Pilha de significados

Minha biblioteca aumentou consideravelmente, dinheiro em minha mão já percebi que é vendaval, o que eu tinha para sobreviver nas férias acabou em quinze dias (que sorte não ter viajado). No início do ano, fiz um panorama do que estive lendo e que não foi envio de alguma editora parceira. Acabei tratando de mais de seis livros numa única crônica – e passei mal depois de tanto ter escrito. De uns tempos para cá, esse fluxo literário deu uma melhorada – e me sinto até mesmo privilegiada – pois li uns títulos que me fizeram pensar: “MEL DELS! COMO ASSIM NÃO LI ISSO AQUI ANTESSSS???”.
Tipo Zafón, gente. Sério: eu ainda não havia lido Zafón (assim como não li George Martin – e ó, nem pretendo – e como, até pouco tempo atrás, eu nunca havia lido Khaled Hosseini). Alice, minha amiga livreira, teve a ideia de lançarmos um clube do livro, entre os colaboradores do setor de literatura. Escolheríamos um autor e cada um levaria para casa, durante um mês, qualquer obra dele. Escolhemos Zafón e eu levei A Sombra do Vento. Para quem ainda não conhece (mas COMO ASSIM VOCÊ AINDA NÃO LEU???), A Sombra do Vento (editora Suma de Letras, 399 páginas) é um livro que, se você gosta de best-sellers, aproveita e se joga nesse pois, além de extremamente cuidadoso, minucioso em detalhes e muito bem escrito; nesse livro você encontra romance, comédia, investigação policial, memória, épico, TUDO! Raramente me deparo com uma obra tão completa – e olha que um livro nem precisa ter todas essas características para ser um bom livro para mim. Mas A Sombra do Vento tem e, em poucas palavras, digo-lhes o seguinte: pare sua vida para conhecer Daniel Sempere – o garoto que, já esquecido do rosto de sua mãe, é levado pelo pai – um livreiro – até o Cemitério dos Livros Esquecidos, um local para onde vão os títulos esgotados, as obras raras, os livros abandonados por donos levianos. Passeando entre as labirínticas estantes do Cemitério, Daniel puxa um livro da prateleira. O título? A Sombra do Vento. O autor? Julián Carax. Daniel volta para casa criança, lê a obra e torna-se um homem disposto a encontrar Julián e toda a sua prosa. Entretanto, um mistério surge para afligi-lo: alguém está queimando os livros de Carax, alguém quer fazer com que Julián suma do mapa, da história da literatura, mesmo que não tenha sido um autor interessante, ou famoso. Com o auxílio de uma garota cega, um mendigo sabido e muitos outros companheiros, Daniel Sempere cativa o leitor na jornada que busca desenterrar o passado de Julián e apresentá-lo ao mundo e a si mesmo. É um livro sobre livros. E sobre o poder que os livros têm para mudar pessoas. Não sei se vocês sabem, mas A Sombra do Vento não era um livro famoso, até que a editora decidiu presenteá-lo a alguns livreiros que começaram a ler a obra e indicá-la aos seus clientes. Em pouco tempo, A Sombra do Vento já constava como um dos livros nos topos das listas dos principais mais vendidos. Tanto sucesso tem justificativa para além do boca-a-boca. Confira você mesmo.

“Os livros são espelhos: neles só se vê o que possuímos dentro.”

Contrapondo consideravelmente o livro de Zafón, está Nada, da dinamarquesa Janne Teller (editora Record, 127 páginas). Quer título mais atraente e significativo do que Nada? Eu achei genial. A história também é, tanto que esse foi o segundo livro escolhido em nosso clube de livreiros. Em minha busca por obras niilistas (eu ainda não tinha A Menina Sem Qualidades aqui), Nada narra a decisão repentina de Pierre Anthon – garoto do sétimo ano de uma escola em um bairro simples – em passar o resto de seus dias em cima de uma ameixeira, pois, segundo ele, “nada importa”.

“Se viverem até os 80 anos, terão dormido durante 30 anos, ido à escola e feito deveres de casa por 4 anos e trabalhado quase 14 anos. Como já passaram mais de 6 anos sendo crianças e brincando, e ainda passarão no mínimo 12 anos limpando, fazendo comida e cuidando dos filhos, sobrarão no máximo 9 anos para viver.”

Sob essa perspectiva, os colegas de Pierre não sabem o que fazer, apesar de se sentirem incomodados com o comportamento dele. Seus amigos percebem que, pouco a pouco, os sonhos de crescer e lutar por um futuro já não fazem tanto sentido quanto antes, já que o objetivo da vida é morrer. Após algumas tentativas frustradas de fazer com que Pierre Anthon desça da árvore, surge uma ideia: construir uma “pilha de significados” com tudo que importa para cada um deles. Assim, a vida repentinamente terá sentido e Pierre Anthon seguirá com a sua. Os estudantes começam a jogar nessa pilha diários, sapatos, animais de estimação. Entretanto, a mesma torna-se bizarra quando, de repente, significados macabros passam a fazer parte do monumento: cabelos, membros amputados, entre outros. Apesar de ser um livro curto, essa obra testa os limites do real e do surreal, de como o ser humano pode sobreviver em situações aflitivas. É um livro claustrofóbico e muito bem narrado – por uma das amigas de Pierre, que também ajuda a compor a pilha. Só não entendi a capa do casal abraçado até hoje.
E por último, Sylvia Plath. A editora Globo relançará no ano que vem A Redoma de Vidro, mas comprei o Kobo e decidi encarar de vez esse título esgotado e impossível de se encontrar em sebos. Nele, Sylvia conta a história de uma jovem que trabalha em uma revista feminina de Nova York. Seu trabalho é uma espécie de estágio, mas ela vive em um hotel luxuoso com outras amigas jornalistas – e é bolsista em uma universidade excelente. O fluxo narrativo de Plath é maravilhoso: ela não narra, ela conversa com o leitor, como quem está fofocando com a melhor amiga. A vida de glamour da protagonista transforma-se em um vazio existencial e, de Nova York, o leitor migra para a cidade natal da moça e das loucuras que ela começa a ter, ocasionadas por sua recente depressão. Ela enlouquece e busca tratamento. E a sua dor não tem nome – nem parece ter cura. Esse romance é quase autobiográfico, pois Sylvia também sofreu depressão e também já escreveu para revistas femininas, além do fato de ter se suicidado em casa, enquanto seus filhos estavam no quarto ao lado (anos depois, um dos filhos de Sylvia também sofrera depressão e matou-se em seguida).

“Eu era a única garota na praia com saia e salto alto, e me ocorreu de que eu estava chamando atenção. Eu tirei meus sapatos de couro envernizado depois de um momento, por meterem-se tão fundo na areia. Alegrou-me pensar que eles ficariam para o mar, como uma espécie de bússola para a alma, depois de eu estar morta.”

Todas essas leituras valeram à pena, foram bons intervalos para relaxar de livros mais sérios. Literatura de muita qualidade e sem amarras. Todas significativas, muito significativas.

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10 respostas em “Pilha de significados

  1. Fiquei interessada em ler Nada. Às vezes tenho esse lado Pierre de “nada mais importa” e busco algo por trás de trabalhar no que eu não gosto, estudar para concursos como se fossem a única solução universal, medir palavras ao conversar com amigos, ser traída por estes mesmos amigos, etc.

  2. Eu não fazia a menor ideia que esse livro “Nada” existia até visitar uma livraria e vê-lo em uma das prateleiras. O título me fisgou na hora, não pensei duas vezes antes de levar. E realmente é muito bom, perturbador e instigante. E poucas coisas são melhores do que descobrir um livro do nada e no outro dia ver o quão significativo ele é. Quanto à capa, acho que ela representa o final do livro, tanto que os dois estão todos de preto, o que pode ser um sinal de luto. Enfim, é a única possibilidade que pensei…

    Parabéns pelo blog!

    Abs.

  3. Eu li A Sombra do Vento ano passado e posso dizer que foi o meu livro favorito de 2012! Eu acabei comprando outros livros do Zafón numa promoção aí e também gostei, apesar de não achar que fossem tão incríveis quanto A Sombra. Eu anotei “Nada” na minha lista Para Ler (que não para de crescer, viu) e acho que tenho A Redoma de Vidro (!), vou dar uma procurada aqui nos livros da minha mãe! :D

  4. Eu vi esse livro “Nada” na cortesia do skoob e deu uma super vontade e curiosidade de ler. `Preciso comprar..
    E “A Sombra do Vento” parece ser ótimo.
    Beijos, ALine

  5. A capa de ‘Nada’ é linda, dá vontade de comprar só pela capa rs, aí você lê a sinopse e vê que realmente precisa desse livro na sua estante.

  6. Tô lendo meu primeiro Zafón agora! Mas comecei com Marina, e estou amando também. Agora fiquei doida pra ler “A Sombra do Vento”, porque adoro tudo o que fala de livros.
    Mas esse seu post me deixou maluca mesmo foi por “Nada”. Achei o mote da história absolutamente genial. Super preciso.
    E se “A Redoma de vidro” for realmente “The Bell Jar” eu já li e fiquei com medo de terminar louca que nem ela, porque minhas neuras são muito parecidas com as dela. Ai Jesus…

  7. Ainda não li Zafón. E olha que já ouvi muita coisa boa sobre os livros dele! Fiquei com vontade de ler A redoma de vidro depois que esse livro é citado em outro livro que curti: O lado bom da vida. Beijão!

  8. Sempre saio daqui com vontade de largar tudo e ler, ler ler… FIquei super interessada no Nada, vou procurar!

  9. Dos três comentados, o que me fisgou foi “Nada”. Pela resenha me parece ser uma história muito boa, com um tema muito bom. Vou providenciar de comprá-lo.
    P.S.: sou “novo” no blog, mas depois de ler alguns posts já tratei de favoritar a página! Muito bom, parabéns! ;)

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