Porque não vou para Marte

E daí que eu estava num barco, navegando há uma distância infinita de onde deixei o navio – pois aquela viagem eu teria de fazer sozinha; quando encontrei um vestígio de ilha, daí pensei “até que fim cheguei”. Ledo engano, mas eu precisava passar por ali para avistar meu objeto de destino.
O mar acabava onde começavam as nuvens: isso mesmo, eram nuvens, um vapor gelado que vinha do chão e iniciava um arco-íris. A entrada da ilha era esse arco-íris. Atravessei-o e, apesar da névoa, vi uma ruazinha sem fim com casas todas juntas. Fui andando, andando, andando: tudo me parecia vazio. Parei de frente a uma casa lilás, semelhante as outras, em tons pastéis. Havia ali uma moça muito loura (os cabelos cacheados), muito branca, segurando uma criança nos braços, tão albina quanto ela, de costas para mim. Quando a cumprimentei, ambas se viraram. Tinham os olhos negros. Completamente negros. Cílios cor de rosa. Um risco no lugar dos lábios. Questionei quem eram, que lugar era aquele. Como elas não conseguiam me entender, exclamei “oh Aslan!”, enfim me apontaram a entrada de uma orla. Caminhei até ali, pude ver o mar. Do outro lado, o sol ia embora, uma ilha pequenina com um balanço de criança ocupando todo seu espaço, segurado por dois coqueiros. Eu sorri. Meu barco, extraordinariamente, havia parado ali. Quando olhei de novo para a ilha, havia um leão no lugar do balanço. Gritei “Aslan!”, mas acordei em seguida.
É claro que eu sonhei isso depois de ler A Viagem do Peregrino da Alvorada, um dos livros que compõe a saga As Crônicas de Nárnia, de C. S. Lewis.

Da outra vez, eu estava na praia, com o meu marido. Eu tinha cabelos louros, longos, em ondas. Usava uma viseira, olhava o mar. Daí o sol ficou cada vez mais quente e o brilho nos cegava. Em poucos segundos, a humanidade já não existia, estávamos sendo vítimas de uma possível explosão solar. O engraçado é que estávamos sorrindo. Morremos felizes?
É claro que esse sonho veio depois que li o incrivelmente impressionável A Idade dos Milagres, de Karen Thompson Walker.

De tão medrosa, eu seria a pessoa menos apta a fazer essa viagem sem volta até Marte. De tão alheia que me comporto a tudo isso, eu nem sabia que existe gente interessada, de fato, em colonizar o planeta. Um grupo de vinte e quatro pessoas, de diferentes lugares da Terra, será escolhido entre cem mil humanos que se inscreverem nesse site. Vai funcionar assim: em 2023, duas pessoas entrarão em uma nave rumo a Marte. Essa viagem durará sete meses. E serão sete meses sem tomar banho (creiam. E não perguntem). Chegando lá, esses dois humanos deverão construir sua própria casa e viver, esperando as próximas duas pessoas que chegarão em seguida. Até que os vinte e quatro estejam lá. Juntinhos. Vivendo. E procriando marcianos, olha só.
Não sei vocês, mas pensar em uma colonização em outro planeta me faz questionar: e foi assim conosco? Meu marido, que é um grande fã confesso de ficção científica (em seriados e filmes, jamais na literatura), me contou, certa vez, sobre o final de um seriado nesse estilo (teria sido Caprica? Battlestar Galactica? Whatever), em que um planeta está morrendo e correm boatos de que existe um mundo perfeitamente habitável para aquelas pessoas. Esse mundo seria uma tal de Terra, com todos os recursos naturais propícios para a sobrevivência deles. A viagem é feita, eles chegam aqui, e o último capítulo mostra uma garotinha chamada Eva, crescendo e casando com um terráqueo, procriando e oferecendo as características físicas, emocionais e tecnológicas que temos hoje.
Por que não?
Para quem acredita em Deus, fico imaginando como será a vida em Marte caso todos concordem em não mencionar a palavra divina que designa o desconhecido e superior. Como seria ignorar divindades e formar sua própria cultura? Como será educar crianças marcianas? Que desculpa teríamos a dar, qual a resposta exata para os que filosofarem da onde viemos e para onde iremos?
Ir para Marte exigirá um desapego enorme. Não só de localização geográfica, como também de toda uma cultura criada, estabelecida. É como se tivéssemos a chance de ser outra pessoa. O lado bom? A Terra já está tão mal cuidada, que Marte servirá de válvula de escape, local reserva para a sobrevivência caso uma explosão solar – ou coisa pior, acontecimentos provocados por nós mesmos – venham a tona. Entretanto, inicialmente, precisamos de cobaias. E serão essas vinte e quatro loucas pessoas.
O espiritismo acredita que, quando morremos, reencarnamos para evoluir, para sermos melhores e fazermos o melhor na outra vida. Para consertar erros, basicamente. Indo por essa vertente, deixo uma sugestão: o filme Cloud Atlas, que possui um elenco impecável (Tom Hanks, Halle Berry, só para começar. Sendo que Halle aparece branca e, se você assistir e sentir que existem lacunas, leia isso), conta a história de seis pessoas em seis épocas diferentes – mas tudo sendo contado ao mesmo tempo. Em cada época, elas possuem a chance de salvar um ideal, mas são surpreendidas com a morte, quase sempre em forma de assassinato. São pessoas que confrontam a escravidão e iniciam uma revolução. Segundo o espiritismo, existe uma “escala” evolutiva. Semelhante ao ideal darwinista. Se somos animais em uma vida, na outra podemos chegar a humanos. Sendo humanos, não voltamos a animais. Depois dos humanos, que mais podemos ser? Reencarnamos em outro planeta.

Não estou pedindo que acreditem nisso, mas se a humanidade deseja ir até Marte e lá conceber vidas, isso significa a intenção de uma evolução, mesmo que seja uma intenção inconsciente?
A tecnologia me assusta. Me parece excessiva. Saramago dizia que é absurdo procurar alcançar galáxias, planetas, estrelas, sendo esse mundo o que é – uma banalização que vai da pobreza a ignorância. Fico com a opinião dele.
Mas ainda é cedo para pensar no assunto. Temos dez anos pela frente.

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7 respostas em “Porque não vou para Marte

  1. HAHAHAHA essa história de viajar pra Marte é assustadora! Também não vejo fundamento nisso. Se fosse algo de extrema necessidade (como acontece em um livro que estou lendo), era até compreensivo, mas pra mim esse alistamento não passa de babaquice, sério.

  2. Nárnia me dá medo. Aceito orcs e dragões numa boa, mas bichinhos de zoológico falantes e voando e vivendo num mundo paralelo? Bah, no thanks… Sinto que autores que curtem mundos paralelos são os que têm uma certa disfunção psiquiátrica de fuga da realidade, de modo que criam as suas próprias realidades conectadas de alguma forma com a nossa.

  3. Eu volto aqui ainda essa semana para ler tudo o que puder.
    Final de semestre tá corrido!

    Abraço,

  4. Eu gosto de realidades paralelas, amo Nárnia, mas não curto outros planetas ou colonizações como essa. É sério isso das 24 pessoas? Você não se inscreveu, não é?

    Acho que o nosso mundo ainda é bom o bastante para nós, e, se ele não for, é por nossa culpa mesmo. Então, não há do que reclamar, ha, ha!

    Ah, meus sonhos também são perturbadinhos.

    Abraço,

  5. Eu achei muito bizarra essa história de colonizar Marte, mas mais bizarro ainda foi essa lista enorme de espera. Vai ter internet? E os livros, e os amigos, e os familiares? E viver com um monte de gente desconhecida sem ter pra onde fugir! E, como você apontou, o BANHO? Daí que eu li semana passada sobre esse estudo que tenta defender que a vida teria começado em Marte, sem muito sucesso, e por conta de um meteoro, acabou parando na Terra e se desenvolvendo. Talvez só estejamos voltando para casa mesmo…

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