalhará bastante! :)

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