Inspirando correções, evitando equívocos

Nesta semana, um amigo da livraria compartilhou um texto em minha timeline do Facebook, sobre uma história batida que já conheço há tempos, ao que segue, na íntegra:

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Em ocasião de meus três (merecidos) dias de folga (Carnaval, né gente), decidimos ir à Ribeira tomar um sorvete e telefonamos para Alice, minha colega de trabalho e nossa amiga em comum. Curiosamente (ou não), o último assunto do qual tratamos, antes de Alice viajar, foi esse texto, completamente equivocado em seu conteúdo (mas compartilhado mais de onze mil vezes) e que só nos remete a uma constatação: a internet também é um meio comum para criticar sem conhecer.

Tirinha do gênio André Dahmer.

Não li a obra de Martel e muito menos a de Scliar. Ambas devem ser excelentes, embora não façam o meu tipo de literatura no momento. Yann Martel é um autor canadense que, após ter lido uma crítica negativa num jornal sobre a obra Max e os Felinos, decidiu pegar a ideia inicial do livro de Scliar para criar o seu A Vida de Pi, vencedor do Booker Prize de 2002. O fato de Martel ter ganho o Booker Prize foi apenas uma mera coincidência (assim como Scliar é um Imortal da Academia Brasileira de Letras) e, como explicou-me Alice, Martel e Scliar escreveram livros absolutamente diferentes, com objetivos dispares.
Em Max e os Felinos, publicado em 1981, o alemão Max sofre com a severidade do pai que lhe educou na base da insegurança e, após um envolvimento com a esposa de um militar,  precisa deixar o país, mas sofre um naufrágio e é obrigado a dividir o barco com um enorme jaguar que não lhe parece uma boa companhia. O livro é uma crítica a ditadura militar, trazendo a metáfora de como o homem sente-se preso em um determinado local, sendo forçado a cumprir regras que discordam de seus princípios e convivendo com pessoas que lhe inspiram medo. Max e os Felinos é, portanto, uma obra política.

Os livros de Scliar e Martel. Comparem também as capas.

Já em A Vida de Pi, Martel criou um naufrágio no qual um garoto indiano se vê obrigado a conviver com um tigre (e outros animais) dentro de um barco, mas o sentido dessa obra é completamente espiritualista, buscando convencer o leitor e os personagens do livro na busca da existência de Deus, ou mesmo em sua simples crença. Fora a ideia inicial de “garoto dentro de um barco, acompanhado de um tigre”, não existem outros trechos que se assemelham em ambas as obras.
Essa polêmica, vivida em 2002, encerrada em 2008 e reavivada agora em 2013, por ocasião do filme inspirado no livro de Martel – e sim! – indicado ao Oscar deste ano, só merece uma resposta, escrita pelo próprio Scliar (ele também gravou um vídeo sobre o assunto) e que serve de prefácio para a edição da L&PM de A Vida de Pi. No que seguem alguns trechos (mas você pode ler o texto na íntegra clicando aqui):

“O Destino ainda bate à porta, claro, mas nesta época de comunicações instantâneas prefere o telefone. Na tarde de 30 de outubro de 2002, voltando para casa cansado de uma viagem, recebi uma ligação. Era uma jornalista do jornal O Globo, dando-me uma notícia que, a princípio, não entendi bem: parece que um escritor tinha ganho, na Europa, um prêmio importante com um livro baseado em um texto meu.
Minha primeira reação foi de estranheza: um escritor, e do chamado Primeiro Mundo, copiando um autor brasileiro? Copiando a mim? Ela se ofereceu para me dar mais detalhes, o que foi feito em telefonemas seguintes, e assim aos poucos fui mergulhando no que se revelaria, nos dias seguintes, um verdadeiro torvelinho, uma experiência pela qual eu nunca havia passado.
(…)
Minha primeira reação não foi de contrariedade. Ao contrário, de alguma forma senti-me envaidecido por alguém ter se entusiasmado pela ideia tanto quanto eu próprio me entusiasmara. Mas havia, na notícia, um componente desagradável e estranho, tão estranho quanto desagradável. Yann Martel não tinha, segundo suas declarações, lido a novela. Tomara conhecimento dela através de uma resenha do escritor John Updike para o New York Times, resenha desfavorável, segundo ele.
Esta afirmativa me perturbou. Max and the Cats não chegou a ser um best-seller, mas os artigos sobre o livro, que me haviam sido enviados pela editora, eram favoráveis ― inclusive o do New York Times, assinado por Herbert Mitgang. Teria Updike escrito uma outra resenha ― para o mesmo jornal? Se era esse o caso, por que eu não a recebera? Será que os editores só mandavam resenhas favoráveis?
À afirmativa seguia-se um comentário de Martel. Uma pena, dizia ele, que uma ideia boa tivesse sido estragada por um escritor menor. Mas, em seguida, levantava uma outra hipótese: e se eu não fosse um escritor menor? E se Updike tivesse se enganado? De qualquer maneira a ideia principal do livro serviu-lhe de ponto de partida para sua obra The Life of Pi. E qual é essa ideia?
(…)
Incomodava-me a suposta resenha e também a maneira pela qual tomei conhecimento do livro. De fato, não fosse o prêmio, eu talvez nem ficasse sabendo da existência da obra. No lugar de Martel eu procuraria avisar o autor. Aliás, foi o que fiz, em outra circunstância. Meu livro A mulher que escreveu a Bíblia teve como ponto de partida uma hipótese levantada pelo famoso scholar norte-americano Harold Bloom segundo a qual uma parte do Antigo Testamento poderia ter sido escrita por uma mulher, à época do rei Salomão. Tratava-se, contudo, de um trabalho teórico. Mesmo assim, coloquei o trecho de Bloom como epígrafe do livro ― que enviei a ele (nunca respondeu ― nem sei se recebeu ―, mas eu cumpri minha obrigação). Martel agiu de maneira diferente. No prefácio, em que agradece a muitas pessoas, atribui a ‘fagulha da vida’ (…) que o motivou a mim. Mas não entra em detalhes, não fala em Max e os felinos.
(…)
Uma ideia é uma propriedade intelectual. Isto não significa que não possa ser partilhada. Pode, sim, e frequentemente o é. Um editor propõe um mesmo tema para vários autores e faz uma antologia com os trabalhos: nada demais nisso. Um autor não está prejudicando o outro. É diferente da situação de um produto qualquer que é copiado, o que implica prejuízo para o produtor original ― a pirataria. Usar a mesma ideia literária não chega a ser pirataria.
(…)
Literatura não é fonte de contentamento. Nem é coisa que possa ser feita pelo membro de um bloco. Ela é, essencialmente, um vício solitário. Isto não quer dizer que tenha de ser praticada numa isolada torre de marfim. A grande literatura inevitavelmente reflete o contexto social da época. Mas o faz como um sismógrafo, cuja agulha desloca-se como resposta a movimentos profundos. Espero que isso tenha acontecido, ao menos em parte, ao menos em pequena parte, com uma história chamada Max e os felinos. Todo o resto, francamente, não tem muita importância.”

O que eu soube – e de fontes muito confiáveis – como blogs literários (que não precisam fazer oba-oba para jornal, emissora, editora ou qualquer outro meio que envolva a literatura), foi que, muito provavelmente, Updike distorceu as palavras de Martel, sobre Scliar ser um “escritor menor” e, mesmo que Martel o tenha dito, a postura de Scliar foi bastante correta diante de todo o embaraço. Martel provavelmente era imaturo, mas soube reconhecer o erro que cometeu e hoje consta nas edições de A Vida de Pi no mundo inteiro uma dedicatória em agradecimento a Scliar, onde o autor está devidamente reconhecido por sua obra que trouxe inspiração ao livro de Martel.
Minhas considerações finais, por outro lado, desencadeiam na sorte de coisas que tudo isso gerou. Para começar, quem saberia da existência de Max e os Felinos caso Martel não tivesse se inspirado nele? O que seria da obra de Scliar sem o Booker Prize de Martel? Muitas vezes a literatura nos prega essas surpresas justamente para revelar duas obras impactantes em suas particularidades, unidas por uma ideia comum. De fato, não é considerado plágio a “cópia” de uma ideia. Muitos de vocês não sabem, mas às vezes um autor envia sua obra para as editoras e quando algum determinado editor se interessa pela história, mas não necessariamente pela escrita, propõe o enredo para um já consagrado autor, de modo que este se baseia numa história já existente para formular a sua. Pode não parecer o correto, mas é o que ocorre sem que percebamos. Além disso, “plágios” literários é o que mais acontece. Frequentemente somos surpreendidos por ideias repetidas em ocasião de algum best-seller (J. K. Rowling, por exemplo, consagrada pela série Harry Potter, bebeu na fonte de muitas outras obras por aí que inspiraram as aventuras de seu bruxo adolescente). O do momento é o Cinquenta Tons de Cinza, no que surgem variações como Cinquenta Tons de Prazer, do Sr. Darcy, de Vergonha, etc. Algumas dessas versões são paródias e outras tantas considero apenas como “pegar carona no sucesso dos outros”, mas tudo também dependerá de quem está disposto a ler esse tipo de coisa. Tem muita gente que reclama do “plágio de Martel contra Scliar”, mas lê mais do mesmo. O ápice desse absurdo foi quando atendi recentemente uma cliente que tratou desse assunto, mas segurava uma sacola repleta de livros “eróticos”, no mínimo cinco contendo histórias de mocinhas virgens apaixonando-se por milionários sadomasoquistas, isso porque ela tinha adorado Cinquenta Tons de Cinza. Pessoas com esse nível intelectual não possuem a menor capacidade de julgar um caso como o de Martel sem um estudo prévio.
Logo, esses 11 mil usuários que compartilharam aquela crítica, desconhecem tanto o caso quanto o indivíduo que a escreveu. E para tudo deve haver cautela, afinal de contas, o New York Times pode ser para os americanos o que a revista Veja é para a maioria dos brasileiros não-alienados: uma maravilhosa fonte de equívocos que procura deturpar a imagem de determinadas pessoas e/ou manifestações artísticas. Afinal de contas, pagar pau para literatura estrangeira de merda é fácil. A Veja pode desperdiçar quantas edições ela queira em prol de um best-seller sem o menor sentido, assim como um jornal americano pode não compreender a intenção de um autor brasileiro que tratou da política de seu país naquela obra. Tudo é relativo. O que precisamos é pesquisar mais para tratar de determinados assuntos com maior propriedade. E pesquisar bastante, em diversas fontes – inclusive aquelas menos conhecidas pela grande mídia. Foi-se o tempo em que jornais e revistas eram formadores de opinião. A internet está aí para isso: para que pensemos sozinhos, apurando o senso crítico. Façam suas próprias fontes, saibam do que estão falando e, o mais importante de tudo: não sejam facilmente impressionáveis, vocês podem muito mais que isso.

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15 respostas em “Inspirando correções, evitando equívocos

  1. Já está na hora de essa polêmica idiota acabar. E falo isso como alguém que tem Moacyr Scliar como um dos escritores favoritos. Sério, isso pra mim parece mais dor de cotovelo de quem não sabe escrever nem um bilhete de geladeira do que uma briga intelectual de dois escritores. Não li o livro do Martel e nem pretendo ler, não é um livro que me instigue. Mas li Max e os Felinos e gostei. Não sei porque logo uma característica desse livro foi acabar gerando tanta confusão. Esse nem é o melhor livro do Scliar. E mais parece um daqueles livros disfarçados. Uma história meio infantil pra mostrar uma ideologia por trás. E o é. Nisso está o valor dele. Daqui a alguns meses quando o filme inspirado no livro do Martel não estiver mais em evidência isso não será lembrado. Que acabe logo. E que acabe logo também esse reboliço chamado “Cinquenta tons de cinza”.

    Abraço!

  2. Sinceramente, não li nenhuma nem outra, porém, acho que há muito rebuliço desnecessário sobre esta polêmica. Scliar estava certo. Todo o resto, francamente, não tem importância. Acho que uma obra não desqualifica a outra, sendo que ambas oferecem uma mensagem diferente, como você mesma ponderou, apesar de utilizar-se uma mesma ideia. O próprio Martel reconheceu a inspiração. Acho bastante válida. Ele criou uma distinção, um objetivo traçado por rotas diferentes. O mérito, dos dois autores se encontra aí, na possibilidade de gerar reflexões diferentes captando uma ideia parecida.

    Beijo!!

  3. Concordo com você. Ultimamente tenho me espantado com o que as pessoas postam, curtem e compartilham no Facebook. Aquilo lá é um show de preconceito e ignorância. Em se tratando desse assunto, eu não sabia da existência dessa polêmica até ler seu post. Não sei exatamente qual foi a atitude de Martel, mas algo justo a ser feito nesses momentos de “inspiração”e fonte é citar o artista e lhe avisar de tal, exatamente como Scliar escreveu. Pessoas enchem a boca para criticar o que chamam de plágio, mas não param um minuto para pensar no que realmente é a arte, em especial a literatura. O que seria de Madame Bovary se Flaubert não tivesse se inspirado em seus conhecidos? O que seria de Harry Potter se Rowling não tivesse se inspirado em tantos outros escritores? Álvares de Azevedo se inspirava em Lord Byron e isso não faz de sua obra um plágio. A literatura é rica em intertextualidade.

  4. Onde que eu assino? Concordo muito com você, Nina. As pessoas precisam MESMO procurar saber melhor das coisas, antes de saírem acreditando em tudo o que leem. Gente, vamos brincar de pesquisar, né? Aff

  5. O último comentário foi o melhor: não sejam facilmente impressionáveis!
    Nina, você é boa demais, texto bacana de ler.

  6. Confesso que compartilhei aquele texto no Facebook depois de ler, mas deixei para as pessoas se manifestarem – e tudo o que obtive foi um amigo mandando gravuras de uma baleia saltando no meio do oceano.

  7. Assim como a maioria, eu honestamente não li nenhum desses títulos. Talvez meu tipo de literatura esteja escassa e as publicações mainstream não conquistem o interesse que eu deveria possuir.

    Não me focando no assunto, vou apenas elogiar outra vez sua linha de pensamento juntamente com a segurança que se propõe em elucidar quaisquer debates midiáticos. Essa sua investigação com provas anexas me fazem respeitá-la ainda mais. Não apenas pela escrita em ritmo de diálogo aberto, mas por fazer desse espaço uma referência para praticamente qualquer coisa.

    Não sou dos mais pretensiosos escritores desse planeta mas alegra-me efusivamente saber que seus olhos já fizeram uma maratona pelas atualizações do Teatro. Acho que é pra isso que escrevo: para me certificar de que as pessoas que elem são geniais em suas idéias e conseguem fazer muitas pessoas pensarem a respeito.

    Parabéns Nina.

  8. Nossa, não sabia mesmo dessa polêmica. Talvez porque a história de As Aventuras de Pi nunca tenha me atraído muito. A de Max e os Felinos me atraiu um pouco mais, por causa do contexto político, gosto de obras desse tipo.
    Concordo que as pessoas deveriam pensar antes de aceitar “informações” sem fonte, mas é muito mais fácil simplesmente acreditar em tudo que se lê no Facebook.

  9. Também desconheço as duas histórias e acho que as 11 mil pessoas que compartilharam também não devem ser leitores dos dois livros em questão (já que as histórias são diferentes).
    Adorei a tirinha do facebook! É bem assim, hehe.
    Te indiquei no meu blog =]
    Beijo!

  10. Acho que é a primeira vez que comento aqui e primeiramente gostaria de lhe parabenizar pelo texto super bem escrito (é raro encontrar textos assim hoje). Não li nenhuma das obras e recentemente assisti alguns vídeos no Youtube que mostravam a opinião de alguns leitores do Scliar a respeito do ”plágio”. Como não li nenhuma das obras não posso dizer que achei plágio, pois desconheço-as profundamente (só sei que é sobre um garoto que fica ”preso” em um barco com um tigre). Mas, pelo pouco que conheço, achei bastante parecidas. Beeeem parecidas. Beijo!

  11. Lendo isso eu só consegui terminar pensando que a internet também não é um lugar muito confiavel dependendo do que você está lendo e de onde, mas acho que pra uma boa informação mais de uma fonte é sempre necessário. Infelizmente, leitura não é o hobby principal de grande parte dos brasileiros, ou nada que gire em torno de cultura além da música, e pra muitos só a leitura superficial ou de uma fonte de “nome” bastam. Não li nenhum dos dois livros, e confesso não ter vontade de ver o filme de The Life of Pi, mas posso me enganar quando essa vontade aparecer e acabar lendo os dois livros.

    Infelizmente, muitas vezes a confusão gera mais atenção do que a proposta em si: a obra de um brasileiro sendo usada para um livro premiado e famoso. Independente de como tudo aconteceu, foi um artista novo que inspirou um artista de um país considerado “superior” em vários sentidos, incluindo literatura, por muitos e, pra mim, isso já é um orgulho absurdo. Além do que vai calar a boca de muita gente que acha que a literatura brasileira é rasa é inferior a de outros países.

  12. Excelente o seu texto sobre o assunto. Infelizmente a maioria dos brasileiros nem sequer sabem a diferença entre plágio x inspiração,achei ,muito digna a postura de Scliar sobre toda a polêmica e também Martel em fazer uma dedicatória no livro explicando sua inspiração, uma obra não anula a outra! Também gostei muito da última frase do seu texto: ‘não sejam facilmente impressionáveis’ , principalmente em redes sociais, é preciso saber muito bem a fonte!

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