Abecedário ficcional

Nunca fui uma assídua leitora de periódicos, embora aparecesse, de quando em vez na casa de meus pais, uma ou outra edição da SuperInteressante. Quando chego cedo na livraria, nos domingos em que trabalho, dou uma fuçada na Piauí e na Bravo!. Tenho coleção de Gloss aqui em casa (desculpa sociedade) e, nos salões de beleza e consultórios odontológicos da vida, por que não conferir uma edição ou outra da revista Caras?
Foi através da Caras que adquiri uma afeição especial por etimologia. Deonísio da Silva faz a seção que escolhe palavras aleatórias de uma frase para explicar a origem e o sentido das mesmas (quem diria que revista Caras também é cultura, né). Aos poucos, fui adquirindo vícios e descobrindo coisas. Cês sabiam que a maioria das palavras da língua portuguesa que começam com “al” são de origem árabe? E que o prefixo “al” é um artigo definido? Por isso é errado dizer “o Al Corão”. O correto é dizer “o Corão”. Fica a dica para a próxima novela da Glória Perez (de nada).
Capa do livro A Verdadeira História do Alfabeto.Não obstante, o livro A Verdadeira História do Alfabeto e Alguns Verbetes de um Dicionário (editora Companhia das Letras, 127 páginas), apesar de possuir uma capa que o deixaria passar despercebido, traz esse título grandioso e memorável – que logo chamou minha especial atenção quando chegou na livraria. Noemi Jaffe, a autora, me era um nome conhecido, recordei que ela possui esse blog e um talento muito forte para a escrita concisa que atrai esta geração.
Cada conto do livro é a história de uma letra do alfabeto ocidental, dispostos em sua ordem natural. Como é possível, por exemplo, descobrir os átomos sem representá-los de uma maneira digna? Assim nasceu a letra “a”.

“Os átomos já existiam desde toda a eternidade e o infinito dos infinitos, desde o momento causador do caos, mas ainda não havia uma letra para designá-los. Por esse motivo, o desejo de um átomo pelo outro, o apelo de um átomo pelo outro, não tinha como expressar-se. Não havia uma letra para fazê-lo. E o problema não era só dos átomos propriamente. As pessoas, movidas internamente pela força atômica, também se encontravam carentes de aproximação daqueles por quem se sentiam atraídas.”

A segunda parte da obra é composta de algumas palavras, reais e inventadas, e os significados que a autora decidiu atribuir a cada uma delas. O interessante dessa proposta singular de explicar o alfabeto e alguns de seus verbetes está no modo como os contos são narrados: parecem fábulas e não há limites para a realidade e a ficção. O início da descoberta da letra “d”, por exemplo, se deu em 1922, mas a letra “g” surgiu para Adão, que recebera a missão divina de nomear as existências. A letra “u” sobreveio do nome de uma mulher que desconhecia essa letra em seu idioma. E Noemi buscou inspirações de Camões a Vladimir Nabokov, tudo com minuciosas pesquisas para compor a ficção, conforme fontes divulgadas em notas ao final do livro.

“Algumas incertezas inofensivas às vezes são mais exatas do que as certezas conclusivas.”

Esse livro é uma doçura – e excelente para quem é curioso e busca formas inteligentes e originais para justificar aquilo que nos é tão próximo e palpável. Se você se inclui nessas características, precisa desfrutar dessa leitura.

Companhia das Letras

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Cronista Amadora

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12 respostas em “Abecedário ficcional

  1. Vou confessar que eu não sabia que o certo é “o Corão”. Bem, vou espalhar isso entre as pessoas que conheço e que também falam “o Al Corão” :D.

    Também não sou muito de ler periódicos, mas sempre que encontro uma Superinteressante, paro p/ dar uma lida nela.

    Esse livro aí do título grande me pareceu ser mesmo muito bom. Já estou lendo outros trechos dele no seu tumblr.

    Beijo

  2. Eu sempre falei o Al Corão… rsrs. Acho muito interessante essa questão da etimologia! Adoro esses livros que começam tratando do porquê de cada coisa, que nem um que só fala de cada um dos elementos da tabela periódica de forma super bem humorada… São esses livros, que fogem do estilo estático de verbetes que acho que mais fazem a gente aprender :))

    Abraços!

  3. Também sempre achei etimologia um assunto muito bacana. Comecei a prestar atenção por causa dos livros didáticos, principalmente os de biologia, que tem o costume de contar a etimologia de alguns termos e nomenclaturas. Acaba ajudando pra caramba na hora de estudar e memorizar as coisas, principalmente pra pessoas que, como eu, são péssimas pra decorar conceitos “vazios”.
    Achei a proposta do livro bem divertida, e nunca tinha ligado o nome da Noemi ao blog, que eu sempre leio vezemquando. Vai pra lista de futuras leituras mesmo!
    beijo

  4. Oi, tudo bom?
    Então, quando você passar pelo blog de alguém, sugiro que leia o que a pessoa publicou e comente sobre aquilo. Retribuir visita é consequência de uma cordialidade primeira. Na base do “me segue que eu te sigo” ou “adorei o seu, visita o meu” você não vai para lugar algum, querida.
    Abraços.

  5. Gosto muito de revistas, não tenho o hábito de comprá-las (gostaria de ter). A gente sempre aprende alg novo e interessante que é difícil parar para ler na internet, só com uma revista em mãos conseguimos.
    Sobre o livro, é muito interessante, com certeza seria um que eu compraria!

  6. Quado fiquei sabendo sobre o lançamento do livro da Noemi pensei que fosse mais algo técnico do que ficcional. Nada melhor do que ler uma boa resenha pra gente começar a conhecer o livro. Me interessei mais ainda.

    Abraço.

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