Cacife

 

Eu ainda estava lendo Cinquenta Tons de Cinza (e detestando), quando uma amiga do trabalho me enviou pelo facebook a vídeo resenha de uma tal de Tatiana, que eu nunca havia visto na vida e sequer ouvi falar. Dei play e me surpreendi bastante ao ver que todas as opiniões que formei ao longo da minha leitura sobre este livro estavam lá também. E assim começou a minha “descoberta tardia” pelos vlogs. Eu nunca tive muita paciência para vídeos. Vez ou outra assistia alguma coisa de PC Siqueira e Felipe Neto – aquelas reclamações ácidas que eu não levava a sério, mas fazem-me rir até hoje. E todo domingo, religiosamente, acompanho as atualizações dessa moça que se chama Tatiana Feltrin.
Paralelo a isso, muita gente me pergunta como eu consegui fazer deste espaço um sucesso. “Sucesso” é uma palavra estranha, pois parece algo instantâneo e ausente de esforço. Em primeiro lugar, o Sobre Fatalismos nunca foi um sucesso completo: já tenho o blog há quase cinco anos e só agora ele recebeu uma visibilidade maior pelo fato de eu ter deixado de ser uma adolescente romântica e imatura, oferecendo algo melhor para quem vem aqui à procura de conteúdo. Indico livros, vivo disso, esse ato paga as minhas contas, os meus outros livros, e o resto vocês já sabem.
Frequentemente me perguntam se eu estudo Letras ou sou formada em Jornalismo. Na realidade, saí do ensino médio nos idos de 2010 e, desde então, encarei um cargo de secretária (do qual não usufruí por muito tempo) e hoje estou na posição de livreira, trabalhando com o que gosto, aos trancos e barrancos do cotidiano. Logo, existem pessoas que passam por aqui semanalmente, acompanham este espaço, discordam e concordam com o meu senso crítico e, dessa forma, conferimos um diálogo.

O assunto do vídeo mais recente da Tatiana foi “quem tem ou não cacife para falar de literatura”. Ela já se deparou com muitas perguntas como “quem é você para falar do autor ‘x’” ou “quem você pensa que é para falar do livro ‘y’”. Eu também não conheço a Tatiana e acompanho o seu canal há muito pouco tempo. Mas sei que ela é professora de inglês, mora em São Paulo e possui uma biblioteca invejável, contra os meus pouco mais de sessenta livros na capenga improvisação de estante que tenho aqui na sala. Já discordei de algumas opiniões que ela tem, o seu estilo literário é muito diferente do meu. Em contrapartida, concordo com muita coisa que ela expõe com relação a obras e autores e leitores, inclusive – e essencialmente – com o vídeo acima.
A Tatiana é professora de língua estrangeira, eu sou livreira. Não me formei em Letras ou Jornalismo. De minha parte, pelo menos, não pretendo fazê-lo tão cedo, e acredito que a ideia já não passa pela cabeça dela (de fazer Jornalismo), que já tem uma vida estabilizada na profissão de ensino.
E, mesmo assim, na opinião de alguns de nossos leitores e seguidores, somos “capacitadas” para falar de literatura.
Recentemente li uma crônica da Gervason destinada àqueles que estão começando um blog literário e o tópico que me chamou a atenção foi sobre pessoas que desejam receber livros das editoras para formar uma biblioteca. No que segue:

“Não faça um blog literário porque você quer fazer uma biblioteca, faça porque você já tem uma: porque as editoras parecem distribuidoras de livros, as pessoas estão fazendo blogs para ganhá-los. Por isso as parcerias estão parecendo empregos e ao mesmo tempo, ‘sopão da meia noite’. É fácil perceber a diferença entre um blog que vive de ‘doações das editoras parceiras’ e um que tem um leitor de verdade que vive do que gosta de ler e tem um gosto literário definido. Sem contar que, quando você começa a fazer parte dos alvos das editoras, você se torna ‘só mais um blog que fala dos mesmos livros que todo mundo já está falando’. Seu tempo de vida útil será curto, sinto muito.”

Não minto que a minha biblioteca ultimamente têm sido constituída por obras que as editoras enviam, mas isso se deve ao fato de que, em minha infância e adolescência, sempre frequentei bibliotecas públicas, raramente ia a uma livraria, dependia dos meus pais que não costumavam gastar dinheiro com algo que era considerado supérfluo por eles. Nos corredores das bibliotecas de minha cidade, aprendi a ter Saramago como minha principal influência e escritor predileto, percebi que os ibero-americanos me confortam mais do que os nórdicos, adquiri meus gostos literários ali. E não porque li teoria, não porque pesquisei artigos e mil outras críticas sobre determinados autores, pois é como a Tatiana deixou claro: toda essa pesquisa é importante – e acrescento até que interessante para aprendermos e passarmos conhecimento – mas isso não é essencial.
A pessoa que eu acredito que tem cacife para falar de literatura é aquela que tem o seu gosto definido – mas sabe abrir a mente para outros estilos. Eu não gosto de ler um blog que trata apenas de livros para adolescentes, ou livros destinados ao público feminino. Precisamos saber um pouco de tudo, mesmo que esse “tudo” não atraía tanto os nossos olhares. Você pode ler apenas best-sellers e querer resenhar a obra de um Nobel em Literatura, tudo bem. O ruim é quando essa pessoa compara o Nobel ao best-seller que lhe é favorito, uma comparação que não cabe. Não existe um único parâmetro em nossas vidas. É absurdo dizer quem Morte Súbita é ruim porque difere de Harry Potter, sendo que ambos são obras singulares que pertencem a mesma autora. Darei dois exemplos simples com relação a isso: conheço uma garota portuguesa que adora quando falo de Saramago, embora na escola em que ela estuda, o autor seja obrigatório e, consequentemente, “chato” para os de sua idade (e até para alguns mais crescidos). Lembro-me de quando era criança, e Machado de Assis era “chato” porque obrigatório. Saramago, para Portugal, é o Machadão de lá. Mas tanto um quanto o outro, são essenciais para o leitor que queremos ser. Tudo bem se você gosta de Nicholas Sparks e derivações de Crepúsculo, mas me desculpe: eu nunca poderei confiar totalmente em sua opinião se (você tem mais de vinte anos e) a única experiência literária que você tem está nesses autores e em suas obras. Da mesma forma que nos encaminhamos para um segundo exemplo: quando falei de Cinquenta Tons lá no twitter, uma blogueira ~famosa~ escreveu algo como: “fala mal do livro, como se fosse obrigada a lê-lo, bitch, please”. Mas o que eu poderia fazer? Falar mal (ou bem) da obra, sem nunca ter lido? Como a maioria faz, inclusive ela mesma? Bitch, please.
Eu li Paulo Coelho e aprendi a não gostar, não tenho opinião sobre André Vianco por motivos de: nunca li e as histórias não me atraem. Sou leitora voraz de García Márquez e Vargas Llosa, mas também já sentei para ler as quatro obras principais de Stephenie Meyer. Vi muito mais filmes inspirados em livros do que suas obras correspondentes e resenho muitos livros para as editoras sem conhecer o autor e sua obra.
E claro: desconfio quem põe Cinquenta Tons de Cinza e adjacentes no céu. Se você questionar as últimas leituras das pessoas que o fazem, perceberá que essa é a pessoa que não tem o menor cacife para falar de literatura, pelo simples fato de que ela não conhece literatura. E não digo isso porque o meu ego inflado define que, para falar de livros, é necessário ler os clássicos, os modernistas, os russos e o caralho a quatro (me perdoem a expressão). Digo isso porque essa pessoa lê a Veja, lê o que está na boca do povo, lê o que o marketing de determinadas editoras promove. Lê o que “está na moda”, sendo que todos nós sabemos que nem sempre os modismos alheios são bons exemplos de alguma coisa. Essas pessoas apenas leem o que está diante de seus olhos, mas não possuem o interesse de procurar um autor nacional para além de Augusto Cury, ou o livro erótico de um autor russo do século passado. Essas pessoas, sinto muito, não merecem a minha confiança em termos literários, assim como jamais vão merecer minha opinião em culinária, porque eu não sei cozinhar, não faço ideia sequer de como fritar um ovo (desculpa, sociedade).
Na maioria das vezes, por interesse, pesquiso sobre determinados autores ou a repercussão de suas obras. Mas é claro que sei muito menos daquele que pode ser considerado um fã. Mas e daí? Sou menos capaz porque pedi um livro cuja história sequer conheço? Não posso resenhá-lo porque não o conheço suficiente? Gente, opinião qualquer um tem, senso crítico é outra história, é algo com o qual ninguém nasce pronto, apuramos com o tempo. Como eu saberia que Saramago era tão bom se eu não houvesse lido e escrito o que pensei ou senti a respeito? Como eu saberia que Crepúsculo é ruim só de ter visto os filmes?
É isso, o que define quem tem ou não cacife de quem pode falar de literatura vai muito de cada um. Você pode achar que eu e a Tatiana somos completas incapazes, e que Paulo Coelho tem razão quando diz que Ulysses é um dos maiores equívocos da literatura. Vai de você. Mas eu só espero sinceramente que a sua opinião – que é alheia – sirva de construção, e não para calar a voz do outro, não para inferiorizar o outro. E lembrando que opinião é exatamente isso: apenas uma opinião. Não é uma verdade absoluta, não é a chave para alguma crença, sequer a permissão ou não do que você deve ler.  Há leitores e leitores. E ainda bem que os temos.

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19 respostas em “Cacife

  1. “[…] Percebi que os ibero-americanos me confortam mais do que os nórdicos […]”

    É muito bom quando alguém consegue pôr em palavras um sentimento que se tem há anos, mas não se consegue traduzir em palavras. É isso – não alegram, compreendem, falam; simplesmente confortam.

    Obrigada.

  2. “A pessoa que eu acredito que tem cacife para falar de literatura é aquela que tem o seu gosto definido – mas sabe abrir a mente para outros estilos. ”

    Penso assim sabe? E nunca vi um texto com ideias tão bem colocadas e que batessem com as minhas, como este.
    Admiro você e a Tatiana, as sigo, as leio, porque sei dos seus gostos, me interesso por suas opiniões, mesmo que as vezes não bata com as minhas.
    Acho importante a gente se desprender de preconceitos que vieram das obrigatoriedades dos colégios. Até pouco tempo, eu ainda acreditava que os autores nacionais não valiam o meu interesse. Ledo engano! Estou cada vez mais apaixonada por autores e autoras brasileiros(as). Venho adquirido ao longo dos anos e anos de leitura, um senso crítico, mas nem por isso me vejo no direito de julgar livros sem os ter lido. Cinquenta Tons, é um exemplo. Não os li, porque não me atraiu em nada, mas respeito que gostou. Respeito, de longe. Não sei se tenho cacife pra falar de literatura tão bem quanto você e a Tatiana, mas defendo com unhas e dentes meus queridinhos, defendo e tento propagar o bem para toda a nação de amigos. Leiam clássicos, pelo amor de Deus.
    O mundo não se resume a Cinquenta Tons de sei lá o quê. Não se resume a vampiros e blábláblá;
    Gostei, confesso, de Crepúsculo. Na época eu gostei, achei legalzinho. Mas nunca colocarei no mesmo patamar que Orgulho e Preconceito. Jamais.
    Acho que tenho um cacifezinho pra falar. Um pouquinho, mas tenho.

    Um beijo Nina.
    Adorei suas colocações, e que se foda esse povo todo que acha que pode falar que vocês não são ninguém pra falar sobre literatura.

    Vocês tem, e MUITO.

  3. Eu sempre tive vontade de tornar meu blog literário, por pura paixão. Queria trocar ideias sobre aquilo que eu lia, deixar minhas opiniões para que outros lessem e daí discordassem ou concordassem. Tinha medo porque não me achava apta a falar de nada. Até que, de uns meses pra cá, passei a ter segurança e a investir mais. Não quero engrossar o caldo dos blogs loucos por parcerias (elas são úteis, claro, desde que você só aceite aquelas que publiquem livros que você realmente leria). E acho que são poucos. De 40 blogs literários que eu visito, acho que uns 10 falam de livros que eu gosto de ler, e falam com propriedade, sabe? Resenha não é só dizer que o livro é bom ou ruim, fazer um resuminho e marcar quantas estrelas ele vale pra mim. É algo mais pessoal, se não sabe, não faz. Mas elas continuam porque o mercado de muitas editoras querem isso: burburinho e elogios vazios sobre as suas publicações, porque é isso que vende. Números interessam mais que qualidade para eles. Não para mim.
    Não me importo se o meu ritmo de leitura é bem menor que o de vários. Até porque é fácil ler muitos livros bobocas em pouco tempo. Difícil é pegar um livro denso e acompanhar a sua leitura no ritmo que ele pede: devagar, com reflexões e pesquisas. Não precisa ser um clássico. Tem livros ditos best-seller que são tão clássicos quanto, também.
    Então pra mim quem tem cacife pra falar de Literatura é quem ama. Quem viaja em cada página e guarda cada trecho importante, associa trechos de livros diferentes, quem sabe criticar sem ser reclamona e sabe elogiar sem bajular. Pesos e medidas bem equilibrados.
    Para mim, você é uma dessas. Vale a pena sempre ler o seu blog e encontrar aqui reflexões como essa. Beijo!

    http://www.despindoestorias.com

  4. Muito interessante o vídeo da Tatiana e também esse post, ambos sobre esse assunto que gera tanta paixão: os livros. Acho impressionante como os blogs literários vêm se reproduzindo feito Gremlins molhados pela Internet. Acho que, em parte, isso tem a ver sim com a ganância pelas chamadas “parcerias”, que incentivam – na maioria das vezes, com raras e belas exceções – uma leitura rasa e descompromissada das obras.

    Gosto de ler resenhas ou opiniões de leitores apaixonados, com gosto literário parecido com o meu. Independente se são especialistas no assunto, professores de literatura ou simplesmente admiradores. Independente de ter recebido o livro da editora ou não.

  5. Oi Nina,

    Cheguei aqui justamente pelo blog da Tatiana, com quem acabei de conversar brevemente ontem. Faço minhas as suas palavras, pois essa coisa de cacife é realmente muito subjetivo. Acho que cada um faz o que quer e cabe ao outro gostar ou não, até promover um debate saudável, mas sem essa de calar vozes divergentes, como você disse.

    Por exemplo, sei que vão atirar pedra em mim quando eu publicar o que realmente penso sobre “Pé na estrada” esta semana. Vou pedir o escudo do Capitão América para me proteger! :-D

    Coincidência: este ano estou lendo James Joyce, para tentar encurtar a lista de clássicos que nunca li. Logo logo começo Ulisses…

    Parabéns pelos ótimos textos!

  6. Outro dia recebi um comentário em que uma garota me indicava para uma espécie de “joguinho” entre blogues. Resumindo a história, era preciso que quem quisesse participar desse algumas explicações sobre sua página. Ainda não decidi se responderei às questões ou não, mas foi aí que me peguei numa pergunta: pra quê serve o MEU blogue?

    Gosto bastante de falar de literatura, mas esse não é o único tema e, portanto, não se trata de um blogue literário. Falo bastante de literatura apenas porque esta é uma parte gigantesca da minha vida, mas Deusmelivre ter que ler livros enviados por editoras. A cada ano, a minha lista de livros a serem lidos é montada com muito esmero e preocupação em se ter um conjunto variado – entre clássicos e modernos, nacionais e estrangeiros, contos e romances. Admito que sou preconceituosa sim em relação a algumas obras e não conseguiria dedicar nenhum minuto a elas. Digamos que os trechos que vi por aí foram o suficiente.

    Leitura pra mim é algo que deve ser apreciado, saboreado e nunca forçado. É fácil ver um filme e dizer que não gostou, mas se arrastar até o final de um livro só pra chegar a essa conclusão é tarefa árdua. Às vezes chego a tal conclusão nas primeiras páginas e até me obrigo a ir até o fim, pois fico com “vergonha” (http://chegadelirismo.wordpress.com/2012/06/22/kafka-nao-te-considera/) de não acabar. Mas já outros, como Morte Súbita, que você citou, me convenceram rapidinho que não dava pra continuar. E não tem nada a ver com comparar a Harry Potter, tem a ver com ler e perceber que aquela não é a praia da J.K. Rowling. Ela é boa no que faz, que é livros infantojuvenis; mas a literatura adulta dela é vazia. Não tem aquele “tcham” que a gente espera. Ler essa nova fase dela me deixou bastante confusa sobre processo literário e me fez pensar em várias coisas, mas aqui eu explico melhor: https://chegadelirismo.wordpress.com/2013/03/05/razao-e-nostalgia-na-estante/

    A melhor posição é realmente a de LER pra CRITICAR e eu tento fazer o mesmo. Quando me perguntam se gosto de 50 Tons? Apenas digo que não perderei meu tempo com isso. Simplesmente porque, pelo que vi, não vale à pena. Não faço aquelas críticas loucas, mas sei bem que esse livro não pode ser comparado ao Morro dos Ventos Uivantes, como muita gente quis que fosse.

    Ah, vá lá… Falar de literatura não é fácil, mas não tem essa de que Flaninho pode e Sicraninho não pode. Quando saiu Barba Ensopada de Sangue, por exemplo, uns elogiaram como se fossem groupies, outros compararam a “western macarrão” (???). Quem tá certo, quem tá errado? Estou com você de que senso crítico é o elemento chave e depois…

    Pão ou pães é questão de opiniães – certo?

    Ok, sinto que exagerei aqui.
    Abraços e continue fazendo suas resenhas, pro bem ou pro mal.

  7. Eu acho que as pessoas deveriam ter menos preguiça e buscar compreender suas fontes. O que custa saber saber qual é a base que elas têm para escrever (ou fazer vídeos)? E aí, depois de conhecer a fonte (blogueiro, jornalista, whatever), cada um escolhe o que deve tomar para si ou ponderar – nunca confiar 100%, nem o contrário. Simples!

  8. Olá!
    Eu também não tenho muita paciência para assistir a vídeos, mas ultimamente tenho descoberto uns canais tão bacanas que é impossível não acompanhar. E concordo com seu texto. Acho superválido ler os “Crepúsculos” e “50 tons de cinza” da vida quando se é jovem, como uma forma de mergulhar no mundo da leitura e tomar gosto pela coisa. Ou até mesmo ler os best-sellers meia-boca às vezes, só para relaxar ou para variar o estilo. Mas realmente não dá para acreditar muito nas opiniões de pessoas com vinte e tantos que consideram livros modinha a melhor coisa já produzida.
    E quem tem cacife para falar de literatura então?
    Sua frase responde a essa pergunta perfeitamente:
    “A pessoa que eu acredito que tem cacife para falar de literatura é aquela que tem o seu gosto definido – mas sabe abrir a mente para outros estilos. ”
    beijo

  9. Eu sei cozinhar bem! Sou garoto prendado; tô pronto pra casar!
    Desculpa o tamanho. É que eu me empolgo(muito) quando o assunto é literatura.

    Deixando a brincadeira de lado(que tem seu fundo de verdade, rs!), eu penso que as pessoas andam muito pouco “preparadas” para falar de literatura com “autoridade”.
    Que opinião é opinião, isso é fato, mas a dificuldade das pessoas está em fundamenta-las em uma base sólida de argumentação lógica e racional. E não quero dizer com isso que o emocional não conte, mas é como o Pablo Villaça, crítico de cinema, diz: a coisa fica muito mais bonita quando a gente consegue compreender um autor por completo.
    Ele costuma dizer que quando vemos um filme, normalmente enxergamos somente vinte por cento de tudo que os diretores e os artistas tentam nos passar. Prestamos atenção na história, nas atuações e pronto. Esse é o público médio de cinema.
    Penso que o mesmo cenário se repete na literatura. O leitor médio(com isso quero dizer, leitor comum, não leitor razoável), presta atenção na história, no fator surpresa, no dinamismo e pronto. Parte daí seu julgamento.
    Acontece que assim o julgamento fica muito raso e subjetivo, em termos mais concretos: pessoal demais. Ao invés de ser uma análise ou algo do gênero, vira uma simple opinião mesmo. Toda pautada nos sentimentos que o livro despertou e tudo mais. Mas penso que num livro(principalmente num livro bom), as coisas não acontecem por acaso. Não é por acaso que o autor decidiu usar um parágrafo pra colocar só uma frase. Não é por acaso que o autor decidiu ambientar uma cena em um lugar X, ou Y. Assim como não é por acaso que se escolhe o figurino de um filme, a iluminação de um filme, a fotografia. Tudo é essencialmente calculado, pois estamos falando da arte de contar histórias, e os mais míseros fatores são essenciais para que a emoção de uma história seja transmitida.
    Posso dar um exemplo, bem concreto aqui. Esse ano, li a tradução do texto integral de “Os Miseráveis” do Victor Hugo. Você que conhece a história do Jean ValJean há de concordar comigo que a trajetória dele é tanto quanto messiânica. No sentido de ele ser um santo, que, apesar de tentado, não cede aos mals caminhos, pois aprendera a não o fazer passando 19 anos nas galés. E por ser messiânica dessa maneira, nos dia atuais, poderia soar inverossímil. Eis o artifício do autor: constantemente, através de notas ao longo do texto, relembrar o leitor que se trata de uma história real. Fragmentos do tipo: Encontramos o relato do sonho na gaveta; ou: O que foi que ele fez nessa noite? Não sabemos, pois ninguém o viu.
    Ou seja, para que o apelo seja maior(e isso não é algo ruim, é muito bem trabalhado), o Victor Hugo utiliza desses artifícios. E eles funcionam! Isso que é o mais bonito. Você se apega aos personagens como se de fato um dias ele houvessem vivido da maneira exata a retratada no clássico. É lindo!
    Agora dois exemplos mais “fáceis”. O livro São Bernardo, do Graciliano Ramos. O Paulo Honório é homem de roça. Nem ler direito sabia. Entretanto, chuta os escrivães e vai escrever o livro por sí próprio. Entretanto, a maneira dele escrever, continua rebuscada demais para um homem da roça semi-analfabeto. Já o Apanhador no Campo de centeio, Salinger é mais coerente com a linguagem de um menino de 16 anos. Ou pra citar um brasileiro também, Guimarães Rosa em Grande Sertã: Veredas representa o Riobaldo com uma linguagem perfeitamente congruente ao tipo narrativo que o texto pretende representar.
    Enfim. Eu não queria ter feito isso, também nem precisava, na verdade. Mas é que não quero parecer soberbo – esse é sempre o meu maior medo -, e sim, somente tão empolgado que não consegue controlar a própria verve.
    Eu até esqueci aonde eu queria chegar…
    Ah, lembrei.
    Falta às pessoas que querem falar de arte, conhecimento sobre arte. Isso não é algo ruim. E nem estou dizendo que eu sou um grande conhecedor de arte, até porque eu não sou. Mas enfim. Estava conversando com essa garota esses dias e notei que o conceito dela de “boa literatura” era algo muito raso. Para ela, o que definia um texto bom ou ruim era a capacidade descritiva. Quando mais descritivo e detalhado, melhor o texto. Quando não é bem assim. Quando um texto direcionado à um leitor qualquer ficaria muito melhor e mais objetivo se as características do leitor fossem pouco descritas.
    Mas lá vou eu falar de objetividade quando nem sempre a objetividade é um fator determinante para a qualidade de um texto!…
    Eu não sei…
    Eu costumo dizer que as coisas são mais complicadas, que depois do fim da URSS, as coisas não se resumem mais à direita ou à esquerda, que elas são mais complexas e que reduzir tudo à esses rótulos besta é reduzir o próprio pensamento e ideologia ao nível mais baixo possível.
    Mas acho que qualquer um pode falar de qualquer coisa. Defender com boas bases aquilo que prega é que é difícil. Hoje as coisas andam muito superficiais. De repente você lê a página de Nietzsche e já é um mestre no assunto. Isso não é fator novo. Só olhar na literatura pra ver a quantidade de “posers” que sempre existiram. O problema é que o acesso instantâneo a informação, fez aumentar o número de pessoas assim.
    Mas quem sou eu pra falar dessas coisas. Eu só estudo medicina. O o meu negócio no fim das contas é doença e não livro.

  10. Adorei!!! Vou escrever uma opinião mais detalhada do que “Adorei” e lhe enviarei em breve…

  11. Tenho birra do “cacife”, sabe? Para mim, existem opiniões e visões diferentes – algumas são mais limitadas, algumas me acrescentam muito, de algumas eu discordo e outras eu não consigo entender. É uma maneira simples de pensar no assunto, eu sei, mas literatura para mim é diversão. Se começarmos a criar barreiras apontando pessoas mais (ou menos) qualificadas para uma conversa INFORMAL sobre livros, logo estaremos restringindo nossa liberdade de escolha e comprando exemplares (que nem nos interessam tanto assim!) por obrigação.

  12. A Tatiana realmente arrasa! Ela tem opiniões muito bem formadas e ótimas criticas.
    Mas o que eu quero comentar aqui é sobre você e seu blog. Você escreve muito bem Nina, e não seja boba de não admitir que seu blog tem um certo sucesso. Eu mesmo gosto muito dele, ótimas dicas de livros.
    E eu jurava que você é jornalista hahah.
    Ótimo trabalho! E eu adorei conhecer a Tatiana.
    lelusantos.wordpress.com

  13. adoro o vlog da tatiana.
    complicado essa história de ter cacife para falar sobre determinado assunto. desse ponto de vista não só quem faz os textos e vídeos deveriam dominar esses conteúdos, exemplo teoria literária, mas os leitores também deveriam conhecer. o que é quase impossível.
    me parece mais uma tentativa de restringir determinados assuntos a grupos respectivos.

  14. Gostei muito! Concordo contigo: pra ter cacife, tem que ter a mente aberta. Conheço MUITA gente que classifica um livro como “ruim” porque não faz seu estilo. Pura incapacidade de fazer uma avaliação subjetiva. Ler é viver – e mesmo que aquela não seja a sua história, pode ser uma história bela. É sempre um prazer encontrar outros blogs de pessoas que leem porque amam.

  15. Olá, Nina…

    Você comentou no meu blog há um tempão e eu não respondi, por isso achei melhor comentar aqui do que no post da promoção, para não parecer que vim aqui só por esse motivo.

    Pouco posso falar sobre literatura, mas, aplicando seu texto ao cinema (do qual eu gosto mais, assumo), não vejo muitas diferenças. Com o tempo e, principalmente, com a pluralidade de obras, podemos apurar e definir nossos gostos. Preferir o realismo italiano a nouvelle vague, por exemplo. Mas, para poder definir, você precisa de uma base, daí o pluralismo é essencial, ele lhe dá um campo de possíveis formas. Por isso, acho, se faz tão necessário – e não para fins comparativos, mas para poder apreciar melhor cada aspecto da direção naquilo que ela destoa do lugar-comum. Aliás, por isso mesmo que existe o termo cinema de autor, não é mesmo? Rs.

    Vejo muito acontecer isso com um crítico de cinema que acompanho e com quem tive aula. Ele faz uma crítica negativa de um filme de super-herói e os fãs dos quadrinhos vão em cima. Sem dar valor a argumentação, que é fundamental para quem pretende questionar algo baseado em um argumento. Falam “mas a Veja deu cinco estrelas”. “Ganhou sei lá qual prêmio”. Não dá para discutir.

    Eu, muitas vezes, discordo das resenhas que eu leio, mas elas normalmente acrescentam um ponto de vista e/ou descrevem um detalhe que não percebi e/ou revelam que aquela obra faz referência a outra e é melhor assistir a primeira, e por aí vai. É um exercício que adoro.

    E convenhamos. Hoje todo mundo tem opinião sobre tudo. Na dúvida, falam mal e apontam o dedo. Parece haver essa obrigação ~social~ de ter opinião a respeito de absolutamente tudo que ocorrer, só para poder ‘pertencer’ a esse mundinho virtual.
    ,
    Sobre seu comentário lá no meu blog (há meses, eu sei), eu também, como você, e desde muito jovem, desconfiei ter depressão e pensava a respeito. Sempre fui melancólica e introspectiva. A minha depressão se escancarou só em um determinado momento, mas hoje, mais velha, consigo identificar pequenas crises que poderiam ter sido lidas como crises depressivas.

    Não quero dizer que você deve ser! Provavelmente não é. Esse “vazio” talvez seja tão somente o consequência da modernidade, rs. Talvez seja uma característica só sua, não sei. Mas acho que, enquanto você não sentir necessidade de trazer outra pessoa para dentro disso, enquanto não sentir a necessidade de ajuda, não é preciso falar em depressão – no sentido clínico. É uma afirmação que hesito em fazer, porque não gosto da idéia de que posso afastar alguém de um tratamento que poderia ajudá-la… ao mesmo tempo, não gosto da idéia de patologização de sentimentos. É uma linha muito tênue e que, se eu começasse a discorrer sobre, jamais terminaria…

    Um beijo grande e obrigada pelas palavras de motivação lá no blog,

    Moon

    P.s. desculpa falar demais!

  16. Ah, Nina..você me inspira, ok? Quando crescer, quero ser que nem você!

    Não consigo nem formular um comentário sobre o tema da discussão, mas sei que, concordo bastante com você. Acredito que, para falar de literatura, é preciso, antes de qualquer coisa, ter senso crítico. Odeio ler resenhas em que a pessoa apenas repete opiniões alheias e, é bem como você diz, só lê Veja e o que é imposto por campanhas de maketing. Ok, quer ler 50 Tons de Qualquer Coisa? Sem problemas, leia…mas tenha em mente que é sempre legal evoluir, né? Vamos ler 50 Tons? Vamos! Mas depois, que tal ler Lolita (que eu ainda não li, mas que desse ano não passa!)?

    Claro que para ler e recomendar um livro num blog pessoal não é preciso ter feito faculdade de letras ou de jornalismo, mas, sabe…? Custa ter um pouco de autenticidade na crítica? Quer falar que Crepúsculo é bom? Beleza, desde que essa seja a sua opinião e não aquela que foi repetida duzentas vezes e que você só está repetindo. Mas ainda assim, desconfio de gente com mais de 20 anos que só tenha lido Stephenie Meyer, Nicolas Sparks e afins.

    Não vou nem entrar na questão de quem lê Garcia Marquez comparando com qualquer autor bestseller. Tenho pena de gente assim. De verdade.

    E, só para finalizar essa monografia mal revisada – por favor, perdoe qualquer falta de coerência ou erros -, acredito que quem tem cacife para falar de literatura é aquela pessoa com bom senso e que gosta de conhecer novos autores, novas histórias, longe de suas zonas de conforto. Ai, deu para entender? hahahha

    O seu texto está maravilhoso, como sempre! E eu também conheci o vlog da Tatiana recentemente e já sou completamente viciada nele :) Ótima recomendação para quem ainda não conhece :)

    Beijos e boa semana para você, Nina!

    Michas

  17. Nina,
    vim conhecer seu blog por indicação de um amigo, gostei muito de seu texto. Não sei se tenho cacife para falar de literatura, mas falo! Por que leio a mais de 40 anos compulsivamente então fica difícil não falar sobre literatura. Meu blog fala predominantemente de livro, tenho poucos seguidores (perto de outros blogs) e NÃO aceito parceria com nenhuma editora, não quero ganhar dinheiro e nem livro e principalmente quero ter o direito de falar mal do livro e do autor. Até porque não faço resumo e se posso me situar está mais para resenha critica. Com certeza você verá mais vezes por aqui. Cacife para falar de livro é bem subjetivo, então quem tem? Sei lá.
    abs
    Jussara

  18. Alguém falou nos comentários que não tem num ritmo tão bom de leitura. Eu também não tenho, guria, e isso me deixa tão frustrado! Quando eu era mais novo, eu lia muitos mais livros, muito maiores e em menos tempo. Lembro que li todos os Crepúculos num tapa. Mas, agora que estou na faculdade, a realidade é bem outra. E aí você vê uma loucura de blogs postando uma resenha por semana, de livros enormes, que eles juram ter lidos e se apaixonados, e você lá, penando pra ler os livros que precisa pra faculdade. Faço letras, espanhol, e não sei como passei em literatura nesse semestre, porque comecei quase todos os livros exigidos, mas não terminei nenhum. Tem até um marcador no meio de “Senhora”, abandonado lá.

    Agora, se é uma leitura superficial ou não, aí já é outros quinhentos.

    Outra coisa: pra quê serve o meu blog? Quem eu atinjo com ele? Porque, menos ou mais, nós, blogueiros, criamos uma opinião em que nos lê. Podemos influenciar uma pessoa a gostar de um livro ou não. E, que Deus ajude, isso é muito perigoso.

    Estava conversando com minha professora de literatura sobre essa questão de genialidade que se impõe à obra do autor. Isso é bom, porque escrever é um processo complicado, que deve ser feito, refeito, pensado, falando assim, por cima, claro. E isso é ruim, porque essa nova literatura que temos hoje em dia, só quer entreter, ela é feito para o comércio, para se tornar best seller e nada mais. Ela não veio para revolucionar nada, não pretende isso. Mas aí eu digo: não pretende em termos, porque essa mesma literatura, que vende horrores, é tratada como se fosse algo vindo dos céus. Não é, sabemos que não é. Só temos que respeitar isso.

    Eu acho que, pra falar de literatura, só há dois requisitos: que a pessoa goste — ame — de ler e que já tenha lido o livro de que está falando. Só esses dois, o primeiro valendo muito mais do que o segundo, mas os dois sendo profundamente essenciais.

    Preciso conhecer a Tatiana e já!

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