Esfera

Eu devo ser portadora da “preguiça imaginativa”. Só isso explica minha total aversão a obras de ficção científica e/ou fantasia. O mundo está eufórico redescobrindo Tolkien e encantando-se com Martin e suas Crônicas de Gelo e Fogo. Do lado de cá, andei satisfeita com García Márquez e seu realismo fantástico, que inspirou muitos outros ibero-americanos.
Isso até mês passado.
Olha que vergonha: em março desse ano, um tal de Renato Nonato entrou em contato comigo, via Skoob, para apresentar seu livro e solicitar uma resenha minha. Eu nunca tinha ouvido falar nesse rapaz, mas adoro ler obras de autores estreantes (sei lá, eu tenho um sonho utópico de ser uma espécie de Nelson Motta – só que na literatura. Eu sei, eu nem me acho), achei válida a oportunidade e me senti vaidosa por ter um autor me procurando para resenhar sua obra.
Quando chegou o Terras Metálicas (Renato C. Nonato, editora Novo Século, 615 páginas), eu estava no meio de uma fisioterapia contra a tendinite que tenho no ombro. Um livro de mais de seiscentas páginas não seria viável de ser carregado em minha bolsa enquanto eu me encontrava nesse estado. Tive que deixar para as minhas primeiras férias da livraria, que foram agora, em julho.
Imagine um cenário mezzo apocalíptico: a radiação tomou conta da atmosfera terrestre, foi uma guerra nuclear tão devastadora, que é impossível sustentar a vida em nosso planeta. A salvação de parte da humanidade foi construir uma espécie de esfera no centro da Terra, existente e resistente há mais de 300 anos. Não se sabe muita coisa da vida na Terra antes da Grande Crise – uma espécie de Terceira Guerra Mundial – a humanidade não conhece o céu azul, o mar que brilha, a areia macia, até os animais são fruto de total desconhecimento – foram extintos. Mas os humanos vivem confortáveis nessa Esfera, à medida que as gerações foram passando até chegar nos protagonistas dessa história: cinco jovens que, provavelmente, jamais souberam quem foi Albert Einstein – e que, um dia, esse grande físico foi questionado sobre como seria a Terceira Guerra Mundial. Sua resposta: “eu não sei como será a Terceira Guerra Mundial, mas sei como será feita a Quarta Guerra: com paus e pedras”.
Raquel, Tales, Ângelo e Camila são adolescentes e levam uma vida normal na Esfera: vivem com seus pais e vão para a escola todos os dias. Logo no início do livro, eles estão animadíssimos com sua inclusão na Academia – um complexo escolar no qual jovens recebem um chip que faz o corpo reagir em alguma habilidade específica para a sobrevivência e manutenção da Esfera.

“Túneis movem objetos a distância – começou a recitar Raquel -, Antenas controlam a mente, Bios controlam o corpo, Sibérios fazem as coisas esquentarem ou esfriarem, e os Exilados… Bem, eles não fazem nada.”

Acontece tanta coisa nesse livro que eu vou tentar falar o mínimo possível dos pontos ápices dele. Raquel quer muito ser uma Túnel – pois o sonho dela é voar e os túneis criam essa habilidade à medida que praticam. No dia da cerimônia, Raquel realiza seu desejo, mas é atormentada pelo destino de seu grande amigo Ângelo: ele se descobre um Exilado, alguém que não tem habilidades específicas e se destina mais a áreas técnicas e/ou de manutenções básicas da Esfera: tipo ser um faxineiro ou bedel de colégio.
Mas assim como seus amigos, Ângelo vai para a Academia desenvolver sua atual característica principal. Raquel e Camila são túneis e estudam na mesma sala que Luana – grande inimiga pessoal de Raquel. As aulas iniciais dos túneis resumem-se em fazer mover pequenas esferas com o poder da mente. Raquel impressiona sua severa professora ao ser a primeira a conseguir isso. Mas essa professora revela um segredo para Raquel que poderá mudar os rumos da Esfera.
A Esfera está morrendo. O mainframe principal que mantém os recursos do local está em um atraso constante. A Esfera tem menos de três anos de existência. Raquel convoca seus amigos para a missão de salvação da Esfera. Uma missão perigosíssima. Uma missão em busca da sobrevivência.
Algumas situações do livro merecem pleno destaque: como os animais foram extintos, na Esfera existem os “tashis”: pequenos robôs em forma de esfera flutuante, uma espécie de tamagotchi pairando sob a cabeça de suas donas. É como ter um cachorro. E a maioria das crianças e adolescentes tem o seu. Os tashis podem servir desde lanternas a armazenadores de memória. Captam dados como ninguém, fazem muita graça ao longo do texto.
Também existem no livro as Áreas Afastadas, um local em construção na Esfera, liderado à distância pela Elite que, como todos os grandes grupos da humanidade, coordenam o funcionamento do local. Dois dos membros da Elite merecem destaque: Alastor, cuja neta Isabela (uma sibério) entra para o grupo de Raquel; e Vítor, o único Antena vivo. A única pessoa em toda a Esfera capaz de controlar mentes. Ao longo da história o leitor se depara com a realidade das Áreas Afastadas: um lugar que nem parece fazer parte da Esfera, onde as pessoas vivem na marginalidade de implantar chips não autorizados e para onde alguns criminosos são enviados para cumprir penas.

“Em todas as sociedades existem as suas castas, os considerados heróis e os derrotados, e essa classificação normalmente é dada por uma mera característica que nunca depende da vontade do classificado.”

Esse local lembra muito o filme A. I. – Inteligência Artificial, na parte em que o garoto-robô encontra alguns robôs que sobrevivem com o lixo de equipamentos estragados que as pessoas jogam em locais próprios a isso.
Isabela, a sibério, acaba se revelando uma grande personagem, um ponto chave na história. Ela também conhece a informação do atraso do mainframe, mas sabe que existe uma saída – não para salvar a Esfera, – mas sim para encontrar uma Terra já possivelmente curada da radiação. Entretanto, esse é um plano arriscado. Que ela deseja firmemente levar adiante.
Eu, como não-leitora de ficção científica e fantasia, encontrei alguns pontos não tão bacanas no livro. Mas quero deixar claro que essa é uma questão muito pessoal e fruto da minha falta de costume em ler obras desse tipo. Achei o livro longo demais em determinadas partes. Desnecessariamente longo. O autor é capaz de relatar minuciosamente como se faz uma bebida futurística e eu, já disse, tenho preguiça de imaginar esse tipo de coisa. O engraçado é que, para um leitor de obras assim, beirando ao épico, essas descrições agradam. Isso explica os volumes da saga de George Martin. Mas as longas descrições possuem um motivo justo para existirem: no fim do livro, num suspense eletrizante, todas as informações se entrelaçam. Uma coisa que me incomodou verdadeiramente na obra foi a ausência de personagens estrangeiros – todos os nomes são em português. Entretanto, não contém personagens negros. Os protagonistas são todos brancos, a Raquel até loura é. Nada contra. Porém, fica meio esquisito esse aspecto de seriado norte-americano com nomes típicos do Brasil. No início do livro, também demorei a identificar a Esfera: para mim, era um novo mundo criado sob a Terra e não dentro dela. É, eu sou muito preguiçosa mesmo.

“Se você nunca tomou um Pangeia entenda uma coisa, a sensação é parecida com ter um cérebro colocado em um liquidificador e batido com pouco gelo, coar tudo e por fim flambá-lo. É uma sensação e tanto.”

Para quem procura uma literatura fantástica e científica de autor brasileiro, vale à pena conferir o Terras Metálicas. É um livro de muita qualidade, a narrativa flui, o mistério permanece e o autor dialoga com quem está do outro lado. Na livraria em que trabalho, ao abrir uma requisição pedindo essa obra, notei que o preço está por trinta reais. Gente: é uma obra de fantasia, com mais de 600 páginas pelo preço de um livro de 100 folhas. E isso não é apenas uma oportunidade, também representa um privilégio para conhecermos a literatura brasileira atual. Estamos precisando. Nota 10 para o Renato.

No site do livro, conheça os personagens e mais um pouco da história desses jovens.

Quer conhecer outros trechos que selecionei dessa obra? Clique aqui.

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6 respostas em “Esfera

  1. Já eu sou apaixonada por ficção científica, adoro todo esse estranhamento e a capacidade criativa dos autores. Mas eu te entendo, isso da preguiça acontece hehehe é uma leitura às vezes “pesada”, cheia de informações inventadas que gostam de embrulhar nossa pobre cabecinha. Eu não conhecia esse autor brasileiro, achei legal a sua iniciativa de lê-lo. Essa passagem sobre a bebida me lembrou muito uma do Guia dos mochileiros da galáxia, a dinamite pangaláctica heheheheh

    Beijos

  2. Ai, eu ADORO umas distopias assim, fiquei meeeega interessada na história. Eu sou o contrário de você, meus livros favoritos são as literaturas fantásticas da vida!!!!

  3. Depois que eu assisti a Jogos Vorazes — ainda não li o livro — sou totalmente aberto à novas distopias. Eu entendo você, às vezes, tem fantasias que cansam, não são todas que se encaixam com cada um de nós. Fico muito feliz que você tenha gostado deste livro, vou procurar conhecer mais sobre ele. No início do texto achei que você não ia gostar, mas, no fim, fiquei feliz por você, é sempre bom descobrir um gênero novo e gostar dele.

    Abraço apertado,

  4. Fiz uma interpretação sobre o texto “Eu tenho um sonho” do Marthin Luther King, agora tenho que dar o meu parecer sobre o texto, depois citar em sua dissertação Onde ou dois textos que têm intertextualidade “, com Eu tenho um sonho” , dizer alguma situação que você tem testemunhado em seu país sobre a luta racial ou luta das minorias , e finalizar a sua tese dizendo que se você tem um sonho. Se você tem. Que sonho é esse, e o que você está fazendo para realizá-lo.
    Te agradeço muito pela grande ajuda.
    Manoel vitor.

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