Fugging

Apaixonar-se por um tipo físico é fácil, mas e quando nos apaixonamos por um nome? Para começar, é necessário topar os surrealismos de uma obra literária tal como aceitamos os “vôos” das novelas da Glória Perez. Entretanto, a vida de Colin parece mais uma daquelas notícias bizarras que nos deparamos em sites de curiosidades – só que com ares de comédia norte-americana. E é exatamente isso.
Eu não cometo o “erro” de nutrir uma expectativa demasiada quanto ao segundo livro de algum autor. Nós sabemos que John Green, aqui no Brasil, “nasceu” em A Culpa é das Estrelas (sim, a maioria só leu Quem é Você, Alasca? bem depois que a Intrínseca colocou no topo a história de Hazel e Augustus), logo, seu “segundo livro mais famoso” é O Teorema Katherine (editora Intrínseca, 302 páginas), uma obra muito diferente da emocionante saga de duas crianças apaixonadas e portadoras de doenças terminais. É bom lembrarmos que O Teorema Katherine foi o segundo livro publicado pelo autor lá fora. A imaturidade desse livro, previsível em sua maior parte, é justificada pela inexperiência de Green. Entretanto, confesso sim que é difícil para um leitor brasileiro, que viu seus livros chegarem aqui beeem mais tarde, deparar-se com uma obra-prima do YA como A Culpa é das Estrelas e perceber que O Teorema Katherine não é tão bacana assim, no quesito “narrativa” ou “desenrolar da história”. Mas existe um fato mais interessante em O Teorema Katherine que não está presente n’A Culpa é das Estrelas: a originalidade. Afinal, conhecemos muitas histórias com jovens determinados a partir mais cedo que o esperado. A temática do câncer não é uma novidade no meio literário (legal mesmo foi como John Green transformou uma história aparentemente triste em algo simbólico e até sarcástico), mas retorno para a pergunta inicial: você conhece alguém que já se apaixonou unicamente por um nome? Colin Singleton é um garoto-prodígio. Ele “nasceu” com uma inteligência acima da média, uma inteligência notável e treinada por seus pais – intelectuais bastante significativos na boa educação de Colin. A diversão favorita dele é, por exemplo, fazer anagramas (aliás, vale ressaltar aqui a tradução excelente da obra, pois não é fácil você criar anagramas em português para o nome Katherine).

“Colin odiava não ser capaz de atingir seus ‘marcadores’. Ele já odiava isso desde os 4 anos, quando o pai estabeleceu o aprendizado das declinações do latim para 25 verbos irregulares como seu ‘marcador diário’ e, ao fim de um dia, Colin só aprendera 23. O pai não o puniu, mas Colin sabia que havia falhado.”

O garoto é um adolescente recém-saído do ensino médio – e de um relacionamento conturbado e aparentemente sem volta (e quem lê YA se identifica de imediato com essa fase), mas está passando por uma crise: precisa ser gênio.

“Prodígios conseguem aprender rapidamente o que outras pessoas inventaram; gênios descobrem o que ninguém descobriu. Prodígios aprendem; gênios realizam. A maioria das crianças prodígio não se torna um gênio na idade adulta. Colin tinha quase certeza de que fazia parte dessa maioria desafortunada.”

A ideia de Colin é inventar algo que deixe sua marca na humanidade. Me utilizo de psicologia barata para afirmar algo muito claro: Colin é o adolescente que quer fazer algo “diferente” para se destacar entre os demais (tipo “inventando” o xingamento fugging, imitação de fuck, numa das explicações mais legais do livro – e nós sabemos que John Green tem como ponto alto essas invenções e descobertas de novas palavras), num momento em que todo mundo quer ser igual a todo mundo – inclusive ele mesmo, às vezes. O garoto tem a ideia de criar um teorema que prevê quando um relacionamento amoroso chegará ao fim, baseado em suas experiências amorosas. E nisso entramos no ponto principal da história: a saga de Colin Singleton e suas dezenove ex-namoradas, todas com o nome Katherine.
Os devaneios de Colin cessam um pouco quando o árabe Hassan – seu melhor amigo – propõe que ambos façam uma viagem rumo ao nada, a lugar nenhum, algo meio “vamos ser Jack Kerouac”, só que menos poético e mais atrapalhado. Eles pegam o carro de Colin e, com a bênção dos pais deste, seguem estrada afora até se depararem com uma placa curiosa: uma cidadezinha que, aparentemente, tem como principal fonte de turismo o túmulo do arquiduque austríaco Francisco Ferdinando. O nosso intelectual Colin considera o fato muito estranho e decide parar o carro naquele fim de mundo chamado Gutshot. Lá, ele e Hassan conhecem uma garota chamada… Lindsey Lee Wells – uma caipirona que lê revistas de celebridades, mas fala alemão; não se preocupa em marcar presença na humanidade, mas namora um cowboy mimado e machista que a trata como se ela fosse um pedaço de carne e, entre outras coisas, Lindsey é a personagem mais bacana dessa história. Ela vive em Gutshot desde sempre, e sua família é a mais tradicional por lá. Sua mãe é dona de uma fábrica que sustenta a pequena cidade e ambas são amadas por todos os cidadãos dali. Colin e Hassan topam passar uns tempos na casa das duas, mas precisarão trabalhar entrevistando os moradores, com perguntas do tipo “o que você mais gosta aqui em Gutshot?”, para fazer uma espécie de livro de memórias da cidade.
Á partir daí, Colin, Hassan e Lindsey tornam-se inseparáveis, sobretudo com a confiança que Lindsey transmite a Colin. Eles se tornam confidentes e Lindsey, apesar de detestar matemática, auxilia Colin em seu difícil teorema. Paralelo a isso tudo, Colin vai nos contando como conheceu cada Katherine – e como esses relacionamentos acabaram e o traumatizaram, mesmo que tenham durado dois minutos (isso lembra Alta Fidelidade, de Nick Hornby – e eu falo só do filme, pois não li o livro ainda). O teorema de Colin se divide entre “terminantes” e “terminados”. Todas as suas Katherine’s foram “terminantes”, pelo menos é isso o que Colin pensa.
O Teorema Katherine peca apenas por ter sido publicado depois de A Culpa é das Estrelas, pois esse é um romance bem escrito, com público-alvo grandioso e tem como protagonista um garoto nerd e deslocado pós-universo das líderes de torcida. É muito fácil se identificar e divertir-se com essa história que, acima de tudo, nos ensina que a genialidade pode vir das pequenas coisas, principalmente quando colocamos amor em tudo que fazemos, afinal, ser diferente é normal.

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19 respostas em “Fugging

  1. Ainda não li nenhum livro do autor, mas depois dessa postagem, decidi que lerei na ordem em que ele publicou (para acompanhar o amadurecimento do mesmo).

  2. Tenho uma má impressão do John Gree. Em algum lugar li que ele é do tipo que cria personagens inalcançáveis, romanticamente falando. Uma espécie de Disney literária. Senti agonia só com a frase “emocionante saga de duas crianças apaixonadas e portadoras de doenças terminais”. Que apelão! Assim não tem como não chorar…

  3. Esqueci de dizer: lindo o novo layout. E outra coisa, você é o único blogue “literário” que sigo porque gosto como vocês mistura coisas pessoais e impressões sobre livros. Acho que existe aqui uma harmonia legal. Fora o fato de que tenho a impressão de que você realmente lê o que resenha e ainda gosta de Saramago. Daí queria saber o que você achou dessa matéria da Folha:

    http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2013/05/1276823-blogueiros-resenhistas-chegam-a-ler-70-livros-em-um-so-ano.shtml

    Abraços!

  4. Vamos lá: eu tenho má impressão com YA em geral. Repare que a grande maioria dos personagens de YA são seres com superpoderes ou extremamente populares, com uma vida fantástica demais.
    No caso de Green, é diferente: a história de duas crianças com câncer terminal pode soar clichê, mas a narrativa dele é o que encanta o leitor. Sobretudo por dar inteligência aos seus personagens, que estão de acordo com o mundo que ele convive, dos garotos nerds. O “herói” de “O teorema Katherine”, por exemplo, é um prodígio, um garoto deslocado.
    Dê uma chance a John Green porque, mesmo sendo YA, é o melhor do YA. e isso é raro.

  5. Mariana, você é um amor de pessoa e conseguiu captar a essência desse espaço. É isso mesmo: não consigo resenhar uma obra sem colocar minha vida no meio. Por que minha vida é entre livros.
    Sim, leio tudo que chega aqui em casa, inclusive tenho demorado bastante de ler algumas obras, porque quero minha atenção focada naquele livro, e tento falar do assunto com a profundidade necessária para satisfazer o leitor/consumidor.
    Passei um pouco da fase ibero-americana, de modo que Saramago ainda é um queridíssimo, embora hoje minha vibe seja outra. Mas esse foi o autor que me inspirou a ser, além de uma leitora voraz, cidadã consciente de meus atos e falhas. Saramago foi, antes de tudo, um humanista fiel as suas crenças.
    E quanto a matéria da Folha, ainda não a li, mas já haviam me enviado esse link e gostei de ver alguns rostos conhecidos – a Taty Leite, por exemplo, responsável pela parceria de blogs com a editora Leya, é um anjo de pessoa, super alto-astral. Alguns outros dessa lista eu gosto pouco, embora reconheça a carisma.
    E fico muito feliz com o ramo de blogs literários crescendo e se desenvolvendo mais e melhor. Compartilhar conhecimento e bom gosto é sempre uma boa opção.
    Abraços.

  6. Eu fico até um pouco incomodada de entrar no seu blog e nunca poder comentar nada consistente porque não li os livros :/
    Mas vou comentar o seguinte: essa onde de personagens com doenças graves/terminais parece que se espalhou pelo mundo. Eu lembro que li na internet uma tradução livre de um romance japonês, escrito originalmente para celulares, chamado “Deep Love” (nem lembro do autor) em que um dos personagens tinha AIDS e era um dramalhão só.
    Aficionada por coisas japonesas, acompanhei alguns dramas e dois ou três deles deles acho que foram oriundos de livros e/ou biografias, e todo mundo morre de câncer.
    É uma boa receita para livros que não fazem questão de incluir sexo para fazer um bom sucesso, na minha opinião.

  7. Ainda não li nem ACEDE, mas fiquei com vontade de ler esse. Parece ser uma leitura bem leve e divertida, para limpar a cabeça e relaxar.

  8. Me sinto bem por não ter li John Green por modinha. O primeiro que li dele, foi “Quem é Você Alasca?” que sou apaixonada, e li quando ninguém nunca nem tinha ouvido falar dele por aqui… Daí fiz o inverso e li “A Culpa é das Estrelas” e depois “O Teorema Katherine”, que com certeza é o meu preferido do autor. Como você citou, nesse livro existe a originalidade, confesso que achei ele bem diferente de todos que já li, muito bom. E preciso dizer, suas resenhas são impecáveis, parabéns!

  9. Tive que dar uma corridinha rápida ao Google para saber do que se trata esse YA. Descobri que, segundo classificações, já li vários deles lá pra antes dos 18. Então talvez seja melhor deixar lá mesmo. Não sei. Mas o fato é que sempre admiro autores que conseguem levar gêneros meio “nhém nhém” pra outro nível. E sim, é ótimo que esse gênero de blogue esteja crescendo. Só fico meio preocupada com a possibilidade de se tornar um negócio como nos blogues de moda e daí ao invés de estar realmente “espalhando bom gosto”, os caras passem a criar uma espécie de padrão comercial – entende? Porque me é meio difícil imaginar alguém que trabalhe os dois períodos e leia 70 livros no ano – LER LER MESMO e não só pegando a essência.
    Enfim, talvez seja uma preocupação boba.
    Abraços. (:

  10. poxa, logo ontem fui numa livraria (daquelas com escada, cafezinho e luzes amareladas) e, no auge da inspiração, vi livros do john green nas mesinhas… eu ouço todo mundo falando de “a culpa é das estrelas”, mas ainda não pude comprar.

    confesso que me apaixonei pelas capas e espero que quando eu comprar/ganhar algum, me apaixone também pelo que vem dentro ;)

    essa resenha pareceu um mix de ‘antes de partir’ e ‘uma prova de amor’
    me animei pra ler!

  11. Nina que saudade de vir aqui!
    E eu li o Teorema e amei… o Green tem uma capacidade incrível de criar personagens e histórias fictícias de uma maneira incrivelmente real. Amo!

    E adorei o novo layout também!

  12. Achei muito boa a sua resenha, Nina, você conseguiu fazer um ótimo resumo da história!
    Muito interessante o John ter envolvido matemática e várias notas de rodapé para tentar fazer um livro que se diferenciasse. Não é tão marcante, mas é uma boa leitura, sem dúvida. Acabou que foi meu terceiro livro do John Green, então eu meio que já me acostumei com os “estereótipos” do autor – o protagonista inteligente e sarcástico, o amor do protagonista também desse jeito e um terceiro (amigo) engraçado. Com algumas variações, isso se repete nos 3 livros que já li – ainda falta Looking for Alaska, mas aposto que não foge muito…
    Enfim, vim aqui te agradecer por ter sanado uma grande dúvida minha! Eu tinha muita curiosidade em saber como a tradutora tinha feito com “fuck/fug” – e sempre esquecia de folhear um exemplar em português quando ia a alguma livraria. Daí eu descubro que ela NÃO traduziu e isso me decepcionou imensamente. Como assim, gente!? Sem querer desmerecê-la, sei que ela se esforçou bastante pra traduzir todas as gírias e trocadilhos e anagramas, mas como ela deixa um termo em inglês no meio, sendo que algumas pessoas não estão tão familiarizadas com a expressão? Espero que tenha feito sentido no contexto…
    Também não fiquei tão satisfeito com dumpers e dumpees traduzidos como “terminantes” e “terminados”, mas nesse caso não vejo muita saída mesmo.
    Beijo!

  13. Engraçado que eu estava interessada em Quem é você, Alasca? muito antes de saber da existência de A Culpa é Das Estrelas, principalmente pelo título e pela capa, que achei um luxo, aí vejo que pela sinopse o livro promete, e desde então o desejo loucamente, mas com o sucesso da estória da dona Hazel, ACEDE chegou nas minhas mãos primeiro por motivos de: 10 contos apenas. Não resisti.
    Ainda nutro esse amor por Quem é você, Alasca? e espero que eu não me decepcione quando e se um dia eu o tiver em mãos; sobre o Teorema Katherine, já amei o título, bastante convidativo, e não imaginava do que se tratava a estória, ouvi alguns comentários negativos e não fui buscar mais sobre, porém a tua resenha me deixou louca pra tê-lo em mãos, essa coisa de se apaixonar por um nome é bem a minha cara, e as dezenove Katherines, pelo amor de Deus (???).
    Certeza que vou gostar da Lindsey, inclusive; parece mesmo ser uma leitura leve e divertida, já quero.

  14. Sei que vai parecer uma repetição de palavras e impressões mas preciso sempre dizer que a qualidade das suas postagens é abismal. Não apenas me interesso pela história que divulga mas também aprendo com suas referências bem arranjadas na estrutura de seu discurso.

    Vou enriquecer minha biblioteca nesse ano usando grande parte – ou toda – de suas sugestões. Não dá pra ficar alheio a NADA que você escreve.

    Ah, o blog sente saudades viscerais suas.

    Beijão!

  15. Esse novo layout ficou simplesmente maravilhoso, Nina! E nada como retornar aqui e ler uma boa resenha, como já é de praxe, né? *o*

    Infelizmente ainda não li O teorema Katherine, mas o John Green já me conquistou com A Culpa é das Estrelas. Há algo nele tão inspirador e mágico!

    Li em um dos comentários acima que ele é como uma “Disney literária” e sobre isso não vou me posicionar, mas acredito que, sendo ou não, vale muito a pena conhecer – ao menos um pouco – os escritos dele.

    Um beijão! :*

  16. E eu amo o teu blog, rapaz. Amo tuas palavras. E sim: gostaria de ter mais tempo para visitar meus outros espaços queridos. E juro que luto constantemente com isso! Em breve aparecerei lá. Beijão!

  17. Ainda não li nada do Green, mas acho legal ler os livros na ordem em que foram escritos, para acompanhar a evolução do autor. E a primeira coisa que pensei ao pegar esse livro nas mãos e dar uma olhada nos anagramas foi “Imagine traduzir isso? Parabéns a quem assumiu essa tarefa nada fácil!”.
    bjo

  18. Oi, Nina! Eu também gostei de O Teorema Katherine, mas, como você disse, é complicado lê-lo depois de A culpa é das estrelas e não notar a diferença. Pelo menos dá pra ver como o John Green deu uma amadurecida entre esses dois livros. De qualquer forma, não costumo ler YA – li porque gostei dele, um cara carismático e tudo mais -, e foi uma boa surpresa. Bem lembrado destacar a tradução, foi realmente excelente! A Intrínseca está de parabéns! E a você, parabéns pelo blog! Beijo!

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