Um novo mundo, não muito diferente do nosso

Eu não gostava da Liliane Prata.
Na época em que eu ainda lia revista Capricho (e a Capricho não era tão dotada de bandas ruins como ídolos absolutos e meninas cujo poder aquisitivo é anos-luz mais elevado que o meu), o Antonio Prata (filho do Mario Prata – que também é amor – mas com nenhum grau de parentesco com a Liliane) estava saindo da revista. Eu não leria mais suas crônicas que traduziam minha transição infância/adolescência. Se eu quisesse ler Antonio Prata dali por diante, teria que buscar um jornal sério. Teria de ler suas crônicas sérias e, no ápice dos meus dezesseis anos, eu não estava preparada para aquilo.
A Liliane Prata tinha uma coluna lá para o meio da revista, enquanto eu sempre começava a dita cuja pelo final, quando a crônica do Antonio aparecia. Depois que o Antonio se despediu (era um dia chuvoso, eu ainda estava na banca, com os olhos cheio d’água, juro), no mês seguinte, quem roubou o lugar do Antonio?
Ela.
Eu não perdoaria jamais aquilo.
Até parece. De fato, deixei de comprar revista Capricho, já que passou a ter sentido nulo em minha vida. Fui ler outros periódicos femininos, alguns que supriam aquela ausência, mas sem muito êxito. Para todos os efeitos, nunca fui o tipo de pessoa que desiste fácil. Sempre tento encaixar a linha no buraco da agulha, mesmo que já esteja nervosa. Também sou assim com minhas leituras. Li Clarissa, do Érico Veríssimo e detestei. Mas isso não me impediu de ler Olhai os Lírios do Campo e gostar imensamente do autor. Comecei Clarice Lispector errado, com A Paixão Segundo G. H. (que abandonei), mas Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres é um dos títulos brasileiros que mais amo. Logo, mesmo que a Liliane fosse uma destruidora de lares no amor da minha infância/adolescência, os anos passaram e já estava na hora de perdoá-la. Pois bem.
Daí que Liliane acaba de lançar O Novo Mundo de Muriel (editora Planeta, 326 páginas), uma obra muito fora do comum para o público juvenil. Uma obra sobre como o ser humano precisa se adaptar às diferentes realidades – mesmo que essa realidade seja contra os seus princípios.
Muriel é uma garota comum, de dezesseis anos recém-completados. Filha de músico e bailarina, ela parece se desviar desse universo artístico, deseja um futuro na área jurídica, portanto. A garota teve uma festa de aniversário super bacana, mas ainda vive carregada com o pesadelo de ter beijado pela primeira vez um garoto – e ela nem sabia se gostava mesmo dele.
É impossível não se identificar com Muriel. Apesar de um nome tão pouco óbvio e singular, é necessário que voltemos a ter dezesseis anos para compreender a personagem. Nem todo primeiro beijo é tão interessante. Por conta disso, Muriel pensa que é um pouco anormal, que talvez ela goste de namorar, mas não da atividade do beijo. Sinceramente: quem nunca?
E ainda tem a escola dela: todos os seus amigos, os estudos que ela precisa completar (a garota estuda muito, feito uma louca. Sua determinação é passar no vestibular antes de completar o ensino médio). Todo esse universo da Muriel remete ao tempo em que as preocupações eram outras, porém não tão vastas. Aliás, muito menores do que as que temos hoje.
Mas o livro começa exatamente quando esse mundo some. Numa noite, Muriel levanta de sua cama e vai até o banheiro. Quando abre a porta, percebe que há uma floresta imensa em sua frente. A garota leva um susto muito grande, olha para trás e não enxerga seu quarto, que sumira. O que resta? Seguir em frente, apesar da chuva forte, de ser ainda noite e do medo terrível.
Logo Muriel chega a uma aldeia – homens e mulheres seminus, vivendo como índios, um local com excesso de natureza, porém nenhum conforto que a própria Muriel conheça. As pessoas não parecem se importar com aquela menina suja e estrangeira. Com a fome falando mais alto, Muriel parte em outra direção, a fim de procurar comida. Apesar de ser um lugar estranho, ela entra em fascínio quando vê as flores e as frutas, tudo muito colorido e mai vivo que seu local de origem. Até os animais eram diferentes ali.

“Eram bichos pequenos, com uma língua enorme. Logo, centenas desses bichinhos pousaram sobre o chão, lambendo a terra, que foi ficando mais seca. Parada, eu observava a estranheza daquilo: nunca tinha ouvido falar de bichos que lambessem a terra molhada de chuva. Não me aproximei deles, com medo de serem venenosos, e fiquei parada por algum tempo, observando o trabalho daqueles pequenos seres. Poucos minutos depois, todos eles escureceram, voaram e grudaram nas cascas das árvores, ficando totalmente camuflados, quase invisíveis. Então, me dei conta de que a terra já estava normal novamente e voltei a andar.
Assim que tivesse a oportunidade, eu pesquisaria no Google que insetos linguarudos eram aqueles.”

Muriel sofre algumas aventuras até voltar para a aldeia que encontrara. Os habitantes a aceitam e lhe dão uma função: ela auxiliará na comida. É aí que Muriel conhece Kajaia, sua primeira amiga. Kajaia lhe ensina algumas palavras, pois o idioma daquele lugar era totalmente desconhecido para Muriel. A garota descobre que o nome daquele mundo é Landim – e ela vive em uma das aldeias desse lugar. Mas nem todos em Landim são bons, solícitos e generosos com o próximo. E Muriel conhecerá a fúria dos homens bem de perto. Ela ainda precisa lidar com sua enorme vontade de voltar para casa, de descobrir como foi parar naquele mundo – e o por quê de alguém do seu mundo estar aparecendo naquele novo local. São questionamentos diversos a serem respondidos no decorrer da obra.
O Novo Mundo de Muriel é um livro que requer atenção e comparação. O mundo para o qual Muriel vai nem sempre foi tão diferente assim da Terra. E hábitos que hoje consideramos comuns e/ou anormais podem ter outro significado quando nos confrontamos com outra cultura.

“Quando tentava ver o mundo da mesma forma que eles viam, eu entendia melhor e era entendida. Não é que havia ‘leis gerais’ explicando o funcionamento do mundo: usar dinheiro era sinônimo de progresso, oráculos eram atraso. Simplesmente não havia leis gerais que definissem o estágio de uma sociedade: essas leis eram definidas pelas próprias sociedades que se diziam avançadas e, claro, diziam também que as sociedades que não seguiam essas leis eram atrasadas…”

Não existe cultura superior a outra. É essa mensagem que o livro inteiro nos passa – e que os adolescentes de hoje precisam aprender e apreender mais do que qualquer um. Se a cultura do próximo não nos afeta, não mata ninguém, o outro merece ser livre e pensar diferente tanto quanto nós mesmos.
A escrita da Liliane é do tipo que mantém o suspense na medida certa. Ela tem humor de sobra e muito amor também (óbvio que a Muriel se apaixona por alguém que vive em Landim). A única parte ruim é que o final deixa um tipo especial de lacuna, uma vontade de “preciso ler mais”. Será que vai ter continuação? Tomara.

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12 respostas em “Um novo mundo, não muito diferente do nosso

  1. Ai, Nina, também sou leitora capricho da época do Antonio Prata. E ia mesmo direto pra página final da revista (nesse tempo eu era assinante e sempre foi o que mais me interessou na revista haha). Parei de ler quando ele saiu… E eu gostava das crônicas da Liliane, mas não tanto.

    Enfim, não sabia que ela escrevia coisas maiores e nem sabia sobre esse livro. Parece até interessante, principalmente se dá pra tirar uma mensagem maior e se a escrita dela é tão boa mesmo. E meu primeiro beijo foi horrível mesmo, logo, me identifiquei. ahsuhauhsa

    Se tiver oportunidade, gostaria de ler. ^^
    Beijos!

  2. Eu lia Capricho quando era das grossinhas com capas que eram o nome Capricho, a modelo posando em um fundo monocromático e as matérias na capa em letra Arial Bold.

    Não pude deixar de imaginar Nárnia quando li a resenha. Nárnia sem o cenário nórdico, sem castores falantes (não bastava o do Colgate Herbal!?), sem centauros. Confesso que ainda tenho um pouco de preconceito com literatura brasileira. Mas espero amadurecer nesse quesito.

  3. Pingback: Três Viúvas | Liliane Prata

  4. Bons tempos da Capricho. Sabe que eu não gostava do Antônio nessa época? Achava tudo meio bobo. Acho que eu já era grandinha demais pra capricho. Hoje sou apaixonada pelas crônicas dele :)

  5. Essa sua resenha até me deixou com vontade de ler o livro! Vou até ver se consigo ler (minha lista de livros pra ler é do tamanho do universo haha). E nunca fui leitora da capricho, nem de qualquer outra revista juvenil, na verdade. xDD

  6. Continuando só porque meu comentário foi cortado (tinha um beijos ;* logo embaixo) e sem o link do blog. :~

  7. Pingback: E eis que meu segundo livro pela Planeta está saindo! « Página da Cultura

  8. Sobre a capricho, odeio a revista. Sempre odiei e sempre odiarei, pois representa praticamente tudo que eu odeio na juventude atual. Sobre a Liliane, nunca li nada dela, mas pretendo dar uma chance, acho muito legal ver literatura brasileira moderna de qualidade, muito legal mesmo. Valeu a dica :)

  9. Olha, comigo foi o contrário. Sempre fui fã da Liliane Prata na Capricho, e não lia Antonio Prata. Hoje, necessito ler sempre Antonio Prata. Adorei sua resenha. Quero logo esse livro.

  10. Confesso que, diferente de você, ou melhor, em outro estágio, eu parei de ler a Capricho justamente porque a Liliane Prata havia “fechado” sua coluna na revista. Sempre a admirei como escritora juvenil, e quando comecei a escrever crônicas, me inspirava muito estilo descontraído e objetivo dela, cheio de humor. Contudo, fora seus artigos na Capricho e em seu blog, só tinha lido 2 livros dela: O diário de Débora 1 e 2, e confesso, os achei bem bobinhos. O novo mundo de Muriel parece uma literatura, embora juvenil, muito mais completa e profunda, que me chamou muita atenção. Adoro suas resenhas, você consegue nelas mesclas perfeitamente as sensações transmitidas pela leitura e suas características. Beijos =*

  11. Pingback: Duas perdas | Sobre Fatalismos

  12. Pingback: Duas perdas | Cronista Amadora

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