La-la-la

Meses atrás, num ato de nostalgia, decidi assistir alguma série que tenha feito parte de minha infância (aproveitando que meu marido baixa tudo via Torrent, e eu não me aplico em aprender nada disso). Como “série que fez parte de minha infância” entende-se tardes de sábado na frente da TV, assistindo Celso Portiolli oferecendo dinheiro a quem telefonasse para o SBT de duas da tarde em diante. Eu adorava esse programa dele porque, além da minha mãe ter ficado que nem uma louca ligando desesperadamente em busca de cem reais, eu assistia os seriados mais bacanas daquela época em que o único acesso de diversão tecnológica era a TV aberta. Eram mais de cinco séries. Terminava o capítulo de uma, começava o capítulo de outra. Dentre as minhas favoritas, uma delas era Gilmore Girls.

Eu não sei como eu achava O MÁXIMO assistir Gilmore Girls naquela época. Provavelmente, quando você tem doze anos, qualquer seriado norte-americano é encantador. Quando voltei a assistir agora, aos vinte e um anos de idade, percebi que não há nada demais e, inclusive, o enredo me dá vergonha alheia. Entretanto, Gilmore Girls é como quase todas as séries norte-americanas da década de 90: por mais ruim que seja a história, você se apega aos personagens. E é até capaz de identificar-se com eles, mesmo com uma porrada de coisa errada, tipo a ausência de personagens negros. A única personagem negra que apareceu em sete anos de seriado (além de Michel, o recepcionista da pousada) veio na última temporada, como uma juíza. O que é típico de norte-americano: incluir negros em seus seriados apenas como uma pessoa neutra, um personagem sem importância “vital”, mas “cheio de pompa”, como um juiz. Todo juiz de série norte-americana é negro. O negro, na mídia dos Estados Unidos, hoje, é sinônimo de justiça. O negro enquanto personagem bem-sucedido, significa que o mesmo lutou muito para chegar até ali e conquistar o seu direito. Um preconceito muito velado por parte deles. A história se passa dentro de uma cidade. E nessa cidade não existem negros. Mas não é sobre isso que quero falar agora.

Para quem não conhece, Gilmore Girls narra a história de uma família que, para os Estados Unidos, ainda é “atípica”: uma mãe solteira que engravidou aos dezesseis anos e, anos depois, cria sua filha adolescente que está enfrentando os desafios e descobertas do mundo. É uma série sobre como os relacionamentos humanos desabrocham enquanto nós amadurecemos. A mãe solteira em questão é Lorelai Gilmore (interpretada pela engraçadíssima Lauren Graham que, para mim, é uma Sandra Bullock da TV). Depois de engravidar de Rory (interpretada por Alexis Bledel – uma atriz mega sem graça, porém ideal para fazer Anastasia Steele na versão cinematográfica de Cinquenta Tons de Cinza – sério, eu torço por ela), Lorelai decide fugir com a criança para a linda, surreal e fictícia cidade de Stars Hollow (em Connecticut), a fim de criar Rory. Em sua nova cidade, Lorelai passa a trabalhar e morar numa pousada, que, futuramente, ela administrará. Aparentemente, Lorelai fez péssimas escolhas na vida. Ela veio de uma família rica e foi bem educada. Porém, dona de um espírito rebelde feito para contrariar sua mãe, quando descobre que está grávida, decide que a melhor saída é lidar sozinha com a situação, pois não quer que sua filha seja criada da maneira como ela foi: cheia de regras de etiqueta, pouco amor e nenhuma diversão. Lorelai engravidou de Christopher (David Sutcliffe), um namoradinho de infância tão irresponsável quanto ela, do tipo que nunca aprendeu a crescer e que, volta e meia, some e reaparece na série para, mais uma vez, tentar ser pai de Rory.

Mas a série não começa com esses lamentos de quem teve a juventude transviada por um balde de responsabilidade. No “capítulo piloto”, Lorelai – gerente de uma linda pousada em Stars Hollow, recebe a notícia de que sua filha Rory – de dezesseis anos -, foi aceita em uma escola muito bem recomendada, que oferece o tipo de educação ideal para que ambas as Gilmore realizem seus sonhos: ver Rory estudando Jornalismo em Harvard.

O relacionamento de Lorelai e Rory é incomum para a maioria das famílias do mundo todo. Elas não são apenas mãe e filha: são melhores amigas. Fazem tudo juntas, concordam em quase tudo, visitam os mesmos locais, gostam das mesmas músicas, assistem aos mesmos filmes (diversas vezes, inclusive), alimentam os mesmos sonhos e suas diferentes gerações não parecem ser empecilho para a amizade das duas. Com Rory, Lorelai tem uma relação que nunca tivera com sua própria mãe. E esse laço que as une é tão forte e sincero, que, não à toa, a série no Brasil, exibida pelo SBT, ganhou o a tradução de Tal Mãe, Tal Filha (que é subtítulo da série). Na primeira temporada, o grande dilema da vida de Lorelai é: Rory foi aceita na escola de bacana, mas não recebeu bolsa integral. Parte dos estudos teriam de ser pagos por ela, que não tem dinheiro para tão exorbitante mensalidade. Sendo assim, Lorelai é forçada a deixar o orgulho de lado e recorre aos pais, com quem conversa esporadicamente. Lorelai e sua mãe (Emily, interpretada por Kelly Bishop que também fez Dirty Dancing – não perguntem) fazem um acordo: os avós de Rory pagam a escola dela, desde que ambas as jovens Gilmore jantem na casa deles toda sexta-feira. Apesar disso ser uma tortura para Lorelai, ela concorda. Esses jantares, que vão perdurar até quando Rory já estiver na faculdade, trazem os momentos mais engraçados da série. É divertido acompanhar Emily e Lorelai competindo para saber quem consegue ser mais irônica. Ou víbora.

Uma surpresa agradável para os produtores da série surgiu logo no piloto: Luke Danes (Scott Patterson fez esse papel. Sensacional o cara), o dono de uma lanchonete (antes loja de ferramentas), devia ser apenas o cara que serviria café para as jovens Gilmore (na verdade, ele nem deveria ser “um cara”. Seria uma mulher, mas os produtores desistiram dessa ideia porque já haviam mulheres demais na série). Ele era um figurante que não passaria do primeiro episódio. Entretanto, nunca houve tanta química em servir café num copo de plástico na história da dramaturgia norte-americana. Todo mundo percebeu o quanto Luke e Lorelai podiam ser feitos um para o outro. Aliás, por sete temporadas, apesar de todas as idas e vindas dos romances frustrados de Lorelai, é por Luke que o telespectador torce.

Gilmore Girls – que não é um livro, um quadrinho, um filme, absolutamente nada além de uma história deliciosa saída da cabeça de Amy Sherman-Palladino, sua criadora –, não apresenta um enredo significativo, com exceção dos relacionamentos que a gente cria e amplia ao longo da vida. Rory tem uma melhor amiga coreana, Lane (Keiko Agena começou esse papel aos vinte e sete anos, com rostinho de quinze), vizinha sua, que não sabe lidar com todas as regras impostas pela mãe – regras piores do que aquelas que Lorelai sofreu na infância. Lane é obrigada a frequentar a escola Adventista e seguir uma religião na qual não acredita. Gosta de rock, sonha ter uma banda, mas esconde CD’s embaixo da madeira do assoalho. Revelar-se e ser aceita por sua ditadora mãe é um desafio na vida de Lane, que morre de medo dela e até chega a ser expulsa de casa. Rory apaixona-se por Dean, um rapaz estilo “bom moço” de Stars Hollow. Ele estuda e passa as tardes trabalhando em um mercado local. Entretanto, Dean será desprezado duas vezes por sua amada Rory. Ele será trocado por Jess Mariano (o garoto rebelde que toda mocinha tapada feito a Rory gostaria de ter, sobrinho de Luke, interpretado por Milo Ventimiglia) e, mais tarde, apesar de casado, será o responsável por “desvirginar” Rory e, ainda assim, será trocado pelo irritantemente riquinho e com cara de bunda de bebê real Logan Huntzberger (Matt Czuchry). Mas não tem problema. Dean, que é interpretado por Jared Padalecki, ao sair da série, vai fazer Sobrenatural, caçar monstros e deixar um monte de menininha ovulando por sua presença arrasadora (conforme o “antes e depois” dos personagens da série). Bem feito, Rory. Desprezou, perdeu.

Rory é uma personagem irritante. Ela quer fazer tudo certinho, quer ser um exemplo para a sociedade, acredita na paz mundial. Demora muito para essa garota evoluir, até porque, apesar de saber que certas coisas na vida não são tão fáceis de conseguir, tudo dá certo na vida de Rory. Um exemplo? Mesmo sendo aceita em Harvard, ela percebe que aquele foi um sonho criado por sua mãe. Uma escolha difícil precisa ser feita e Rory vai para Yale, que lhe parece mais qualificada que a anterior. Quando Rory termina a faculdade, ela tenta um estágio no The New York Times, no qual é rejeitada (imagine esses olhos azuis chorando litros). Entretanto, surge uma proposta melhor: cobrir a campanha presidencial de Barack Obama, viajando com sua equipe por todo o país. Claro que ela topa.

Manda Rory pular de um precipício. Ela vai.

Outro fato que irrita ao mesmo tempo que diverte, são os diálogos rápidos das jovens Lorelai, recheados de referência a cultura pop, misturando nomes e personagens de filmes antigos. O roteiro de cada capítulo de uma série norte-americana costuma ter de 45 a 50 páginas. Mas, com a rapidez do modo de falar e pensar entre Lorelai e Rory, o roteiro chegava a ter mais de 70 páginas, só de falação que, volta e meia, me enchia o saco. Mas era legal.

Lorelai deu seu próprio nome a Rory. Rory é um apelido carinhoso para Lorelai.

Dos momentos inesquecíveis da série, preciso destacar alguns. Kirk (Sean Gunn, o faz-tudo da cidade, que trabalha em trocentos lugares ao mesmo tempo), interpretando Jesus Cristo em mais um evento surreal da surreal Stars Hollow, passando um sermão para a população, utilizando Cristo (ou a si mesmo) como “exemplo de bom exemplo”. Infelizmente, não encontrei o vídeo dessa cena, mas aqui vai um “filme” que Kirk fez e exibiu no cinema local de stars Hollow. Ele foi o personagem mais hilariante e absurdo da série inteira:

Tem também Paris (Liza Weil), sempre esperta e nada comedida, destilando ironia nas incompreensões alheias, após uma briga com Rory, em sala de aula:

E Lorelai, num dos últimos capítulos da última temporada, declarando-se F I N A L M E N T E para Luke, cantando Whitney Houston (não há nada mais brega) num karaokê, como se fosse serenata.

E se você ainda não entendeu o “la-la-la” do título, eu explico com um aviso breve: aguentei isso o seriado inteiro:

Então, não se iluda: Gilmore Girls é para quem gosta de Sessão da Tarde, para quem deseja resgatar a nostalgia da infância. Para quem já teve um coração partido, para quem tem problemas com parentes próximos, para quem desejar retomar amizades aparentemente irresgatáveis. Com Gilmore Girls, eu aprendi que sua melhor amiga pode ser a pessoa que mais lhe detesta e compete com você, que um relacionamento entre mãe e filha nem sempre estará fadado ao insucesso graças a uma situação anterior: se você deixar o orgulho de lado, ainda pode salvar muita coisa. Aprendi que o amor da sua vida pode mesmo estar ali na esquina, literalmente – e ainda servir um bom café. Aprendi que, com as imprevisibilidades da vida, somos forçados a crescer, que quem nasce em berço de ouro pode deixar de voar e caminhar com pés no chão. E que relações aparentemente surreais são absolutamente possíveis, se você se dedica a cuidar verdadeiramente do outro. Sendo assim, boa sorte para quem começar – e se apegar.

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13 respostas em “La-la-la

  1. Também AMAVA gilmore girls, Nina! Até sei a música da abertura de cor…rsrsrs!
    Humor leve, dramas leves e um jeitão de sessão da tarde simsim.

    Beijo

    Iza =)

  2. Lembro-me que quando me deparei com essa série tinham acabado de colocar Tv a Cabo em casa. Eu adorava a Warner e Gilmore Girls chamava a atenção justamente pelos diálogos intermináveis.
    Engraçado que tive a mesma impressão que você sobre o enredo olhando assistindo agora. Parece que as coisas não soavam tão bobas e previsíveis, existia uma magia que cativava quem colocasse os olhos na série.
    Certamente Lorelai e Rory tinham uma boa química de Sessão da Tarde americana.

  3. Adorei rever um monte de acontecimentos do seriado! Eu assistia na tv também, mas como não tinha continuidade, perdia muitas coisas! Daí baixei tudo há uns anos atrás, quando já tinha acabado! Agora lendo seu post, tive vontade de ver tudo de novo!!!
    Um beijo!

  4. Gilmore Girls foi a primeira série que eu acompanhei desde o primeiro episódio, mas depois que a Rory virou puta eu parei de assistir um pouco (estava em época de vestibular).
    Mas foi graças à Lorelai que me apaixonei por café e me “especializei” na bebida (leia-se: aprendi a beber sem açúcar e posso dizer quando o café é mais doce, ácido, queimado, má qualidade ou com algum blend)
    Andei assistindo esses dias e, sim, se tivesse reprise da série, não faria tanto sucesso, mas curto muito alguns quotes, inclusive já usei alguns com amigos, colegas de trabalho, de aula, etc.

  5. Eu já cheguei a assistir esse seriado. Mas não inteiramente. Adorei a sua resenha. Deu vontade de pegar a série pra maratonar, só pela nostalgia. Fiz o mesmo com Felicity e não me arrependi (apesar de não ter curtido o final). E…não sei…mas, o SBT não chegou a exibí-lo inteiro, pelo que me lembro…

  6. Oii Nina!!
    Deixa eu dizer: também assistia os seriados do SBT nos sábados de tarde!! HAAHHA
    Lembro muito bem de Gilmore Girls, mas só fui descobrir que esse era Gilmore Girls esse anos (com 22 anos, é, juro), para mim sempre foi “tal mãe, tão filha”! HAHAHAAHAHA
    Eu não lembro nada do seriado =//
    Mas tem o Sam (Sam Winchester, Sobrenatural), é dou um desconto por isso.
    ;**

  7. Nunca tinha ouvido falar da série, mas conforme você foi falando, deu pra ter mais ou menos uma ideia do que se trata. Ainda bem que nunca passei por isso, digo, rever alguma coisa da infância que, anos depois, parece ser muito pior. No seu caso, pelo menos não foi uma merda total. Conheço garotas que viam Rebelde, então sua infância não foi assim tão ruim. Eu só assistia Coragem o Cão Covarde e Scooby Doo, e gosto muito dos dois até hoje, então…
    Destaque no seu post para o raciocínio que você traçou sobre personagens negros em seriados americanos. Achei simplesmente genial.

  8. Não concordei com metade de suas críticas, mas acho que é porque eu era apaixonada por Gilmore Girls quando menor (e sou até hoje rs). Tenho o box aqui e assisto e reassisto a série inteira toda hora haha Mas é bem verdade que quando você vê de novo algo depois de crescer passa a reparar em detalhes que antes lhe escapavam. Em muitas cenas, percebi que a Rory realmente era bem mimadinha (tipo, no começo, ela não querer ir pra Chilton porque conheceu o Dean) e em outras também parei pra reparar na imaturidade da Lorelai (especialmente nas cenas com a mãe). Mas acho que, no fundo, é isso que faz a série ser A série: os personagens não foram feitos pra ser perfeitos. Cada um tem seus defeitos, mas no final das costas o amor da Lorelai e da Rory é sempre o mais importante <3
    E nunca consegui achar os diálogos irritantes. Eles são a graça da série. A própria Amy diz que eles nunca foram feitos para ser completamente entendidos; são o charme das personagens.
    Mas a série decai um pouco depois que a Rory sai da escola, isso eu admito. Fica até meio chato ela crescida…

  9. Que nostalgia.
    Acho que é a única palavra que descreve esse post hahaha.
    Concordo com o que escreveu de Jess mas não de Logan. E entendo quando diz que Rory é irritante; e as vezes ela sabe como ser porque ela age que nem uma santa sendo que os desejos “errados” estão dentro da cabeça dela. Mas no fundo eu adoro ela e a série toda haha.

  10. Não concordo com sua critica. Acho que a unica coisa que temos em comum é o amor por Gilmore Girls.
    Vergonha alheia?? JAMAIS! Tenho 21 anos e sou muito apaixonada pela série até hoje. Fez parte da minha infancia, fez parte da minha vida! Li esse post com lagrimas nos olhos, me deu muita saudade! A melhor série do mundo! Merecia sem duvidas um filme.
    Dialogos irritantes? JAMAIS! São hilários, bem escritos, inteligentes.
    A série decai apenas na ultima temporada, quando a Amy abandona o posto de escritora.
    Mas, é uma serie sensacional. O mundo inteiro deveria assistir.
    Ganho meu dia quando, de vez em quando, tenho tempo de assistir um episódio e matar um pouco dessa saudade que é eterna <3

  11. Nossa gente, Gilmore Girls é nostalgia puuuuuuuuura. Só fiquei triste porque você disse ter vergonha alheia assistindo hoje aos 20 e poucos anos.Não sei, eu via GG com 13 anos e hoje, com 22, ainda acho um máximo.Os diálogos rápidos realmente irritam às vezes, mas acho tão legal uma série sobre nada, que não acontece nada, mas que conquista justamente pelos personagens ( como você disse). As trocentas referências musicais, de filmes e etc também são ótimas, é legal você entender um diálogo completo porque de tantas referências, a gente acaba ficando meio perdida. E quando consegue acompanhar é uma vitória.

    Enfim, até hoje é minha série favorita, e não tenho vergonha própria e alheia não de dizer rs, só tenho que aturar o pessoal aqui de casa enchendo o saco por causa dos lalala hauhauah.

    ps: rory também é um saquinho às vezes.
    http://mobiliaminima.blogspot.com.br/
    Beijis

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