Outras vidas (que não a minha)

Existe um álbum em meu Facebook que, não por acaso, se chama “outras vidas que não a minha”. São fotos da época em que trabalhei como modelo e musicista de filarmônica. Daqui a algum tempo, talvez até minhas fotos de livraria sejam estampadas por lá.
Lembrei muito disso quando li O Escolhido Foi Você (editora Companhia das Letras, 218 páginas), livro da cineasta Miranda July. Desde que foi lançado, tive muito interesse por essa obra, gosto de coleções, vidas interessantes, e ela fala justamente disso.
Em um momento de total ausência de criatividade para continuar em seu novo roteiro, Miranda, uma mulher recém-casada (mas que ainda visitava sua antiga e diminuta casa apenas para escrever e sentir que aquele local seria sua válvula de escape caso “nada mais desse certo”), decide abrir o jornal PennySaver para ler os classificados. Para ela, era curioso deparar-se com as vendas que as pessoas estavam dispostas a fazer (girinos, Ursinhos Carinhosos, secador de cabelo…). Como uma coisa puxa a outra, Miranda constatou que também seria bacana entrevistar essas pessoas que publicavam anúncios no PennySaver. E aqui vamos nós.

Da procrastinação, nasce a inspiração. Miranda acreditava que a cura absoluta para o seu bloqueio criativo era o contato “olhos nos olhos”, “cara a cara”. Ela precisava sair da internet para ver pessoas de verdade, pessoas da vida cotidiana, gente de carne e osso, gente bastante próxima dela.

“As coisas fora da rede tornavam-se mais distantes de mim, e tudo dentro dela parecia relevante ao extremo. Blogs de estranhos precisavam ser lidos todos os dias e pessoas próximas, sem presença no ciberespaço, tornavam-se quase figuras de desenho animado, como se faltasse nelas uma dimensão.
(…)
A maior parte da vida está off-line e acredito que sempre estará; comer, sentir dor, dormir, amar são coisas que acontecem no corpo. Mas não é impossível me imaginar perdendo interesse por essas coisas; elas nem sempre são fáceis, e tomam muito tempo. Daqui a vinte anos, estarei entrevistando o ar, a água e o calor, só para me lembrar de que um dia eles tiveram importância.”

Miranda lê o anúncio de um homem que está vendendo sua jaqueta de couro. Entra em contato com ele e pergunta se pode entrevistá-lo. Ele aceita, marcam a data.

“Eu quis saber mais a respeito do que pensava essa pessoa da jaqueta de couro, como ela passava seus dias, com o que sonhava, o que receava – mas nenhuma dessas informações constava lá. O que constava era o telefone dela.”

A autora, no entanto, se surpreende com o fato de que Michael, o homem da jaqueta de couro, tinha um perfil bem diferente do que ela imaginava:

“A porta se abriu e lá estava Michael, um homem de sessenta e muitos anos, troncudo, ombros largos, nariz de batata, uma blusa fúcsia, peitos, batom cor-de-rosa.”

Michael está a caminho de sua mudança de sexo. Miranda percebe que as perguntas que tinha anotado em um papel seriam inúteis para uma ocasião como aquela. Era necessário improvisar. A partir daí, o leitor percebe que o improviso será o tipo de atitude frequente com as personas que Miranda encontra.
Cada entrevistado acrescenta algo na vida da autora, de quem a acompanha (a fotógrafa Brigitte Sire e um assistente) e também na vida do leitor. Já na segunda entrevista é possível se emocionar com a história de uma senhora que vende sáris para salvar uma aldeia na Índia.

“Perdi minha irmã de forma trágica, de câncer, há alguns anos. Ela teve câncer de cólon, quarto estágio. Tinha trinta e cinco anos e quatro filhos pequenos. Não queriam dar o visto para ela vir aos Estados Unidos, e ela estava no último mês. Eu falava com a embaixada na Índia e era sempre não, não, porque eles não acreditavam; ela parecia tão saudável, daí eles não acreditavam.
Era Ação de Graças aqui nos Estados Unidos. Então eu acordei e pensei: Vou falar com o funcionário mais graduado. O nome dele era Tom Fury, ainda me lembro. Era toda aquela hierarquia de gente. Finalmente ele veio ao telefone e eu disse: ‘Sr Fury, eu só quero lhe dizer uma coisa. se minha irmã não conseguir, eu ficarei em paz porque fiz tudo o que podia. E ela sabe quanto eu a amo. (…) Quem quer que tenha sido um instrumento para negar a ela esta última oportunidade terá de viver com isso pelo resto da vida e terá que responder por isso no Dia do Juízo Final.’
(…)
Às duas da manhã, o telefone tocou. Era minha mãe, da Índia: ‘Primila, você não vai acreditar. Ligaram da embaixada. Concederam o visto para a família inteira’.”

Miranda percebe o quão é efêmera sua existência diante de tantas outras pessoas que lutam diariamente para terem um mínimo de felicidade – algo que a maioria de nós realiza, é verdade, mas os personagens encontrados por ela são um tipo melancólico que esbanja poesia. Em outras palavras, através da literatura, é possível encontrar significado para essas pessoas, ou ao menos é possível entendê-las melhor.

Domingo é um homem feito, mas sua vida não parece estabilizada, “realizada” da forma convencional que a sociedade impõe. Sendo assim, ele coleciona imagens de outras vidas: de carros a garotas bonitas, casas que ele queria ter, mulheres com as quais ele gostaria de casar, filhos que ele gostaria de conceber.

“Supus que ter quarenta e cinco anos pareceria a ele absolutamente implausível, considerando que não tinha mulher nem filhos nem emprego, nenhum dos acessórios da passagem do tempo como eles são descritos para todos nós.”

A maior parte das pessoas entrevistadas por Miranda se mostram extremamente pacatas do tipo de tecnologia que usufruímos hoje. Computadores não são utilizados, a vida simples é cultivada, daí um desejo enorme de conversarem com estranhos, tanto quanto Miranda deseja conversar com eles. O computador parece artigo de luxo, não faz parte de suas rotinas. A internet lhes é distante, alheia.
Encontrando-se com estranhos, quem mais se apresenta no livro é a própria Miranda. Aos poucos o seu perfil é traçado, quase que despropositadamente. Vemos uma mulher que passou dos trinta e calcula a importância da formação de uma família e se filhos, nesse momento, realmente são relevantes.

“Todo o meu tempo foi gasto calculando o tempo. Enquanto eu ouvia pessoas estranhas e tentava pacientemente ter fé no desconhecido, eu também me perguntava quanto tempo aquilo ia levar, e se alguma coisa realmente tinha mais importância do que ter um bebê. O senso comum dizia que não. Nada era mais importante do que ter um bebê.”

Na tentativa de continuar um roteiro, Miranda estampa um novo roteiro – a história do seu próprio futuro, de como acontecimentos marcantes interferem na vida de muita gente, de como outros parecem mais importantes do que nós. A última pessoa que Miranda entrevista é uma grata surpresa, sobretudo para ela mesma.
Essa é uma biografia de gente comum, mas, ainda assim, muito diferente do que possivelmente somos. Pode não parecer uma proposta original – talvez realmente não seja – mas a composição de outras existências nos acolhe, nos faz pensar que não estamos de todo só no mundo.
Em tempo: Miranda precisava criar o roteiro do seu filme O Futuro. Em uma cena deletada, divulgada no Youtube, ela encena um manual prático de como evitar as distrações tecnológicas. Veja abaixo:

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11 respostas em “Outras vidas (que não a minha)

  1. Ta aí um livro que eu gostaria de ler!
    Hoje mesmo estava imaginando a vida sem internet… Um dos poucos planos que tenho para minha vida é sair da cidade, sabe? Viver num lugar mais afastado, sem comércios grandes, sem internet, se nada. haha Acho que é meio loucura, mas gostaria de viver mais, ver mais a vida, observar mais o “mundo real”. Acho que esse livro ia me servir de guia. Seria bem vindo! rs

    Beijão, Nina!

  2. Eu me identifiquei bastante com a Miranda, quando eu não estou muito inspirada e com um bloqueio criativo terrível, preciso ver gente, ficar longe do computador. Quanto mais fico presa e pensando nisso, é ai que não sai nada mesmo.

    Adoreei a indicação do livro!
    Beijoos

  3. Poxa que legal. E não sei se é engano meu mas o Michael já não apareceu em algum lugar na TV? Não sei porque me lembro da imagem dele, só não sei onde.
    Muito bonito esse trabalho, e excelente seu post!
    Beijos

  4. Nina, esse livro parece ser não só interessante, mas lindo! É até emocionante pensar em tudo o que o livro contém e a mensagem que ele pode nos passar. Espero poder lê-lo em breve! Continue recomendando boas obras literárias assim, você tem um ótimo bom gosto (e provavelmente já deve saber disso, mas, mas…)

    p.s. Seu blog tá lindo! <3

  5. Oi, Nina!
    O primeiro contato que tive com Mirando July foi justamente assistindo esse vídeo da procrastinação – mas nunca tive coragem de fazer algo assim haha
    Depois, lendo uma resenha em blogs alheio, encontrei justamente esse filme O Futuro!
    Interessante que desde então tenho visto o nome Miranda July em livrarias, em filmes, em blogs; é como se uma porta desconhecida tivesse se aberto para mim.

    ah, tenho que confessar: resolvo o cubo mágico mas com ajuda das fórmulas. Só sei revolver até a metade sem elas hahaha
    adorei o novo formato do blog :)
    beijos,
    ceci

  6. Que lindo Nina!!!
    Adoro demais o jeito que você faz resenha, me faz querer ter todos os livros que já escreveu sobre eles!
    Boa semana <3
    lelusantos.wordpress.com

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