O plano de um comum Homem Plano

Existem livros que surpreendem pelo visual. Não se trata apenas de uma capa bonita – é também ter um conteúdo bacana, algo diferenciado das demais obras, algo original. Existem livros que parecem tanto com obras de arte que a gente se sente dentro de um filme de Fellini, ou queremos simplesmente pendurar o livro na parede e expô-lo para as visitas sob a recomendação do “olha esse livro lindo que eu li”. O anseio de expor um livro na parede é diferente da vontade de “comprar um livro de arquitetura para deixá-lo aberto sob a mesinha de centro”. E eu tive esse anseio muito tardio – porém frequente. A primeira vez foi com Safran Foer (Extremamente Alto & Incrivelmente Perto). A segunda, com Vanessa Bárbara (O Livro Amarelo do Terminal). E agora, a terceira, é de uma lusitana que me era completamente desconhecida: Patrícia Portela.
Capa do livro da edição brasileira de Para Cima e Não Para Norte, de Patrícia Portela.Há tempos eu vinha “namorando” a coleção Novíssimos, lançada no ano passado pela editora Leya. Cheguei a comprar um dos livros dessa coleção (ainda está aqui, no aguardo – aliás, os títulos são fantásticos), que apresenta para o Brasil a nova safra de autores portugueses. É uma proposta interessante para quem, até então, vivia apenas de Inês Pedrosa, Saramago e Lobo Antunes (mais interessante ainda para quem não leu nenhum autor português consagrado – ou leu muito pouco disso). E foi delicioso começar a coleção com Para Cima e Não Para Norte (Patrícia Portela, editora Leya, 240 páginas), um livro diferente de tudo que já se viu (de tudo que eu já vi, pelo menos).
A estreante Patrícia Portela apresenta a história de um Homem Plano. Esse Homem Plano vive dentro dos livros, no meio das palavras. Ele percorre as palavras porque esta é sua função. Para os humanos, ele pode ser identificado como um ponto ou um triângulo entre as letras. Difícil explicar e também de entender – mas só é preciso aceitar a proposta inusitada dessa obra.

Detalhe do livro Para Cima e Não Para Norte.

O Homem Plano, senhor anônimo como qualquer outro, possui casa, mulher, filho e emprego. Ele leva uma vida normal no Mundo Plano: o mundo dentro dos livros em que nada pode ser representado tridimensionalmente. O Homem Plano gosta das obras de Ian Fleming, autor da série que consagrou o agente James Bond, e é entre as obras desse autor que o Homem Plano gosta de passear com sua família, o mais rápido que conseguir, antes que algum humano feche o livro, antes que o “dia” termine – o que é uma mera expressão no Mundo Plano, tendo em vista que o tempo, para aquele mundo, inexiste.
Não é difícil se acostumar com o Homem Plano. Ele é um personagem carismático que vive entre ilustrações para que possamos compreender sua essência, seu estilo de vida. O leitor é capaz de identificar-se com essa figura que não possui rosto e cujo corpo desconhecemos. A forma, entretanto, é o que menos importa: pois o Homem Plano narra sua história divinamente – e ele tem uma problemática para resolver.
Um belo dia, o Homem Plano depara-se com uma “letra” diferente em uma das aventuras do James Bond. Trata-se de uma impressão digital.

“Nenhuma das informações parecia relevante a não ser o facto de a letra misteriosa ser mencionada como estando em vários sítios ao mesmo tempo: no suspeito, na arma, no local do crime, na vítima, num cinzeiro, num telefone, e o facto de esta letra se encontrar em tantos sítios e de isso provar que o suspeito também lá tinha estado.”

Ele enxerga aquela novidade no meio do texto e, naturalmente, sente-se atraído pelo desconhecido. Precisa saber cada vez mais o que aquilo significa, para quê serve e qual o motivo de estar ali. E então, o Homem Plano descobre que a humanidade não é fruto dos livros, a humanidade existe e, junto com ela, há um mundo lá fora definido por ele como Mundo Espacial. O Homem Plano não se cabe em tanta filosofia, pois descobriu a si mesmo como mero objeto para que os Homens Espaciais o vejam. Ele expõe a sua nova noção das coisas no Mundo Plano e é preso como “rebelde”.

No cárcere, o Homem Plano descobre autores como Virgílio, além de perceber que, ao ler nas entrelinhas, saberá muito mais do que uma obra ensina. Quando solto, vivendo à margem da sociedade com um emprego terrível (pois não são muitas as oportunidades dadas para um ex-presidiário), abandonado pela esposa e pelo filho, quase um inimigo-público por suas ideias “subversivas”, o Homem Plano descobre que existe um ponto em que o Mundo Plano colide com o Mundo Espacial. Então, a partir disso, o Homem Plano perde a voz e os telejornais passam a narrar a melhor parte do livro: quando o Homem Plano assume o antagonismo e já pode ser reconhecido como uma espécie de “vilão da história”.

Recheado de referência literárias de quando éramos crianças, esse livro é de uma presunção muito elegante. Com tal proposta, Patrícia Portela satiriza a nossa sociedade desde tempos antigos até os dias de hoje, em que é fácil julgar pela aparência e buscar uma liberdade que, muitas vezes, não concedemos ao próximo. É uma paródia com o mundo real, ou o Mundo Espacial. A trajetória de um homem só que, com coragem e perspicácia, faz o possível para atingir seus objetivos, com bom humor intimista e prosa ora inocente, ora sensata – doa a quem doer.

Editora Leya

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6 respostas em “O plano de um comum Homem Plano

  1. Obrigada pelo comentário lá no As (in)Delicadezas da Vida, Nina :))
    E sobre suas resenhas, minha lista de livros que quero ler não para de aumentar. Afe, isso me dá um pouco de desespero, sabia? Mas não me canso de ler seus textos ;)
    Abraço.

  2. Eu tinha começado a escrever esse comentário ontem mas tive problemas de energia elétrica e acabei perdendo o conteúdo do mesmo. Mas, como se trata de você e suas indicações nunca menos do que fabulosas, eis que estou aqui outra vez.

    Sinceramente, eu acho que a srta. elevou o nível das resenhas a outro patamar. Alto o bastante para não ser alcançado por qualquer rasputim metido a conhecedor de bibliotecas e títulos.

    Dessa vez, parece que você inventou uma nova didática. A gente lê isso e parece que fica mais importante que o próprio livro. O livro vira um detalhe na forma como você conduz as palavras. Dá pra entender isso? E não apenas com as tão oportunas referências, é um contexto geral.

    Sensacional. Inenarrável.
    (Ah, e todas as suas visitas ao Teatro são catalogadas e autenticadas em duas vias).

  3. Terminei de ler esse livro anteontem, por indicação da Tatiana Feltrin. Passei por aqui por acaso e, putz, que resenha linda! Eu gostei muito de Para cima e não para norte, foi uma leitura completamente diferente do que eu estou acostumada, além de ser muito bem organizado (cada início de capítulo, cada fonte diferente!). Enfim, o sobrefatalismos é muito legal e decidi ser menos preguiçosa e comentar mais vezes! :D

  4. As vezes nos apaixonamos pela capa de um livro e quando vamos ler o conteúdo nem sempre nos satisfaz. Não conhecia este livro, mas deve ser ótimo.

    Beijos.

  5. O texto ficou muito bom. Fiquei loucamente apaixonado pela narrativa e a diagramação deste livro, nunca ouvi falar da autora.

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