A vida dos outros

Procurar easter eggs no Muito Interessante me fez ficar um pouco desatualizada do que ocorre atualmente. Não sei se mais um tsunami atingiu algum país asiático, mas aprendi que, se você digitar “1980” enquanto estiver assistindo qualquer vídeo do Youtube no “nada”, vai aparecer um joguinho bem bacana. Pois é, eu tenho meus momentos de procrastinação.
Daí que hoje, quarta-feira, vi que Chico Buarque está nos trending topics do Twitter. Levei um susto porque, né? Achei que o cara tinha morrido. Questionei isso e recebi alguns links como resposta.
Recentemente, certos burburinhos envolvendo biografias chegaram até mim. Alguns são isolados, outros prometem uma verdadeira polêmica. A subcelebridade Alexandre Frota está lançando sua Identidade Frota – o que levou às livrarias um grande número de pessoas visivelmente “estranhas” (“frequentadores do baixo meretrício”, segundo um amigo meu), conforme pude comprovar pessoalmente. Nesse livro, Frota expõe que já “comeu” boa parte do elenco feminino consagrado de quase todas as emissoras hoje. Nem Marília Gabriela D1V4 escapa.
No lado mais cult da coisa, a família Leminski quer proibir que uma nova edição da biografia de Paulo Leminski seja lançada. A biografia em questão recebe o título de Paulo Leminski – O Bandido que Sabia Latim, é de autoria de Toninho Vaz, que passou um aninho só recolhendo mais de oitenta depoimentos de quem conheceu o poeta. O livro foi lançado em 2001 e tem reedição agora, com um acréscimo curioso: Toninho entrevistou um morador antigo da pensão em que Pedro – irmão de Leminski que se matou no local lá para a década de 80 – morava. Esse vizinho de quarto do irmão de Leminski foi quem encontrou o corpo do rapaz.
Fiquei me perguntando qual seria a utilidade de entrevistar um homem que achou o corpo do irmão de uma pessoa famosa. Surpresa, fiquei sabendo que Estrela – filha de Paulo Leminski, compartilha de meu questionamento: “Qual é a relevância de detalhes sórdidos do suicídio para uma biografia dele? Que relevância tem para a obra? Ou seria para dar um molho e vender mais?”.

Áurea, outra filha de Leminski, afirma que o suicídio de um familiar em nada acrescenta na riqueza cultural que seu pai entregou para o Brasil. Isso é fato. Imagine quando essa obra chegasse às livrarias? Qual seria o marketing? “Saiba aqui tudo sobre o suicídio do irmão de um dos maiores poetas brasileiros de todos os tempos”? É semelhante ao marketing difamatório para com o leitor em dizer que Cinquenta Tons de Cinza é um novo símbolo cultural feminista!
E foi aí que eu cheguei no meu querido Caetano.
Eu já acho que Caetano é um caso muito diferente do de Leminski. Como fã, é claro que adoro biografias não-autorizadas, cheia de revelações sobre uma determinada personalidade (e autobiografia confere ainda mais fama para o biografado, não é mesmo? Aqui no Brasil, o disco ou o livro de Fulano sempre vende mais depois que ele morre ou ganha uma biografia!). Sobretudo porque isso é quase muito raro aqui no Brasil – uma biografia não-autorizada sobre um artista ainda vivo. Da última vez que eu me recorde que esse assunto veio à tona, foi com relação a Roberto Carlos – um artista que se esconde sob diversas carapuças, como quem está devendo a Deus e o mundo.
Bato na mesma tecla da maioria dos jornalistas: Caetano, uma pessoa que foi contra a ditadura militar no Brasil, que chegou inclusive a ser exilado por conta desse regime que castra a liberdade do outro em se expressar; sendo contra exatamente a liberdade do próximo em escrever e/ou saber os seus “podres”? Mas não era proibido proibir?
Que “podres” são esses?
Eu li Verdade Tropical, excelente autobiografia sobre o antes, o durante e o depois da ditadura na vida de Caetano e de quem o rodeava. Aquilo, para mim, ainda é o suficiente. Há muito da carreira artística desse moço, mas também um tanto de sua vida pessoal. Quando li essa biografia, eu era o tipo de fã absurdamente fervorosa, não aguentava quem falava mal do meu ídolo em minha presença. E, ainda assim, não quis procurar outras biografias sobre ele posteriormente. O que eu havia lido me parecia de bom tamanho.
Mas Caetano, junto com sua ex-esposa e atual empresária Paula Lavigne, decidiram reunir alguns artistas para fazerem valer seu ideal de que “só pode ser publicada depois que for aprovada pelo biografado”. Não sei se concordo ou discordo disso, confesso que fico um pouco em cima do muro. Por um lado, penso no trabalho imenso que um possível fã tem para imprimir a identidade de um artista em um punhado de papéis. Afinal, são anos de pesquisa, procura de fontes, aproximações e por aí vai. Por outro, imagino do que tanto os artistas tem medo: de serem biografados por uma espécie de Léo Dias? De que contem mentiras sobre a sua pessoa? De que digam que Fulano dormiu com Beltrana enquanto estava casado com aquela outra? Olha, por esse ponto, até que dá para entender.
Quem me conhece sabe que eu adoro um barraco de rede social (isso acontece porque, na minha infância, lá em Pato Branco, eu não tinha a menor capacidade psicológica de me defender dos opressores colegas de turma da escolinha – daí aproveito toda a minha coragem diante da tela de um computador para vociferar tudo o que está entalado aqui ó, na minha garganta, até hoje) e, sendo assim, recentemente discuti com uma menina que tem mais um desses vários perfis de fofoca engraçadíssimos que pipocam a todo momento no Instagram. O perfil dela é legal, interessante e tem comentários bons. Porém, uma questão passou a me incomodar. Ela decidiu “encarnar” feio numa subcelebridade que faz sucesso atualmente. Não preciso citar o nome, mas essa subcelebridade já saiu com jogador de futebol e espalhou para a imprensa (óbvio, #quemnunca?), já participou de reality show de quinta categoria e ficou nua, já saiu em algumas capas de revistas masculinas e faz a social nos eventos cotidianos com as roupas mais esquisitas (isso quando a criatura vai de roupa, né). Eu, como feminista, só dou risada do tanto que a pessoa apanha da vida que decidiu levar – vida da qual ela se diz arrependida por não ter o devido talento reconhecido. Para mim, quem entrou nesse bolo, já sabe que não vai dar certo, já sabe o rumo que levará. Eu vejo a notícia, gargalho e vou embora. Essa pessoa, entretanto, decidiu dedicar metade do seu Instagram para denegrir a imagem dessa Fulana, deixando a entender que a mesma é uma vagabunda de primeira. Não falta muito para que ela afirme que a tal Fulana até programa faz.
Das duas uma: ou ela é muito amiga íntima da pessoa para revelar tantos ~segredos~, buscando assim uma fonte de inspiração para o futuro; ou isso é, realmente, falta de vida própria.
Não digo que é errado criar um perfil numa rede social a fim de discutir fofocas. Acontece que muitos espaços ainda mantém um nível respeitável com relação aos “artistas”. Afinal, para fazer humor, não é preciso agredir o próximo – embora esse próximo se autoagrida, não se respeite, não se “dê valor” (que termo horrível) e coisa e tal, quem sou eu para taxar alguém de algo ofensivo e que não foi comprovado por ninguém? Suposição irrita, sabe? Quem faz um humor bacana com as subcelebridades, por exemplo, é o Te Dou Um Dado? e até a Shame com as blogueiras de moda.
Fico imaginando se o Caetano acredita piamente que, em uma futura biografia sua, dirão que ele se envolveu em alguma atividade degradante, sendo mentira. E, caso seja verdade, que tipo de censura é essa? Cadê aquele orgulho em não se arrepender do que fez? Por quê uma crença TÃO ABSURDA em fazer uma imagem puritana diante de todos? Desde quando, por exemplo, Roberto Carlos é santo e/ou bom moço? Até parece que ele passou esses anos todos admirando a imagem da falecida senhora sua esposa. Gente, instinto humano taí para isso. Óbvio que Robertão já teve muitas namoradas. Só que as nossas mães, eternas fãs desse cara, nunca foram uma delas.

Benjamin Moser (esse lindo, eu daria uns pegas nele, com barba), autor da biografia de Clarice Lispector, escreveu uma carta aberta ao mano Caetano. Outros questionamentos se abrem: “Você já parou para pensar em quantas biografias o Brasil não tem? Só para falarmos da área literária, as biografias de Mário de Andrade, de João Guimarães Rosa, de Cecília Meirelles, cadê? Onde é que ficou Manuel Bandeira, Rachel de Queiroz, Gilberto Freyre? Você nunca se perguntou por que nunca foram feitas?”.

Moser afirma ainda que a liberdade de expressão nunca é usada contra elogios, por exemplo. Você pode falar horrores de um artista sobre determinada ação dele diante de um fato. Agora, por exemplo, acho essa atitude do Caetano uma das poucas decisões mais idiotas referentes a si mesmo. Idiota, estranha, fora de contexto, do tipo que me faz questionar “mas porquê diabos agora?”. E, ainda assim, não deixo de amá-lo.
Enquanto a Folha faz um quiz para que você teste seus conhecimentos sobre biografias não-autorizadas (sério), descubro o motivo de Chicão estar nos TT’s: ele decidiu entrar nesse debate, mas já começa o texto cometendo um equivoco “terrível”: “Pensei que o Roberto Carlos tivesse o direito de preservar sua vida pessoal. Parece que não. Também me disseram que sua biografia é a sincera homenagem de um fã. Lamento pelo autor, que diz ter empenhado 15 anos de sua vida em pesquisas e entrevistas com não sei quantas pessoas, inclusive eu. Só que ele nunca me entrevistou”. Nunca entrevistou, Chicão? Parece que sim. Tem até vídeo, ó.

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6 respostas em “A vida dos outros

  1. Se o Caetano não tinha nenhum podre pra colocar na biografia, agora já tem, e esse é bem pior q qualquer outra coisa q ele já tenha feito. Quanto ao chico, adorei o que o Idelber Avelar disse:

    Chico Buarque hoje se esqueceu da regra de ouro de todo bebum. Na dúvida, não diga “não fiz”. Na dúvida, diga “não me lembro”.

  2. Vou ser bem sincera (sempre com o intuito de dar minha opinião sem ofender alguém): esses “heróis” de tantas gerações, como Caetano e Chico, pra mim não passam de pseudo intelectuais financiados por grandes veículos de comunicação. Mas essa sou eu. Com essa abertura pra uma discussão mais detalhada sobre biografias só tá ficando provado o quanto essas pessoas tem rabo preso. Eu acho assim: antes de ser fã ou admirador, os biógrafos tem um trabalho a fazer. Eles tem um legado muito importante a deixar pra população nacional. Mentiram? ‘Bóra lá pro tribunal provar por A + B que fulano difamou o artista biografado, tirar os livros de circulação e arcar com um dano moral bem gordo. Falou a verdade? Então assuma que quebrou com a bola o vaso da mamãe, meu filho.

  3. O pau quebrou ontem no “Saia Justa”, e eu, naquele sofá estaria tipo Mônica Martelli e Maria Ribeiro: Mônica ficava quieta vendo o pau comer e dava opiniões pontuais, e Maria de repente resolveu abrir a boca e declarar que: “Gostaria muito que alguém me convencesse porque estou em cima do muro em relação a esse assunto”. E essa sou eu. Acho que biografias podem ser trabalhos belíssimos, AMO a de Benjamin sobre Clarice, mas fico imaginando que a pessoa tem o direito de ler antes e decidir se pode ser publicado, porque, cara, é a vida da pessoa! Mas e a liberdade de imprensa nisso? Ai, dúvida eterna. Que bom que não sou o juiz que precisa decidir o ganho de causa. HAHAHA

  4. Isso é muito complicado…
    Eu não procurei saber muito sobre o assunto, mas eu acho que os biógrafos deveriam sim, ter direito de fazer suas biografias sem interferência dos biografados. A obra, se não é de quem escreve, é de quem? Óbvio que tem uns polêmicos sem noção que querem fazer sucesso gratuitamente em torno de falácias sobre uma celebridade.
    E realmente: diziam que eram proibido proibir porque eram os massacrados, agora, em outra posição, querem massacrar. Muito bonito.
    Beijos.

    http://www.despindoestorias.com

  5. Nunca antes ouvi tantos burburinhos sobre biografias. Mas, concordo com a Tailany. o biógrafo deve fazer seu trabalho sem interferências.

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