Quando o casamento mata

Anel do humor, pular ondas, lingerie da sorte, gato preto, passar por baixo de uma escada. Não me lembro de ter utilizado nenhum desses artifícios e/ou artefatos para prevenir ou atrair um assalto. Só sei que Garota Exemplar é um livro azarento.
Digo isso porque ele estava em minha bolsa na noite em que fui assaltada, semanas atrás, voltando do trabalho.
O rapaz se aproximou de mim na ladeira, oito e meia da noite, dia anterior a mais um jogo da Copa das Confederações (aqui em Salvador), faca na mão, anunciação, eu corri, gritei. Mas ele pegou minha bolsa com uma vida inteira dentro (celular, dinheiro, carteira com todos os mais importantes documentos, cartão do banco, batons recém-comprados na revista Avon e ainda não-pagos e, por fim, o livro).
Ainda tentei correr atrás do meliante, enquanto os moradores do bairro me ajudavam, mas o cara corria que nem Tom Cruise nos filmes de ação (ou quenianos na corrida de São Silvestre). Não tive chance. Entretanto, voltando desesperada da delegacia, descubro que minha bolsa foi entregue na casa dos vizinhos que me ajudaram. E com tudo dentro. Alguns moradores encontraram o ladrão e “fizeram justiça com as próprias mãos”, seja lá o que isso signifique.
Tudo dentro, inclusive meu livro, mais amassado e semidestruído do que quando veio, já sofrido dos machucados dos Correios.
É, eu sei: um milagre. Mas deixou sequelas. Apesar de eu ter sofrido apenas um machucado no pé esquerdo, não consigo sair sozinha à noite. Escureceu, preciso ficar em casa. Só saio depois das seis acompanhada do meu marido. Fui assaltada muito perto de onde moro. E o rapaz continua solto.
Mas enfim, Garota Exemplar (Gillian Flynn, editora Intrínseca, 446 páginas), é um livro azarento para Nick Dunne – o personagem principal da trama. Nick está perto dos quarenta anos, é casado com Amy Elliott e, quando o livro começa, eles estão naquela crise de relacionamento desgastado, apesar de já terem vivido uma espécie de conto-de-fadas.

 

“É um tanto perturbador recordar uma lembrança calorosa e sentir-se profundamente frio.”

Nick e Amy estão casados há cinco anos. Quando eram jornalistas, moravam em Nova York. Porém, com o boom da internet, ambos foram demitidos e quase chegaram a falência – não fosse o fato de Amy ser rica, filha de psicólogos que se inspiraram na filha para criar a série de livros infantis Amy Exemplar. A mãe de Nick fica doente, e eles decidem mudar para o Mississippi, onde a família dele mora (além da mãe, a irmã gêmea Go e o pai – um homem egoísta, machista, internado num asilo aos cuidados de mulheres que ele carinhosamente apelida de “piranhas” vinte e quatro horas por dia, como fez com sua esposa e filha a vida inteira).
Nick agora é dono de um bar, junto com sua irmã Go – empreendimento financiado por Amy. Ele também é professor na universidade local. Amy passa os seus dias escrevendo testes de personalidade (estilo “será que o gato que eu peguei na balada vai me ligar no dia seguinte?”) e sendo a dona-de-casa exemplar que todo marido espera encontrar ao retornar do trabalho.
Mas nada é o que parece.

” – Você simplesmente não entende, Amy. Simplesmente não entende. Eu trabalho desde que tinha catorze anos. Eu não fui para uma porra de acampamento de tênis, acampamento de escrita criativa, não fiz curso para admissão à universidade e toda essa merda que aparentemente todo mundo em Nova York fez, porque eu estava limpando mesas no shopping e aparando gramados e indo para Hannibal e me vestindo como Huck Finn para os turistas, cacete, e estava limpando as panelas de funnel cake à meia noite.
Sinto vontade de rir, na verdade de cair na gargalhada, uma grande gargalhada visceral que conquistaria Nick, e logo ambos estaríamos rindo e a discussão estaria terminada. Aquela litania de trabalhos vagabundos. Ser casada com nick sempre me faz lembrar: as pessoas têm de fazer coisas medonhas por dinheiro. Desde que estou casada com Nick, sempre cumprimento pessoas vestidas de comida.”

É o aniversário de cinco anos de casamento dos dois. E, como é a tradição de Amy, ela prepara uma caça ao tesouro para Nick. Caso ele siga todas as pistas, chegará a ao presente que simboliza sua união. Mas, quando Nick volta para casa de mais um dia de trabalho em seu bar, descobre que a porta está escancarada, há sinais de luta nos principais cômodos – móveis revirados, objetos quebrados – e Amy, sua esposa, não se encontra no local.
Nick chama a polícia, mas é claro que a suspeita primordial cai exatamente sobre o marido. E o pior: a casa, a rua, o bar, os vizinhos – tudo leva a polícia (e o leitor) a acreditar que Nick é o culpado do desaparecimento de sua esposa – e, talvez, tamanho crime tenha sido assassinato.
O livro é dividido em três partes. Na primeira delas, você acompanha capítulos alternados entre Nick e Amy. Nos capítulos narrados por ele, o rapaz se encontra no presente, desde o dia em que Amy desaparecera. Nos capítulos narrados por ela, eis o diário de uma esposa doce e apaixonada, cujo interesse principal é fazer renascer a chama de seu relacionamento em crise. Não à toa, “o casamento mata” é a melhor frase que define a obra.
Na segunda parte do livro, a dinâmica de “ela disse, ele disse” continua, com o diferencial de que ambos estão no presente. E é exatamente como a Heloiza Daou comentou na 2º Turnê da Intrínseca: quando você lê o capítulo da Amy, dá para ter certeza de que Nick é o culpado. Mas, ao acompanhar os capítulos de Nick, fica óbvio que Amy é louca. A intenção de Gillian Flynn, a autora, é deixar o leitor em um labirinto – aparentemente sem saída, olhando para todos os lados, tateando no escuro, com medo de pisar em falso. Você só consegue entender esse casal à beira do abismo caso entre na pele de um para interpretar o outro. Não mais que isso.
Eu não levava muita fé nessa obra pois, assim como a Anica, me interessei pelo livro porque, aparentemente, ele desbancou Cinquenta Tons de Cinza lá fora. Mas a obra de E. L. James é tão ruim que eu só esperava semelhanças entre ele e Garota Exemplar. Ainda bem que me enganei. Flynn escreve muito bem. O tempero dela é o sarcasmo, em sua narrativa existe a junção da linguagem coloquial com algo pouco mais sério, erudito. Isso aproxima o leitor do cenário. Reese Whiterspoon, a atriz queixuda (detesto ela só por esse queixo), comprou os direitos do filme para o cinema. Não sou especialista em literatura policial com forte apelo psicológico, mas Garota Exemplar é uma distração que faz o leitor pensar, tentar resolver e não se intimidar com os empecilhos do caminho. E não vai te deixar dormir. Pode acreditar.

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9 respostas em “Quando o casamento mata

  1. Nossa, realmente um milagre isso ter acontecido! Que bom que isso aconteceu, agora vamos torcer para que consigam pegar este homem. Tu disse que agora quando escurece já tem que estar em casa, já eu sempre fui assim. Nunca aconteceu nada que me traumatizasse, sempre morei no interior onde as coisas são relativamente tranquilas, mas eu nunca me senti confortável na rua sozinha. As vezes tenho medo de sair até de dia sozinha, vai saber. De qualquer modo, vale a pena se cuidar um pouco mais a partir de agora e rezar para que episódios como esse não se repitam contigo!

    Já vi esse livro várias vezes pelo Skoob e em outros blogs, mas nunca li sobre ele. Lendo a sua resenha, achei super interessante. Diferente de tudo que eu imaginava que poderia ser! Assim que tiver a oportunidade, comprarei o livro para ler.

  2. Nossa que horror esse assalto! Dá medo mesmo né? Eu moro sozinha em SP, tbm fico com medinho, já fui roubada, mas nunca assaltada, então arrisco bastante. Pego onibus a noite, saio, volto tarde. Enquanto ainda tenho coragem né?

    Mas me deu uma saudaaade de ler livros assim. Faz tempo que não saio dos de crônica ou da faculdade mesmo.
    bjocas.

  3. Nossa amiga, que tensão. Me senti na sua pele. Lembrei do fatídico dia em que após sair do Pelô fui assaltado no Barroquinha em plena 23h da noite (o que fazia lá né? e esse horário? rs) e se não fosse a chegada providencial do busão, sabe Deus o que seria de mim.

    Fiquei atemorizado agora, ao reler este teu depoimento. Salvador tem seus encantos, mas é triste conviver com situações assim, tão naturais daí – como em todos os lugares, porém com a grave condição de ser uma cidade muito turística.

    A gente acaba afetado. Eu te entendo. Eu te sinto e sei o quanto ficamos feridos ao nos sitiarmos em casa, no nosso mundo, por conta de ocasiões assim. Também me afetei e nem sei como me comportarei ao andar sozinho por cidades que não conheço e tarde da noite. Te abraço amiga. Deixo um grande beijo. Te cuida.

    Já ouvi falar de Garota Exemplar, mas não é um livro que me agrada. Foge do que costumo ler, por parecer ter uma carga dramática demais pro meu gosto rs

    Beijo!

  4. Ai Nina, já fiquei assim, com medo de sair depois de um assalto. É horrível isso, mas superei. Espero que você supere aos poucos. :)
    E sobre a sua resenha…caramba, muito boa! Eu já tinha vontade de ler esse livro, e agora você me intrigou ainda mais a lê-lo. A Heloiza disse a mesma coisa na turnê daqui sobre o livro. Deve ser realmente muito instigante acompanhar duas versões sem saber realmente qual a verdadeira, mas percorrer pelos dois mundos.
    Beijos.

    http://www.despindoestorias.com

  5. Eu amo a Reese Whiterspoon! hahaha Sou super fã de “Legalmente Loira”, mesmo me sentindo a rainha da futilidade ao dizer isso haha!
    Também fui assaltada uma noite no portão do meu prédio. Fiquei super apavorada! Só levaram o dinheiro, ainda bem. Mas espero sinceramente nunca mais passar pela situação, que é horrível!
    Quanto ao livro, me pareceu bem interessante. Gosto desse clima de investigação, de tentar descobrir quem é o responsável… Adorei a dica!
    Um beijo,
    Mariana.

  6. Que triste a história desse livro com o roubo D: Eu fui furtada duas vezes em paradas de ônibus, e fiquei com o trauma que você ficou em sair à noite, não consigo ficar bem em paradas de ônibus, ou em ruas desertas, sempre desconfiando dos ‘moços’ que parecem ‘suspeitos’. Mas enfim, que bom que deu tudo certo no final ><

  7. Bah, eu não sei se meu comentário foi enviado por completo ou não D: Mas só para completar, caso ele não tenha sido enviado completo:
    Garota Exemplar é um livro que me interessa pelo que ouvi dele na Turnê Intrínseca, um romance policial que mexe com nosso psicológico é um gênero que tenho interesse em ler; pena que o tema casamento enfraqueça esse meu interesse, não sei, não gosto de livros com casamento em meio à trama principal, por que não consigo me identificar muito e acho meio chato ler sobre casamentos fracassados. rs Mas enfim, claro que vou dar uma chance ao livro sim ><

    Beijos

  8. Que bom que você está bem, Nina. Tb já passei por uma situação dessas e te digo que esse medo da rua, da noite, passa. Quando você menos perceber… ele passou. =). E olha só como são as coisas: por um lado “o casamento mata” simsim, mas por outro é o marido quem segura o braço e conduz pela cor do desconforto. Sempre muitos lados.

    beijodebomdia

    Iza =)

  9. Essa resenha incitou e MUITO minha curiosidade! Sou muito fã de literatura policial com um lado psicológico, vide minha admiração por Agatha Cristhie, e Garota Exemplar parece ser extremamente viciante e envolvente! Adoro tramas que nos confundem, cujos dois pontos da estória, embora opostos, conseguem ser coerentes e no convencer na mesma intensidade, nos perdendo, confundindo. Aliás, esse tipo de articulação feita pela autora me lembrou muito um livro que li no começo do ano, chamado “Morte na Mesopotâmia”, que vale igualmente a pena.

    Beijos =*

    http://alacazaam.blogspot.com.br/

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