Costurando borboletas

Originalmente publicado na Revista 21.

Apenas seja sincerx: quantas faxineiras protagonistas de romances você conhece?
Lawanda chega pontualmente atrasada ao trabalho. Ela entrou no hospital pelas cotas para deficientes. Coleciona besouros, costura borboletas. Tem um amante chamado José Júnior, que sofre constantes macumbas de Lawanda, pois ela quer que o José se separe da esposa e vá ficar com ela. Lawanda nem é seu nome verdadeiro. O nome dela é Wanda.
Lawanda é uma Macabéa moderna e bem-humorada. Assim como a personagem de Clarice Lispector em A Hora da Estrela, Lawanda também parece ter essa alma nordestina que migra para a Grande São Paulo na intenção de novas oportunidades de trabalho. Mas a menina é nova, tem uma mãe muito adoentada, um pai praticamente desconhecido e recebe o dinheiro para o aluguel de uma tia muito religiosa, assim como a mulher que lhe aluga o quartinho.
O sonho de Lawanda? Comprar um frigobar.
Vandercília – a senhora que lhe aluga o quarto –, diz que ela tem um coração puro, que Lawanda subentende ser um “coração de pedra-pomes”, do tipo que absorve problemáticas alheias e cuida como se fosse uma santa – o que dá título a essa obra magnífica da brasileira Juliana Frank: Meu Coração de Pedra-Pomes (editora Companhia das Letras, 109 páginas). O livro é tão direto e sincero, que eu não poderia resenhá-lo de outra forma, por isso o questionamento inicial, como se eu tivesse puxando um gatilho, ao mesmo tempo que desarmo o leitor.

“Estou ululosa. Tenho dezenove anos e um frigobar, uma coleção de besouros, um biquíni de amarrar, um lápis de olho vermelhão. Enfim, coisas fundamentais para minha sobrevivência.”

Como estou sob a fortíssima e recente influência de Hilda Hilst, comparo a novíssima Juliana Frank a esse monstro ainda (infelizmente) quase desconhecido da literatura brasileira. Juliana (ou Lawanda – é muito fácil confundir autora e personagem) não tem papas na língua – fala das partes baixas, de momentos íntimos, sem esse recato que utilizamos muitas vezes para falar do que nos pertence desde que o mundo é mundo – mas que cobrimos, vivendo na surdina. Lawanda é cheia de predicados e segredos. Não se considera capaz de sobreviver com o salário de faxineira de hospital e, dessa forma, ela negocia favores com os pacientes internados. Levar um velhinho ao show do Cauby Peixoto, por exemplo.

“Uma moça que sofre de esquizofrenia paranoide crônica me pede para fazer cooper nos anéis de Saturno. A outra, mais baixinha, ouve e grita: ‘Quero tocar harpa com Afrodite!”

A realidade de Lawanda é paralela – não espere lógica nessa obra, não a lógica comum e tão nossa, mas sim os contornos e preenchimentos do realismo fantástico – tão presente na literatura ibero-americana e surpreendentemente (semi)ausente na literatura brasileira atual. Se você já leu Cem Anos de Solidão, do García Márquez, vai lembrar do personagem que era acompanhado de borboletas amarelas em cada passo que dava, assim como Lawanda costura essa delicadeza para atrair José Júnior, tê-lo como posse.

“‘Não entendi nada. Essas fotos de borboletas pintadas significam alguma coisa? Bom, eu te amo. E o amor é importante.’
Responder.
‘Não, José Júnior. Importante é saneamento básico’.
Enviar.”

Lawanda dá voltas como as músicas (e a literatura) de Chico Buarque. Em determinados momentos, narra vigorosamente, como Sylvia Plath. Mas ela é alheia a essas comparações. Ela faz um inventário sobre a ruína da sua existência, ao mesmo tempo que vê resultado em sua arte clandestina. José Júnior está incrivelmente apaixonado por ela, mas dessa vez é ela quem não mais o suporta, quem “desapaixonou” instantaneamente.

Não dá para esperar um romance convencional em Meu Coração de Pedra-Pomes. E a surpresa é exatamente essa. Juliana Frank apenas nos apresenta uma personagem sem a menor solução, ambição ou expectativas na vida. Lawanda não quer subir degraus, pretende dar voltas no mesmo patamar, segurando uma lupa, procurando sujeirinhas nos cantos para ali as deixar – pois a vantagem de fazer faxina é também a de permitir um trabalho incompleto. É necessária muita paciência psico-patológica para acompanhar essa moça. A nova estrela nessa hora é Lawanda. Meu Coração de Pedra-Pomes é uma primorosa e divertidíssima obra sobre uma mulher absolutamente banal, do tipo que a gente enxerga na rua, mas desvia – ela certamente conversa sozinha, “é doida, coitada!”, todos pensam. Doido mesmo é quem deixar de ler esse livro.

Quer conhecer outros trechos que selecionei dessa obra? Clique aqui.

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7 respostas em “Costurando borboletas

  1. gente, para tudo, o nome dela é Lawanda hahaha comecei rindo já
    que história mais criativa!! adorei esse sonho dela em ter um frigobar
    eu conheci uma moça um dia que sonhava em ter um banheiro só pra poder botar o tapetinho, sabe?

    “Levar um velhinho ao show do Cauby Peixoto, por exemplo.” hahahahahahahaha adorei

    é difícil eu ler uma resenha com tanta vontade até o final! gostei muito mesmo do jeito que você escreve.
    “A nova estrela nessa hora é Lawanda.” demais!

    to amando esse lugar…

    boa semana!

    http://www.pe-dri-nha.blogspot.com

  2. Tá, se eu conseguir meu estágio amanhã, vou me dar este livro de presente.

    Não vou comprar Neil Gaiman, nem Leviatã: A Missão Secreta, de Scott Westerfeld. Vou comprar Meu coração de pedra-pomes.

    {http://www.duasgotas.com.br/}

  3. Adoro o jeito que vc escreveu a resenha, comparando com outros autores, outras histórias. Me interessei muito pelo livro.

  4. Adorei imediatamente pela primeira metáfora anunciada (ainda que tenha uma leve suspeita de você melhorar as obras com suas resenhas, mas isso é um segredo).
    Olhando daqui, parece um livro leve e muito divertido, de um jeito despojado-despretensioso de ser.

    Confesso que fiquei ainda mais curioso.

    Parabéns mais uma vez, srta.

  5. Como sempre, fiquei bastante curiosa em relação a esse livro. Os trechos são ótimos e pelo que tu fala, a obra toda parece intrigante e extremamente interessante.

  6. Wow, será que tem alguém que não se atrairia por esse livro?
    Nunca tinha escutado falar e já adorei de cara. E a lembrança de Clarice me chamou atenção pois vivo em relação de amor em ódio com ela haha.
    De verdade, adorei a indicação!

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