Capacidade de “artista”

Essa semana, a blogueira feminista Lola Aronovich – uma das mais queridas da internet, grande defensora das vítimas de estupro (mas também detestada por muitos reacionários – e isso inclui outras feministas, vejam só), publicou o relato de um homem que se diz arrependido de ter estuprado sua irmã e um primo, quando ambos eram ainda menores de idade.
Lola recebeu o e-mail desse indivíduo em dezembro. Ela diz que hesitou muito em publicar o relato, passou semanas pesando prós e contras de fazê-lo.
Como já era de se esperar, muita gente chegou lá para comentar o caso e humilhar a Lola. Gente que era “fã”, de repente passou a exigir que ela não mais tocasse no feminismo, pois não é isso que ela defende, que ela não deveria passar a mão na cabeça de um estuprador, muito menos dar voz e vez ao mesmo.
Eu acho tudo isso muito irônico.
Lola explicou claramente, após o relato, que haveriam represálias nesse sentido. E levantou uma questão interessante: tem feminista que é mesmo reacionária. Que considera absurdas as piadinhas machistas do cotidiano (e são), mas apoia a pena de morte. Como a própria Lola diz, o “reaça” é aquele que acredita em justiça na forma de massacre, jamais na reabilitação do ser humano.

Do lado de cá, não faz muito tempo, discuti no Twitter com uma feminista que, até então, eu admirava – apesar da sua constante brutalidade para com quem comentava em seu blog. Quando eu comecei a me interessar pelo movimento feminista (e isso depois que casei – com um homem), fui procurar páginas na internet que tratassem do assunto. O meu erro foi ter comentado de cara nas publicações dessa moça. Eu ainda estava aprendendo sobre slut-shaming, por exemplo, quando a mesma, sem querer dialogar, acusou-me de praticar o que nós duas mais detestamos: quando você diz para uma mulher que ela deve se comportar de uma determinada forma para adequar-se a sociedade (tipo “meninas não podem usar azul, porque azul é a cor dos meninos” e “mulher ‘direita’ não pode sair na rua com roupa curta, porque isso atrai estupro”, enquanto homens que passam pela rua sem camisa não correm o mesmo risco). Essa mesma feminista resolveu escancarar no Twitter o seu total desrespeito por símbolos religiosos de alheios. Nas palavras dela, “respeito humanos, não símbolos”. Olhando desse lado, parece que ela está certa, mas os símbolos religiosos são a cultura de um grupo de pessoas. E as pessoas, em essência, são sua própria cultura. De modo que eu não posso agredir a religião do outro, mesmo que o outro faça o mesmo com as religiões de outros. E será que a melhor forma de você “defender” a humanidade é denegrindo sua cultura? Acho uma tolice.
Mas isso é assunto encerrado. Eu só estou dando um exemplo de atitude de gente reacionária.
Porque a Lola é o que podemos chamar de “figura pública”. No Brasil, seu espaço virtual é referência de feminismo. Mas o blog dela também é pessoal. Ela publica o que quer, mesmo que isso não agrade a maioria. E daí eu lembro que, em questões polêmicas, algumas pessoas tem capacidade de artista: cê faz uma coisa “errada” e é marcadx por aquilo a vida inteira.
Eu não considero a publicação desse arrependimento uma ofensa aos direitos humanos. Muito pelo contrário. Senso de compreensão e perdão são atitudes para se colocar em prática. É muito fácil apontar o dedo para o erro do próximo e condenar. Mas e perdoar? É possível?
Tudo bem: provavelmente um estuprador não merece perdão. Mas merece ser ouvido, assim como a vítima. Se o ser humano a tudo se adapta, nós também podemos ter senso de recuperação. Tem gente que é presa por ter provocado uma chacina. Mas toma a consciência de seus atos, passa por um acompanhamento psicológico, cumpre sua pena e é libertado. A reinserção dessa pessoa na sociedade é mais difícil e complexa do que uma vítima que tenha sofrido qualquer tipo de agressão: é difícil conseguir um emprego digno, amigos interessantes e até formar uma família. E isso por problemas internos e externos.
Não. Eu não estou defendendo o estuprador.
Aliás, no próprio relato, o que ele menos quer é perdão e piedade dos outros – já que não consegue fazê-lo consigo mesmo.
Fico pensando nas pessoas que jamais serão perdoadas por seus atos: Suzane Von Richtofen, o casal Nardoni, outros tantos criminosos e/ou estupradores. E olha que tem pessoas estupradas escrevendo seus relatos e esperando que o agressor se desculpe. Exemplos? A filha do Dias Gomes. Vale à pena também dar uma conferida no excelente Fui Estuprada, sobretudo para quem estuprou alguém.
E também fico pensando nas pessoas que serão eternizadas por uma fase ruim: Chris Brown como agressor de Rihanna, Jennifer Aniston como traída e trocada por Angelina Jolie.
Quem era “fã da Lola desde pequenininho” demonstra agora ser mais um reaça que, da noite para o dia, condena e exclui de suas vidas este ou aquele, para o seu bel-prazer.
Chega a dar pena. Sobretudo de quem é feminista e reaça. O que uma pessoa dessas quer com um movimento tão humanitário?

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13 respostas em “Capacidade de “artista”

  1. Sou simpatizante do feminismo, mas não me classificaria como feminista, justamente por toda a agressividade que vemos nesse movimento. Eu acho que as mulheres tem o direito de fazer o que elas quiserem, eu nunca tive outro olhar sobre isso, a mulher deve ter a profissão, a roupa, a atitude, a sexualidade que ela bem entender. Assim como qualquer outra pessoa no mundo. Inclusive, se ela quiser ser “mocinha”, enfim, ela tem o direito, uma mulher que tenha o sonho de casar, ter filhos e servir a família, tem o direito de fazer. O que vejo é que as feministas recriminam isso. Posso estar errada, ou posso ter assistido as discussões erradas.

  2. Sinceramente? Acho que grupos de x ou y coisa só afastam os seres humanos. Muitas pessoas sofrem, diariamente, vários tipos de agressão, física, verbal e psicológica. Acho que seria tão mais fácil que as pessoas lutassem pelos direitos humanos, e não se separassem pelos “direitos das mulheres”, “direitos dos homens”, “direitos dos afrodescendentes”, etc. Acho que separarmos-nos por grupos não é o ideal. O seu post não foca nisso, mas eu quis falar isso, antes mesmo de comentar sobre o ponto principal do post.
    O crime de estupro é um dos mais bárbaros, mais chocantes e mais repugnantes que há na face dessa louca Terra. Eu, honestamente, não consigo fazer ideia do que se passa na mente de alguém que resolve estuprar outro alguém. É algo tão horrendo, tão invasivo, tão abominável.
    Creio que existam os estupradores psicopatas, que fazem isso sem a menor culpa e não sentem o menor remorso. E não sei creio que exista outro tipo de estuprador, o que se arrepende do que fez, como o que apareceu no blog da Lola. Só sei que os humanos erram. Em grau menor ou menor, em uma escala de ‘pequenos erros a erros abomináveis’, e da mesma maneira que erram e sempre vão errar, seres humanos podem se arrepender de seus erros e carregarem culpas terríveis pelo resto da vida. É um tema complexo, Nina.
    Que mexe com vários lados nossos, o que tem sede de justiça, que se indigna com atos tão violentos como é o estupro, como nos compadecemos das vítimas e crucificamos os seus agressores.
    Penso que, como, THANK GOD, nunca passei por nada parecido, não sei como é o real e a magnitude do horror do sentimento que é sentido pelas vítimas. Mas, se elas conseguirem perdoar seus agressores, quem somos nós, que não passamos por assustadora e traumatizante experiência, para condená-los?
    Ah, é complicado, muito complicado. Envolve tanta coisa. Envolve estudo da mente do agressor, para ver se há uma razão que, ao menos explique, que ele age dessa maneira porque sofreu x coisa no passado.
    Ah, é complexo demais, Nina. Rende um livro de infinitas páginas.

    Saudade de ler seu blog.
    Um abraço!

    Sacudindo Palavras

  3. Sabe, Nina, quando olho pra mim não me vejo de maneira alguma reacionária. Mas esta é uma questão muito delicada. Porque não desejar a morte (a pena de morte) é diferente de perdoar. Digo que não perdoo. Não perdoei. Há quem consiga ser um ser humano elevado, e admiro isso. Mas essas são exceções, pessoas muito fortes. As marcas desse tipo de violência são coisas que nos acompanharam pro resto da vida. Pesadelos. Pensamentos inoportunos. Lembranças inesperadas em horas felizes. Ou mesmo lembranças que te deprimem ainda mais em momentos tristes. E nesses momentos, sabendo que as teremos pro resto da vida, é muito difícil ceder o perdão. Que o ódio não leva a nada nós sabemos, mas o que é que pode levar esse ódio de nós? Enfim. Seria eu reacionária, afinal?

  4. Não, não tenho o menor interesse que o cara que me estuprou se desculpe. O que me preocupa, sim, é que homens e mulheres passem a reconhecer melhor situações de abuso e estupro, e passem a falar sobre isso.

    Esse assunto têm que sair da luz. E colocá-lo diante dos olhos alheios não significa, em nenhum momento, querer uma reconciliação. Eu não quero reconciliação. Não quero oportunidade de reconcialiação, ou qualquer outra oportunidade de encontro.

    Apenas não quero lembrar em nenhum minuto a mais, na minha vida, de que essa pessoa existe.

  5. Oi moça,
    de fato, me equivoquei no texto ao dizer que você “espera” desculpas de seu estuprador. Provavelmente afirmei isso por dois motivos:
    1. Queria muito citar o seu blog, pois já falei do mesmo no twitter, e nunca acho eficiente apenas divulgar no twitter. O seu blog acolhe não apenas vítimas de estupro, como também quem não sofreu esse abuso, mas procura ter conhecimento do que uma vítima de estupro pensa, já que a mídia tende a colocar a vítima como também uma culpada de sua situação;
    2. A Maíra, filha do Dias Gomes, inicia a carta para o seu estuprador com um “até hoje, você não me pediu desculpas”. Assim que eu terminar esse comentário, corrigirei o texto referente ao teu blog. Nesse caso, sou eu quem peço desculpas :)
    Eu escrevi o texto não esperando que as pessoas desculpem um estuprador. Eu não posso exigir perdão de ninguém, sequer das vítimas de estupro – pois o estupro, em si, para mim também é um dos maiores crimes contra um ser humano. Eu certamente não perdoaria um estuprador (meu, ou de outra pessoa qualquer). O estuprador que enviou seu depoimento à Lola não tem o meu perdão – mas acredito sim que ele merece voz, assim como pessoas como você tem voz hoje em dia. E precisam ter. Mais que quaisquer outras pessoas (por isso gosto tanto do teu blog, desde o início).
    Escrevi o texto para tratar que, antes de sermos feministas e outros “istas”, sejamos humanxs, amemos x próximx. Eu acredito no crescimento das pessoas, que elas podem se arrepender e se transformar. Muitas já tem castigo suficiente para toda uma vida: além das leis a serem seguidas, também a culpa que muitos carregam. E outras questões espirituais que não duram apenas uma encarnação.
    Eu, assim como a Lola, não consigo conceber feministas reacionárias. É um erro que pessoas com esse tipo de pensamento ainda resistam na sociedade, pois pagar o mal com mais maldade não leva a lugar algum.
    Muitos querem ódio pleno e exclusão de um criminoso da sociedade. Você quer distância. Ainda bem.
    Eu quero que essas pessoas SE PERDOEM. O que me chamou atenção no Fui Estuprada foi a sua mensagem de: “se você estuprou alguém, leia”. Seria ótimo caso um estuprador comentasse no seu blog que se vê arrependido. Pode ser difícil, mas não é impossível, mesmo que você rejeite o perdão dele.
    E desculpe se eu lhe causei algum transtorno. Não foi minha intenção.
    Abraços, você tem o meu apoio.
    Nina.

  6. Eu só posso imaginar como é horrível passar por uma situação dessas, mas defendo que todo mundo tem o direito de se arrepender na vida. Não importa se você xingou a mãe de alguém, riu do coleguinha que caiu no meio da sala, ou cometeu um crime grave. Negar a possibilidade de arrependimento é negar a humanidade de alguém, e eu acho que isso nós não podemos fazer nem com os “piores criminosos”. E também acho que o arrependimento não tem nada a ver com a possibilidade de reconciliação ou de perdão, é uma coisa interna de quem comete um erro; assim como o perdão é uma coisa interna da vítima. Podem me acusar de falar sem conhecimento de causa; podem me acusar de ser muito “paz e amor”. Mas talvez seja disso mesmo que a sociedade, em geral, esteja precisando. Direito de se arrepender dos próprios atos deveria ser considerado um direito humano.

    Abraços.

  7. Oi, Nina querida! Estou aqui para comentar seu texto sobre a Anorexia. Te felicito pela coragem de falar abertamente sobre o problema, e pela iniciativa de mexer nessa ferida, que pelo visto, já é profunda.

    Eu desejo que você encontre profissionais responsáveis que possam te ajudar. Eu não sei onde você mora, mas se for em São Paulo você pode procurar o Genta: http://www.genta.com.br/

    Eles oferecem leituras que vão te ajudar.

    Abraço com carinho!

    ps: NÃO SUSSURRE quando falar sobre aceitação da própria imagem. Cada mulher tem uma história e uma luta. E você pode ajudar várias pessoas com seu testemunho.

  8. Não imagino como possa ser a sensação de ter sido estuprada, mas deve ser parecido com o de se sentir pior do que verme em merda de mendigo. Acho que o sentimento de ódio por um estuprador é o mesmo de quem nos agride fisicamente de qualquer outra forma gratuita e injustificada, como se fôssemos apenas um buraco quente se debatendo E dizendo “não”.
    Por mais que um estuprador se arrependa e peça perdão, nenhum destes atos cura uma ferida tão profunda na nossa DIGNIDADE.
    Quando brigamos com o namorado e o namoro termina de forma ruim, depois de alguns anos, se encontrarmos esse ex na rua, não será como ver um amigo ou um conhecido – será o babaca daquele ex que te fez perder tempo, que tirou sua virgindade, que te fez sofrer. E acho que é o mesmo quanto a um estuprador, mas com maior intensidade.

    A charge no início do post me impediria de escrever que estuprador bom é estuprador morto. Defender a pena de morte e condenar o aborto soa contraditório. Mas um feto não praticou nenhum crime, embora possa ser fruto de um crime.

  9. Sempre achei complicada essa questão de julgar. Por mais que tenhamos nossos pontos de vista bem estabelecidos… às vezes não estão tão bem estabelecidos assim.
    A charge explicita isso muito bem.
    E os “reaças” sempre julgam ter todos esses pontos de vista tão bem estabelecidos que esquecem de analisar o todo. A lógica de suas demagogias. A liberdade de cada um sempre vai depender da do “vizinho”, se se começa a falar que precisa-se de uma liberdade religiosa, isso significa aceitar a cultura do outro, aceitar os símbolos do outro, e não que aceitem o que a pessoa julga como certo. E muita gente se perde nisso.

  10. Não sou feminista e também não concordo com muitas coisas que elas “defendem”.
    Mas já li alguns blogs de mulheres feministas e gostei e concordei com o que escrevem.
    E acho que o cara que se arrependeu de ter estuprado pode sim ter perdão. Mas não cabe a nós julgarmos ou condena-lo.
    Beijos

  11. Concordo com tudo o que vcê disse. E amo a Lola. Curti essa definição dela: “Como a própria Lola diz, o “reaça” é aquele que acredita em justiça na forma de massacre, jamais na reabilitação do ser humano.”

    Pois é. Vc já viu a tirinha do André Dahmer, em que ele frisa: “NÃO LEIA os comentários”?
    Nos comentários é onde vemos os reaça, na sua forma mais intensa. Eu evito, rs, não vou perder a fé na humanidade, não ainda.

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