Duas perdas

Poucas vezes na vida li obras que tratassem de duas senhoras distintas encontrando-se e colidindo n’algum ponto comum. Não me parece uma história atraente. Tenho preguiça, seguida de pensamentos como “não terá um romance, uma grande aventura”. Não foi muito diferente com a Liliane Prata.
Por outro lado, das banalidades podem surgir grandes relatos, ótimas narrativas. Assim como dos livros hiper fantasiosos, falta criatividade na escrita, o que deixa o enredo literalmente pobre.
Por sorte, a Liliane Prata faz parte do primeiro grupo.
Cláudia é uma passiva vegetativa. Basta dizer que ela está aí, vivendo, andando com as próprias pernas e esperando os dias passarem por motivos de: não tem jeito, sou um zumbi. Ela poderia ter sido uma grande musicista, conquistaria o mundo com o som do seu violino – mas deixou a timidez falar mais alto, até que a mesma se tornasse reclusão plena.
Ísis, no entanto, é tão chamativa e protagonista de sua existência que, até para sofrer, precisa deixar metade do bairro sabendo o que aconteceu. Imagino Ísis com um cabelo curto, um batom vermelho, uma saia lápis indiscutível num tom de azul celeste. Ísis tem uma filha. E, assim como sua mãe, teve um marido.
Digo teve porque o título que ilustra esse enredo é Três Viúvas (editora Planeta, 144 páginas). Logo no início da obra, Cláudia espera Rogério voltar à noite do trabalho, esquecendo que ele sairia com alguns amigos da empresa. Um deles, Márcio, marido de Ísis. Suas esposas não se conheciam, mas a consequência da morte causada pelo acidente de trânsito construirá um estranho e difícil elo entre as duas.
Falando em Três Viúvas, é impossível não lembrar de Razão e Sensibilidade, de Jane Austen – história que conta o elo entre as irmãs Dashwood. Elinor representando o lado racional da família, que pensa duas vezes antes de falar e/ou agir; e Marianne, tão doce quanto direta, entregue aos sentimentos, a emoção e tornando-se sensível quando ferida.
Assim são Cláudia e Ísis. Quando Cláudia vai até a empresa do falecido marido, é surpreendida por uma descontrolada e escandalosa Ísis. O susto inicial, no entanto, acaba unindo a “oi, sou Ísis e acabei de perder o amor da minha vida em um acidente de trânsito” e a “prazer, sou Cláudia, você não precisa saber do meu passado”. Cláudia passa meses convivendo diariamente com Ísis, sua mãe e sua filha pré-adolescente. Adentra a rotina dessa nova amiga tão livro-aberto, enquanto ela mesma se mantém uma desconhecida – até para si própria.
Enquanto Ísis retoma a rotina em meio ao desespero da perda, Cláudia segue consolando-a, apesar de não ter derramado uma lágrima sequer diante do falecimento de Rogério. Cláudia é uma pessoa confusa dentro de si, e quase apagada por fora. O objetivo de sua vida é alcançado com êxito: ela não quer chamar a atenção.

“Ela se lembrou de tudo, mas nada a afetava, era como se as lembranças a tocassem e a atravessassem e fossem embora: as coisas tocavam seu corpo, mas nada ficava lá dentro, nada era absolvido, digerido, tudo se encostava nela e ia embora pelo outro lado, sem resistência.”

Ainda não sei dizer se gostei ou não do livro, que me lembrou, além da Jane Austen, também um pouco da Inês Pedrosa (e ainda o filme The Edge Of Love, dada a amizade entre as personagens de Sienna Miller e Keira Knightley). Acho que faltou a Liliane um senso maior de evolução do romance, apesar da boa narrativa. Ao terminar o livro, fiquei com a sensação de que “rir de tudo é desespero” (oi Ísis), como canta Frejat, e de que, como um todo, o livro saiu tão apagado quanto o rosto da Cláudia na minha imaginação. Como é presumível numa obra assim, ambas as protagonistas trocam de papéis e aprendem uma com a outra. Mas a mãe de Ísis é tão desimportante na história, que o título não faz muito sentido e o leitor esquece o nome dela, assim como eu tenho feito agora.
E, não duvido, é bem provável que eu esteja sob grande influência do livro anterior da Liliane, O Novo Mundo de Muriel, bem diferente de Três Viúvas, porém mais interessante e ávido do que esse segundo livro com pouco mais de cem páginas. Falha minha.

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4 respostas em “Duas perdas

  1. Parece interessante. Vou dar uma chance a esse livro. Obrigada!

  2. Nina e mais um dos seus eventos que fazem a gente querer ter uma biblioteca em nossas casas. Nem preciso dizer o quanto aprendo lendo suas críticas literárias aqui. Ah, e dessa vez tive a honra da sua visita no blog!
    Não queria que soasse como cobrança, eu realmente aprecio quando vejo suas duas vogais e duas consoantes no Teatro.

    Pelo visto, o livro em questão não lhe agradou por completo, mas é incrível como você encontra referências interessantes na narrativa e ajuda a justificar alguma parte da obra. Afinal, quase nada em sua totalidade é dispensável e isso me faz pensar que devemos ser curiosos sob quaisquer gêneros.

    Obrigado por continuar impecável.

  3. Mesmo o livro não te agradando muito, confesso que fiquei com vontade de ler essa história!

    Não conhecia seu blog, gostei! Voltarei mais vezes! =)

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