Quem é Hilda Hilst na fila do pão?

Existem autores que ninguém lê, mas todo mundo conhece. É tipo aquela moçada religiosa que adora citar diferentes salmos para tentar alinhar a vida alheia, sendo que nunca leu a Bíblia inteira e, se por acaso o fez, não sabe interpretá-la. Quer um exemplo? Clarice Lispector. Após o sucesso do Cinquenta Tons de Cinza, decidi questionar a mulherada que visita a livraria se elas gostavam de Clarice. A maioria leu frases soltas nas timelines da vida, cuja autoria é altamente duvidosa. Querem mais alguma coisa no estilo da modinha erótica. Se eu indico, sei lá, o Memórias de Minhas Putas Tristes ou a Travessuras da Menina Má – que são altamente sensuais (e com o empurrãozinho da excelente escrita), a mulherada recusa, alegando que não suporta essa “literatura cabeça que não diverte ninguém”. A maioria admite que Cinquenta Tons é mesmo um lixo ortográfico-gramatical, mas “a história prende”, e essa é a justificativa plausível. Em outras palavras: a humanidade, em sua maior parte, não sabe ler. Brasileiros, principalmente. Não é uma questão de ter ido ou não para a escola e ter sido ou não alfabetizadx, é uma questão de saber escolher o que estará diante de seus olhos nessa arte de virar as páginas.
Existe um tumblr chamado Writers No One Reads (algo como “escritores que ninguém lê”, na tradução), que coleciona autores pouco conhecidos do grande público e/ou completos desconhecidos que a humanidade está perdendo pelo simples fato de possuírem toda uma mentalidade limítrofe e fechada. Não por acaso, Clarice Lispector se encontra lá.
Pois eu acho que faltou Hilda Hilst. Depois de Lispector, ela é uma das grandes autoras brasileiras completamente desconhecida do grande – e até do “pequeno” público. Quase todo mundo já ouviu falar dessa senhora, mas nunca encarou suas obras (que são bem fininhas, olha). O motivo? É uma literatura cabeça, que, aparentemente, não diverte ninguém.
Antes, uma historinha curiosa: aqui em Salvador, na universidade federal, existe um professor (que também é escritor – e renomado), cujas aulas sobre literatura são disputadíssimas. E ele TE-TES-TA Hilda Hilst. Mas sabe o que é engraçado? Ele indica as obras dessa autora em suas aulas. Deve se uma relação de amor e ódio inexplicável. Nem contestarei, só sei que muitas de suas alunas vão lá na livraria procurar os títulos da autora (ou referentes a ela) por conta das avaliações desse professor. Vai entender, né.

Para não pagar de intelectual, confesso que eu também não conhecia Hilda Hilst. Eu não sabia nada sobre ela, mas gosto da sonoridade de seu nome e das capas de suas obras completas, agora editadas pela Globo. Eu fui conhecer mesmo a Hildinha (sim, já estou íntima), quando a Hillé, do Manual Prático de Bons Modos em Livrarias, confessou numa entrevista que seu pseudônimo fora adotado por conta da personagem principal de A Obscena Senhora D., livro de Hilda Hilst que narra a história de uma senhora que vive debaixo de uma escada, num vão, sofrendo a morte do marido, que lhe aparece como espírito e em suas memórias, assustando a vizinhança com o seu jeito excêntrico de viver (não o marido, mas ela). Hillé vem de “derrelição”, palavra que significa abandono, que é exatamente o que a Hillé sente após a definitiva ida de seu marido. Sim, eu precisei conhecer Hildinha com essa obra maravilhosa, para depois encarar o Fico Besta Quando Me Entendem (editora Biblioteca Azul, 237 páginas), uma biografia com entrevistas da autora para jornais e revistas estrangeiras e nacionais, organizadas por Cristiano Diniz.

“Esses doutos, falantes, esses da filosofia, ai, devemos nos amar, Hillé, para sempre, eu te dizia: tu tens vinte agora, eu vinte e cinco, pensa tudo isso não vai voltar, não terás mais vinte nem eu vinte e cinco, e vais ficar triste de teres perdido o tempo com perguntas, pensa como serás aos sessenta, eu estarei morto.
Por quê?
Causa mortis? Acúmulo de perguntas de sua mulher Hillé.”
A Obscena Senhora D.

Apesar de não ter lido outras obras da Hildinha, fica bem claro para o leitor, nesse compilado de suas melhores entrevistas, que a Hillé é sua gêmea irmã. Hillé, senhora perguntadeira sobre a vida. Hilda, do lado oposto, tão coração de derrelição, e erroneamente reconhecida (até hoje) como uma autora de livros eróticos (só no fim da vida ela publicou uma trilogia nesse estilo). Suas entrevistas são divididas mais ou menos da seguinte forma: o início da carreira, e toda aquela expectativa fascinantemente poética sobre seu futuro na escrita (seguida das lembranças de seu pai – que também fora poeta, que era um homem lindo, porém louco internado em hospícios); sua carreira consolidada, mas ainda mal tratada, em sintonia com seus experimentos na famosa Casa do Sol (Hilda escutava vozes de espíritos. Ela gravava essas vozes durante horas. Fazia disso um verdadeiro estudo. Provavelmente, apesar dela não ter se focado em religião alguma, acredito que Hilda foi uma grande médium. Ela já chegou a ver um anjo, na infância); e o “início” de sua carreira no âmbito erótico. É nesse ponto que desejo focar. Hilda decidiu começar com O Caderno Rosa de Lori Lamby porque já não aguentava mais ter passado a vida inteira sendo reconhecida como uma autora hermética, de difícil compreensão, chatíssima e do tipo que brigada com todos os editores (por favor, confiram essa excelente historieta sobre sua desavença com Luiz Schwarcz, fundador da Companhia das Letras). Já uma senhora, não estava (nunca esteve, aliás) mais preocupada em deixar de falar o que lhe vinha. Nas poucas entrevistas que concedeu nesse período, fez questão de comunicar que estava sem sexo há quase vinte anos – e que tal atividade não lhe fazia falta. A Casa do Sol tinha agora cachorros e inquilinos infelizes que furtavam livros raros de sua coleção. Hilda, que nunca enriqueceu financeiramente com sua literatura, passou a viver de uma verba simbólica que recebia duma universidade na qual palestrava.

“Eu perguntava pro Anatol Rosenfeld, de quem eu gostava muito: ‘Por que as pessoas acham que eu escrevo para os eruditos? Eu falo tão claro. Eu falo até sobre a bunda’. E ele me respondia: ‘Mas tua bunda é terrivelmente intelectual, Hilda’.”

Esse livro é interessante por dois motivos: a edição é lindíssima, tem ilustrações da própria autora, desenhos que me recordam os sonhos de Fellini. É capa dura, vermelha, uma edição primorosa, muito bem cuidada. E é o retrato sincero de uma autora que ninguém conhece – e, quando a desnuda, adentra a trajetória feita pelos caminhos de pedras que a maioria dos escritores brasileiros conhece. Sabe quem é Hilda (humana!) Hilst (furacão!) na fila do pão? Uma escritora que você precisa conhecer, principalmente se o objetivo da sua vida é ser autor. Soco no estômago. Para manter os pés no chão.

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11 respostas em “Quem é Hilda Hilst na fila do pão?

  1. Há também a lista daqueles que dizem ter lido mas que não leram. Dou o exemplo de Ulisses, do James Joyce. No Brasil Guimarães Rosa. Boa postagem!

  2. Oiii Nina
    Eu comecei a ler A Obscena Senhora D. e Cartas de um Sedutor, mas acabei não terminando nenhum dos dois. Como eu faço com a Clarisse Lispector às vezes, hahaha. Eu tento ler tudo que me parece ser interessante, e conheci a Hilda por causa de um poema dela (que nem sei de qual livro é) que achei lindo de viver, e olha que nem gosto muito de poesia. Resultado: fui procurar obras delas. Mas realmente é uma leitura difícil, ela não flui fácil como esses livrinhos água com açúcar.
    E poxa, A obscena Senhora D. e Cartas de Um Sedutor são extremamente mais eróticos que aquele pornô disfarçado dos 50 tons lá… A Casa dos Budas Ditosos também.

    Mas sei lá, essas pessoas que lêem 50 tons, pelo menos estão lendo. Fico dividida entre decepcionada e contente em relação a isso, hahahaha.
    beijo ;**

  3. Faço parte do grupo que a conhece de nome, e é só. Muito embora adore a sonoridade do nome dela, é uma combinação interessante de ficar repetindo, “Hilda Hilst”. Mas não conhecia sua história, e sabia menos ainda de seus escritos – apesar de saber, pelo menos, de sua importância em nossa literatura. É uma pena eu tê-la deixado passar, espero conseguir reparar isso em breve – ou, pelo menos, quando conseguir terminar minhas leituras atuais. (:

  4. Li dois livros da Hilda já há um bom tempo. Foi bom ter contato com esse ótimo post agora, me deixou com vontade de ler mais algumas coisas dela. Uma grande escritora que, definitivamente, merecia mais atenção.

  5. Eu estava no grupo do Facebook quando vi o título na postagem, quase não acreditei. Gosto bastante da Hilda e do seu estilo, que peço licença pra chamar de “Vida loka”. gosto muito de suas narrativas e suas crônicas! Excelente trabalho, gostei mesmo! Um grande abraço!

  6. É mesmo né, esse povo fica falando da Lispector e nem conhece. E eu nunca tinha ouvido falar na Hilda cara HGKFJHGKJFK sad but true. Triste saber que tem tantos autores bons desconhecidos por aí. Principalmente no nosso território. O povo gosta mesmo é de babar gringo, aff

    Bjos!

  7. Oi Nina!
    que post legal. Não conhecia a Hildinha, só de fama e de citação de blogs e talz. Agora fiquei curiosa para lê-la de fato.
    Acho que essa ignorância das pessoas não é privilégio da Hilda Hilst. Outras autoras brasileiras são igualmente negligenciadas, a exemplo da Adélia Prado, a Marina Colsanti e a própria Lygia. A verdade é que conhecemos pouco nossos autores nacionais e eles são fantásticos em tantos sentidos.
    Enfim, beijo.
    P.s: Esse blog muda o layout e fica sempre melhor.

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