Procuro, procuro Zanganeh

Todos os anos, dois eventos especiais me deixam ansiosa: o Nobel de literatura e a escolha da musa da FLIP. Isso mesmo: todo ano é o mesmo badalo: sempre surgirá uma figura excepcional, feminina, bela demais para a escrita, tão bonita que todos duvidam do seu talento (haja machismo, viu).
Mas eu não sabia que isso existia até algum tempo atrás. A musa da FLIP é sempre uma novata, uma jovem estreante nas letras. Em 2011, a argentina Pola Oloixarac foi a “privilegiada” da festa. Ela escreveu uma obra maravilhosa, um dos melhores livros que já li na vida, As Teorias Selvagens. Mas o destaque ficou para a sua beleza exótica e seu gosto pela moda. Obviamente, Pola ganhou o rótulo de “ah, não deve escrever tão bem assim”, logo dissipado e perdoado após a leitura de seu título de estreia.
Entre as musas da FLIP, existem exceções. Isabel Allende, por exemplo, já não é tão jovem, tampouco estreante. Mas sim uma autora consagradíssima e cuja presença fora muito aguardada em 2010.
E, em 2013, a “cobaia” da vez foi uma francesa descendente de iranianos e com rosto de brasileira, portadora de um nome delicado e sobrenome complicado: Lila Azam Zanganeh, autora de O Encantador (editora Alfaguara, 292 páginas).

Eu nada sabia sobre essa moça até que seu livro chegasse em minha livraria, pouco antes de começar a FLIP. O que me chamou a atenção foi a capa do livro dela. Raramente a Alfaguara altera o contexto da capa (que, apesar de simples, acho fantástico):

Em seguida, veio o subtítulo: Nabokov e a felicidade. Eu só havia lido duas obras de Vladimir Nabokov, que já eram o suficiente para colocá-lo em minha lista de escritores favoritos, mas, ainda assim, não encontrei felicidade em seus livros. Como alguém poderia conceber essa palavra lendo Nabokov? Se eu pudesse definir toda a obra de Nabokov em uma palavra, ela certamente não seria “felicidade”.
Pois bem. Lila era criança quando viu sua mãe lendo a autobiografia de Nabokov (Fala Memória, sem edição brasileira recente). Sua mãe lia com tanta dedicação, que ela perguntou de que se tratava o livro. Mas, como resposta, recebeu a frase “você ainda é muito nova para esse autor”. Obviamente, assim que a mãe saiu, Lila pegou o livro escondido e percebeu a fascinação dela: algumas partes falavam do exílio, que é uma palavra que faz parte da história de ambas as famílias (dos Nabokov aos Zanganeh).
Daí que Lila partisse para Ada ou Ardor e Lolita (que já resenhei aqui) foram um pulo. E então sua obsessão por Nabokov começou. Não bastava ler todas as obras. Ela também aprendeu russo, procurou jornais e revistas sobre o autor, encontrou-se com Dimitri, filho de Nabokov e fantasiou diversos momentos com Vladimir – incluindo uma entrevista de agradecimento e nervosismo, tímidas trocas de olhares, paixão avassaladora mesmo (presente no livro). E, infelizmente, platônica.

“Nabokov faleceu no dia 2 de julho de 1977. Eu tinha dez meses de idade. Mais ou menos seiscentos e cinquenta quilômetros nos separavam. Em suma, tivemos um começo infeliz. Ele iria permanecer para sempre insciente da minha insignificante existência.”

O encantamento do título é muito mais referente o seu conteúdo. E até a sua autora. Lila é encantadora – não apenas pela beleza evidente, mas sim pela escrita envolvente e doce, entremeada por uma inteligência única e caráter íntegro. O livro traz, logo de início, uma espécie de “mapa da felicidade” pelo qual o leitor pode seguir o itinerário de sua preferência. E ainda conta com ilustrações lindíssimas. O encantamento de Lila por Nabokov é prazeroso para quem já conhece o autor e/ou para quem já ouviu falar nele. Para quem acha, por exemplo, que Lolita é literatura profanadamente erótica e de quinta qualidade – ou, pior, que Nabokov foi um pedófilo assumido, sinto dizer, mas você se engana. Ler O Encantador fará com que tenhamos uma nova percepção biográfica do escritor – e cheguemos também ao alcance de outras obras suas.

“Ele buscou trabalho num banco, mas durou apenas três horas. Foi tutor de francês, inglês e russo, porém nem um minuto além da hora marcada. Escreveu uma gramática de língua russa. O primeiro exercício: Madam, ya doktor, vot banan (‘Madame, sou o médico, aqui está uma banana’). Deu aulas de tênis e boxe. Era bonito e esguio. Atuou como figurante em um filme alemão. Era Sirin na linha assinada. Volodya em roupas íntimas. Revisou Convite ao cadafalso com tinta violeta. Quando escrevia, nunca lia jornais, apenas livros. Nunca comprava livros. Lia de pé, nas livrarias. Viu Kafka num bonde (ou assim pensou, anos depois, quando deparou com uma fotografia ‘daqueles olhos mais extraordinários’). Era pobre, muito pobre. Pediu que um conhecido das letras o recomendasse.”

Na FLIP, a doce Lila falou em português (que ela aprendeu por Skype com um amigo brasileiro que trabalha na editora Saraiva – e nós aqui, chorando para terminar o cursinho de inglês, ô vergonha!) e fez questão de salientar que, apesar de ser uma “autora iraniana”, não é sobre luta política que sua obra fala, pois a literatura é motivo para construir futuros, através daquilo que experimentamos ao longo dos anos. Lila é como todas nós: frequentes “maria-canetas” de festas, feiras e bienais literárias – estamos ali, apaixonadíssimas por um escritor, com os olhos brilhando e o coração apertado. Lila é fanática por Nabokov muito claramente: até o último fio de cabelo. O livro me incomodou um pouco por ser o tipo de obra de uma moça tão encantada por determinado autor, que chega a imaginar encontros com o mesmo, o que deixa o livro entre o confuso e o inconcluso. Entretanto, a intenção de Lila é romper a barreira da biografia com a ficção. Por que não juntar os dois? Essa não é uma ideia nova, porém, é uma das poucas realmente bem feitas. É quase impossível divisar onde se inicia a ficção para terminar a vida de Nabokov. Tudo está conectado. É um livro encantador!

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10 respostas em “Procuro, procuro Zanganeh

  1. Na real, esse misto de análise literário, biografia do autor e do objeto estudado acho que é ensaio, é um texto bem híbrido mesmo com ficção e não ficção e memória. Apesar desses elementos não serem regra.

  2. Eu não conhecia a Lila e nem sabia que a FLIP tinha essa coisa de musa (o que eu acho muito estranho, tem “muso” também?). Coloquei o livro dela na minha lista “Para ler”, mas antes quero ler “Lolita”, que é um daqueles livros que eu sempre deixo de comprar quando já estou na boca do caixa… Agora ela ter aprendido a falar português pelo Skype foi meio que um tapa na minha cara, que estudo francês há quase 5 anos, mas provavelmente morreria de fome se um dia fosse largada no meio de Paris.

  3. Não conhecia a Lila. Gostaria de ler o livro quando puder, parece realmente bom! E, olha, nunca tinha visto essa coisa de musa da FLIP, achei engraçado e maldoso também com essa coisa de “não deve escrever bem”.
    Beijo!

  4. Eu não conheço nada sobre a Flip, mas é chato ter que concordar que isso que você citou no início sobre mulheres bonitas e inteligência e totalmente verdade, em muitos meios, infelizmente.

    Ela é bonita mesmo, não é?

    Lolita está na minha lista, mas só depois que eu começar a ler Jane Austen.

    Sabe, quando você escrever um livro, acho que vai poder concorrer a esse cargo de musa da Flip. Apenas acho.

    Abraço,

    {http://www.duasgotas.com.br/}

  5. E o sexismo segue reinando em todas as áreas… infelizmente. Eu adoro a frase (e até tenho uma camisa que diz:) “good writing is sexy”, independente de beleza plástica, que é uma bobagem. Fiquei curiosa com o livro dela, sou fã do Nabokov.

  6. Heresia, nunca li Nabokov. Preciso urgente. Realmente ela é bonita. Gostei da história de como ela foi atrás da vida de Nabokov.

  7. Não fazia ideia de nada disso, nem do FLIP, nem da escritora, nada. Mas muito me interessei. E isso só fez com que eu tivesse vontade de ler esse livro, mas primeiro preciso ler Lolita – um soco no estômago literário, mas incrivelmente bem escrito. Quando comecei a leitura tive certeza de que ainda não estava pronta para Nabokov. Quem sabe agora…

  8. Ai, que delícia de post! Me senti um peixe fora d’água, mas adorei! Me deu vontade de conhecer tudo isso que você citou… Super envolvente! Parabéns!
    Um beijo,
    Mariana

  9. Amei o post, mesmo não conhecendo a Zanganeh, o post ficou bem elaborado que até deu pra conhecer um pouquinho! Nem fazia ideia que esse FLIP existia! HAHAHAHA
    Aliás, o que você citou no começo do post, alguns escritores tem bastante preconceito com escritoras, da capacidade de fazer livros ótimos e/ou escrever grandes sucessos só porque são bonitonas e, talvez, ligam mais pra aparencia e filho e homens. Sei muito bem como é! Sofro esse tipo de preconceito HAHAHAHAH Principalmente por motivos de: meu livro ser de ficção cientifica, hauahua IMAGINA O PRECONCEITO!
    Mas tá anotado meu próximo livro que comprarei da Lila! Pesquisei mais sobre o O Encantador e gostei, viu? Na verdade, amei a sinopse <3

  10. Uau! Que texto maravilhoso!

    Você definiu Lila e sua obra com uma naturalidade espantosa!

    Parabéns e obrigado por compartilhar tal pensamento conosco. =)

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