Sobre Nina Galdina

Se você quer me seguir: não é seguro.

A vida dos outros

Procurar easter eggs no Muito Interessante me fez ficar um pouco desatualizada do que ocorre atualmente. Não sei se mais um tsunami atingiu algum país asiático, mas aprendi que, se você digitar “1980” enquanto estiver assistindo qualquer vídeo do Youtube no “nada”, vai aparecer um joguinho bem bacana. Pois é, eu tenho meus momentos de procrastinação.
Daí que hoje, quarta-feira, vi que Chico Buarque está nos trending topics do Twitter. Levei um susto porque, né? Achei que o cara tinha morrido. Questionei isso e recebi alguns links como resposta.
Recentemente, certos burburinhos envolvendo biografias chegaram até mim. Alguns são isolados, outros prometem uma verdadeira polêmica. A subcelebridade Alexandre Frota está lançando sua Identidade Frota – o que levou às livrarias um grande número de pessoas visivelmente “estranhas” (“frequentadores do baixo meretrício”, segundo um amigo meu), conforme pude comprovar pessoalmente. Nesse livro, Frota expõe que já “comeu” boa parte do elenco feminino consagrado de quase todas as emissoras hoje. Nem Marília Gabriela D1V4 escapa.
No lado mais cult da coisa, a família Leminski quer proibir que uma nova edição da biografia de Paulo Leminski seja lançada. A biografia em questão recebe o título de Paulo Leminski – O Bandido que Sabia Latim, é de autoria de Toninho Vaz, que passou um aninho só recolhendo mais de oitenta depoimentos de quem conheceu o poeta. O livro foi lançado em 2001 e tem reedição agora, com um acréscimo curioso: Toninho entrevistou um morador antigo da pensão em que Pedro – irmão de Leminski que se matou no local lá para a década de 80 – morava. Esse vizinho de quarto do irmão de Leminski foi quem encontrou o corpo do rapaz.
Fiquei me perguntando qual seria a utilidade de entrevistar um homem que achou o corpo do irmão de uma pessoa famosa. Surpresa, fiquei sabendo que Estrela – filha de Paulo Leminski, compartilha de meu questionamento: “Qual é a relevância de detalhes sórdidos do suicídio para uma biografia dele? Que relevância tem para a obra? Ou seria para dar um molho e vender mais?”.

Áurea, outra filha de Leminski, afirma que o suicídio de um familiar em nada acrescenta na riqueza cultural que seu pai entregou para o Brasil. Isso é fato. Imagine quando essa obra chegasse às livrarias? Qual seria o marketing? “Saiba aqui tudo sobre o suicídio do irmão de um dos maiores poetas brasileiros de todos os tempos”? É semelhante ao marketing difamatório para com o leitor em dizer que Cinquenta Tons de Cinza é um novo símbolo cultural feminista!
E foi aí que eu cheguei no meu querido Caetano.
Eu já acho que Caetano é um caso muito diferente do de Leminski. Como fã, é claro que adoro biografias não-autorizadas, cheia de revelações sobre uma determinada personalidade (e autobiografia confere ainda mais fama para o biografado, não é mesmo? Aqui no Brasil, o disco ou o livro de Fulano sempre vende mais depois que ele morre ou ganha uma biografia!). Sobretudo porque isso é quase muito raro aqui no Brasil – uma biografia não-autorizada sobre um artista ainda vivo. Da última vez que eu me recorde que esse assunto veio à tona, foi com relação a Roberto Carlos – um artista que se esconde sob diversas carapuças, como quem está devendo a Deus e o mundo.
Bato na mesma tecla da maioria dos jornalistas: Caetano, uma pessoa que foi contra a ditadura militar no Brasil, que chegou inclusive a ser exilado por conta desse regime que castra a liberdade do outro em se expressar; sendo contra exatamente a liberdade do próximo em escrever e/ou saber os seus “podres”? Mas não era proibido proibir?
Que “podres” são esses?
Eu li Verdade Tropical, excelente autobiografia sobre o antes, o durante e o depois da ditadura na vida de Caetano e de quem o rodeava. Aquilo, para mim, ainda é o suficiente. Há muito da carreira artística desse moço, mas também um tanto de sua vida pessoal. Quando li essa biografia, eu era o tipo de fã absurdamente fervorosa, não aguentava quem falava mal do meu ídolo em minha presença. E, ainda assim, não quis procurar outras biografias sobre ele posteriormente. O que eu havia lido me parecia de bom tamanho.
Mas Caetano, junto com sua ex-esposa e atual empresária Paula Lavigne, decidiram reunir alguns artistas para fazerem valer seu ideal de que “só pode ser publicada depois que for aprovada pelo biografado”. Não sei se concordo ou discordo disso, confesso que fico um pouco em cima do muro. Por um lado, penso no trabalho imenso que um possível fã tem para imprimir a identidade de um artista em um punhado de papéis. Afinal, são anos de pesquisa, procura de fontes, aproximações e por aí vai. Por outro, imagino do que tanto os artistas tem medo: de serem biografados por uma espécie de Léo Dias? De que contem mentiras sobre a sua pessoa? De que digam que Fulano dormiu com Beltrana enquanto estava casado com aquela outra? Olha, por esse ponto, até que dá para entender.
Quem me conhece sabe que eu adoro um barraco de rede social (isso acontece porque, na minha infância, lá em Pato Branco, eu não tinha a menor capacidade psicológica de me defender dos opressores colegas de turma da escolinha – daí aproveito toda a minha coragem diante da tela de um computador para vociferar tudo o que está entalado aqui ó, na minha garganta, até hoje) e, sendo assim, recentemente discuti com uma menina que tem mais um desses vários perfis de fofoca engraçadíssimos que pipocam a todo momento no Instagram. O perfil dela é legal, interessante e tem comentários bons. Porém, uma questão passou a me incomodar. Ela decidiu “encarnar” feio numa subcelebridade que faz sucesso atualmente. Não preciso citar o nome, mas essa subcelebridade já saiu com jogador de futebol e espalhou para a imprensa (óbvio, #quemnunca?), já participou de reality show de quinta categoria e ficou nua, já saiu em algumas capas de revistas masculinas e faz a social nos eventos cotidianos com as roupas mais esquisitas (isso quando a criatura vai de roupa, né). Eu, como feminista, só dou risada do tanto que a pessoa apanha da vida que decidiu levar – vida da qual ela se diz arrependida por não ter o devido talento reconhecido. Para mim, quem entrou nesse bolo, já sabe que não vai dar certo, já sabe o rumo que levará. Eu vejo a notícia, gargalho e vou embora. Essa pessoa, entretanto, decidiu dedicar metade do seu Instagram para denegrir a imagem dessa Fulana, deixando a entender que a mesma é uma vagabunda de primeira. Não falta muito para que ela afirme que a tal Fulana até programa faz.
Das duas uma: ou ela é muito amiga íntima da pessoa para revelar tantos ~segredos~, buscando assim uma fonte de inspiração para o futuro; ou isso é, realmente, falta de vida própria.
Não digo que é errado criar um perfil numa rede social a fim de discutir fofocas. Acontece que muitos espaços ainda mantém um nível respeitável com relação aos “artistas”. Afinal, para fazer humor, não é preciso agredir o próximo – embora esse próximo se autoagrida, não se respeite, não se “dê valor” (que termo horrível) e coisa e tal, quem sou eu para taxar alguém de algo ofensivo e que não foi comprovado por ninguém? Suposição irrita, sabe? Quem faz um humor bacana com as subcelebridades, por exemplo, é o Te Dou Um Dado? e até a Shame com as blogueiras de moda.
Fico imaginando se o Caetano acredita piamente que, em uma futura biografia sua, dirão que ele se envolveu em alguma atividade degradante, sendo mentira. E, caso seja verdade, que tipo de censura é essa? Cadê aquele orgulho em não se arrepender do que fez? Por quê uma crença TÃO ABSURDA em fazer uma imagem puritana diante de todos? Desde quando, por exemplo, Roberto Carlos é santo e/ou bom moço? Até parece que ele passou esses anos todos admirando a imagem da falecida senhora sua esposa. Gente, instinto humano taí para isso. Óbvio que Robertão já teve muitas namoradas. Só que as nossas mães, eternas fãs desse cara, nunca foram uma delas.

Benjamin Moser (esse lindo, eu daria uns pegas nele, com barba), autor da biografia de Clarice Lispector, escreveu uma carta aberta ao mano Caetano. Outros questionamentos se abrem: “Você já parou para pensar em quantas biografias o Brasil não tem? Só para falarmos da área literária, as biografias de Mário de Andrade, de João Guimarães Rosa, de Cecília Meirelles, cadê? Onde é que ficou Manuel Bandeira, Rachel de Queiroz, Gilberto Freyre? Você nunca se perguntou por que nunca foram feitas?”.

Moser afirma ainda que a liberdade de expressão nunca é usada contra elogios, por exemplo. Você pode falar horrores de um artista sobre determinada ação dele diante de um fato. Agora, por exemplo, acho essa atitude do Caetano uma das poucas decisões mais idiotas referentes a si mesmo. Idiota, estranha, fora de contexto, do tipo que me faz questionar “mas porquê diabos agora?”. E, ainda assim, não deixo de amá-lo.
Enquanto a Folha faz um quiz para que você teste seus conhecimentos sobre biografias não-autorizadas (sério), descubro o motivo de Chicão estar nos TT’s: ele decidiu entrar nesse debate, mas já começa o texto cometendo um equivoco “terrível”: “Pensei que o Roberto Carlos tivesse o direito de preservar sua vida pessoal. Parece que não. Também me disseram que sua biografia é a sincera homenagem de um fã. Lamento pelo autor, que diz ter empenhado 15 anos de sua vida em pesquisas e entrevistas com não sei quantas pessoas, inclusive eu. Só que ele nunca me entrevistou”. Nunca entrevistou, Chicão? Parece que sim. Tem até vídeo, ó.

Costurando borboletas

Originalmente publicado na Revista 21.

Apenas seja sincerx: quantas faxineiras protagonistas de romances você conhece?
Lawanda chega pontualmente atrasada ao trabalho. Ela entrou no hospital pelas cotas para deficientes. Coleciona besouros, costura borboletas. Tem um amante chamado José Júnior, que sofre constantes macumbas de Lawanda, pois ela quer que o José se separe da esposa e vá ficar com ela. Lawanda nem é seu nome verdadeiro. O nome dela é Wanda.
Lawanda é uma Macabéa moderna e bem-humorada. Assim como a personagem de Clarice Lispector em A Hora da Estrela, Lawanda também parece ter essa alma nordestina que migra para a Grande São Paulo na intenção de novas oportunidades de trabalho. Mas a menina é nova, tem uma mãe muito adoentada, um pai praticamente desconhecido e recebe o dinheiro para o aluguel de uma tia muito religiosa, assim como a mulher que lhe aluga o quartinho.
O sonho de Lawanda? Comprar um frigobar.
Vandercília – a senhora que lhe aluga o quarto –, diz que ela tem um coração puro, que Lawanda subentende ser um “coração de pedra-pomes”, do tipo que absorve problemáticas alheias e cuida como se fosse uma santa – o que dá título a essa obra magnífica da brasileira Juliana Frank: Meu Coração de Pedra-Pomes (editora Companhia das Letras, 109 páginas). O livro é tão direto e sincero, que eu não poderia resenhá-lo de outra forma, por isso o questionamento inicial, como se eu tivesse puxando um gatilho, ao mesmo tempo que desarmo o leitor.

“Estou ululosa. Tenho dezenove anos e um frigobar, uma coleção de besouros, um biquíni de amarrar, um lápis de olho vermelhão. Enfim, coisas fundamentais para minha sobrevivência.”

Como estou sob a fortíssima e recente influência de Hilda Hilst, comparo a novíssima Juliana Frank a esse monstro ainda (infelizmente) quase desconhecido da literatura brasileira. Juliana (ou Lawanda – é muito fácil confundir autora e personagem) não tem papas na língua – fala das partes baixas, de momentos íntimos, sem esse recato que utilizamos muitas vezes para falar do que nos pertence desde que o mundo é mundo – mas que cobrimos, vivendo na surdina. Lawanda é cheia de predicados e segredos. Não se considera capaz de sobreviver com o salário de faxineira de hospital e, dessa forma, ela negocia favores com os pacientes internados. Levar um velhinho ao show do Cauby Peixoto, por exemplo.

“Uma moça que sofre de esquizofrenia paranoide crônica me pede para fazer cooper nos anéis de Saturno. A outra, mais baixinha, ouve e grita: ‘Quero tocar harpa com Afrodite!”

A realidade de Lawanda é paralela – não espere lógica nessa obra, não a lógica comum e tão nossa, mas sim os contornos e preenchimentos do realismo fantástico – tão presente na literatura ibero-americana e surpreendentemente (semi)ausente na literatura brasileira atual. Se você já leu Cem Anos de Solidão, do García Márquez, vai lembrar do personagem que era acompanhado de borboletas amarelas em cada passo que dava, assim como Lawanda costura essa delicadeza para atrair José Júnior, tê-lo como posse.

“‘Não entendi nada. Essas fotos de borboletas pintadas significam alguma coisa? Bom, eu te amo. E o amor é importante.’
Responder.
‘Não, José Júnior. Importante é saneamento básico’.
Enviar.”

Lawanda dá voltas como as músicas (e a literatura) de Chico Buarque. Em determinados momentos, narra vigorosamente, como Sylvia Plath. Mas ela é alheia a essas comparações. Ela faz um inventário sobre a ruína da sua existência, ao mesmo tempo que vê resultado em sua arte clandestina. José Júnior está incrivelmente apaixonado por ela, mas dessa vez é ela quem não mais o suporta, quem “desapaixonou” instantaneamente.

Não dá para esperar um romance convencional em Meu Coração de Pedra-Pomes. E a surpresa é exatamente essa. Juliana Frank apenas nos apresenta uma personagem sem a menor solução, ambição ou expectativas na vida. Lawanda não quer subir degraus, pretende dar voltas no mesmo patamar, segurando uma lupa, procurando sujeirinhas nos cantos para ali as deixar – pois a vantagem de fazer faxina é também a de permitir um trabalho incompleto. É necessária muita paciência psico-patológica para acompanhar essa moça. A nova estrela nessa hora é Lawanda. Meu Coração de Pedra-Pomes é uma primorosa e divertidíssima obra sobre uma mulher absolutamente banal, do tipo que a gente enxerga na rua, mas desvia – ela certamente conversa sozinha, “é doida, coitada!”, todos pensam. Doido mesmo é quem deixar de ler esse livro.

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Tendências suicidas

Vídeo

Agora que a MTV acabou, pude constatar que, até um tempinho atrás, quando Linkin Park (Link Park, whatever) e Evanescence surgiram (ao mesmo tempo em que estavam no auge), havia uma tendência suicida nos videoclipes.
No caso do Linkin Park, tem o clipe da música Crawling, que mostra uma garota que sangra por todos os poros (literalmente), rejeitada pela supremacia norte-americana adolescente. Acompanhem:

Já o Evanescence tem Bring Me To Life. Aqui, Amy Lee, a vocalista, sonha com o próprio suicídio e, sonâmbula, tenta cometê-lo:

Então, não reclamem com a modinha emocore que chegou logo em seguida. Vocês também tem culpa nisso.
Mudando “de pau para barraca”, a rede Globo está aí com essa novela das seis, Jóia Rara, para a qual estou “andando e cagando”, mas parabenizo a excelente trilha sonora só por me ter feito conhecer essa canção:

Daí, lembrei que, em 2010, fizeram uma linda homenagem ao Milton Nascimento – artista brasileiro maravilhoso que dizem ser um “humano que não pertence a esse mundo” – no programa Altas Horas. Olha, se o Miltão é um alien, eu não sei – mas essa fã dele me faz ter orgulho de fazer parte do planeta Terra:

Conclusão? Não sei. Mas, enquanto uns estão se matando, outros estão evoluindo intelectualmente e melhorando cada vez mais o vocabulário. Que inveja da facilidade de se expressar dessa Daniela, viu.

Duas perdas

Poucas vezes na vida li obras que tratassem de duas senhoras distintas encontrando-se e colidindo n’algum ponto comum. Não me parece uma história atraente. Tenho preguiça, seguida de pensamentos como “não terá um romance, uma grande aventura”. Não foi muito diferente com a Liliane Prata.
Por outro lado, das banalidades podem surgir grandes relatos, ótimas narrativas. Assim como dos livros hiper fantasiosos, falta criatividade na escrita, o que deixa o enredo literalmente pobre.
Por sorte, a Liliane Prata faz parte do primeiro grupo.
Cláudia é uma passiva vegetativa. Basta dizer que ela está aí, vivendo, andando com as próprias pernas e esperando os dias passarem por motivos de: não tem jeito, sou um zumbi. Ela poderia ter sido uma grande musicista, conquistaria o mundo com o som do seu violino – mas deixou a timidez falar mais alto, até que a mesma se tornasse reclusão plena.
Ísis, no entanto, é tão chamativa e protagonista de sua existência que, até para sofrer, precisa deixar metade do bairro sabendo o que aconteceu. Imagino Ísis com um cabelo curto, um batom vermelho, uma saia lápis indiscutível num tom de azul celeste. Ísis tem uma filha. E, assim como sua mãe, teve um marido.
Digo teve porque o título que ilustra esse enredo é Três Viúvas (editora Planeta, 144 páginas). Logo no início da obra, Cláudia espera Rogério voltar à noite do trabalho, esquecendo que ele sairia com alguns amigos da empresa. Um deles, Márcio, marido de Ísis. Suas esposas não se conheciam, mas a consequência da morte causada pelo acidente de trânsito construirá um estranho e difícil elo entre as duas.
Falando em Três Viúvas, é impossível não lembrar de Razão e Sensibilidade, de Jane Austen – história que conta o elo entre as irmãs Dashwood. Elinor representando o lado racional da família, que pensa duas vezes antes de falar e/ou agir; e Marianne, tão doce quanto direta, entregue aos sentimentos, a emoção e tornando-se sensível quando ferida.
Assim são Cláudia e Ísis. Quando Cláudia vai até a empresa do falecido marido, é surpreendida por uma descontrolada e escandalosa Ísis. O susto inicial, no entanto, acaba unindo a “oi, sou Ísis e acabei de perder o amor da minha vida em um acidente de trânsito” e a “prazer, sou Cláudia, você não precisa saber do meu passado”. Cláudia passa meses convivendo diariamente com Ísis, sua mãe e sua filha pré-adolescente. Adentra a rotina dessa nova amiga tão livro-aberto, enquanto ela mesma se mantém uma desconhecida – até para si própria.
Enquanto Ísis retoma a rotina em meio ao desespero da perda, Cláudia segue consolando-a, apesar de não ter derramado uma lágrima sequer diante do falecimento de Rogério. Cláudia é uma pessoa confusa dentro de si, e quase apagada por fora. O objetivo de sua vida é alcançado com êxito: ela não quer chamar a atenção.

“Ela se lembrou de tudo, mas nada a afetava, era como se as lembranças a tocassem e a atravessassem e fossem embora: as coisas tocavam seu corpo, mas nada ficava lá dentro, nada era absolvido, digerido, tudo se encostava nela e ia embora pelo outro lado, sem resistência.”

Ainda não sei dizer se gostei ou não do livro, que me lembrou, além da Jane Austen, também um pouco da Inês Pedrosa (e ainda o filme The Edge Of Love, dada a amizade entre as personagens de Sienna Miller e Keira Knightley). Acho que faltou a Liliane um senso maior de evolução do romance, apesar da boa narrativa. Ao terminar o livro, fiquei com a sensação de que “rir de tudo é desespero” (oi Ísis), como canta Frejat, e de que, como um todo, o livro saiu tão apagado quanto o rosto da Cláudia na minha imaginação. Como é presumível numa obra assim, ambas as protagonistas trocam de papéis e aprendem uma com a outra. Mas a mãe de Ísis é tão desimportante na história, que o título não faz muito sentido e o leitor esquece o nome dela, assim como eu tenho feito agora.
E, não duvido, é bem provável que eu esteja sob grande influência do livro anterior da Liliane, O Novo Mundo de Muriel, bem diferente de Três Viúvas, porém mais interessante e ávido do que esse segundo livro com pouco mais de cem páginas. Falha minha.

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Quem é Hilda Hilst na fila do pão?

Existem autores que ninguém lê, mas todo mundo conhece. É tipo aquela moçada religiosa que adora citar diferentes salmos para tentar alinhar a vida alheia, sendo que nunca leu a Bíblia inteira e, se por acaso o fez, não sabe interpretá-la. Quer um exemplo? Clarice Lispector. Após o sucesso do Cinquenta Tons de Cinza, decidi questionar a mulherada que visita a livraria se elas gostavam de Clarice. A maioria leu frases soltas nas timelines da vida, cuja autoria é altamente duvidosa. Querem mais alguma coisa no estilo da modinha erótica. Se eu indico, sei lá, o Memórias de Minhas Putas Tristes ou a Travessuras da Menina Má – que são altamente sensuais (e com o empurrãozinho da excelente escrita), a mulherada recusa, alegando que não suporta essa “literatura cabeça que não diverte ninguém”. A maioria admite que Cinquenta Tons é mesmo um lixo ortográfico-gramatical, mas “a história prende”, e essa é a justificativa plausível. Em outras palavras: a humanidade, em sua maior parte, não sabe ler. Brasileiros, principalmente. Não é uma questão de ter ido ou não para a escola e ter sido ou não alfabetizadx, é uma questão de saber escolher o que estará diante de seus olhos nessa arte de virar as páginas.
Existe um tumblr chamado Writers No One Reads (algo como “escritores que ninguém lê”, na tradução), que coleciona autores pouco conhecidos do grande público e/ou completos desconhecidos que a humanidade está perdendo pelo simples fato de possuírem toda uma mentalidade limítrofe e fechada. Não por acaso, Clarice Lispector se encontra lá.
Pois eu acho que faltou Hilda Hilst. Depois de Lispector, ela é uma das grandes autoras brasileiras completamente desconhecida do grande – e até do “pequeno” público. Quase todo mundo já ouviu falar dessa senhora, mas nunca encarou suas obras (que são bem fininhas, olha). O motivo? É uma literatura cabeça, que, aparentemente, não diverte ninguém.
Antes, uma historinha curiosa: aqui em Salvador, na universidade federal, existe um professor (que também é escritor – e renomado), cujas aulas sobre literatura são disputadíssimas. E ele TE-TES-TA Hilda Hilst. Mas sabe o que é engraçado? Ele indica as obras dessa autora em suas aulas. Deve se uma relação de amor e ódio inexplicável. Nem contestarei, só sei que muitas de suas alunas vão lá na livraria procurar os títulos da autora (ou referentes a ela) por conta das avaliações desse professor. Vai entender, né.

Para não pagar de intelectual, confesso que eu também não conhecia Hilda Hilst. Eu não sabia nada sobre ela, mas gosto da sonoridade de seu nome e das capas de suas obras completas, agora editadas pela Globo. Eu fui conhecer mesmo a Hildinha (sim, já estou íntima), quando a Hillé, do Manual Prático de Bons Modos em Livrarias, confessou numa entrevista que seu pseudônimo fora adotado por conta da personagem principal de A Obscena Senhora D., livro de Hilda Hilst que narra a história de uma senhora que vive debaixo de uma escada, num vão, sofrendo a morte do marido, que lhe aparece como espírito e em suas memórias, assustando a vizinhança com o seu jeito excêntrico de viver (não o marido, mas ela). Hillé vem de “derrelição”, palavra que significa abandono, que é exatamente o que a Hillé sente após a definitiva ida de seu marido. Sim, eu precisei conhecer Hildinha com essa obra maravilhosa, para depois encarar o Fico Besta Quando Me Entendem (editora Biblioteca Azul, 237 páginas), uma biografia com entrevistas da autora para jornais e revistas estrangeiras e nacionais, organizadas por Cristiano Diniz.

“Esses doutos, falantes, esses da filosofia, ai, devemos nos amar, Hillé, para sempre, eu te dizia: tu tens vinte agora, eu vinte e cinco, pensa tudo isso não vai voltar, não terás mais vinte nem eu vinte e cinco, e vais ficar triste de teres perdido o tempo com perguntas, pensa como serás aos sessenta, eu estarei morto.
Por quê?
Causa mortis? Acúmulo de perguntas de sua mulher Hillé.”
A Obscena Senhora D.

Apesar de não ter lido outras obras da Hildinha, fica bem claro para o leitor, nesse compilado de suas melhores entrevistas, que a Hillé é sua gêmea irmã. Hillé, senhora perguntadeira sobre a vida. Hilda, do lado oposto, tão coração de derrelição, e erroneamente reconhecida (até hoje) como uma autora de livros eróticos (só no fim da vida ela publicou uma trilogia nesse estilo). Suas entrevistas são divididas mais ou menos da seguinte forma: o início da carreira, e toda aquela expectativa fascinantemente poética sobre seu futuro na escrita (seguida das lembranças de seu pai – que também fora poeta, que era um homem lindo, porém louco internado em hospícios); sua carreira consolidada, mas ainda mal tratada, em sintonia com seus experimentos na famosa Casa do Sol (Hilda escutava vozes de espíritos. Ela gravava essas vozes durante horas. Fazia disso um verdadeiro estudo. Provavelmente, apesar dela não ter se focado em religião alguma, acredito que Hilda foi uma grande médium. Ela já chegou a ver um anjo, na infância); e o “início” de sua carreira no âmbito erótico. É nesse ponto que desejo focar. Hilda decidiu começar com O Caderno Rosa de Lori Lamby porque já não aguentava mais ter passado a vida inteira sendo reconhecida como uma autora hermética, de difícil compreensão, chatíssima e do tipo que brigada com todos os editores (por favor, confiram essa excelente historieta sobre sua desavença com Luiz Schwarcz, fundador da Companhia das Letras). Já uma senhora, não estava (nunca esteve, aliás) mais preocupada em deixar de falar o que lhe vinha. Nas poucas entrevistas que concedeu nesse período, fez questão de comunicar que estava sem sexo há quase vinte anos – e que tal atividade não lhe fazia falta. A Casa do Sol tinha agora cachorros e inquilinos infelizes que furtavam livros raros de sua coleção. Hilda, que nunca enriqueceu financeiramente com sua literatura, passou a viver de uma verba simbólica que recebia duma universidade na qual palestrava.

“Eu perguntava pro Anatol Rosenfeld, de quem eu gostava muito: ‘Por que as pessoas acham que eu escrevo para os eruditos? Eu falo tão claro. Eu falo até sobre a bunda’. E ele me respondia: ‘Mas tua bunda é terrivelmente intelectual, Hilda’.”

Esse livro é interessante por dois motivos: a edição é lindíssima, tem ilustrações da própria autora, desenhos que me recordam os sonhos de Fellini. É capa dura, vermelha, uma edição primorosa, muito bem cuidada. E é o retrato sincero de uma autora que ninguém conhece – e, quando a desnuda, adentra a trajetória feita pelos caminhos de pedras que a maioria dos escritores brasileiros conhece. Sabe quem é Hilda (humana!) Hilst (furacão!) na fila do pão? Uma escritora que você precisa conhecer, principalmente se o objetivo da sua vida é ser autor. Soco no estômago. Para manter os pés no chão.

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Procuro, procuro Zanganeh

Todos os anos, dois eventos especiais me deixam ansiosa: o Nobel de literatura e a escolha da musa da FLIP. Isso mesmo: todo ano é o mesmo badalo: sempre surgirá uma figura excepcional, feminina, bela demais para a escrita, tão bonita que todos duvidam do seu talento (haja machismo, viu).
Mas eu não sabia que isso existia até algum tempo atrás. A musa da FLIP é sempre uma novata, uma jovem estreante nas letras. Em 2011, a argentina Pola Oloixarac foi a “privilegiada” da festa. Ela escreveu uma obra maravilhosa, um dos melhores livros que já li na vida, As Teorias Selvagens. Mas o destaque ficou para a sua beleza exótica e seu gosto pela moda. Obviamente, Pola ganhou o rótulo de “ah, não deve escrever tão bem assim”, logo dissipado e perdoado após a leitura de seu título de estreia.
Entre as musas da FLIP, existem exceções. Isabel Allende, por exemplo, já não é tão jovem, tampouco estreante. Mas sim uma autora consagradíssima e cuja presença fora muito aguardada em 2010.
E, em 2013, a “cobaia” da vez foi uma francesa descendente de iranianos e com rosto de brasileira, portadora de um nome delicado e sobrenome complicado: Lila Azam Zanganeh, autora de O Encantador (editora Alfaguara, 292 páginas).

Eu nada sabia sobre essa moça até que seu livro chegasse em minha livraria, pouco antes de começar a FLIP. O que me chamou a atenção foi a capa do livro dela. Raramente a Alfaguara altera o contexto da capa (que, apesar de simples, acho fantástico):

Em seguida, veio o subtítulo: Nabokov e a felicidade. Eu só havia lido duas obras de Vladimir Nabokov, que já eram o suficiente para colocá-lo em minha lista de escritores favoritos, mas, ainda assim, não encontrei felicidade em seus livros. Como alguém poderia conceber essa palavra lendo Nabokov? Se eu pudesse definir toda a obra de Nabokov em uma palavra, ela certamente não seria “felicidade”.
Pois bem. Lila era criança quando viu sua mãe lendo a autobiografia de Nabokov (Fala Memória, sem edição brasileira recente). Sua mãe lia com tanta dedicação, que ela perguntou de que se tratava o livro. Mas, como resposta, recebeu a frase “você ainda é muito nova para esse autor”. Obviamente, assim que a mãe saiu, Lila pegou o livro escondido e percebeu a fascinação dela: algumas partes falavam do exílio, que é uma palavra que faz parte da história de ambas as famílias (dos Nabokov aos Zanganeh).
Daí que Lila partisse para Ada ou Ardor e Lolita (que já resenhei aqui) foram um pulo. E então sua obsessão por Nabokov começou. Não bastava ler todas as obras. Ela também aprendeu russo, procurou jornais e revistas sobre o autor, encontrou-se com Dimitri, filho de Nabokov e fantasiou diversos momentos com Vladimir – incluindo uma entrevista de agradecimento e nervosismo, tímidas trocas de olhares, paixão avassaladora mesmo (presente no livro). E, infelizmente, platônica.

“Nabokov faleceu no dia 2 de julho de 1977. Eu tinha dez meses de idade. Mais ou menos seiscentos e cinquenta quilômetros nos separavam. Em suma, tivemos um começo infeliz. Ele iria permanecer para sempre insciente da minha insignificante existência.”

O encantamento do título é muito mais referente o seu conteúdo. E até a sua autora. Lila é encantadora – não apenas pela beleza evidente, mas sim pela escrita envolvente e doce, entremeada por uma inteligência única e caráter íntegro. O livro traz, logo de início, uma espécie de “mapa da felicidade” pelo qual o leitor pode seguir o itinerário de sua preferência. E ainda conta com ilustrações lindíssimas. O encantamento de Lila por Nabokov é prazeroso para quem já conhece o autor e/ou para quem já ouviu falar nele. Para quem acha, por exemplo, que Lolita é literatura profanadamente erótica e de quinta qualidade – ou, pior, que Nabokov foi um pedófilo assumido, sinto dizer, mas você se engana. Ler O Encantador fará com que tenhamos uma nova percepção biográfica do escritor – e cheguemos também ao alcance de outras obras suas.

“Ele buscou trabalho num banco, mas durou apenas três horas. Foi tutor de francês, inglês e russo, porém nem um minuto além da hora marcada. Escreveu uma gramática de língua russa. O primeiro exercício: Madam, ya doktor, vot banan (‘Madame, sou o médico, aqui está uma banana’). Deu aulas de tênis e boxe. Era bonito e esguio. Atuou como figurante em um filme alemão. Era Sirin na linha assinada. Volodya em roupas íntimas. Revisou Convite ao cadafalso com tinta violeta. Quando escrevia, nunca lia jornais, apenas livros. Nunca comprava livros. Lia de pé, nas livrarias. Viu Kafka num bonde (ou assim pensou, anos depois, quando deparou com uma fotografia ‘daqueles olhos mais extraordinários’). Era pobre, muito pobre. Pediu que um conhecido das letras o recomendasse.”

Na FLIP, a doce Lila falou em português (que ela aprendeu por Skype com um amigo brasileiro que trabalha na editora Saraiva – e nós aqui, chorando para terminar o cursinho de inglês, ô vergonha!) e fez questão de salientar que, apesar de ser uma “autora iraniana”, não é sobre luta política que sua obra fala, pois a literatura é motivo para construir futuros, através daquilo que experimentamos ao longo dos anos. Lila é como todas nós: frequentes “maria-canetas” de festas, feiras e bienais literárias – estamos ali, apaixonadíssimas por um escritor, com os olhos brilhando e o coração apertado. Lila é fanática por Nabokov muito claramente: até o último fio de cabelo. O livro me incomodou um pouco por ser o tipo de obra de uma moça tão encantada por determinado autor, que chega a imaginar encontros com o mesmo, o que deixa o livro entre o confuso e o inconcluso. Entretanto, a intenção de Lila é romper a barreira da biografia com a ficção. Por que não juntar os dois? Essa não é uma ideia nova, porém, é uma das poucas realmente bem feitas. É quase impossível divisar onde se inicia a ficção para terminar a vida de Nabokov. Tudo está conectado. É um livro encantador!

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Porque não vou para Marte

E daí que eu estava num barco, navegando há uma distância infinita de onde deixei o navio – pois aquela viagem eu teria de fazer sozinha; quando encontrei um vestígio de ilha, daí pensei “até que fim cheguei”. Ledo engano, mas eu precisava passar por ali para avistar meu objeto de destino.
O mar acabava onde começavam as nuvens: isso mesmo, eram nuvens, um vapor gelado que vinha do chão e iniciava um arco-íris. A entrada da ilha era esse arco-íris. Atravessei-o e, apesar da névoa, vi uma ruazinha sem fim com casas todas juntas. Fui andando, andando, andando: tudo me parecia vazio. Parei de frente a uma casa lilás, semelhante as outras, em tons pastéis. Havia ali uma moça muito loura (os cabelos cacheados), muito branca, segurando uma criança nos braços, tão albina quanto ela, de costas para mim. Quando a cumprimentei, ambas se viraram. Tinham os olhos negros. Completamente negros. Cílios cor de rosa. Um risco no lugar dos lábios. Questionei quem eram, que lugar era aquele. Como elas não conseguiam me entender, exclamei “oh Aslan!”, enfim me apontaram a entrada de uma orla. Caminhei até ali, pude ver o mar. Do outro lado, o sol ia embora, uma ilha pequenina com um balanço de criança ocupando todo seu espaço, segurado por dois coqueiros. Eu sorri. Meu barco, extraordinariamente, havia parado ali. Quando olhei de novo para a ilha, havia um leão no lugar do balanço. Gritei “Aslan!”, mas acordei em seguida.
É claro que eu sonhei isso depois de ler A Viagem do Peregrino da Alvorada, um dos livros que compõe a saga As Crônicas de Nárnia, de C. S. Lewis.

Da outra vez, eu estava na praia, com o meu marido. Eu tinha cabelos louros, longos, em ondas. Usava uma viseira, olhava o mar. Daí o sol ficou cada vez mais quente e o brilho nos cegava. Em poucos segundos, a humanidade já não existia, estávamos sendo vítimas de uma possível explosão solar. O engraçado é que estávamos sorrindo. Morremos felizes?
É claro que esse sonho veio depois que li o incrivelmente impressionável A Idade dos Milagres, de Karen Thompson Walker.

De tão medrosa, eu seria a pessoa menos apta a fazer essa viagem sem volta até Marte. De tão alheia que me comporto a tudo isso, eu nem sabia que existe gente interessada, de fato, em colonizar o planeta. Um grupo de vinte e quatro pessoas, de diferentes lugares da Terra, será escolhido entre cem mil humanos que se inscreverem nesse site. Vai funcionar assim: em 2023, duas pessoas entrarão em uma nave rumo a Marte. Essa viagem durará sete meses. E serão sete meses sem tomar banho (creiam. E não perguntem). Chegando lá, esses dois humanos deverão construir sua própria casa e viver, esperando as próximas duas pessoas que chegarão em seguida. Até que os vinte e quatro estejam lá. Juntinhos. Vivendo. E procriando marcianos, olha só.
Não sei vocês, mas pensar em uma colonização em outro planeta me faz questionar: e foi assim conosco? Meu marido, que é um grande fã confesso de ficção científica (em seriados e filmes, jamais na literatura), me contou, certa vez, sobre o final de um seriado nesse estilo (teria sido Caprica? Battlestar Galactica? Whatever), em que um planeta está morrendo e correm boatos de que existe um mundo perfeitamente habitável para aquelas pessoas. Esse mundo seria uma tal de Terra, com todos os recursos naturais propícios para a sobrevivência deles. A viagem é feita, eles chegam aqui, e o último capítulo mostra uma garotinha chamada Eva, crescendo e casando com um terráqueo, procriando e oferecendo as características físicas, emocionais e tecnológicas que temos hoje.
Por que não?
Para quem acredita em Deus, fico imaginando como será a vida em Marte caso todos concordem em não mencionar a palavra divina que designa o desconhecido e superior. Como seria ignorar divindades e formar sua própria cultura? Como será educar crianças marcianas? Que desculpa teríamos a dar, qual a resposta exata para os que filosofarem da onde viemos e para onde iremos?
Ir para Marte exigirá um desapego enorme. Não só de localização geográfica, como também de toda uma cultura criada, estabelecida. É como se tivéssemos a chance de ser outra pessoa. O lado bom? A Terra já está tão mal cuidada, que Marte servirá de válvula de escape, local reserva para a sobrevivência caso uma explosão solar – ou coisa pior, acontecimentos provocados por nós mesmos – venham a tona. Entretanto, inicialmente, precisamos de cobaias. E serão essas vinte e quatro loucas pessoas.
O espiritismo acredita que, quando morremos, reencarnamos para evoluir, para sermos melhores e fazermos o melhor na outra vida. Para consertar erros, basicamente. Indo por essa vertente, deixo uma sugestão: o filme Cloud Atlas, que possui um elenco impecável (Tom Hanks, Halle Berry, só para começar. Sendo que Halle aparece branca e, se você assistir e sentir que existem lacunas, leia isso), conta a história de seis pessoas em seis épocas diferentes – mas tudo sendo contado ao mesmo tempo. Em cada época, elas possuem a chance de salvar um ideal, mas são surpreendidas com a morte, quase sempre em forma de assassinato. São pessoas que confrontam a escravidão e iniciam uma revolução. Segundo o espiritismo, existe uma “escala” evolutiva. Semelhante ao ideal darwinista. Se somos animais em uma vida, na outra podemos chegar a humanos. Sendo humanos, não voltamos a animais. Depois dos humanos, que mais podemos ser? Reencarnamos em outro planeta.

Não estou pedindo que acreditem nisso, mas se a humanidade deseja ir até Marte e lá conceber vidas, isso significa a intenção de uma evolução, mesmo que seja uma intenção inconsciente?
A tecnologia me assusta. Me parece excessiva. Saramago dizia que é absurdo procurar alcançar galáxias, planetas, estrelas, sendo esse mundo o que é – uma banalização que vai da pobreza a ignorância. Fico com a opinião dele.
Mas ainda é cedo para pensar no assunto. Temos dez anos pela frente.

Esfera

Eu devo ser portadora da “preguiça imaginativa”. Só isso explica minha total aversão a obras de ficção científica e/ou fantasia. O mundo está eufórico redescobrindo Tolkien e encantando-se com Martin e suas Crônicas de Gelo e Fogo. Do lado de cá, andei satisfeita com García Márquez e seu realismo fantástico, que inspirou muitos outros ibero-americanos.
Isso até mês passado.
Olha que vergonha: em março desse ano, um tal de Renato Nonato entrou em contato comigo, via Skoob, para apresentar seu livro e solicitar uma resenha minha. Eu nunca tinha ouvido falar nesse rapaz, mas adoro ler obras de autores estreantes (sei lá, eu tenho um sonho utópico de ser uma espécie de Nelson Motta – só que na literatura. Eu sei, eu nem me acho), achei válida a oportunidade e me senti vaidosa por ter um autor me procurando para resenhar sua obra.
Quando chegou o Terras Metálicas (Renato C. Nonato, editora Novo Século, 615 páginas), eu estava no meio de uma fisioterapia contra a tendinite que tenho no ombro. Um livro de mais de seiscentas páginas não seria viável de ser carregado em minha bolsa enquanto eu me encontrava nesse estado. Tive que deixar para as minhas primeiras férias da livraria, que foram agora, em julho.
Imagine um cenário mezzo apocalíptico: a radiação tomou conta da atmosfera terrestre, foi uma guerra nuclear tão devastadora, que é impossível sustentar a vida em nosso planeta. A salvação de parte da humanidade foi construir uma espécie de esfera no centro da Terra, existente e resistente há mais de 300 anos. Não se sabe muita coisa da vida na Terra antes da Grande Crise – uma espécie de Terceira Guerra Mundial – a humanidade não conhece o céu azul, o mar que brilha, a areia macia, até os animais são fruto de total desconhecimento – foram extintos. Mas os humanos vivem confortáveis nessa Esfera, à medida que as gerações foram passando até chegar nos protagonistas dessa história: cinco jovens que, provavelmente, jamais souberam quem foi Albert Einstein – e que, um dia, esse grande físico foi questionado sobre como seria a Terceira Guerra Mundial. Sua resposta: “eu não sei como será a Terceira Guerra Mundial, mas sei como será feita a Quarta Guerra: com paus e pedras”.
Raquel, Tales, Ângelo e Camila são adolescentes e levam uma vida normal na Esfera: vivem com seus pais e vão para a escola todos os dias. Logo no início do livro, eles estão animadíssimos com sua inclusão na Academia – um complexo escolar no qual jovens recebem um chip que faz o corpo reagir em alguma habilidade específica para a sobrevivência e manutenção da Esfera.

“Túneis movem objetos a distância – começou a recitar Raquel -, Antenas controlam a mente, Bios controlam o corpo, Sibérios fazem as coisas esquentarem ou esfriarem, e os Exilados… Bem, eles não fazem nada.”

Acontece tanta coisa nesse livro que eu vou tentar falar o mínimo possível dos pontos ápices dele. Raquel quer muito ser uma Túnel – pois o sonho dela é voar e os túneis criam essa habilidade à medida que praticam. No dia da cerimônia, Raquel realiza seu desejo, mas é atormentada pelo destino de seu grande amigo Ângelo: ele se descobre um Exilado, alguém que não tem habilidades específicas e se destina mais a áreas técnicas e/ou de manutenções básicas da Esfera: tipo ser um faxineiro ou bedel de colégio.
Mas assim como seus amigos, Ângelo vai para a Academia desenvolver sua atual característica principal. Raquel e Camila são túneis e estudam na mesma sala que Luana – grande inimiga pessoal de Raquel. As aulas iniciais dos túneis resumem-se em fazer mover pequenas esferas com o poder da mente. Raquel impressiona sua severa professora ao ser a primeira a conseguir isso. Mas essa professora revela um segredo para Raquel que poderá mudar os rumos da Esfera.
A Esfera está morrendo. O mainframe principal que mantém os recursos do local está em um atraso constante. A Esfera tem menos de três anos de existência. Raquel convoca seus amigos para a missão de salvação da Esfera. Uma missão perigosíssima. Uma missão em busca da sobrevivência.
Algumas situações do livro merecem pleno destaque: como os animais foram extintos, na Esfera existem os “tashis”: pequenos robôs em forma de esfera flutuante, uma espécie de tamagotchi pairando sob a cabeça de suas donas. É como ter um cachorro. E a maioria das crianças e adolescentes tem o seu. Os tashis podem servir desde lanternas a armazenadores de memória. Captam dados como ninguém, fazem muita graça ao longo do texto.
Também existem no livro as Áreas Afastadas, um local em construção na Esfera, liderado à distância pela Elite que, como todos os grandes grupos da humanidade, coordenam o funcionamento do local. Dois dos membros da Elite merecem destaque: Alastor, cuja neta Isabela (uma sibério) entra para o grupo de Raquel; e Vítor, o único Antena vivo. A única pessoa em toda a Esfera capaz de controlar mentes. Ao longo da história o leitor se depara com a realidade das Áreas Afastadas: um lugar que nem parece fazer parte da Esfera, onde as pessoas vivem na marginalidade de implantar chips não autorizados e para onde alguns criminosos são enviados para cumprir penas.

“Em todas as sociedades existem as suas castas, os considerados heróis e os derrotados, e essa classificação normalmente é dada por uma mera característica que nunca depende da vontade do classificado.”

Esse local lembra muito o filme A. I. – Inteligência Artificial, na parte em que o garoto-robô encontra alguns robôs que sobrevivem com o lixo de equipamentos estragados que as pessoas jogam em locais próprios a isso.
Isabela, a sibério, acaba se revelando uma grande personagem, um ponto chave na história. Ela também conhece a informação do atraso do mainframe, mas sabe que existe uma saída – não para salvar a Esfera, – mas sim para encontrar uma Terra já possivelmente curada da radiação. Entretanto, esse é um plano arriscado. Que ela deseja firmemente levar adiante.
Eu, como não-leitora de ficção científica e fantasia, encontrei alguns pontos não tão bacanas no livro. Mas quero deixar claro que essa é uma questão muito pessoal e fruto da minha falta de costume em ler obras desse tipo. Achei o livro longo demais em determinadas partes. Desnecessariamente longo. O autor é capaz de relatar minuciosamente como se faz uma bebida futurística e eu, já disse, tenho preguiça de imaginar esse tipo de coisa. O engraçado é que, para um leitor de obras assim, beirando ao épico, essas descrições agradam. Isso explica os volumes da saga de George Martin. Mas as longas descrições possuem um motivo justo para existirem: no fim do livro, num suspense eletrizante, todas as informações se entrelaçam. Uma coisa que me incomodou verdadeiramente na obra foi a ausência de personagens estrangeiros – todos os nomes são em português. Entretanto, não contém personagens negros. Os protagonistas são todos brancos, a Raquel até loura é. Nada contra. Porém, fica meio esquisito esse aspecto de seriado norte-americano com nomes típicos do Brasil. No início do livro, também demorei a identificar a Esfera: para mim, era um novo mundo criado sob a Terra e não dentro dela. É, eu sou muito preguiçosa mesmo.

“Se você nunca tomou um Pangeia entenda uma coisa, a sensação é parecida com ter um cérebro colocado em um liquidificador e batido com pouco gelo, coar tudo e por fim flambá-lo. É uma sensação e tanto.”

Para quem procura uma literatura fantástica e científica de autor brasileiro, vale à pena conferir o Terras Metálicas. É um livro de muita qualidade, a narrativa flui, o mistério permanece e o autor dialoga com quem está do outro lado. Na livraria em que trabalho, ao abrir uma requisição pedindo essa obra, notei que o preço está por trinta reais. Gente: é uma obra de fantasia, com mais de 600 páginas pelo preço de um livro de 100 folhas. E isso não é apenas uma oportunidade, também representa um privilégio para conhecermos a literatura brasileira atual. Estamos precisando. Nota 10 para o Renato.

No site do livro, conheça os personagens e mais um pouco da história desses jovens.

Quer conhecer outros trechos que selecionei dessa obra? Clique aqui.

Capacidade de “artista”

Essa semana, a blogueira feminista Lola Aronovich – uma das mais queridas da internet, grande defensora das vítimas de estupro (mas também detestada por muitos reacionários – e isso inclui outras feministas, vejam só), publicou o relato de um homem que se diz arrependido de ter estuprado sua irmã e um primo, quando ambos eram ainda menores de idade.
Lola recebeu o e-mail desse indivíduo em dezembro. Ela diz que hesitou muito em publicar o relato, passou semanas pesando prós e contras de fazê-lo.
Como já era de se esperar, muita gente chegou lá para comentar o caso e humilhar a Lola. Gente que era “fã”, de repente passou a exigir que ela não mais tocasse no feminismo, pois não é isso que ela defende, que ela não deveria passar a mão na cabeça de um estuprador, muito menos dar voz e vez ao mesmo.
Eu acho tudo isso muito irônico.
Lola explicou claramente, após o relato, que haveriam represálias nesse sentido. E levantou uma questão interessante: tem feminista que é mesmo reacionária. Que considera absurdas as piadinhas machistas do cotidiano (e são), mas apoia a pena de morte. Como a própria Lola diz, o “reaça” é aquele que acredita em justiça na forma de massacre, jamais na reabilitação do ser humano.

Do lado de cá, não faz muito tempo, discuti no Twitter com uma feminista que, até então, eu admirava – apesar da sua constante brutalidade para com quem comentava em seu blog. Quando eu comecei a me interessar pelo movimento feminista (e isso depois que casei – com um homem), fui procurar páginas na internet que tratassem do assunto. O meu erro foi ter comentado de cara nas publicações dessa moça. Eu ainda estava aprendendo sobre slut-shaming, por exemplo, quando a mesma, sem querer dialogar, acusou-me de praticar o que nós duas mais detestamos: quando você diz para uma mulher que ela deve se comportar de uma determinada forma para adequar-se a sociedade (tipo “meninas não podem usar azul, porque azul é a cor dos meninos” e “mulher ‘direita’ não pode sair na rua com roupa curta, porque isso atrai estupro”, enquanto homens que passam pela rua sem camisa não correm o mesmo risco). Essa mesma feminista resolveu escancarar no Twitter o seu total desrespeito por símbolos religiosos de alheios. Nas palavras dela, “respeito humanos, não símbolos”. Olhando desse lado, parece que ela está certa, mas os símbolos religiosos são a cultura de um grupo de pessoas. E as pessoas, em essência, são sua própria cultura. De modo que eu não posso agredir a religião do outro, mesmo que o outro faça o mesmo com as religiões de outros. E será que a melhor forma de você “defender” a humanidade é denegrindo sua cultura? Acho uma tolice.
Mas isso é assunto encerrado. Eu só estou dando um exemplo de atitude de gente reacionária.
Porque a Lola é o que podemos chamar de “figura pública”. No Brasil, seu espaço virtual é referência de feminismo. Mas o blog dela também é pessoal. Ela publica o que quer, mesmo que isso não agrade a maioria. E daí eu lembro que, em questões polêmicas, algumas pessoas tem capacidade de artista: cê faz uma coisa “errada” e é marcadx por aquilo a vida inteira.
Eu não considero a publicação desse arrependimento uma ofensa aos direitos humanos. Muito pelo contrário. Senso de compreensão e perdão são atitudes para se colocar em prática. É muito fácil apontar o dedo para o erro do próximo e condenar. Mas e perdoar? É possível?
Tudo bem: provavelmente um estuprador não merece perdão. Mas merece ser ouvido, assim como a vítima. Se o ser humano a tudo se adapta, nós também podemos ter senso de recuperação. Tem gente que é presa por ter provocado uma chacina. Mas toma a consciência de seus atos, passa por um acompanhamento psicológico, cumpre sua pena e é libertado. A reinserção dessa pessoa na sociedade é mais difícil e complexa do que uma vítima que tenha sofrido qualquer tipo de agressão: é difícil conseguir um emprego digno, amigos interessantes e até formar uma família. E isso por problemas internos e externos.
Não. Eu não estou defendendo o estuprador.
Aliás, no próprio relato, o que ele menos quer é perdão e piedade dos outros – já que não consegue fazê-lo consigo mesmo.
Fico pensando nas pessoas que jamais serão perdoadas por seus atos: Suzane Von Richtofen, o casal Nardoni, outros tantos criminosos e/ou estupradores. E olha que tem pessoas estupradas escrevendo seus relatos e esperando que o agressor se desculpe. Exemplos? A filha do Dias Gomes. Vale à pena também dar uma conferida no excelente Fui Estuprada, sobretudo para quem estuprou alguém.
E também fico pensando nas pessoas que serão eternizadas por uma fase ruim: Chris Brown como agressor de Rihanna, Jennifer Aniston como traída e trocada por Angelina Jolie.
Quem era “fã da Lola desde pequenininho” demonstra agora ser mais um reaça que, da noite para o dia, condena e exclui de suas vidas este ou aquele, para o seu bel-prazer.
Chega a dar pena. Sobretudo de quem é feminista e reaça. O que uma pessoa dessas quer com um movimento tão humanitário?

Como ser um blogueiro de sucesso

Bem duvidoso esse título, não é?
O engraçado é que, apesar dos elogios que recebo aqui no blog (obrigada, muito obrigada), as maiores declarações de amor que recebi (eufemismo, tá? Agora me sinto um dos Beatles sendo perseguido por suas fãs, ou aquelas adolescentes que escrevem para revistas adolescentes e pensam que tem SUPER DIREITOS!) estão nas redes sociais que frequento. Skoob e Facebook entre as mais visadas. Tem gente que entra lá no Skoob, manda recado dizendo que só conhecia as resenhas que eu publico por lá, daí acessam o blog e viram “fãs”. Legal gente, me sinto o PC Siqueira, só que bem menos famosa. Alguns perguntam qual é a minha técnica (?) para ter um blog literário de sucesso. Olha, eu nunca considerei o Sobre Fatalismos um sucesso grandioso, até porque, não é tanta gente que vem aqui. Ser blogueirx hoje, no Brasil, já não é mais “profissão”, e sim “missão”: você tem de ser criativx, amigx. Bloglook do dia” não funciona mais.
Mas vamos lá: como o meu ego está inflado hoje, deixa eu falar algumas coisas que penso sobre o universo blogueirístico e que podem – ou não – servir de dicas para alguns de vocês. Em primeiro lugar, eu não tenho um blog literário. Os mais espertos perceberão que esse espaço é pessoal. É um diário, sabem? Entretanto, eu sou livreira. E uma das minhas diversões prediletas é ler. Daí minhas resenhas sempre começam da mesma forma: eu narro uma banalidade cotidiana minha e migro para o livro que li. É uma fórmula que dá certo? Estou sendo original com isso? Provavelmente sim. Eu não conheço outros blogs que façam o mesmo. Na realidade, eu não gosto muito de blogs literários. A maioria já começa o post com a resenha da editora e, ao fim de sua opinião (que não dura mais que cinco linhas), a criatura dá nota ao livro. É algo desnecessariamente profissional, quando a intenção do blog é a bagunça e o acúmulo de anotações, rabiscos, frases soltas. Percebam que hoje, o verdadeiro blog pessoal é o Tumblr: Lá ninguém tem vergonha de ser feliz – todo mundo enfia gifs e imagens toscas, inspiradoras, engraçadas. Frases de autorias duvidosas. O blog ganhou um sentido profissional, como se tudo ali estivesse sendo vendido, como se você fosse uma máquina repetindo informações. Mas tem coisa pior: os blogs das sofredoras adolescentes. Sabem aquelas meninas que dedicam mais de um ano do blog a falar do namoradinho da escola? Do quanto elas tentam ser orgulhosas e indiferentes, mas acabam voltando para os braços do amado e o círculo vicioso se repete? Sério, eu nunca sei o que comentar, além de “vai passar” e/ou “o tempo cura tudo”. Porque tudo isso é verdade. Eu já fui uma delas (o que me faz pensar que, quem visita esse blog desde o início, deve ter sofrido também com o quão insuportável eu fui naquela época).
Então assim: cê quer ter um blog? Seja original. Sabe o que é ser original? Falar de si mesmx. Fala da tua vida, afinal, você é uma pessoa única, mesmo que leve um cotidiano banal. Ninguém é igual a você. Já parou para pensar nisso? Se você realmente pensa em ficar famosx através de um blog, então não queira ser a próxima Bruna Vieira ou o próximo Felipe Neto. Faça com que o seu nome apareça, sem necessitar de comparações.
Entretanto, o fato de você ser únicx, apesar de fazer com que você lide com criatividade, não lhe dá o direito de ser hipócrita e nada humilde. Cê tá na mídia? Então mantenha os pés no chão. Não faça como essa tal de Giovanna Ferrarezi (cuja existência eu nem sabia que pairava sobre nós, até semana passada), que decidiu compartilhar o lamento de uma garota fútil que, de tanto viver enclausurada em sua redoma de vidro, sendo “idolatrada” por adolescentes em redes sociais, se tornou uma refém da própria imagem que criara. Esse é o tipo de pessoa que só representa um produto formatado, ausente de diferenciais ou melhorias, achando que tem privilégios e não aceitando que é normal assim como todos os outros mortais:

Também é ridículo acreditar-se superior, tipo só porque é bloguete de revista Capricho. 

Outra coisa, seja participativx na blogosfera. Retribua visitas. O sucesso do seu blog depende do público que o acessa. Porém, um primeiro passo precisa ser dado. Quando comecei a blogar, eu selecionava os espaços virtuais que me interessavam e ia lá, uma vez por semana, lia a publicação mais recente da pessoa e deixava um comentário pertinente àquele texto (aliás, faço isso até hoje). O que acontecia? Essa pessoa começava a me visitar. Eu guardava o link dela. E olha que, na época, eu blogava em lanhouse. Isso se chama cordialidade, e a internet é uma grande rede de interação social, lembra? Mas olha: leia mesmo o blog da pessoa. Faça o favor de não ser que nem essa daqui, que me apareceu dia desses (e em outros tantos blogs que visito) com a seguinte pérola:

Isso não é cabível em nenhum universo evoluído e, inclusive, comentei o seguinte no blog dela (junto com a Del Lang, que também não deixou barato):

E para quem quer ter um blog literário (único ramo no qual sou “experiente”), eu só tenho uma dica (além de “seja original”, claro): não faça parcerias com editoras só porque você quer ganhar livros e montar uma biblioteca. Proponha parcerias no caso de você já ter uma biblioteca. Com isso, não quero dizer que, na sua casa, sejam necessários mais de 100 livros para que você esteja capacitadx de resenhar outros (até porque, eu não tinha mais que quarenta livros aqui até formar minha biblioteca com livros de parcerias, confesso). Estou dizendo que não adianta você ter pouca bagagem literária. Por exemplo: gostar de best-sellers água-com-açúcar e querer parceria com uma editora que só publica livros sérios, profundos e intelectuais. Não será a sua praia. Se você curte Nicholas Sparks, para quê lidar com uma editora que publica José Saramago? Será que você vai se sentir à vontade? E se o livro não for bacana pelo simples fato de não ser o seu tipo de leitura? Você vai escrever uma resenha detonando a obra elogiada por público e crítica? É claro que a opinião será sempre sua, independente de fatores externos, mas a resenha depende sempre do amadurecimento de quem a escreve. Infelizmente, tem muito bloguete por aí firmando parceria a torto e a direito só para “ganhar livros”. O resultado disso são pessoas desorganizadas, blogs desatualizados, sem a menor credibilidade, fora a oportunidade que é tirada de alguém que realmente a merece. Eu poderia ficar muito contente com o fato de que uma determinada editora entrega uma caixa com vários livros dentro, mensalmente, para os seus blogueiros. Mas eu não tenho parceria com essa editora, porque seus livros não condizem com minha personalidade. É o mesmo caso da pessoa que escreve um livro de auto-ajuda e encaminha o original para uma editora que só publica romances. É uma pessoa, em suma, desinformada. “Ah Nina, mas só porque eu gosto de Nicholas Sparks, você acha que eu não sou capaz de ler um Saramago?”, não criatura. Você é capaz de qualquer coisa. Mas lembremos que você está começando. E, para tanto, vale à pena correr atrás somente daquilo que lhe interessa. Daí você pega o gancho e parte para projetos maiores. Boa sorte!

La-la-la

Vídeo

Meses atrás, num ato de nostalgia, decidi assistir alguma série que tenha feito parte de minha infância (aproveitando que meu marido baixa tudo via Torrent, e eu não me aplico em aprender nada disso). Como “série que fez parte de minha infância” entende-se tardes de sábado na frente da TV, assistindo Celso Portiolli oferecendo dinheiro a quem telefonasse para o SBT de duas da tarde em diante. Eu adorava esse programa dele porque, além da minha mãe ter ficado que nem uma louca ligando desesperadamente em busca de cem reais, eu assistia os seriados mais bacanas daquela época em que o único acesso de diversão tecnológica era a TV aberta. Eram mais de cinco séries. Terminava o capítulo de uma, começava o capítulo de outra. Dentre as minhas favoritas, uma delas era Gilmore Girls.

Eu não sei como eu achava O MÁXIMO assistir Gilmore Girls naquela época. Provavelmente, quando você tem doze anos, qualquer seriado norte-americano é encantador. Quando voltei a assistir agora, aos vinte e um anos de idade, percebi que não há nada demais e, inclusive, o enredo me dá vergonha alheia. Entretanto, Gilmore Girls é como quase todas as séries norte-americanas da década de 90: por mais ruim que seja a história, você se apega aos personagens. E é até capaz de identificar-se com eles, mesmo com uma porrada de coisa errada, tipo a ausência de personagens negros. A única personagem negra que apareceu em sete anos de seriado (além de Michel, o recepcionista da pousada) veio na última temporada, como uma juíza. O que é típico de norte-americano: incluir negros em seus seriados apenas como uma pessoa neutra, um personagem sem importância “vital”, mas “cheio de pompa”, como um juiz. Todo juiz de série norte-americana é negro. O negro, na mídia dos Estados Unidos, hoje, é sinônimo de justiça. O negro enquanto personagem bem-sucedido, significa que o mesmo lutou muito para chegar até ali e conquistar o seu direito. Um preconceito muito velado por parte deles. A história se passa dentro de uma cidade. E nessa cidade não existem negros. Mas não é sobre isso que quero falar agora.

Para quem não conhece, Gilmore Girls narra a história de uma família que, para os Estados Unidos, ainda é “atípica”: uma mãe solteira que engravidou aos dezesseis anos e, anos depois, cria sua filha adolescente que está enfrentando os desafios e descobertas do mundo. É uma série sobre como os relacionamentos humanos desabrocham enquanto nós amadurecemos. A mãe solteira em questão é Lorelai Gilmore (interpretada pela engraçadíssima Lauren Graham que, para mim, é uma Sandra Bullock da TV). Depois de engravidar de Rory (interpretada por Alexis Bledel – uma atriz mega sem graça, porém ideal para fazer Anastasia Steele na versão cinematográfica de Cinquenta Tons de Cinza – sério, eu torço por ela), Lorelai decide fugir com a criança para a linda, surreal e fictícia cidade de Stars Hollow (em Connecticut), a fim de criar Rory. Em sua nova cidade, Lorelai passa a trabalhar e morar numa pousada, que, futuramente, ela administrará. Aparentemente, Lorelai fez péssimas escolhas na vida. Ela veio de uma família rica e foi bem educada. Porém, dona de um espírito rebelde feito para contrariar sua mãe, quando descobre que está grávida, decide que a melhor saída é lidar sozinha com a situação, pois não quer que sua filha seja criada da maneira como ela foi: cheia de regras de etiqueta, pouco amor e nenhuma diversão. Lorelai engravidou de Christopher (David Sutcliffe), um namoradinho de infância tão irresponsável quanto ela, do tipo que nunca aprendeu a crescer e que, volta e meia, some e reaparece na série para, mais uma vez, tentar ser pai de Rory.

Mas a série não começa com esses lamentos de quem teve a juventude transviada por um balde de responsabilidade. No “capítulo piloto”, Lorelai – gerente de uma linda pousada em Stars Hollow, recebe a notícia de que sua filha Rory – de dezesseis anos -, foi aceita em uma escola muito bem recomendada, que oferece o tipo de educação ideal para que ambas as Gilmore realizem seus sonhos: ver Rory estudando Jornalismo em Harvard.

O relacionamento de Lorelai e Rory é incomum para a maioria das famílias do mundo todo. Elas não são apenas mãe e filha: são melhores amigas. Fazem tudo juntas, concordam em quase tudo, visitam os mesmos locais, gostam das mesmas músicas, assistem aos mesmos filmes (diversas vezes, inclusive), alimentam os mesmos sonhos e suas diferentes gerações não parecem ser empecilho para a amizade das duas. Com Rory, Lorelai tem uma relação que nunca tivera com sua própria mãe. E esse laço que as une é tão forte e sincero, que, não à toa, a série no Brasil, exibida pelo SBT, ganhou o a tradução de Tal Mãe, Tal Filha (que é subtítulo da série). Na primeira temporada, o grande dilema da vida de Lorelai é: Rory foi aceita na escola de bacana, mas não recebeu bolsa integral. Parte dos estudos teriam de ser pagos por ela, que não tem dinheiro para tão exorbitante mensalidade. Sendo assim, Lorelai é forçada a deixar o orgulho de lado e recorre aos pais, com quem conversa esporadicamente. Lorelai e sua mãe (Emily, interpretada por Kelly Bishop que também fez Dirty Dancing – não perguntem) fazem um acordo: os avós de Rory pagam a escola dela, desde que ambas as jovens Gilmore jantem na casa deles toda sexta-feira. Apesar disso ser uma tortura para Lorelai, ela concorda. Esses jantares, que vão perdurar até quando Rory já estiver na faculdade, trazem os momentos mais engraçados da série. É divertido acompanhar Emily e Lorelai competindo para saber quem consegue ser mais irônica. Ou víbora.

Uma surpresa agradável para os produtores da série surgiu logo no piloto: Luke Danes (Scott Patterson fez esse papel. Sensacional o cara), o dono de uma lanchonete (antes loja de ferramentas), devia ser apenas o cara que serviria café para as jovens Gilmore (na verdade, ele nem deveria ser “um cara”. Seria uma mulher, mas os produtores desistiram dessa ideia porque já haviam mulheres demais na série). Ele era um figurante que não passaria do primeiro episódio. Entretanto, nunca houve tanta química em servir café num copo de plástico na história da dramaturgia norte-americana. Todo mundo percebeu o quanto Luke e Lorelai podiam ser feitos um para o outro. Aliás, por sete temporadas, apesar de todas as idas e vindas dos romances frustrados de Lorelai, é por Luke que o telespectador torce.

Gilmore Girls – que não é um livro, um quadrinho, um filme, absolutamente nada além de uma história deliciosa saída da cabeça de Amy Sherman-Palladino, sua criadora –, não apresenta um enredo significativo, com exceção dos relacionamentos que a gente cria e amplia ao longo da vida. Rory tem uma melhor amiga coreana, Lane (Keiko Agena começou esse papel aos vinte e sete anos, com rostinho de quinze), vizinha sua, que não sabe lidar com todas as regras impostas pela mãe – regras piores do que aquelas que Lorelai sofreu na infância. Lane é obrigada a frequentar a escola Adventista e seguir uma religião na qual não acredita. Gosta de rock, sonha ter uma banda, mas esconde CD’s embaixo da madeira do assoalho. Revelar-se e ser aceita por sua ditadora mãe é um desafio na vida de Lane, que morre de medo dela e até chega a ser expulsa de casa. Rory apaixona-se por Dean, um rapaz estilo “bom moço” de Stars Hollow. Ele estuda e passa as tardes trabalhando em um mercado local. Entretanto, Dean será desprezado duas vezes por sua amada Rory. Ele será trocado por Jess Mariano (o garoto rebelde que toda mocinha tapada feito a Rory gostaria de ter, sobrinho de Luke, interpretado por Milo Ventimiglia) e, mais tarde, apesar de casado, será o responsável por “desvirginar” Rory e, ainda assim, será trocado pelo irritantemente riquinho e com cara de bunda de bebê real Logan Huntzberger (Matt Czuchry). Mas não tem problema. Dean, que é interpretado por Jared Padalecki, ao sair da série, vai fazer Sobrenatural, caçar monstros e deixar um monte de menininha ovulando por sua presença arrasadora (conforme o “antes e depois” dos personagens da série). Bem feito, Rory. Desprezou, perdeu.

Rory é uma personagem irritante. Ela quer fazer tudo certinho, quer ser um exemplo para a sociedade, acredita na paz mundial. Demora muito para essa garota evoluir, até porque, apesar de saber que certas coisas na vida não são tão fáceis de conseguir, tudo dá certo na vida de Rory. Um exemplo? Mesmo sendo aceita em Harvard, ela percebe que aquele foi um sonho criado por sua mãe. Uma escolha difícil precisa ser feita e Rory vai para Yale, que lhe parece mais qualificada que a anterior. Quando Rory termina a faculdade, ela tenta um estágio no The New York Times, no qual é rejeitada (imagine esses olhos azuis chorando litros). Entretanto, surge uma proposta melhor: cobrir a campanha presidencial de Barack Obama, viajando com sua equipe por todo o país. Claro que ela topa.

Manda Rory pular de um precipício. Ela vai.

Outro fato que irrita ao mesmo tempo que diverte, são os diálogos rápidos das jovens Lorelai, recheados de referência a cultura pop, misturando nomes e personagens de filmes antigos. O roteiro de cada capítulo de uma série norte-americana costuma ter de 45 a 50 páginas. Mas, com a rapidez do modo de falar e pensar entre Lorelai e Rory, o roteiro chegava a ter mais de 70 páginas, só de falação que, volta e meia, me enchia o saco. Mas era legal.

Lorelai deu seu próprio nome a Rory. Rory é um apelido carinhoso para Lorelai.

Dos momentos inesquecíveis da série, preciso destacar alguns. Kirk (Sean Gunn, o faz-tudo da cidade, que trabalha em trocentos lugares ao mesmo tempo), interpretando Jesus Cristo em mais um evento surreal da surreal Stars Hollow, passando um sermão para a população, utilizando Cristo (ou a si mesmo) como “exemplo de bom exemplo”. Infelizmente, não encontrei o vídeo dessa cena, mas aqui vai um “filme” que Kirk fez e exibiu no cinema local de stars Hollow. Ele foi o personagem mais hilariante e absurdo da série inteira:

Tem também Paris (Liza Weil), sempre esperta e nada comedida, destilando ironia nas incompreensões alheias, após uma briga com Rory, em sala de aula:

E Lorelai, num dos últimos capítulos da última temporada, declarando-se F I N A L M E N T E para Luke, cantando Whitney Houston (não há nada mais brega) num karaokê, como se fosse serenata.

E se você ainda não entendeu o “la-la-la” do título, eu explico com um aviso breve: aguentei isso o seriado inteiro:

Então, não se iluda: Gilmore Girls é para quem gosta de Sessão da Tarde, para quem deseja resgatar a nostalgia da infância. Para quem já teve um coração partido, para quem tem problemas com parentes próximos, para quem desejar retomar amizades aparentemente irresgatáveis. Com Gilmore Girls, eu aprendi que sua melhor amiga pode ser a pessoa que mais lhe detesta e compete com você, que um relacionamento entre mãe e filha nem sempre estará fadado ao insucesso graças a uma situação anterior: se você deixar o orgulho de lado, ainda pode salvar muita coisa. Aprendi que o amor da sua vida pode mesmo estar ali na esquina, literalmente – e ainda servir um bom café. Aprendi que, com as imprevisibilidades da vida, somos forçados a crescer, que quem nasce em berço de ouro pode deixar de voar e caminhar com pés no chão. E que relações aparentemente surreais são absolutamente possíveis, se você se dedica a cuidar verdadeiramente do outro. Sendo assim, boa sorte para quem começar – e se apegar.