Quem me dera agora eu tivesse a viola pra cantar

Daí que eu já caí no equívoco de ter saudades do tempo que não vivi. Isso é um clichê dos infernos – e acho que o Antonio Prata já escreveu sobre. Algo como: se não estaremos aqui em 4052, por quê nos lamentamos pelo fato de que não estivemos quando o Brasil ganhou sua primeira Copa do Mundo?
Não importa. Saudosismo é bom em certa medida e aceito de bom grado esse feitio. Tanto é que me apaixonei de cara pelo design de Uma Noite em 67 (Renato Terra e Ricardo Calil, editora Planeta, 293 páginas), livro de entrevistas com grandes artistas da música popular brasileira, inspirado no filme de mesmo nome, que conta a história do III Festival da Record, o tipo de programa que era exibido e assistido por grande parte do Brasil, como se fosse último capítulo de novela das 8 (ou final de reality show).
É verdade e, indo na direção contrária (só vi o filme que inspirou o livro depois de lê-lo – e qualquer um pode fazer o mesmo, sem que ocorram arrependimentos em torno disso), descobri muita coisa referente àquela época que quase passam despercebidas nos dias de hoje. Eu não sabia, por exemplo, que grandes revelações surgiram naquele festival, a exemplo das canções Domingo no Parque e Alegria, Alegria, respectivamente de Gil e Caetano Veloso.
O Festival da Record (emissora que hoje pertence ao bispo Edir Macedo) era apresentado com poucos intervalos de tempo, em praticamente toda a década de 60. Tudo bem que o intervalo do primeiro para o segundo demorou bastante (seis anos), mas sua consolidação em audiência veio a partir da segunda metade dessa década, quando o formato de promover um concurso entre compositores já era mais do que aprovado, aliado a uma plateia animadíssima e a um júri muito justo em suas avaliações. Desses festivais surgiram canções lindas de Vandré, Chico Buarque, Edu Lobo… E cantadas por vozes magníficas, tais como Elis Regina, Nana Caymmi, Roberto Carlos. Esse formato da TV Record acabou migrando para outras emissoras, inclusive a Globo – que não obteve um sucesso tão grande e semelhante ao original. O Brasil inteiro se sentia no direito de parar para assistir esse acontecimento e, nas ruas, a disputa entre canções era discutida como final de Copa: “eu prefiro a música do Chico, hein?!”, “que nada, Vandré vale muito mais!”. Com o tempo, os festivais da Record inseriram bastante pioneirismo na música popular brasileira: passaram a lançar compositores também como intérpretes. O movimento tropicalista surgiu a partir dali. O Brasil inteiro daquela época já vivia a censura que premeditava a ditadura e, por isso, boa parte das canções dos festivais tinham cunho político e libertador. Também por demais nacionalistas (Gil e Caetano, no entanto, quebraram essas “verdades absolutas”). Infelizmente, com o anúncio do AI-5, também os festivais tiveram o seu fim. Muitos artistas foram “convidados” a se retirar de nosso país, suas canções estavam proibidas nas rádios. E Sabiá, de Chico e Tom, era uma canção simbólica para este fim, tal como afirmou Nelson Motta.
Entretanto, o festival de 1967 foi o mais marcante para o Brasil. E assim é até hoje. Foi o festival de maiores revelações. Maiores provas de fúria da plateia, maiores aplausos e vaias. O público foi mais protagonista do que os artistas: vaiaram e aplaudiram Caetano; fizeram com que Sérgio Ricardo quebrasse e atirasse a viola neles mesmos. Cantaram junto com Chico e MPB 4 a Roda Viva. Viram uma Rita Lee menina. Consagraram Ponteio, de Edu Lobo, como a canção do ano (“quem me dera agora eu tivesse a viola pra cantar”). Quem esteve ali sentiu de perto – e sem saber – a emoção de presenciar um momento histórico no qual grandes artistas estavam nascendo, brotando, surgindo.

A obra é uma compilação das entrevistas que não foram “ao ar” no filme, e da completude de entrevistados que só tiveram partes relevantes na película (tem Capinan, Ferreira Gullar, Jair rodrigues, Gil, Caetano, Chico, Sérgio Ricardo, Nelson Motta…). Engraçado que, na época em que o filme saiu (ano passado, se não me engano), eu não havia me interessado tanto em meu deslocamento de casa até o cinema de arte mais próximo. Há em mim uma preguiça imensa quanto a isso, embora o assunto me interesse e eu ainda considero que sei muito pouco sobre (o que li até agora além dele? Verdade Tropical, de Caetano?). E houve uma emoção imensa depois que li o livro e conferi o filme. Eu quase chorei em muitos momentos.
Com perguntas simples e respostas muito bem elaboradas, o que mais me impressionou nesse livro foi o fato de que as entrevistas são um claro presente para a geração de agora – e não apenas uma relíquia para os que viveram aquele momento. A linguagem da obra é atualíssima, funciona como um almanaque, porém mais amplo, e é repleto de curiosidades. Como lidar, por exemplo, com o difícil temperamento de Elis Regina?

“Quando chegou a vez de Nara, ela não olhou para nós, olhou só para o Paulinho e disse: ‘Olha, você é dono da emissora, faz os programas que quiser, nós aceitamos se quisermos, e combinaremos com você a que preço. Isso aqui é uma combinação profissional. Mas quero dizer uma coisa: eu só lhe peço que, se eu continuar na TV Record e tiver que fazer programas, eu não quero aparecer no mesmo lugar em que esteja a Elis Regina’. A isso, Bôscoli respondeu: ‘Nara, espere aí, Nara’. E Paulinho Machado disse: ‘Mas, Nara…’. Ela tirou da bolsa a carteira da Ordem dos Músicos. ‘Elis disse que eu não sou cantora.’
Numa das revistas Bloch, ou Manchete, ou Fatos e Fotos, Elis tinha dito uma coisa bastante desagradável. Falou que Nara não era cantora, do ponto de vista técnico, possivelmente, e que o prestígio dela se firmava na oposição que ela fazia aos militares. Era chato, porque ficava parecendo um desprestígio à Nara e uma quase defesa aos ditadores militares. Por isso, naquele momento, Nara estava coberta de razão e, ela tratou pelo mais basicamente real. ‘Isso aqui é uma reunião de contratos, profissional, então é só isso que imponho para aceitar continuar fazendo’. Elis ficou nervosa, Ronaldo Bôscoli tentou defender, mas Nara estava impassível.”
– Caetano Veloso.

Lendo a obra, também podemos aprender e obter respostas vindas do passado que justificam a música de hoje. Se achamos o funk ou o pagode ruins e incultos, talvez não seja à toa:

“Do ponto de vista artístico, eu preferia a ditadura militar à ditadura do mercado. (…) Era um momento em que a cultura vivia um estado de provocação constante, assimilado pelo público imediatamente. Ficou mais que provado que a sensibilidade do povo brasileiro realmente existe. Hoje, é lamentável o que os meios de comunicação exibem, eles subestimam demais essa sensibilidade musical do nosso povo.”
– Júlio Medaglia.

“Hoje, o rock está fazendo o papel que esse pessoal fazia antigamente. É a área mais preconceituosa e mais narcisista, que se acha o topo do bom gosto, do que é sincero, responsável, autêntico, e o resto eles chamam de pop, desprezam. A palavra rock ficou ligada ao aspecto de grupo superior defensivo. E, nessa época, não. O rock era lixo comercial, e o fato de termos adotado alguns procedimentos do rock era uma traição terrível.”
– Caetano Veloso.

É tudo uma questão de mudança – e sequer podemos autenticar que são positivas e/ou negativas. Só o tempo dirá. Os festivais de antes não são cabíveis hoje pelo simples fato de que, naquela época, não era apenas uma grande produção que fazia e acontecia. Era também o público e o que as canções representavam. Pois não eram apenas canções – eram hinos que se perpetuam, ecoam. Você ouve Pra Não Dizer Que Não Falei das Flores em diversas passeatas jovens. E estamos em 2013. Aquela noite em 67 teve uma grande representatividade nisso.

“John Lennon disse uma vez a uma repórter que lhe perguntou por que o público ia assistir àqueles shows nos campos de futebol, mesmo com aquele equipamento de som, que, na época, era muito ruim, não dava para ouvir nada. O que eles ouviam? E John Lennon respondeu assim: ‘Eles não iam lá para ouvir. Eles iam lá para estar conosco’. Isso para mim se tornou uma espécie de bandeira. Enquanto a arte não representar isso,  ela não é boa. A arte é boa quando as pessoas buscam-na para estar com o artista. Então, hoje em dia não existe muito isso de estar com a gente. Tem muito pouco.
Não existe mais aquela coisa sólida, aquela solidariedade. Por quê? Porque o inimigo abaixou a bandeira. Estamos vivendo um tempo no qual a música brasileira devia se aprofundar dentro dela mesma, para surgir com força nova, completamente nova.”
– Chico de Assis.

Qualquer pessoa que se preze e deseja trilhar no caminho artístico-musical atualmente, precisa ler Uma Noite em 67. Quem não quer, também. Porque isso é a história do nosso povo, do nosso país. O que somos, o que ouvimos e cantamos hoje se deve a esse passado lúdico e trágico, efêmero e atemporal. É uma leitura leve, livre. Em suma, nenhuma perda de tempo.

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Cronista Amadora

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9 respostas em “Quem me dera agora eu tivesse a viola pra cantar

  1. Nossa, essa época de nossa história sempre me interessou, Nina. Eu sei que sei muito pouco disso, mas é como se eu tivesse vivido, também. Sinto familiaridade com as músicas, que são sublimes e falam tanto em tantas metáforas em um tempo em que não se podia dizer tanto… Hoje em dia temos a banalização da palavra, tudo é permitido, chega a cansar. Não tenho nada contra a cultura de massa, mas ao quadradinho de 8 eu tenho sim. Haha. Ou seja: sou contra todo e qualquer excesso da falta de propósito. Das palavras vazias. E pode ter certeza que dá mesmo um saudosismo, mesmo do não vivido, diante da atual realidade.

    http://www.despindoestorias.com

  2. Excelente resenha Nina!

    Se não me engano, no início da minha adolescência me emocionava muito com Alegria, alegria. Naquela época não sabia porque. Entre os anos 60 e 80, durante e pós ditadura, houve muita riqueza, mas acredito que a decadência da popularidade do que é muito bom na MPB, em toda a diversidade que lhe pertence, foi provocada, em grande parte, pelo não rumo do próprio rock brasileiro. Aceitamos em demasia modelos ingleses – The Smiths por parte do Legião Urbana, por exemplo -, incapacidade em lidar com a fama – vê-de RPM, que não passou do segundo disco, o ao vivo -, Titãs, um New Wave + Rock + experimentalismo – continuidade produtiva (até cópia de cd do Oasis fizeram num de seus próprios cds). São apenas alguns exemplos do temporão qualificado e depois decadente da MPB.

    É óbvio que houve nos anos 80, 90 e há hoje qualidade na nossa música, porém, falo de cultura de época que evidencie a qualidade.

    Beijos Nina,

    Kleber.

  3. “Do ponto de vista artístico, eu preferia a ditadura militar à ditadura do mercado. (…) Era um momento em que a cultura vivia um estado de provocação constante, assimilado pelo público imediatamente. Ficou mais que provado que a sensibilidade do povo brasileiro realmente existe. Hoje, é lamentável o que os meios de comunicação exibem, eles subestimam demais essa sensibilidade musical do nosso povo.”

    Cara, isso traduz exatamente o que eu sinto, sabe, em relação à música de hoje. Desabafo feito, menina, que post ótimo. Tive minha época de me interessar muito pela cultura que surgiu na época da ditadura, e li inúmeras obras desse período vergonhoso da nossa democracia. Mas é sempre bom ver uma indicação, e essa obra parece ser espantosa.

    Um beijo!

  4. Muito bacana seu texto.
    Conheço essa história “de leve” rs. Na escola que eu trabalhei, todo ano os alunos eram convidados a “reproduzir” o festival, dentro do contexto histórico da época. Muito legal. Eu quero saber mais, estudar mais. História é legal, né? rs Acho que esse livro, e esse filme, são uma boa.
    Um beijo Nina

  5. Adorei!!

    Esta época não muito a minha favorita, mas me interessei por culpa deste post. Queria ter vivido no passado do Brasil, mas com a tenologia de hoje…
    Gostei muito. Beijos.
    lelusantos.wordpress.com

  6. Esse livro tem figuras lindas, independente de leitura.
    E olha, tive um contato forte com música quando era pequena, por conta de pessoas na minha família que são músicos. Fiquei com vontade de ler esse livro só pra tentar enxergar melhor o que foi esse cenário na época.

    Beijo

  7. Esse livro deve ser muito bom, Nina! Acho essa época muito rica.. Mudando para algo que foi apenas um pedacinho irrelevante de introdução, mas que me chamou a atenção: Eu tenho muita saudade do que veio antes de mim, e sim, tenho saudade do que vai vir depois e eu não vou conhecer! Acho um absurdo que eu não esteja aqui pra ver o que vai rolar em 4052!
    Beijos!!

  8. Meu pai sempre falou sobre os festivais e todo o movimento cultural da época. E ele fala com tanto respeito, reverência, sabe? É algo que dá uma certa saudade de algo não vivido mesmo. Creio que falta muito isso hoje em dia. Gente que faz arte não apenas para ser famoso, reconhecido, mas porque sente o impulso de fazê-lo, algo que vem lá do âmago do ser… Muitos protestavam através de suas músicas (Renato Russo também fazia isso, de certa forma, mas em outra época, e isso explica a quase adoração que muitas pessoas têm por ele) e isso falta quando olhamos pra o cenário musical atual. Há muitas coisas boas? Claro que há. Mas elas não possuem tanta divulgação quanto o superficial.
    Bem, fiquei superinteressada por esse livro. Certamente o procurarei numa das livrarias de Porto.
    Beijo! ;*

  9. Tenho um pouco de preconceito com música brasileira, em especial post anos 90.
    Aquele trecho sobre a ditadura militar me fez pensar em algo que ouvi enquanto estava no primeiro ano de faculdade. Uma das minhas colegas já era bem mais velha e viveu a ditadura. Ela disse que foi uma das melhores épocas da vida dela, mas não especificou o motivo.
    Mas acho que foi a melhor época para a música, mesmo. Muitos cantores grandes hoje em dia viveram a ditadura também, cantaram contra a ditadura, fizeram músicas censuradas, músicas com sérias indiretas aos políticas, e poxa vida, acho que tá faltando banda de garagem compôr letra sobre mensalão, sobre político corrupto, sobre presidentes que enchem congressos e senados com merda e presidentes que entram por causa daquele presidente e tenta limpar a merda pra não ficar chato, sobre tudo o que tá errado nesse país. Músicas que tocam bem no meio da enorme bola de neve que configura nas razões de o Brasil e a população estar onde está.
    Músicas (censuradas) de ditadura não eram só músicas, eram hinos de liberdade.

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