A missão do esquecimento

Não é de todo ruim desejar o recomeço. Antigamente, eu via a fuga enquanto sinal de fraqueza, conversa de criança que nunca mais vai sair debaixo da cama. Não é bem assim. Nunca será “bem assim” quando você se coloca no lugar do outro.
Por isso é fácil identificar-se com Blanca Perea. Mais de quarenta e com dois filhos homens crescidos e bem distantes da barra da saia da mãe, enfrentando um trauma momentaneamente insuperável: ter sido trocada por uma mulher mais jovem. Foi isso que seu marido fez, após mais de vinte anos juntos. Trocou Blanca por uma secretária, uma moça que engravidara dele.
Sem saber como se desfazer da perda repentina de sua estabilidade familiar, Blanca pede o auxílio de uma amiga íntima – que esta procure um trabalho que lhe tome tempo e a distancie de seus problemas. A amiga lhe dá três opções, e ela fica com a mais misteriosa e inusitada de todas: organizar os arquivos de um professor falecido (e até bastante esquecido), numa universidade lá na Califórnia. E assim Blanca sai da Espanha e foge rumo ao desconhecido, rumo ao esquecimento e ao resgate da coletânea de minúcias de um ser humano que não lhe aguça a curiosidade. Mas é trabalho, afinal.
Capa da edição brasileira de A Melhor História Está Por Vir.Não é. O livro A Melhor História Está Por Vir (editora Planeta, 351 páginas), de María Dueñas, não é só mais um enredo superficial sobre o recomeço em país estrangeiro ou sobre uma senhora de meia idade, balzaquiana, que tenta reconstruir um novelão russo em sua existência. A autora, sucesso de público e crítica com O Tempo Entre Costuras, nos leva a uma requintada história sobre outra cultura, outros costumes e muita semelhança entre países.
Ao chegar na Universidade de Santa Cecília, a professora Blanca é levada para sua nova sala de trabalho: a mais estreita e simples da Universidade. Sua atividade consiste em pôr em ordem os documentos de Andrés Fontana (estão todos dentro de caixas empoeiradas), um antigo professor do local, muito importante em sua época. Assim como Blanca, Fontana saiu da Espanha para trabalhar nos Estados Unidos. Em alguns capítulos o leitor acompanha a singular trajetória do pequeno Andrés: menino pobre, filho de uma criada, caíra nas graças da patroa de sua mãe, que procurou lhe dar a melhor educação possível. Blanca narra as reviravoltas da vida de Andrés Fontana como se fosse um romance épico, ao mesmo tempo em que faz da sua estadia na América um pequeno diário de brevidades. Ela conta, por exemplo, o quão estranha é Fanny – uma espécie de “faz-tudo” da Universidade, moça calada e portadora de uma doença mental, filha de uma senhora rancorosa que já fora secretária de Fontana no passado. Também temos Rebecca – a primeira amiga de Blanca nessa nova jornada. E, como em todo romance dessa estirpe, dois homens se aproximam da protagonista para formar o triângulo amoroso, como numa competição. São eles Daniel Carter e Luis Zárate.
Zárate é o diretor da Universidade. O tipo de homem que provoca as mulheres ao seu redor, por seu porte elegante e caráter espontâneo. Blanca percebe que o diretor não se conforma com a presença de Carter: ex-professor que fora aluno e amigo íntimo de Fontana. Carter se aproxima de Blanca para auxiliá-la com o legado. Zárate faz o mesmo, mas com segundas intenções, embora existam fortes suspeitas de que ele já tem um caso com outra professora.
Descobrir aquilo que permeou a vida de Fontana é também revelar para si própria quem foi o jovem Daniel Carter, enquanto pupilo de seu benfeitor educacional. É isso que Blanca faz, apresentando também um pouco da intimidade de Daniel – quando ele viajou para a Espanha e conheceu Aurora, sua já falecida esposa. À medida que ela desenterra o passado, descobre que existem muitas semelhanças entre o antes e o agora. Fontana esteve próximo de missões religiosas, que descobria como um passatempo, para sentir-se cada vez amis perto de sua terra. Blanca está cada vez mais próxima de Rebecca – que também já enfrentou uma situação difícil em sua vida, não muito diferente do que Blanca sofre atualmente.

“Os únicos que estão silenciados para sempre são os mortos. Os outros, mesmo à distância, continuam sendo filhos desta pátria, mantém viva sua memória e enobrecem nossa língua com sua palavra. Ignorá-los e perpetuar a cisão dolorosa que separa os de fora dos de dentro só ajudará a deformar ainda mais o desenvolvimento intelectual do nosso país.”

Indico esse livro para quem gosta de histórias sobre recomeços. Não é uma leviandade, tal como Comer, Rezar, Amar. É um livro intenso com uma trama muito bem escrita. E é cheio de mistérios também. Em um dado momento, Blanca não saberá mais em quem confiar, pois um dos personagens lhe esconde um segredo. Ela se sentirá usada, mas revelará também aquilo que seus novos amigos não sabem. Os pontos altos dessa história ficam no aniversário de Blanca, no discurso de Daniel Carter em um feriado de Ação de Graças e em como ele mesmo teve uma aula de como conquistar a tradicional família de sua futura noiva espanhola. Fica aí uma boa dica antecipada, inclusive, para o Dia das Mães.

Editora Planeta

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Cronista Amadora

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8 respostas em “A missão do esquecimento

  1. Adoro recomeços! E no comecinho da resenha, lembrei de ‘Comer, Rezar, Amar’ porque enfim, o que importa não é a história, mas o modo como se conta a história.

  2. Gostei muito do que (e como) escreveu sobre o livro. Me deixou verdadeiramente curiosa pra ler, mesmo não sendo o tipo de leitura que eu procure normalmente. E penso em seguir seu conselho sobre presentear minha mãe com o livro, rs, dei a ela o ‘Comer, Rezar, Amar’, de que já gostou, então acredito que este ela irá apreciar ainda mais já que, ao que parece, não é tão bobo ou cansativo quanto as aventuras de Elizabeth. =*

  3. Adorei sua resenha sobre o livro. Estou morrendo de vontade de ler. Nessas horas sinto falta do Brasil, tenho uma wishlist enorme de livros pra quando eu voltar pra casa.

  4. Eu assisti a entrevista da Dueñas no Jô e pela conversa que levaram pensei que esse livro tinha algo de auto-ajuda. Não gosto de auto-ajuda.
    Porém, pelo que você falou, o livro é muito mais que algo pra ajudar. Tem mistérios e é bem escrito. Prerrogativas que despertam interesse em livros.
    Gostei muito da sua resenha e ela, muito mais que a entrevista, me fez ficar interessado em ler o livro. Quando puder o comprarei e lerei.
    Abraço.

  5. Nossa adorei a dica do livro e acho que tem uma pessoa que conheço que adorará esse livro…me interessei em ler tb, historias com tramas assim as vzes dão uma nova visão pra gente.. nunca li comer, rezar e amar, mas sempre tive curiosidade rsrsrs

    beeeijos..

  6. Seu post caiu como uma luva pra mim que acabei de levar um pé na bunda cruel HGFKJHGJKHFJKGHJFJGKFHJKGJK Esquecer é questão de concentração e de vontade, e seu post está muito interessante *-* Eu adoro aqui!

    Beijos ♥

  7. Eu tenho muito medo de envelhecer, de perder meus movimentos ou, simplesmente, de ficar enrugado. É engraçado até, tenho medo de ficar velho e feio, quando já não sou tão bonito agora. Haha.

    É preciso mesmo ter coragem pra seguir em frente e recomeçar. Esse medo de ser traído, renegado a um canto, acho que todos temos um pouco dele. Ma idade dela deve ser muito pior, porque perante a sociedade, ela já perdeu seu prazo de validade. Seus filhos já estão criados, seu corpo já é tão atraente como o era. O que não acontece com o marido, que se apaixonou por uma mulher mais nova que ele e foi correspondido. Essa questão de idade é descepcionante, e o pior é que está tão afundada na nossa cultura machista, que é quase impossível escapar dela. Eu também não vou muito com a cara de Comer, Rezar e Amar, mas não posso dizer nada dele, porque ainda não o li.

    Abraço,

  8. Depende muito do estilo de recomeço. No geral são ótimos para trazer reflexões. Outros entediam. Contudo, esse que você resenha parece ter personalidade o suficiente para nos surpreender. Viva os recomeços.

    ;)

    Beijo querida!

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