Sereníssima

(Não é um livro escrito pela Vera Fischer).

Boa narrativa, excelente história, criatividade, originalidade, personagens bem construídos, desenvolvimento do enredo e afins não são as características que fazem com que um livro seja marcante para a minha vida. Esses atributos são minimamente essenciais para que o livro valha à pena sua leitura, a posição de destaque que ele confere em uma mesa de livraria, o privilégio de ser uma obra bem recebida por público e crítica. Isso é o que faz um bom livro ser um bom livro. Mas um bom livro para mim é quando suas personagens são aquelas com as quais eu me identifico.
Mas existem exceções. Madeleine Hanna, por exemplo. Eu já falei dela anteriormente. A mocinha recém-saida da faculdade que ama literatura e sofre uma narrativa típica de Jane Austen em A Trama do Casamento foi uma personagem com a qual me identifiquei, mas aquela não é uma das obras que deixarão momentos inesquecíveis entre tantos outros livros que li, porque o ponto alto de Jeffrey Eugenides sempre será a sua estreia em As Virgens Suicidas.
Capa da edição brasileira do livro Serena, de Ian McEwan.Serena Frome (a pronúncia é Frum, como ela faz questão de frisar), é a jovem de vinte e três anos que toda jovem de vinte anos gostaria de ser (ou ter sido). Portadora de uma beleza que provocaria inveja aos reles mortais (e desperta olhares masculinos), ela começa a narrativa do livro que leva o seu nome (Serena, Ian McEwan, Companhia das Letras, 382 páginas) apresentando-se sem delongas, numa forma abrupta e até egocêntrica. A Serena que narra a história já é uma senhora idosa que retoma quarenta anos antes para tratar do divisor de águas da sua vida, ou o que ela se tornou que fez com que sua rotina mudasse completamente. É um daqueles causos do tipo “minha vida nunca mais foi a mesma depois de”.
(É importante frisar que essa ideia, na literatura de McEwan, não é uma novidade: o único livro que li para além de Serena foi Reparação – sua obra mais conhecida – na qual Briony, uma escritora de sucesso, volta aos tempos da Segunda Guerra para confessar como ela destruiu duas vidas que poderiam ter dado certo: a de sua irmã mais velha com o filho de uma das empregadas da casa onde ambas passaram a infância. A acusação de uma Briony infantil, porém ambiciosa, é a motivação do enredo. Algo que já tratei aqui.)
Serena não deseja perder tempo com sua infância, de modo que basta ao leitor saber que fora criada por um bispo anglicano e uma dona-de-casa com pretensões timidamente feministas. A garota também tem uma irmã que, ao longo dos anos, revelou-se uma rebelde da geração hippie, de modo que Serena não é a ovelha negra dessa família tipicamente inglesa.
Serena está na idade das decisões que implicarão no futuro de sua carreira e, apesar de ser apaixonada por literatura, assumindo-se voraz diante de autores como George Orwell (é aí que o leitor se identifica com a personagem), a mesma também é muito boa com números e, sob o argumento materno de que “muitas garotas cursam Letras, você pode fazer diferente, você pode fazer Matemática”, ela decide cursar em Cambridge a disciplina que, na década de 70, poucos esperam que uma mulher chegue a escolher.
Mas Serena não é feliz nessa decisão, tanto que percebe que Cambridge possui um nível altíssimo diante de seus conhecimentos em Matemática: a garota passa sem louvor ou méritos, mas descobriu pequenas diversões na universidade, tais como namorar muito, poder fazer parte de uma revista onde seu senso crítico literário passou a ser comentado em todo o campus – o equivalente a, hoje em dia, formar opinião através de um blog na internet. E ela tem um caso com um homem mais velho, Tony Canning: casado, inteligente e que parece estar treinando a garota para que a mesma faça parte do MI5 (sem que ela saiba muita coisa a respeito). À partir desse ponto, preciso deixar claro que a história narrada por Serena se passa no período em que a Guerra Fria está acontecendo, e atentados do IRA eram comuns na Londres que ela vivia.
Após o rompimento entre Serena e Tony, a garota fará parte do MI5 e não é uma história no estilo James Bond que começa. Apesar do perigo que isso implicaria, sua mãe (e o leitor) ficariam bastante felizes em saber que Serena é uma 007, mas ela começa apenas como uma reles secretária, com funções mínimas e até mesmo inofensivas – porém com uma identidade secreta que, na prática, não serve para muita coisa.
Mas logo a literatura da garota fala mais alto e ela é contratada para uma missão que depende do quão persuasiva deverá ser. Serena precisa convencer um jovem e desconhecido escritor a aceitar a bolsa de uma fundação, que promete responsabilizar-se pela divulgação de suas obras (a realidade é que o MI5 pretende lançar uma pessoa que, através de sua opinião, influencie as massas – porém eles não desejam interferir diretamente na escrita desse indivíduo). Parece o sonho de todo e qualquer autor estreante: apenas escrever incessantemente e não se preocupar com o dia de amanhã nesse mundo cão que pouco dá valor à literatura. Mas Tom Haley é o sortudo da vez e, não obstante, será seduzido por Serena, de modo que ambos viverão um romance repleto de fatos a esconder e intrigas produzidas pelo superior de Serena, que também é apaixonado por ela.

“Eu estava descobrindo que a experiência da leitura fica enviesada quando você conhece, ou está prestes a conhecer, o autor.”

Eu confesso que devo parar por aqui, pois o restante do suspense é o tipo de situação na qual o leitor adora participar, algo comum nos romances de espionagem: o imprevisível é o sabor da leitura, e McEwan trabalha genuinamente com enganos, expondo o leitor numa encruzilhada. Porém, apesar de minha pouquíssima experiência com romances policiais e/ou de espionagem (posso citar o nome de Agatha Christie e só), esse livro do McEwan não me surpreendeu – embora eu não possa dizer o mesmo de muita gente que leu e tantos outros que devem ter a oportunidade de ler (e espero que um pouco através do meu parecer). Mas Serena me permite algumas considerações bem-vindas:

a – O livro recorda Armadilha, filme de 1999 estrelado por Sean Connery e Catherine Zeta-Jones: dois atores de peso da sétima arte. Na película, a personagem de Catherine é uma agente de seguros que precisa desvendar o roubo de uma obra de arte, tendo como principal suspeito o personagem de Connery – um ladrão sessentão há anos especializado no ramo. Ela apresenta-se para Connery como admiradora e se oferece para ser sua aprendiz. Ele hesita, mas quer ver até onde isso pode dar, e aceita. Entre os dois, obviamente, surge um romance muito charmoso;
b – Ouvi rumores de que Serena tornar-se-á filme. Na realidade, a única fonte brasileira que o Google nos apresenta sobre isso é a Veja – ou seja, uma fonte pouco confiável. Até aí tudo bem. Mas começaram a dizer que Jennifer Lawrence (a protagonista de Jogos Vorazes) interpretará a espiã. Procurando mais um pouco, ao que parece não é nada disso. Lawrence fez um filme chamado Serena, que estreará ainda em 2013. Mas a sinopse é outra:

“George Pemberton (Bradley Cooper) e Serena Pemberton (Jennifer Lawrence) são um jovem casal, que decide partir de Boston à Carolina do Norte em 1929, no intuito de construir um império no ramo da madeira. Quando Serena descobre que não pode ter filhos, ela começa a manifestar sentimentos de vingança contra a mulher com quem George teve um filho ilegítimo antes de se casar. Suspeitando que George protege esta outra família, a intensa união entre ele e Serena começar a se destruir.” – Fonte: Adoro Cinema.

Ainda bem que ela não será a Serena do McEwan. Considero Lawrence uma atriz muito boa, embora só tenha assistido Jogos Vorazes (que gostei bastante, aliás). Mas a capa da edição brasileira de Serena me recorda outro rosto:

Capa Detalhe da ediçção brasileira de Serena e foto da atriz francesa Lea Seydoux.Conheci a atriz francesa Lea Seydoux através do filme A Bela Junie, no qual ela fez par romântico com Louis Garrel. Mas a jovem tornou-se conhecidíssima após sua participação como vilã inicial no último filme da franquia Missão Impossível. E, espionagem aqui e acolá, acredito que a moça tenha as características perfeitas para interpretar Serena.

Enfim, não é um livro marcante em minha vida, mas que merece ser lido e relido. Ian McEwan é um dos autores contemporâneos mais bem quistos numa literatura que une intelectualidade e entretenimento numa dosagem corretíssima e ainda é capaz de instigar o leitor. Serena complementa Reparação. Começando a lê-lo pelo seu livro mais importante ou pelo seu último romance, o leitor se sentirá acolhido da mesma forma.

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11 respostas em “Sereníssima

  1. Comprei esse livro há mais ou menos um mês na maior animação, até porque achei a capa lindíssima e isso pra mim sempre é uma coisa que conta. Mas aí algumas pessoas me disseram que não é uma boa forma de iniciar às escritas do autor, já que esse seria o meu primeiro Ian McEwan. Pior que o único Reparação que encontrei foi numa edição super feia que me recuso a comprar.
    Enfim, isso tudo pra dizer que depois do seu texto ganhei um gás novo pra iniciar a leitura. Acho que vou reservá-la como a próxima.
    Até mais.

  2. Ainda bem que você esclareceu bem no começo que não era um livro escrito pela Vera Fischer. Porque isso seria motivo pra ir embora e não voltar nunca mais. Ainda não li nenhum livro do Ian McEwan, mas tenho muita curiosidade por Reparação. Infelizmente vi o filme antes, mas só pelo filme dá para perceber que ele é mais do que um escritor do entretenimento.

  3. Sabe, personagens bem construídos ás vezes te prendem mais que a própria trama. Inclusive, tenho que admitir que a trama aí não me interessou. Talvez eu que seja chato – já que os temas que me interessam são meio restritos hoje em dia. Mas saber que o livro não é escrito pela Vera Fischer já fez subir no meu conceito. hahahaha

  4. Pensei que Vera Fischer tinha virado escritora… Ufa! Romances policiais ou de espionagem não costumam me interessar muito, mas por ser uma narradora que conta na velhice a própria juventude, fiquei um pouco interessada. Tive a impressão que Serena é uma dessas mulheres avassaladoras que deixa para o cinema a difícil tarefa de achar uma atriz compatível.
    http://sesobrarpapel.wordpress.com/

  5. Gente, sério: Vera Fischer é escritora e tem, pelo menos, uns três livros publicados. Dentre eles, um que se chama “Serena”, hahaha

  6. Gostei bastante da história, embora realmente lembre muito aquela trama meio batida já, mas às vezes tramas batidas conseguem nos surpreender… :)
    Assisti Reparação (ler não li, não sei se o faria…) porque achei o começo tão legal… mas começa a vir tanta desgraça, mas tanta desgraça que terminei o filme imensamente deprimida… rsrs. (confesso que assisti devido à Keira Knightely… mas…)
    Não sei se leria tampouco o da Vera Fisher…HAHA
    Ótima resenha!

    Abs!

  7. adoreeei! nossa não sabia deste livro! pelo o que você escreveu sobre ele, parece ser demais! lelusantos.wordpress.com

  8. Não tenho, acho, nenhuma experiência em romances com espionagem, mas acho interessante a ideia de ler algo sobre, e já tinha lido sobre Serena e me interessado, mas não muito. Acho que sua resenha me instigou mais. A atriz francesa poderia ser a garota da capa do livro não?! *O* E existe outro filme de do Cooper com a Jennifer?! D: Não sabia desse. Enfim, fica anotado a dica de livro, vai ser uma leitura futura, com certeza ><

    Beijos

  9. A escolha mais inteligente do texto foi esclarecer, logo no começo, que o livro não foi escrito pela Vera Fischer. Acho que um dos meus gêneros preferidos é romance policial, principalmente pela nível de envolvimento que ele provoca. Esse livro me chamou muita atenção!

    Seu blog é incrível, dei uma olhadinha geral e tenho certeza que vou me tornar leitora. Ah, sou a Julia do comentário gigantesco na postagem do Charles (argh!), para o qual você dedicou aplausos. Agradeço! Mas apenas estava fazendo minha obrigação como humana.

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