Ossos do ofício

Existem livros que começam pelo meio: quando narrados em primeira pessoa, não há razão para que exista uma história anterior. Só o que vem depois importa e, para a literatura, os fins justificam os meios, as lacunas, todo um narrador que, por assim dizer, se trai.
Capa do livro "Cartas de um Escritor Solitário", de Sam Savage. Editora Planeta.Andrew Whittaker é uma dessas pessoas. Quando ele me pediu para prefaciar esta sua obra (Cartas de um Escritor Solitário, Sam Savage, editora Planeta, 223 páginas), eu já tinha uma vaga noção de que sua situação financeira não estava lá essas coisas. Sua revista literária, Sabonete, estava nos rumos da falência, permanecendo agora já extinta. E todos os inquilinos que alugaram casas e apartamentos pela Whittaker Company passaram a perna no pobre Andrew.
Era impressionante observá-lo aqui na casa da frente. Pois esta sou eu, uma mera vizinha. A mais silenciosa e doente do quarteirão. Fico sentada toda uma tarde na cadeira de balanço da varanda. E observo, vez ou outra com os meus binóculos. Vejam bem: não sou intrometida. Mas também já não suporto a televisão, nem tenho paciência para livros e revistas. O que acontece na vida dos outros é algo que posso acompanhar em tempo real, já que sinto-me tão idosa que não me vejo mais com a dita “vida própria”. Enfim. Foi assim que “conheci” Andrew: ele estava sentado em sua máquina de escrever, fingindo datilografar o romance impublicável (porque jamais escrito), exibindo-se para mim. Deixou cair as folhas, primeiro. Depois a própria máquina, pela janela. Vocês o saberão, pois este é um dos assuntos em uma das cartas que ele envia para Jolie, sua esposa.

“Agora escrevo para pessoas que mal conheço, e as cartas sem dúvida soltam faíscas, especialmente quando essas cartas me dão a oportunidade de ser desagradável e sarcástico com pessoas que não podem fazer nada a respeito. Acho que Baudelaire tinha razão: o baço é de fato um órgão criativo.”

Pois bem. Aqui estão reunidas a odisséia de um homem comum: tudo que Andrew nos deixou foram algumas poucas cartas xerocadas e outras tantas jamais enviadas. Cartas de negócios – nas quais ele cobra de seus inquilinos diversos aluguéis atrasados. Cartas nas quais ele faz questão de ameaçar com a lei; e salienta devidamente que certas reformas nos aposentos também dependem do inquilino. O pobre homem já chegou a ser acusado de ter-se deitado com a esposa de um desses loucos devedores. Um absurdo! Jolie, sua ex-esposa, uma fanfarrona que dorme com um escritor qualquer – inimigo seu (declarado), frequentemente suga a poupança que ela acha que Andrew lhe deve. Cartas para colaboradores interessados em publicar na Sabonete: ele tinha esse costume horroroso de recusar todos esses jovens, sob a alegação de que não estavam dentro do perfil que a revista necessitava. Andrew não queria reconhecer a sua falência.

“O fato de você não ser exatamente um escritor refinado trabalhava a seu favor; é como Hemingway talvez escrevesse se não tivesse cursado o colegial. Confesso que eu invejava sua energia crua, a autenticidade daquela voz, e imaginava como deveria ser divertido escrever assim. É com relutância que devolvo seu manuscrito.”

O ponto alto dessa história toda, no entanto, foi o affair que ele criou com uma jovem autora que, curiosamente, enviava-lhe fotos que serviriam de ilustração para seus poemas que ela ansiava por publicações na Sabonete. Andrew também era bastante difamado pela mídia: suas frases de efeito eram distorcidas, seu perfil, desfigurado. Isso fez com que, vez ou outra, o homem escrevesse à estes veículos, como se fosse outra pessoa, elogiando a si próprio (por favor, não o julguem, ele esteve em desespero, eram os ossos do ofício e as marcas da decadência). E como não adorar um homem que desejou promover o Festival Literário de seu ganha-pão, que ficou literalmente apenas no papel: rendeu cartas excelentes e elogiosas a artistas de todos os gêneros – e isto também está presente nesse volume que você tem em mãos, caro leitor.
Antes de Andrew partir, criamos um laço afetivo, momentâneo, breve – porém singular. Sua casa, enorme e vazia, guardava uma pasta volumosa, que continha essas cartas. Inclusive uma endereçada à minha pessoa, pedindo que eu as publicasse da forma em que estavam dispostas, acrescentando também que o prefácio ficaria por minha conta. Eis aqui. Esta é apenas a primeira edição do dito cujo, mas não duvido que este livro, de escrita tão engenhosa, absurda e de um ser humano maravilhosamente cínico, venha a tornar-se um best-seller, típico da lista dos mais vendidos, como Andrew sempre ansiou, presumo.

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4 respostas em “Ossos do ofício

  1. Nina! eu amo todas as suas indicações e posts! você realmente é muito inteligente!
    quero ler este! lelusantos.wordpress.com

  2. Que ideia legal!
    Prefaciar para um personagem é algo hiper interessante e bem… antes de ver que era uma crônica eu levei um tempo para entender que era de um personagem para um personagem, rsrs :)
    Muito xique ^^

    Bjos

  3. Adorei o prefácio, no início eu também não estava compreendendo, mas depois que percebi, fiquei admirada com sua criatividade. Parabéns, você escreve muito bem mesmo.

    Beijos.

  4. Nossa, muito bom!
    Demorei alguns segundos para entender, mas achei sensacional!
    Você foi muito criativa em escrever dessa forma!
    Só não fico mais admirada pois já estou acostumada com textos tão bons assim por aqui!

    Beijinhos :*

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