Um quê

Demorei muito para perceber que Haruki Murakami possui um currículo invejável em nosso paralelo universo literário (e me puni merecidamente por não ter feito essa descoberta antes). Tudo que ele precisou saber da vida, aprendeu em seu bar de jazz – o dito cujo fora uma transição agradável entre o término de sua formação em dramaturgia clássica e as publicações de suas duas primeiras obras. A literatura de Murakami é essencialmente jovem e adequada à nossa geração: mistura alta literatura com cultura popular; apesar do Japão ser um cenário frequente, o conjunto da obra é cosmopolita; há uma musicalidade ímpar servindo de influência para sua escrita; os universos paralelos são necessários; e o melhor de tudo: quase sempre uma narrativa masculina erotiza as mulheres murakamianas: extremamente distantes, naturalmente sensuais. Eu queria ser musa desse cara.
Capa da edição brasileira de Minha Querida Sputnik, do Haruki Murakami. Editora Alfaguara.Mas é óbvio que eu desconhecia tudo isso. Minha Querida Sputnik era um título bacana em uma capa divertida para uma das editoras que mais me agradam atualmente. E a história tratava de uma jovem que queria ser Jack Kerouac, escrevia loucamente, possuía um melhor amigo e apaixonava-se por uma mulher. No meio da obra, temos aquela ruptura que dá sentido à narrativa e quase tudo se encerra em um dos melhores trechos da literatura com os quais já me deparei. Certo? Certíssimo!
O impulso que me fez conhecer Murakami foi muito simples: ele concorreu ao Nobel de Literatura em 2012, era favorito a receber o prêmio. Naturalmente, não ganhou. Como sempre, o vencedor é aquele que nós, brasileiros, desconhecemos e nunca foi traduzido para o nosso humilde idioma. E favoritos a Nobel raramente são bem vistos (por aqueles que julgam o futuro Nobel, é claro).
E este é o fim de minha primeira leitura acerca de Murakami. O que eu não queria era encarar subitamente o primeiro volume de 1Q84 (pronuncia-se “um quê oitenta e quatro”, editora Alfaguara, 430 páginas), que, na época estava para ser publicado ainda, traduzido diretamente do japonês (Lica Hashimoto foi responsável por este feito) e alcançando o status de “livro mais esperado do ano”.
E foi assim mesmo. Depois da decepção Cinquenta Tons de Cinza, Murakami veio como uma grata surpresa. Salvou a literatura em 2012.

Detalhe da folha de rosto de 1Q84, pela editora Alfaguara.

Capa de 1Q84 - Livro 1, de Haruki Murakami. Editora Alfaguara.1Q84 – Livro 1, passa-se entre abril e junho do ano de 1984 (qualquer semelhança com George Orwell não é mera coincidência. Afinal, como já deixei claro acima, Murakami inspira-se em grandes escritores). A obra narra duas histórias separadas que – como é de se esperar nesses casos, irão colidir em algum ponto do livro. Existem dois personagens centrais: Tengo e Aomame. O primeiro capítulo, narrado em terceira pessoa, começa com a vida de Aomame. Ela está dentro de um táxi, em pleno congestionamento. Mas há um lado positivo nesse desconforto: ouvir a bela Sinfonietta, de Leos Janáček.

Essa música é o ponto de partida para um sucessão de fatos surreais na vida de Aomame. Ouvir música clássica dentro de um táxi é muito pouco comum. E Aomame está com pressa – ela não pode se atrasar para um serviço específico, no qual não pode ser substituída. Aomame é uma jovem e bela assassina. E só mata quem merece morrer: homens bem-sucedidos que abusam de suas esposas. Logo, pontualidade e precisão devem ser o seu forte. Mas o trânsito estava péssimo naquele dia.
O motorista do táxi resolve presenteá-la com um conselho: no acostamento, existe uma escada de emergência que a deixará próxima da estação de metrô – onde ela poderá tomar o rumo que preferir. Aomame decide seguir o conselho dele, porém é confrontada com outro. O motorista lhe diz: “as coisas não são o que aparentam ser (…), a realidade é sempre única”. Aomame não entende a razão desse conselho, e fica intrigada. Mas vai embora.
Tengo é um professor de matemática que sonha ser escritor. A vida dele se resume em dar aulas para estudantes do ensino fundamental e dormir com a mãe de um de seus alunos. Apesar de ser bastante perturbado pelas jovens que habitam o colégio no qual ele trabalha, Tengo prefere a companhia de mulheres mais maduras.
Tengo é amigo de Komatsu – o editor de uma revista literária e “temido” por muita gente. Ambos possuem um problema: uma garota de dezessete anos escreveu e inscreveu em um concurso literário uma obra estreante que poderá ser a nova promessa, um futuro best-seller. O problema é que o livro de Fukaeri (esse é o nome da garota), possui palavras desconexas e precisa ser lapidado. Komatsu sugere que Tengo reescreva a obra da adolescente para relançar na segunda etapa do concurso. Tengo, que ainda não conhece a autora, é contra esse ato criminoso, que representará perigo, caso o livro vença o concurso. É interessante o trecho em que Komatsu descreve o “real” universo literário atual:

“A maior parte das pessoas é incapaz de discernir se uma obra de arte é boa ou não, mas elas não vão querer ficar para trás. Por isso, se um livro premiado tiver repercussão, elas vão comprar e ler. Se a autora é uma autêntica garota do colegial, aí é que as pessoas vão comprar mesmo. Se comprarem o livro, ganharemos um bom dinheiro.
(…)
O que eu realmente quero é ridicularizar esses círculos literários. Quero rir dessa gente que, como vermes, se metem nos porões mal-iluminados e que, enquanto se elogiam, lambem as feridas e puxam o tapete um do outro, ficam aí dizendo bravatas de que a missão da literatura é isso e aquilo. Quero mexer nos bastidores desse sistema, expor essa babaquice. Não é divertido?
(…)
Fazer trabalhos em coautoria não é nenhuma novidade (…). Metade dessas revistas em quadrinhos faz isso. A equipe dá as ideias e escreve as histórias, o desenhista faz um esboço a lápis e, em seguida, o assistente desenha os detalhes e os pinta. É como essas fábricas de relógio espalhadas por aí. No mundo dos romances, também temos exemplos desse tipo. É o caso desses romances água com açúcar. Muitos deles são feitos por autores contratados pela editora para escrever histórias que seguem um know-how previamente estabelecido pelos editores. Ou seja, é um sistema de divisão de trabalho. É assim que conseguem alimentar a produção em massa. Mas o fato é que, no mundo petrificado da literatura pura, não se aceita abertamente esse tipo de sistema.”

Ao longo dos dias, Aomame percebe muitas mudanças ao seu redor. A primeira delas é o uniforme dos policiais: ficou mais informal, ao mesmo tempo que as armas que eles portam parecem mais perigosas. E ela enxerga duas luas no céu: um fato estranho que ninguém parece se importar – mas que ela também não arrisca confrontar os outros com a sua visão, temendo parecer louca. E há notícias importantes que ela parece ter “perdido” nos últimos dois anos, apesar de ser adepta a leitura dos jornais todos os dias. É Aomame quem nomeia esse lugar paralelo que não parece o ano de 1984, e passa a chamá-lo de 1Q84 (a letra “q” e o número nove, no Japão, possuem a mesma pronúncia). Tengo conhece Fukaeri, uma menina linda, que fala pouco e faz perguntas que não terminam em interrogação. Ali, uma confiança nasce. E desencadeará numa paixão tímida.
Aos poucos, o passado de Tengo e Aomame vão sendo revelados ao leitor: basicamente, os domingos não eram benéficos para ambos. Tengo era filho de um cobrador de TV a cabo. Ele e o pai batiam de porta em porta aos domingos para cobrar a mensalidade dos devedores. O pai de Tengo acreditava que uma criança ao seu lado sensibilizaria as famílias que tinham o hábito de não pagar. E Tengo possuía uma visão única de sua mãe ausente: que os bicos dos seios dela eram mordiscados por um desconhecido – Tengo observava toda a cena, ainda bêbê. Não sabemos se essa é uma visão ilusória ou um sonho ao qual Tengo se dispôs.
Aomame vem de uma família Testemunha de Jeová. Nos domingos, a garota também batia de porta em porta, com sua mãe ao lado, para evangelizar as famílias “pecadoras”. Aomame não gostava de sua criação com base nessa religião. A garota passou por dificuldades imensas em sua infância. Aos dez anos, anunciou que iria embora de casa.

“Não considero as Testemunhas de Jeová uma religião séria. Se você sofresse um ferimento grave ou ficasse doente e precisasse ser operada, possivelmente teria morrido. Uma religião que não permite uma cirurgia necessária para salvar vidas, só porque vai contra a interpretação literal das palavras escritas na Bíblia, não passa de um culto; de um culto que abusa do poder para extrapolar os limites doutrinários.
(…)
Rejeitar a transfusão de sangue é a primeira lição que as Testemunhas de Jeová ensinam às crianças. Elas aprendem que serão muito mais felizes morrendo com o coração e a alma puros, para serem conduzidas ao paraíso, do que fazendo a transfusão, desobedecendo às palavras de Deus e descendo ao inferno. Não existe meio-termo. Só há dois caminhos a seguir: inferno ou paraíso. As crianças não possuem a capacidade de julgar e, portanto, não podem discernir se esse tipo de raciocínio é social e cientificamente aceito como verdade. Estão sujeitas a acreditar em tudo o que os pais ensinam.”

A orfandade é apenas um dos elos. Naturalmente, Aomame é uma assassina contratada. Uma senhora muito rica é a sua chefe. Essa senhora cuida de mulheres que foram abusadas ou que são ameaçadas de alguma forma por seus esposos. Quando uma conversa não resolve a questão, Aomame entra em cena e executa o indivíduo. É interessante como essa “profissão” de Aomame mescla tão bem com sua vida pessoal. A jovem não consegue ter um relacionamento sério com o sexo oposto. Seu maior fetiche são os homens mais velhos que possuem um belo formato de cabeça (não perguntem). A vida dela muda significativamente quando uma policial divertida torna-se sua nova melhor amiga (a anterior suicidou-se, pois era frequentemente reprimida e agredida pelo marido – o que dá sentido à atual profissão de Aomame). Enquanto Tengo reescreve a obra de Fukaeri – e mantém com ela uma amizade confortadora para ambos, Aomame descobre que terá pela frente o seu serviço mais difícil: descobrir o que acontece em uma colônia onde meninas que ainda não menstruaram são abusadas sexualmente e de maneira aparentemente cruel. E essa colônia esconde-se sobre a proteção de uma religião. Detalhe para o fato de que Fukaeri já esteve lá.

O último capítulo do primeiro volume de 1Q84.

Esse livro surpreende em diversos aspectos. O leitor encontra-se em uma encruzilhada e, em se tratando da obra mais ambiciosa de Murakami, não sabemos os limites do real e do imaginário. O que levou Fukaeri a ser tão distante? Que fará Tengo com o sucesso literário da moça? E que decisão tomará Aomame: esquecer ou confrontar-se com o perigo?
O leitor estará diante de uma obra repleta de singularidades, embora característica do autor. A construção dos personagens merece total prestígio, sobretudo porque não há como adivinhar o passo seguinte dessa trindade. Uma aventura que instiga na dose correta, que trata de escolhas e possibilidades importantes e irreversíveis. Ainda virão dois volumes. E o desfecho tem um “quê” de longínquo.

Cronista AmadoraQuer apreciar outros trechos que selecionei dessa obra? Clique aqui.

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14 respostas em “Um quê

  1. Literatura japonesa assim como qualquer coisa relacionada à cultura desse país me fascina principalmente com as temáticas do Haruki, embora eu as conheça só de prefácios e comentários de internet, no entando, devo confessar o meu pequeno receio com relação a esta postagem uma vez que eu ainda não adquiri o meu livro, volto em breve, sedenta.

  2. Gostei muito da resenha!
    Ainda não tive a oportunidade de ler o livro, mas ele passou automaticamente para o primeiro da minha lista de desejos literários! Acho até que quando eu terminar voltarei para reler o post e ter uma visão mais crítica e conhecedora.
    Enquanto isso, deixarei registrado que, se o seu objetivo ao escrever esse texto foi fazer com que ficássemos morrendo de vontade de conhecer essa mente aparentemente brilhante de Murakami, deu bastante certo!

  3. Coincidentemente, tendo chegado ao ponto da Sinfonietta, de Leos Janáček, dei play, continuei a leitura de sua resenha e, ao terminar a música, foi quando também findou minha leitura aqui.

    Você sabe, me agrada imensamente a ficção científica, pela liberdade que se anuncia e é realizada – óbvio, quando há competentes criativos – e esta realidade alternativa não questionada pela personagem Aomame realiza a liberdade que eu falei. Não uma específica liberdade poética, mas liberdade fundamento que proporciona fala aos acontecimentos, não explicações aos mesmos, o que seria um absurdo cientificista.

    Será um nonsense (logo, todos sentidos possíveis) kerouac-ano?…

  4. Não vou ler a resenha do 1Q84 porque quero ler assim, do zero, com surpresas. Mas eu li o Sputnik e é o meu favorito – infelizmente dei de presente…
    Adoro, amo a parte quando a Sumire escreve todos os seus pensamentos. E depois, ao final, reclama do “ossinho vagabundo” que a faz potencialmente uma lésbica. Murakami tem um quê de sensibilidade fantástica que faz dos seus romances únicos.
    Amo ♥

  5. É um dos livros mais desejados por mim. Desde que li a sinopse que fiquei desesperada para ler. Sua resenha, com trechos, só me deixou com mais vontade de conhecer o livro do Murakami.

  6. Murakami está na minha lista de leituras futuras já há algum tempo. Na verdade, desde que algumas amigas de fora – os europeus sempre mais antenados em novidades literárias – indicaram entusiasticamente o 1Q84. Quero muito ler. Ainda mais depois desse post.

  7. Murakami é isso, uma junção de vários momentos que acabam por dialogar tão suavemente e ao mesmo tempo tão francamente com o leitor.

  8. Me senti extremamente instigada por sua resenha. Tanto, a ponto de já anunciar a minha mãe que escolhi como presente de aniversário 1Q84. Sou muito fã de animes e mangás, assim como da cultura contemporânea e milenar do oriente, mas confesso que nunca prestigiei uma obra literária de algum autor oriental. Acredito que Murakami me foi uma grande motivação para começar a conhecê-la melhor.

    Adorei a resenha, mesmo. Beijos .*

    http://alacazaam.blogspot.com.br/

  9. Vi uma lista com os melhores livros de 2012 da Super Interessante e foi um momento curioso descobrir que não li nenhum daqueles, alguns nem tinha ouvido falar. É nessas horas que percebo que muitas vezes os melhores livros não são os mais falados pelo marketing, vide os vários tons de cinza por aí. Esse livro quando vi já foi aquela coceira pra ler, e já é uma meta pra 2013 :)

    Abs!

  10. olha! um autor japonês! Ok! Gostei de tudo, será que entra pra minha humilde lista? Tô colando uma meta de livros bem fácil de alcançar, só para começar! ~.~
    Kiss e feliz ano todo para vc! Sim! Ano TODO!

  11. Pingback: Dois (por)quês | Sobre Fatalismos

  12. ontem comprei o ultimo livro dele para meu filho de 15 anos, porque estava curiosa para saber do que se trata de tanto que fala na televisão, e como não leio japones esperava que ele me fizesse um resumo.
    Ele pegou o livro e falou que achava melhor ler 1Q84 antes para entender melhor o surrealismo do autor.
    Eu me assustei e perguntei o que George Orwell tem com isso.
    Ele riu, realmente nossa comunicação está com problemas, ele fala em japones eu respondo em português e, resolvi pesquisar chegando aqui.
    Sua resenha é maravilhosa, a sinfonietta de fundo ficou perfeita e tenho que ler antes dele, pois justamente agora consegui que ele lesse um pouco sobre o cristianismo, não quero que nada atrapalhe.

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