Muitas paralelas em bumerangue

Ainda lembrando Antonio Prata, no tempo em que ele escrevia na Capricho, em uma determinada crônica, as marias-canetas adolescentes foram avisadas de que Antonio viajaria. Xangai foi seu destino, logo ele, que nunca “pagou pau” para o Oriente. Engraçado como a vida dá voltas. Você pode odiar a Hello Kitty eternamente, não ver diferença entre pessoas de olhos puxados, não se conformar com o fato de que aquele povo lá come cachorro (ou gato). E daí você faz as malas e vai para a China escrever um livro. Que vida dura, hein?
Comigo foi quase a mesma coisa. Tudo bem que hoje leio Murakami, Kawabata, Ishiguro (e consigo escrever esses sobrenomes já sem errar uma letra), mas houve um tempo em que, além de eu detestar best-sellers, também odiava escritores norte-americanos (pedantes, muito pedantes) ou de países longínquos. Tipo um tal de Khaled Hosseini que, além de ter nascido em Cabul, radicou-se nos EUA e escreveu um best-seller que se tornou filme – o jamais lido por mim – Caçador de Pipas.
Quando a editora Globo me enviou O Silêncio das Montanhas (Khaled Hosseini, 350 páginas), torci o nariz e fiz careta, pois eu não suportava a ideia de ser obrigada a encarar um futuro mais vendido. Quando o livro chegou em meu local de trabalho, vi logo que não venderia, pois a competição estava ferrenha: Inferno, de Dan Brown, contra Para Sempre Sua, da Sylvia Day. A “capinha sem graça” de O Silêncio das Montanhas não alcançaria o sucesso do término de uma trilogia ou de um autor mais que consagrado.
Ledo engano. Estou de férias e, hoje, O Silêncio das Montanhas é o segundo livro mais vendido de minha livraria. Perde apenas para o Dan Brown mesmo, fazer o quê.
Mas enfim. Não vai ser fácil falar dessa obra – tão singular, complexa e inesquecível. E enganadora também. A orelha profetiza “um romance épico que atravessa seis décadas, quatro países e conta a história de dois irmãos”, sendo que é muito mais do que isso.
Pari e Abdullah vivem em uma aldeia, distante de Cabul, na década de 50. São irmãos. Pari é a mais nova, sempre protegida por seu irmão, Abdullah. Entretanto, o vínculo desses dois é incomum – uma amizade verdadeira (e quase incestuosa) paira sobre essa família tão pobre e agredida pela vida semi-miserável. O livro começa com o pai dos dois contando a fábula de um monstro terrível que leva embora criancinhas, tirando-as de suas verdadeiras famílias, e ninguém sabe o que lhes acontece depois. No capítulo seguinte, Pari é vendida para uma família rica, a família Wahdati – composta por um homem fechado e uma poetisa, Nila, uma mulher à frente de seu tempo, cuja beleza não é maior que seu constante desequilíbrio emocional e psicológico. Quem narra parte da infância de Pari em sua nova existência é Nabi – cozinheiro e motorista dos Wahdati, também tio de Pari. Pari (como a cidade, mas sem o “s”, que significa “fada”, como sua mãe adotiva gosta de informar a todos) cresce com uma nova identidade, vai morar com a mãe na França e não se recorda de que, um dia, teve um irmão, uma família pobre, outra vida.

“Não consigo deixar de ver duas pessoas juntas por uma questão de dever genético, fadadas a surpreender e decepcionar uma à outra, tendo como ponto de honra desafiar uma à outra.”

O livro não tem um personagem fixo. Nabi, por exemplo, não parecia ninguém – apenas mais um empregado, um figurante – mas então ele escreve uma carta para Markos, o médico grego que vive em sua casa e, mais cedo ou mais tarde, Markos também tornar-se-á protagonista dessa história. A narrativa prende de maneira assustadora. E é exatamente assim que funciona a linguagem de Hosseini: todos são importantes para compor a colcha de retalhos que é uma história. Quem estava apenas caminhando ali na esquina pode alterar a vida de quem agora escreve num diário e observa a paisagem da janela de um restaurante. Esse fluxo de “muitas paralelas em bumerangue”, frase proferida pelo médico Markos, além de encantador, mantém o leitor em um labirinto no qual tudo se encaixa – mesmo que nada tenha resolução.

“Uma história é como um trem em movimento: não importa onde embarquemos, cedo ou tarde estaremos fadados a chegar ao nosso destino.”

O Silêncio das Montanhas apresenta vidas de gente que passou a existência com uma cicatriz no rosto – sendo desconsiderada pela sociedade, vista como monstro, alguém de quem temos vergonha. Conta a história de uma mulher muito linda que, após um acidente, perdera toda sua beleza e perspectivas. Narra a trajetória de um homem que quer ajudar o próximo – mas talvez muito mais por inveja de outros do que consideração de fato. É a história de um cirurgião que queria ser fotógrafo. De um homem confinado a uma paixão por outro homem. De gente que perde gente. De gente que se encontra. De gente que descobre um passado que não sabia ter.
Pari e Abdullah são apenas os pontos comuns de tantos outros personagens interligados a eles (e/ou à sua família). Para quem, assim como eu, nunca leu Hosseini, vai incomodar, no início, o excesso de palavras estrangeiras, típicas do Afeganistão. Mas afinal, a cultura é outra e, ao longo do livro, o leitor se acostuma aos estrangeirismos.

“Se a cultura era uma casa, a linguagem era a chave da porta que conduziria a todos os quartos interiores. sem isso, dizia, acabamos sem rumo, sem uma casa adequada, sem uma identidade legítima.”

Esse livro é um mapa, algo muito imagético e fascinante. Acima de tudo, bem construído. É sobre valores, poderes, ausências e como as escolhas de um ser humano são capazes de alterar toda uma geração subsequente. Uma história na qual o próprio tempo é protagonista, disfarçado em outros nomes. Nomes próprios, em exílio. Concordo absolutamente com a constatação de Pari, já no fim do livro: “O tempo é como um encantamento. A gente nunca tem quanto imagina”.

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8 respostas em “Muitas paralelas em bumerangue

  1. Mais uma resenha muito bem feita, parabéns!
    Uma história que com certeza me prenderia muito. A capa é sem gracinha mesmo, mas isso é o de menos se a história for boa. Não me interessei por Inferno apesar de mta gente estar comentando. O silência das montanhas é novidade pra mim, não escutei comentários ainda.

  2. Nem preciso dizer que fiquei morrendo de vontade de ler o livro, não é mesmo? Me encantei com a história e com a escrita de Khaled Hosseini desde o primeiro livro que li dele. O Silêncio das Montanhas parece ser aquele tipo de livro que faz você refletir, o tipo de livro que de fato carrega uma lição e algumas mensagens por entre o desenrolar da história em si.

    Mais um livro para a enorme lista de desejados! haha (:

  3. Nossa, Nina! Não sabe o que perdeu evitando Khaled só por ser Best Seller.. Eu fico com preguiça de bestsellers que engrenam sem sentido nenhum, tipo 50 tons de cinza. Mas antes de pegar birra, sempre procuro saber o que é. Algum motivo tem pra virar Best Seller. Li o Caçador de Pipas e gostei muito, mas A Cidade do Sol é um dos melhores livros que li na minha vida. E mal posso esperar pra ler O Silêncio das Montanhas. Que bom que gostou! Leia Cidade do Sol quando puder. Vai por mim. ;)

  4. Vou ser polêmica e confessar que tinha (ou tenho ainda) um super preconceito com o Khaled Hosseini, por causa do Caçador de Pipas – que não li, mas caí na besteira de ver a adaptação do Marc Forster para o cinema. Foi o filme (filme?) mais cheio de clichês e inacreditavelmente ruim que já vi na vida. O que me levou a acreditar – talvez erroneamente – que o livro seria também tão ruim.

    Mas levei fé no O Silêncio das Montanhas sim. Preconceitos existem para serem superados, certo? :)

  5. Assim como você, eu também tinha esse olhar meio-de-lado pros orientais. Até que, nesse semestre que passou, tive que ler “As boas mulheres da China” (não lembro o nome da autora agora, justamente por ser chinês – eu não consigo lembrar, rs) pra fazer uma prova de Radiojornalismo, na faculdade. Não sei se você já leu (caso não leu, leia, vale muito a pena), mas eu fiquei simplesmente encantada com as histórias, mexeu bastante comigo. Fiquei com muita vontade de ler esse também, a resenha me deixou curiosa!
    Beijinhos

    Hipérboles
    @hiperbolismos

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