Sádica interior

Capa do livro Cinquenta Tons do Sr. Darcy, de Emma Thomas.Prometi a mim mesma que não leria derivação alguma de Cinquenta Tons de Cinza por motivos de: meu tempo é precioso e mereço boa literatura. Mas a posição da Lua em Saturno e a transição de, sei lá, Vênus e Júpiter em meu signo convergiram em minha leitura no tal de Cinquenta Tons do Sr. Darcy (Emma Thomas, editora Bertrand Brasil, 304 páginas), uma paródia que mistura o livro de E. L. James com o mais famoso da Jane Austen. Mas é claro que não foi apenas na base da astrologia desconexa que decidi encarar essa paródia.
Para início de conversa, Orgulho e Preconceito é um livro que adoro, por inúmeros motivos: foi o marco da literatura inglesa, responsável por dar inteligência às personagens femininas do fim do século XVIII (até então, todas eram donzelas frágeis cujo único objetivo era serem protegidas por um macho alfa); acaba de completar duzentos anos de publicação, e continua atualíssimo (vocês sabiam que a série O Diário de Bridget Jones foi inspirada nesse livro?); é engraçado, é um livro para adolescentes, é uma comédia de costumes muito próxima daquilo que vivemos hoje e que chamamos de “primeiro amor” e, além disso tudo, a última versão cinematográfica inspirada nele me proporcionou o conhecimento de uma de minhas atrizes prediletas, aliás, o filme é lindo, a direção é maravilhosa, a trilha sonora é um conto-de-fadas e todo mundo que assistiu concorda que filmes de época nunca mais foram os mesmos depois dele. Pois bem.
Cinquenta Tons do Sr. Darcy une uma obra atual que eu detesto e um livro já antigo que eu amo. Como lidar? O que me fisgou verdadeiramente foi a biografia de orelha da autora:

“Emma Thomas é um codinome. Na verdade, um inglês mundialmente famoso escreveu este livro. Talvez tenha sido o David Beckham, vai ver foi alguém do Palácio de Buckingham ou um dos Rolling Stones (a julgar pelo nível de loucura, deve ser a última opção). Mas pode ter sido qualquer um. Não importa: alguém fugiu do manicômio e teve a ideia de unir Orgulho e Preconceito e Cinquenta Tons de Cinza. O resultado é Cinquenta Tons do Sr. Darcy, uma das maiores loucuras postas em papel.”

Detalhe da orelha do livro.

Todo mundo já conhece o enredo de Cinquenta Tons de Cinza, mas, para quem já ouviu falar, porém não sabe do que se trata Orgulho e Preconceito, eu explico: a família Bennet vive em Meryton (uma cidade fictícia, porém, próxima a Londres), eles são considerados a classe média de hoje e os membros são compostos pelo pai (um produtor rural), a mãe (uma dona de casa) e as cinco filhas, entre quinze e vinte e cinco anos de idade. Naquela época, se você fosse uma jovem que não tivesse irmão algum homem, teria de casar-se o mais rápido possível para não perder a casa de seus pais. No fim do século XVIII, início do XIX, mulher alguma podia herdar a propriedade paterna, com exceção de que se casassem. E, se o casamento fosse uma impossibilidade, os bens passariam para um primo distante, ou um tio. A Sra. Bennet se preocupa muito com este fim, e pretende casar suas meninas o quanto antes. Para sua sorte, chega em Meryton um cavalheiro rico, jovem e bonito, chamado Sr. Bingley, acompanhado de suas duas irmãs e seu melhor amigo: o misterioso, frio e arrogante (porém, também rico), Sr. Darcy.
Como em todo “livro adolescente”, uma festinha acontece e a família Bennet conhece Bingley e Darcy. O primeiro encanta-se por Jane – a mais velha e a mais bela das irmãs – e o segundo permanece distante dessa “muvuca” de convenção social, porque ele é dos meus e odeia festas. No meio do embalo, Darcy acaba proferindo uma ofensa contra Elizabeth – a segunda irmã mais velha, a mais chata, a que lê mais, a que nunca vai casar porque dinheiro não interessa; ou seja: a única pessoa sã nessa família (e protagonista da história) – e essa ofensa faz com que Elizabeth prometa detestar o Sr. Darcy pelo resto de sua existência. Olhando assim, parece um livro para menininhas, mas na realidade ele trata de busca por um sentimento verdadeiro, independência e até feminismo. Vale à pena conferir.
É esse enredo que a tal da Emma Thomas aproveita para criar a sua paródia. Porém, de uma maneira bem divertida e vulgar. No caso de Cinquenta Tons do Sr. Darcy, a Sra. Bennet é uma matrona que quer porque quer que suas filhas percam a virgindade com qualquer um. Ela está em seu quinto ou sexto casamento (o que, naquela época, era proibidíssimo) e fica alvoroçada quando descobre que um tal de Sr. Bingulin (isso mesmo: Bin-gu-lin) chegou na cidade acompanhado do, claro, Sr. Darcy.
Jane encanta as irmãs de Bingulin e é convidada a jantar na casa deles, aproveitando o ensejo para escrever uma matéria sobre a fortuna de Darcy, para uma espécie de correio feminino. É aí que Cinquenta Tons começa. Jane fica doente e dorme na casa de Bingulin. Elizabeth, preocupada, parte de sua casa para cuidar da irmã. Chegando lá, vendo o estado de Jane, percebe que terá de substituí-la e fazer a entrevista com Darcy. E uma relação de amor, ódio e muitas intenções sexuais desabrocha e se intensifica cada vez mais.
Mesmo para um grande fã de Jane Austen, como eu, é necessário que não se leve tão a sério essa paródia. Porque, afinal, é uma paródia que critica muito mais Cinquenta Tons de Cinza do que qualquer outra coisa. Em um determinado trecho, por exemplo, em uma discussão de Elizabeth com Darcy, ela solta o verbo:

“- Quem, eu lhe pergunto, quem, com 28 anos, controla uma companhia global multimilionária apenas atendendo ao telefone ocasionalmente e dizendo ‘fale com Peters’ e ‘pegue isso lá na terça-feira’? O que o senhor faz na prática? Além disso, que heterossexual tem músicas de Nelly Furtado no iPod, para não mencionar o fato de achá-las uma trilha sonora adequada para uma sessão de sexo sadomasoquista?”

Mas o convencido Sr. Darcy rebate:

“- Tenho de discordar, Srta. Bennet – comentou ele com frieza. – Eu sou, como bem sabe, extraordinariamente gostoso, o que torna perdoável toda e qualquer falha de meu personagem. Se um homem de meia-idade, careca, barrigudo e com sapatos feios continuasse a aparecer quando a senhorita menos espera, isso seria deveras assustador; mas quando eu o faço é ao mesmo tempo ardente e lisonjeiro.”

A obra mistura o passado e o presente, sem piedade alguma (o Sr. Collins de Orgulho e Preconceito, por exemplo, aparece como Phil Collins na paródia). Elizabeth não é tão inocente quanto Anastasia Steele, mas Darcy é um perfeito Christian Grey. Eu mesma confesso ter me surpreendido com a quantidade de semelhanças entre os livros, principalmente com seus personagens. E quem é fã de Cinquenta Tons de Cinza sentir-se-á até ofendido com “o armário azul de vassouras com todas as parafernálias realmente pervertidas” em lugar do tal “quarto vermelho da dor” e com a “sádica interior” de Elizabeth, substituindo a insuportável deusa interior de Anastasia:

“’Acho que ele é perigoso’, opinou seu subconsciente. ‘Fique bem longe dele.’
‘Meu Deus, você é tão frígida!’, exclamou sua sádica interior.
‘Será que alguém mais acha que ele talvez seja gay?’, interveio seu radar gay.”

A sádica interior de Elizabeth.

Porém, nem tudo são flores. A narrativa pode parecer maçante vez ou outra, embora tenha alguns pontos altos na trama (Lady Catherine de Bruços, aterrorizando a infância de Darcy, por exemplo, rende muito assunto). O que realmente me entristeceu foi a falta de respeito tanto de quem traduziu quanto de quem “revisou”. A obra pode até ser destinada para um público “que não se importa muito com erros ortográficos ou de digitação aqui e ali”, mas a Bertrand errou feio ao permitir que uma tal de Natalie V. Gerhardt traduzisse o livro. Vejam só:

Graves erros ortográficos.

E fecha aspas no início da frase ou “mais” de quantidade em lugar de “mas” (de porém, todavia, contudo) não são as únicas “problemáticas” da obra. Você também se depara com nomes de locais trocados, muita falta de atenção. Só não exponho o revisor do texto porque, juro para vocês – não consta o nome da figura. Se é que teve.
Enfim, este é um livro para que vocês se divirtam, mas não levem a sério. E acreditem: a escrita vale muito mais à pena do que Cinquenta Tons de Cinza!

Cinquenta Tons.

Cronista AmadoraQuer apreciar outros trechos que selecionei dessa obra? Clique aqui.

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14 respostas em “Sádica interior

  1. Eu não tenho ânimo pra ler livros assim costumeiramente, porém esse parece ser bem engraçado e deve ser legal pra passar o tempo quando não se tem absolutamente nada pra fazer num ônibus e se precisa de uma leitura escrachada apenas pra dar risadas mesmo e perceber como as coisas poderiam ser infinitamente piores, haha.
    Talvez eu leia, té porque estou curiosa com o que fizeram em cima de Orgulho e Preconceito.

  2. Eu não li esse livro e embora tenha o visto na livraria quando fui fazer minhas comprinhas do mês, não senti a mínima vontade em comprá-lo. Primeiro, acho que já perdi bastante do meu tempo lendo “50 tons de cinza” e “50 tons mais escuros” (que eu nem cheguei a terminar) e segundo, porque vi várias paródias sobre o livro que parecem ser piores que o próprio. Nem sei o que dizer direito, pra falar a verdade, rs.

    Hipérboles
    @hiperbolismos

  3. Não li nenhum dos dois livros. Assisti apenas o filme Orgulho e Preconceito e ainda quero ler o livro.
    Mas não quis perder tempo com 50 tons de cinzas, por causa das várias críticas que andei lendo por ai.
    Mas a resenha me pareceu ser uma sadica legal, mas não interessei para ler.
    Beijos

  4. Orgulho e Preconceito é um dos, se não O meu preferido.
    Não tive vontade nenhuma de ler a saga Cinquenta Tons, mas através da sua resenha, esta paródia me pareceu interessante. Principalmente pelas críticas à trilogia ‘erótica’ que tanta gente amou.

  5. Não cheguei a ler os 50 tons de cinza, mas amo Orgulho e Preconceito, e te digo, que nunca leria esse livro só pelo título. É muito óbvia a proposta e saber que tem esses erros absurdos é sinal de que nem a editora se deu o trabalho de preparar ele direito pro lançamento no Brasil. Ou seja, o óbvio se tornou mais óbvio ainda quando vimos que a intenção era somente dinheiro. Deu certo.

  6. Não acredito que estou com vontade de ler esse livro, Nina! Orgulho e Preconceito é um dos amorzinhos do meu coração, mas acho que essa intenção satírica permite que ele se misture com um livro da ~laia~ da Cinquenta Tons, né?
    Fiquei verdadeiramente curiosa, e acho que deve ser, no fundo, uma coisa bem engraçada.
    Beijos!

  7. Depois do pesadelo de 50 Tons esse foi até bom hein Nina? Ri muito com seus prints de instagram, acho que se arranjasse emprestado eu até leria, principalmente para tentar imaginar Matthew e Keira fazendo esses diálogos toscos! HUISDHIUDHSAUIDHUSIAHUDIHAUSH

  8. Eu não gosto de paródias no geral. Odeio com todas as forças todo mundo em pânico, sabe? Mas parece que meu amor por Orgulho e Preconceito e essa resenha me deixaram interessada, quem diria. Não li 50 tons de cinza e nem tenho vontade, acho que todas os blogs que vi esculachando esse livro fizeram uma lavagem cerebral em mim hahahahah

  9. Até a algum tempo atrás, eu, pessoa alienada que sou, não sabia dessa onda de parodiar grandes clássicos. Imagine a minha surpresa ao ver uma amiga lendo “Orgulho, preconceito e zumbis”? Embora a capa do livro fosse muito bacana, ela me disse que o conteúdo deixava muito a desejar, era quase ultrajante se comparado a obra original. Não posso negar que isso diminuiu completamente minha vontade de pagar para ver a qualidade da obra, e confesso, não me arriscaria com Cinquenta tons de Darcy, mesmo tendo essa mistura de títulos me causado uma boa gargalhada. Contudo, como você enfatizou, parece ser o tipo de livro debochado, o qual procuramos unica e exclusivamente por diversão e entretenimento sem grandes intenções. Já falei que te tenho suas resenhas como inspiração? ♥

    Beijos =*

  10. Esse me parece bem engraçado, fiquei interessada, embora não goste de paródias, nem de cinquenta tons de cinza. Confesso que fiquei muito mais interessada em ler orgulho e preconceito.

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