Entre stabilos e moleskines que não estão dentro do meu avental

Esse mês, uma moça me perguntou via twitter como fazer para entrar numa livraria. Respondi que bastava amar e entregar o seu currículo no balcão de serviços da livraria que mais lhe aprouvesse. Se você faz faculdade de, sei lá, Psicologia, também é bacana. Por dois motivos. O primeiro é que sua formação faz parte do seu jeito de ser. Se você lida melhor com a área de Humanas, não tem sentido te colocar em Informática, por exemplo. Com exceção de casos em que a pessoa demonstre habilidade em outro campo. O segundo motivo é o mais óbvio de todos: você lidará com pessoas loucas. Literalmente. Então, se seu próximo objetivo de carreira é encarar um hospício, passe antes por uma livraria. Sério.
Já tratei do quanto as pessoas tendem a “glamorizar” a vida de livreiro. Do quanto muitos de vocês acham que nós lemos o dia inteiro durante o expediente. Que anotamos pedidos dos clientes com canetas Stabilo em cadernos Moleskine. Que fazemos um clube do livro ali, no meio do salão. Nada disso. Mas nada é tão divertido quanto tratar das loucuras de nossos clientes queridos.
De janeiro a março, minha livraria passa pelo processo dos livros didáticos e eu acredito que é aí que as melhores pérolas ocorrem (pais impacientes, um abraço!). Como a primeira que surgiu, vinda de uma adolescente:
– Moça, você tem ‘A Morte e a Morte SEVERINA de Quincas BORBA’?”
Ou o seguinte diálogo entre livreiro, mãe e filha, ocorrido no ano passado, com um de meus colegas de trabalho:
Menina pergunta: Moço, você tem “Piratas do Caribe”, de jorge Amado?
Livreiro responde, depois de muito pensar, contendo o riso: Tem certeza que o título é esse?
Mãe impaciente dispara: Pesquisa aí, moço. Por favor!
Livreiro pesquisa, nada encontra (óbvio) e resolve questionar novamente (só para sacanear): Então, o sistema não me indica nada. Você tem certeza absoluta desse título?
Menina responde: Claro que tenho! Eu até já baixei na internet esse livro!
Coisas assim. Mas, fora o período didático, também temos que aguentar alguns absurdos que envolve os mais vendidos. Alice atendeu, há cerca de um mês, uma senhora que estava procurando “um livro espírita, best-seller, escrito por Átila”. Alice colocou no sistema a categoria “espiritualismo” e “Átila” como autor, mas nada constava. Como boa livreira, minha colega levou a senhora até a mesa onde os livros espíritas ficam expostos. Nada. Em um último caso, Alice decidiu perguntar à pessoa do setor por um livro com aquelas características. Nenhum efeito. A cliente, ~consciente~, percebeu que estava tomando o tempo da livreira e disse: “tudo bem, minha filha, eu procuro depois, com calma. Mas poxa vida, é um livro tão conhecido!”.
Quinze minutos depois, retorna a senhora com um exemplar de Cinquenta Tons de Cinza na mão direita, exclamando: “é esse, moça! É esse livro aqui, olha!”.

Quark chora.

E hoje outra situação hilariante aconteceu (dessa vez comigo), claro. Eu estava no SAC, que fica próximo da nossa nova mesa de smartphones, fazendo uma encomenda no computador. O alarme da mesa tocou. Era um garoto que, sem querer, acabou tirando o celular do lugar. Tudo bem. Só que ele resolveu se virar para mim e, tentando despistar a gafe que cometera, perguntou:
– Moça, o que eu preciso para fazer o cartão de crédito daqui?
Olhei bem para ele e percebi que era um garoto mesmo.
– Você tem que idade?
– Catorze.
– Não pode. Só com vinte e um.
– O QUÊ?
– Só com vinte e um anos de idade.
– Que absurdo, hein?!
Ele foi embora, indignado, e eu fiquei me perguntando: onde é que se faz cartão de crédito nesse país para um adolescente de catorze anos de idade?

Tentarei fazer dessas pérolas uma publicação mensal, acho válido. Mas se você está procurando mais causos desse tipo, não deixe de visitar o Manual Prático de Bons Modos em Livrarias. Um espaço muito genial (e viciante), dedicado somente a isso.

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68 respostas em “Entre stabilos e moleskines que não estão dentro do meu avental

  1. Boa, Nina! Chorei de rir com a tia “espirituosa” que queria Cinquenta Tons de Cinza! hahahahhahahahaa

  2. Ah, Nina, não sei quantos currículos entreguei/enviei/cadastrei em livrarias. E jamais consegui trabalhar em nenhuma :(

  3. Rachei de rir com a senhora do livro espírita. Cara, deve ter cada coisa nesse trabalho! hahahaha
    Acho que vou me candidatar, daí já aprendo mais de Psicologia fazendo estudos de caso com os clientes. \o/

    Beijo!

  4. HAHAHAHAH todo mundo tem essa mania de achar que trabalhar em livraria, ou até mesmo nas locadoras de vídeo (quase extintas) é a coisa mais divertida, glamorosa e cultuada hehehe Sei bem como é isso. Mas o climinhado ambiente ajuda muito, e os clientes nem se fala. Eu morro de tanto rir com essas histórias. A da senhora atrás de um livro espírita… coitada hehehe Continua com suas pérolas que com certeza adoramos!

  5. Preciso dar o crédito da montagem acima ao Kleber, meu marido. Ele estava assistindo o seriado hoje mesmo, quando se deparou com essa cena e eu pedi para ele “printar” o negócio. Acabou combinando!

  6. Me identifiquei na parte de quem faz Psicologia ai hehehe
    Saraiva, é quase um estagio p/ mim rsrsrs

  7. Nina, sou eu a moça do twitter que tanto a perturbou! Eu ainda estou em processo de obsessão. Todas as vezes que eu piso na Livraria da Vila, observo e deduzo: nem todos eles ingressaram ali com experiência. Penso que o diferencial para a admissão, neste meu caso de não possuir faculdade em humanas e inexperiência com o trabalho de livrarias, será a incrementação que eu aderi na carta de apresentação, cuja já foi enviada (espero que não riem de mim, haha). Depois de anos absorvendo os detalhes, eu desejo sim trabalhar numa livraria, ora como eu anseio. Conheço os dissabores, claro. Estou indo atrás. Houve uma vez que eu pedi para um “livreiro” pesquisar pelo sistema desta mesma livraria se tinha o livro “Remembering Anne Frank”. Ele não sabia o que era Anne Frank e me dispus a explicar, um tanto encabulada. Deve ser o excesso de títulos subindo-lhe pela cabeça, hahaha. Minha sugestão é que crie um post intitulado: “Como se manter num emprego, numa livraria”. Enquanto não fica pronto, eu leio isso: http://queroserrita.blogspot.com.br/2007/04/quando-se-trabalha-em-uma-livraria.html

  8. Mas é uma profissão divertida! Haha
    Já fiz reunião com um cara que desenhava o tempo todo, e falava, e desenhava, quase morri, você quer que a pessoa tanto desenha, sem contar que você se sente ignorado, mas tudo bem, louco é o que mais tem.

  9. “Livro espírita do Átila” eu tenderia a achar que era alguma coisa do Átila Nunes. Mas pelo jeito a cliente estava mais preocupada com a carne do que com o espírito.

    “Morte severina de Quincas Borba” é um achado poético. Poderia ser o primeiro de uma série de mash-ups literários. “Triste fim de São Bernardo Quaresma”, “A paixão segundo G.H. de Araújo Jorge”, “Memórias póstumas de um sargento de milícias”, “Iracema, cravo e canela”, e por aí vai.

  10. Não sei DA ONDE as pessoas inventam esse esteriótipo de livreiro, porque a Saraiva aqui perto é minada de tigrada. Não, sério. Um ou outro se salvam. Mas além de serem BURROS, têm tanta educação quanto um ogro.

  11. Havia escrito um comentário ENORME e a internet resolveu que não salvaria. :/
    Mas preciso dizer: Adorei saber mais da vida de um livreiro viu?!

    E cá entre nós, imagina o susto da tal senhora ao descobrir o tamanho do espiritismo que ela procurou e encontrou hein?
    Sei lá, talvez este ‘tons de cinza’, na cabeça dela, estava relacionado com as cinzas da morte mesmo, depois de uma cremação. Daí o espiritismo depois. Vai saber né?! Cada doido com sua mania, dizem por aí.

    Beijão Nina.

  12. Imagino como deve ser divertido! Quando eu era mais nova, meus 15 ou 16 anos, meu sonho era trabalhar numa livraria, a cada dia deve ser uma novidade, né?

  13. hahaha meu Deus do céu mas essa é a melhor rotina do mundo! ver essa galera procurando livros inexistentes é #dematar! O melhor foi o do Átila-espírita-cinquenta tons de cinza! hahahaha, como lidar!?

    Eu adoraria trabalhar em uma Livraria, de verdade! Eu fiz jornalismo e agora estou fazendo letras… a rotina é muito puxada, Nina? O salário compensa? rs…Juro, trabalhar em uma livraria é uma das cem coisas que eu quero fazer antes de morrer!

    Beijoca

  14. HAHAHA, adorei ler. Deve ser mais engraçado vivendo isso! Mas a imaginação deu conta, rs. Aguardo ansiosamente pelos próximos diálogos!
    Beijo, Nina.

  15. Eu ri.
    Sempre imaginei que deve ser legal trabalhar em uma livraria por causa do ambiente, mas realmente dá muito louco.

    Bjs

  16. Eu imagino como deva ser a loucura. As pessoas são muito sem noção, não se informam direito e ficam buscando livros surreais, ou livros com autores impossíveis. A livraria é um ambiente muito bacana, mas realmente dá muita gente louca. Precisa ter tato e muita paciência para lidar com esse pessoal. Quando fui na Leitura lá de Recife, que fica no centro histórico, que é um negócio imenso, eu vi como a loucura existe num lugar. Estava abarrotado de gente, cada uma com o sei jeito peculiar, isso entre crianças e adultos.

    No mais não tenho essas ilusões de como os livreiros são. Mas admiro. É preciso amor e afinidade para viver nesse meio. E isso você tem de sobra.

    Daniele, em que período do dia você trabalha na Saraiva do Iguatemi? Só por curiosidade.

    Beijo.

  17. NOSSAAAAAAAAAAAAAAAAA, ADOREI O POST KKKKKKKKKKKKKKKKKKK É cada uma, né? Acho que em qualquer loja de CD’s, livros… tem esse tipo de gafe, né? Deve ser bem divertido!

    Tem post novinho no meu blog, acessa lá? <3

    Beijos e tenha um bom sábado!

  18. Eu gostaria de trabalhar em livraria, ou em algum sebo, mas teria de trabalhar aos finais de semana e feriados, e aí acho que não seria tão interessante pra mim.
    Sobre a moça do 50 Tons, acho que ela ficou sem graça, e fingiu que era esse o livro que ela procurava, escolhendo randomicamente. Ou não!
    Uma vez eu já pedi pra um moço da Saraiva me dizer qual era a música que estava tocando na parte de CDS, e o coitado teve até de ir lá olhar qual era o cd do aparelho. Pelo menos ele foi atencioso, e se eu quisesse comprar alguma coisa, teria escolhido o moço pra me ajudar.
    Beijos!

  19. Ótimos os seus diálogos. Não dá vontade de bater um romance russo na cabecinha do cliente de vez em quando não? Eu seria demitida na primeira semana, pois não consigo disfarçar reações. E pior, ia ficar indicando mil outros títulos antes de permitir que alguém levasse um best seller vampiresco ou similar.

  20. kkkkkkkkkkkkkkkkk muito divertido…Muito engraçada a confusão dos 50 tons de cinza kkk #Rimuito

  21. Nossa Nina! Trabalhei em uma livraria aqui em São Paulo (Livraria da Vila) e, lendo seu post, relembrei várias situações semelhantes. Realmente, as pessoas veem a profissão de livreiro com um glamour que não existe! Livreiros trabalham MUUUITO e, infelizmente, muitas vezes o salário não corresponde a quantidade de conhecimento e suor exigidos nesse ramo. Apesar de tudo, quando pedi a conta na livraria chorei bastante pois amava aquela loucura!

  22. Só acrescentando que eu me apaixonei pelo seu blog!
    Beijo!

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