Cercados por cavalos altos

Caí no equívoco de constatar que “raramente” acontece de um livro se adequar tanto àquilo que estou vivendo. Digo equívoco porque, bem, isso acontece comigo o tempo todo. O livro que estou lendo sempre cai como uma luva em meu cotidiano, nem eu mesma sei como acerto tanto nessas escolhas.

Um Piano Para Cavalos Altos (editora Leya, 345 páginas), de Sandro William Junqueira, de início, pareceu-me uma escolha errada. Mas a primeira impressão é a que fica – para trás – como escreveu, certa vez, Antonio Prata. Foi mais uma leitura da excelente coleção Novíssimos, da editora Leya, que prestigia novos autores da geração de língua lusitana. Mas foi um início de livro difícil. Foi difícil adaptar-me a essa leitura, ao seu ritmo inconstante, aos personagens que iam e viam, que eu quase sempre confundia. Senti que seria ainda mais impossível resenhar esse livro. Mas todas essas impressões me parecem distantes agora.
Hoje é o término da série A Menina Sem Qualidades, da MTV Brasil. Não encontrei o livro homônimo da série em lugar algum e, mesmo que encontrasse, o preço do dito cujo não é nada camarada. Vivi uma relação de amor e ódio com essa primeira série da já tão fracassada MTV: em alguns momentos, parecia um videoclipe interminável, mas os diálogos, por outro lado, foram intensos e reveladores. O livro do Sandro William Junqueira não está muito longe disso.

Apesar do niilismo irritante da personagem Ana, ela bem que poderia habitar aquela cidade reconstruída após o desastre e cercada por muros, que é protagonista de Um Piano Para Cavalos Altos. Eu, que sou amante mais que declarada de distopias, gostei da proposta dessa obra: tente imaginar uma cidade (quase sempre) coberta de neve que passou por um trauma enorme: anos antes, fora invadida por animais selvagens – os lobos, os “cavalos altos” – e, a partir de então, tendo o Governo como parâmetro da salvação, este faz com a cidade permaneça aos seus pés – e viva diariamente sob a base do medo.

“Um mundo sem muros, sem cortinas, não é credível.
Porque não há mundo sem medos.
Os muros, as cortinas, são arquitetura do medo.
E o medo somos nós.”

Aos poucos, o leitor adentra cada canto da cidade e dá de cara com seus curiosos personagens: tem a Prostituta Anã, que acredita que Deus deu a manhã para que putas, como ela, tenham a oportunidade de dormir; tem o Médico Loiro, moço íntegro que possui um mapa corporal de acesso incondicional aos corpos de belas donzelas; tem o Ministro Calvo, excelente em ditados, quem chefia tudo e fabrica leis como quem pisca os olhos; tem a Ruiva, esposa infeliz, belíssima, que insiste que seu filho tenha habilidades ao piano – piano esse cujo som “distrai” os lobos que habitam os arredores da cidade.

“A morte, desnecessariamente, diga-se, ocupa imenso espaço físico. E é estúpido, para não dizer coisa pior, desperdiçar metros e metros de superfície com cruzes, túmulos e anjos de pedra, caixões, ossadas e crânios ocos; já não falando nas larvas.”

Nessa cidade não existe cemitério. Na realidade, ele foi substituído por uma fábrica de cremação de corpos – que parece manter a economia do local. E o enredo começa quando, anos após a invasão dos lobos, já com o governo opressor revigorando, um militar sai da cidade e é encontrado morto, aparentemente por um “cavalo alto”. Na fábrica/cemitério, um funcionário “mensageiro” previra toda a situação. E muitas outras, que ele então faz questão de comunicar, como forma de prevenção. O governo, sem acreditar no Mensageiro, prende-o e o coloca sob constante vigilância do Diretor (diretor de quê, exatamente, não me recordo).
O Diretor é marido da Ruiva, pai do garoto pianista, e esteve no massacre que traumatizou sua cidade – mas ele era criança. E seu pai, um herói.

“O Diretor tinha nove anos e ainda sonhos quando o pai lhe pegou na mão, minutos após o acidente, e o levou em passeio pelas curvas dos destroços como a um jardim de plantas e árvores raras. Com a frescura dos gritos e a exalação dos fumos da devastação, o pai obrigou-o a não fechar os sentidos. Para que o filho fotografasse com o olho da memória as sobras da fragilidade e, ao mesmo tempo, da soberba humana.”

Por não conseguir tirar nenhuma palavra do Mensageiro, condena-o ao fuzilamento em praça pública. Tortura-o muitas vezes antes, para retirar-lhe algo, para provar que é ele uma farsa. O Diretor não se sente à vontade em saber que o Mensageiro “urina melhor” do que ele, quando este é torturado. Homens, né. Mas o Mensageiro lhe põe uma dúvida a respeito de sua esposa Ruiva: ela tem um amante.
Em capítulos curtos e diretos, esse livro narra a história de um homem em busca de sua virilidade, do sexo como poema sujo, de uns que se sacrificam por muitos e de como o Governo pode cegar toda uma população fragilizada – mas jamais intuir que essa população esteja paralisada. Quem já se deparou com V. de Vingança encontrará em Um Piano Para Cavalos Altos muitas semelhanças, embora essa não seja uma distopia ao estilo de George Orwell. O final do livro, além de surpreendente, fará com que muitos de nós lembremos da recente manifestação em São Paulo contra o aumento do valor da passagem do transporte público. Leitura para o cotidiano esse livro do Junqueira. Quase um jornal do futuro.

Quer conhecer o catálogo dessa editora? Clique aqui.

Quer conhecer outros trechos que selecionei dessa obra? Clique aqui.

Anúncios

5 respostas em “Cercados por cavalos altos

  1. interessante! adorei a citação sobre os muros e cortinas, que são representações de nossos medos, afiada e pertinente!

  2. Caramba, distopias sempre fazem a gente pensar… por isso que é um dos meus gêneros favoritos. Esse parece não fugir, e tratar de temas e arquétipos super interessantes… E a escrita me parece magnífica!

    Abraços!

  3. Chega um momento em que as coisas ficam atemporais e não existe mais parâmetro de comparação. As pessoas tem dificuldade de lidar com o novo sem soluções ao alcance das mãos.
    Outra resenha impecável.

  4. “como o Governo pode cegar toda uma população fragilizada”… Com certeza me lembrou os últimos dias de manifestação no Brasil (e os muitos anos de insatisfação do povo brasileiro). Curioso.

Fale com ela:

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s