Matando por menos, escrevendo por mais

Quando a gente começa um blog, desconhece (mas premedita) o tamanho do burburinho que esse espaço pode causar. Atualmente, são poucas as chances de um blog pessoal fazer tanto sucesso que chegue a ser impresso e vendido em livrarias (é mais fácil quando um blog de temática específica alcança esse feito). Quando vejo que um autor “de blog” conseguiu publicar aquilo que provavelmente “começou como brincadeira e desabafo”, comemoro.

“Fazer um blog é um ato de amor ao próximo. Quando você faz um blog dá a essas trinta pessoas uma função social, coisa de que elas muito careciam. O sujeito deixa de ser seu ex-namorado e vira seu leitor. O leitor é o novo ex-namorado.”
— Da crônica Todo Blog Tem Trinta Leitores.

Juliana Cunha não é exatamente apenas uma autora “de blog”, tampouco é estreante no meio literário. A repórter baiana (que atualmente vive em São Paulo), começou cedo na escrita. Apesar de eu também ser baiana, não me recordo muita coisa do início da carreira dela: sei que escreveu para jornais daqui e tinha um programa na Rádio Metrópole (meu marido a conhece daí). Por outro lado, conheci a Juliana através do Já Matei Por Menos – seu velho e querido blog que acabou de ser lançado em livro.
Existem estreias que marcam. Que não devem passar despercebidas, sobretudo pela coragem de apostar. Assim foi com a editora Lote 42, criada no fim do ano passado por dois rapazes simpáticos (Thiago Blumenthal e João Varella). Não conheci a editora “desde o início”, mas quando soube que a Juliana Cunha publicaria por esta nova empreitada, não perdi tempo e quis conhecer um pouco mais.
É interessante quando você entra no site da editora e se depara com aquele aspecto jovem e bem-vindo, colorido, convidativo. Para se ter uma ideia – eu não ia fazer isso, mas preciso – comparemos o site de uma editora “consagrada” (que, ao que parece, parou com um HTML de “mil novecentos e bolinha” – os links são azuis e sublinhados, minha gente) com o da recém-nascida Lote 42:

Foi esse cuidado e carisma visual (a editora até fez um site exclusivo para sua primeira publicação) que me fez entrar em contato com o Thiago e anunciar: quero resenhar o livro da Juliana – e todos que estão por vir. Ele aceitou minha proposta imediatamente e eu recebi em casa esse agrado:

Eu me punia bastante por ter “perdido” a primeira obra da autora, o Gaveta de Bolso (dela e da Ludmila Lima). O livro teve um determinado número de edições e esgotou rapidamente, de modo que eu não me perdoaria jamais caso não conseguisse o Já Matei Por Menos (editora Lote 42, 158 páginas). A segunda obra de Juliana é um compilado das crônicas que a repórter escreveu em seu blog de 2008 até agora. O espírito do blog é pessoal, mas ela agrega diversos assuntos que permeiam a mídia: de Gisele Bundchen (que não usa filtro-solar) a semanas de moda, passando pelas nuances de ter saído de Salvador para viver entre os paulistas até a “falsa comida indiana” que ela provou, em uma de suas viagens mais recentes.

“Paulistanos acreditam que não existe branco na Bahia, daí tratam como aparição da Virgem quando eu digo que, sim, sou de Salvador, meus pais são de Salvador, meus avós são de Salvador e apenas meus bisavós são gringos (isso se você considerar povos ibéricos como gringos. Not). No começo eu respondia com educação, mas agora as respostas variam entre ‘Sim, e a Daiane dos Santos é gaúcha’ e ‘O genocídio étnico da região foi contra os índios, não contra brancos’.”
— Da crônica Cuspindo no Prato.

Juliana, que não gosta de ser tachada como blogueira (e com razão, pois isso é limitar o talento dela, faz parecer que ela “surgiu do nada”), é proprietária de um humor ácido sobre o cotidiano, que se alia a uma fantástica capacidade de imaginação para narrar problemas e solucioná-los na mesma proporção:

“Idosos são apenas uma categoria – a mais numerosa e frequente, devo dizer – desse tipo irritante que tem certeza de que é mais educado que você. O mal acomete funcionários públicos também. Tipo os seguranças da UFBA [Universidade Federal da Bahia]. Você vai pedir uma informação. Diz ‘bom dia, eu queria…’ e ele diz ‘com licença’, querendo dizer que você não pediu licença pra falar com ele. Daí, na próxima vez, você vem e diz ‘Licença, eu queria…’, e ele diz ‘bom dia’ no mesmo tom de ‘olha, eu posso não ter estudo, mas pelo menos tenho educação’. Eles podem passar o dia inteiro brincando de ‘bom dia’ e ‘com licença’. E frequentemente passam.”
Da crônica O Objetivo de Cerca de 30% dos Idosos.

“É notório que daqui a uns anos quase todo mundo vai ser freela. Tipo, ilustrador, designer, jornalista, advogado, contador, essas coisas. Essa gente toda vai trabalhar de casa. E em casa, como sabemos, é onde costuma ficar a cama e a geladeira.
Nessa nova realidade, uma empresa de capatazes certamente teria mercado. É assim: você contrata a minha empresa e às sete da manhã eu mando um funcionário altamente especializado para a sua residência. Ele te empurra pra fora da cama, enfia sua cabeça na pia e te açoita até que pelo menos 80% do seu trabalho do dia esteja feito. O capataz fica posicionado em uma cadeira atrás da sua e de frente para o seu monitor. Ao menor sinal de Twitter, ele te açoita com um chicote que tem espinhos na ponta. Se passar mais de dois minutos vislumbrando uma tela vazia, ele troca sua cadeira com nome de gente por um móvel das Casas Bahia que pinica quando você encosta o joelho no tampo da mesa. Eu tenho uma cadeira assim e minha produtividade aumentou cerca de 20%.”
— Da crônica Personal Capataz.

Li a obra numa tarde de folga, no mesmo dia que chegou em minhas mãos. Reli algumas das crônicas mais inspiradoras do blog e conheci muitas pérolas vindas dali. Além se ser uma distração excelente, o Já Matei Por Menos também nos estimula a pensar sobre a vida e quem nos cerca – como fazem, invariavelmente, as obras dos bons cronistas (aliás, é assim que reconheço algum):

“O meu truque é me constranger. Posso até não ter perdido a perna, mas sei que deveria e faço cara de ‘foi mal aê’ sempre que encontro alguém por quem fui apaixonada. Por sorte, não chega a três pessoas. Você pode considerar um truque primário, mas apenas uma das pessoas que já se declararam apaixonadas por mim sabe executá-lo com perfeição. Trata-se do meu ex-namorado (…). Ano passado, eu o encontrei indo para a aula do mestrado e disse algo como: ‘E aí, você era apaixonado por mim, eu te troquei por um idiota que não era nenhum príncipe italiano e agora você está aqui, levando duas pernas intactas para a aula de latim’. Ele ainda tem o agravante de ter tido câncer. Quer dizer, não custava nada morrer por mim.”
— Da crônica Foi Mal.

O segredo do sucesso na escrita de Juliana Cunha é que ela toma o mundo para si e, num emaranhando de frases interessantes (excelentes tiradas), o seu ego torna-se assunto de todos nós. A melhor definição para o seu livro é que ele trata “de seu próprio umbigo e da sujeira que se acumula em volta dele”. É basicamente isso: poderia ter sido a vida banal de uma jovem repórter, mas com grande talento e pouca idade, podemos constatar que até que vale a pena matar por menos e escrever por mais.

Quer conhecer o catálogo dessa editora? Clique aqui.

Cronista Amadora

Quer ver outros trechos que selecionei dessa obra? Clique aqui.

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13 respostas em “Matando por menos, escrevendo por mais

  1. Ótimo post. O que mais me agradou foi sua definição da Juliana; um falar de si sem perder o tema, e viceversa: “… é que ela toma o mundo para si…”.

  2. Nina, adorei a sua resenha. Acho que é bem isso mesmo o que a Ju representa, uma espécie de novo fôlego pro mundo dos blogues. Outro dia fui a uma Endossa e lá estava o Já Matei Por Menos, não comprei por uma situação muito embaraçosa que envolve um cara careca sem calças, mas esse é assunto pra outra conversa. Me surpreendi que, no índice, tem várias coisas que eu não li – e achava que já havia lido quase tudo. Enfim, temos dessas surpresas e acredito que neste fim de semana voltarei lá.
    Ah, o Gaveta de Bolso pode ser baixado pelo iTunes. Não está na íntegra, mas já dá um gostinho.
    Beijos!

  3. nina!

    tb adoro a escrita da juliana. ela brilha ponto.

    beijodebomdia p’c! =)

    iza

  4. oba, coisa linda essa editora. todas tem mais é que se reiventar e acompanhar as nuances do mundo, né?

    essa Juliana é uma coisa linda mesmo, ela escreve do que jeito que eu gosto de ler: sobre nada específico, mas sobre tudo encantador.
    beijo nina, e boa sorte com a parceria nova ;*

  5. Que resenha maravilhosa!
    Eu gosto muito do blog dela, mesmo lendo bem ocasionalmente, e gosto mais ainda de como você escreve sobre os livros que você lê. É uma mistura de paixão pela leitura, livros com a dedicação e atenção que você permitiu esse assunto fazer parte de ti, te mudar, te influenciar e a visão que você tem da história/autor quando lê o livro. Eu acho sensacional a forma que você escreve, e eu mesma não me incomodaria de um dia ler um livro escrito por ti!

  6. Caramba! Genial! Porém, mais impressionante ainda, é o carinho e a atenção da editora. Tão bom com quando o talento do artista se combina com a excelência editorial. Tô apaixonado.

  7. Claro que me interessei e muito em ler , ainda mais por ter me identificado em ela ter tido um blog, claro que não tenho o talento que ela tem, mas enfim. Ainda é um sonho meu publicar um livro *O* E a editora do livro da Juliana é realmente, pelo menos no aspecto visual, diferente das outras, já visitei o site e já vou colocar como desejado o livro Já matei por menos, espero um dia poder escrever resenha dela também ><

    Beijos

  8. Eu amo que suas resenhas me dão aquela raivinha por não escrever tão bem quanto você, e também por não poder comprar todos os livros que quero.
    Mas, enfim, com o “Já Matei por Menos” eu sempre tive uma relação engraçada… Nunca comentei lá, por vergonha. E não gosto de entrar sempre, porque quero ler vários e vários textos seguidos até encontrar onde parei da última vez.
    E gente, que site mais lindo o da editora (e o livro também)!

    Beijo “procê”, Nina! Estava com saudades de vir por aqui, com tempo pra comentar, e ler uns textos antigos. *-*

  9. adorei. Aliás, conheci o livro e a autora por meio das frases que você postou no tumblr. Foi amor à primeira vista.

  10. Adoro leituras ácidas, com frases bem sacadas. A escrita de Juliana parece seguir bem essa linha. Vou conhecer melhor o site dela.

    Só não sabia que ser blogueiro é limitar talento. Não concordo. E se ela tem blog, é blogueira… Isso de nenhuma forma minimiza seu talento. Nem mesmo significa que ela surgiu do nada. Achei meio preconceituoso esse comentário – embora sei que não foste a intenção… Sou blogueiro e não me sinto limitado… Nem tenho vergonha de ser. O fato é que não dá para estereotipar a condição de ser blogueiro e ter um blog. Hoje em dia muitos escritores famosos tem blog e isso os fazem ser blogueiro também. Carpinejar tem o seu blog e isso não diminui em nenhuma forma sua condição de escritor. Acho que é a escrita e não o estilo do site que determina o talento de alguém…

    Tirando isso a resenha é excelente.
    Beijo!!

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