O pior blogueiro do mundo

Não faz muito tempo, uma amiga publicou no twitter o que ela considerava um absurdo: um editorial de moda de uma famosa revista sobre roupas étnicas, estampas africanas, etc. E uma modelo branca para ilustrar o conteúdo.
Eu, que já trabalhei como modelo, questionei qual era o problema do editorial. E ela me especificou que o erro estava na escolha “racista” da mulher branca. Em contrapartida, perguntei se, por acaso, uma mulher negra não poderia fazer uma sessão de fotos com temática, sei lá, russa ou alemã. Para mim, daria no mesmo. O preconceito racial no meio da moda tem diminuído bastante. Se você é modelo em Salvador, onde moro, já deve ter percebido que aqui não tem mercado para brancas. Na minha época, havia perdido vários trabalhos por conta da cor da minha pele – e eu me considero apenas amarela. Portanto, na questão da moda, acredito que se uma modelo branca possui beleza e competência para posar em um editorial “africano” (oi?), ela o fará, sem problemas. Assim como a modelo negra pode alcançar um status bem maior: ser a principal da Victoria’s Secret, por exemplo.
Mas em 140 caracteres, infelizmente, não é possível expressar tanta coisa. E essa amiga discordou de mim, e outras pessoas, que eu desconhecia (e ainda desconheço), mandaram mensagens perguntando: “o que é racismo para você”? E, diante de minhas respostas (que eu ainda perdi tempo digitando), as ofensas se multiplicaram, até absurdos como “essa gente branca que pensa que o racismo contra eles existe”. Como é que é?

Imagem compartilhada no facebook.

O meu argumento era que, embora a escravidão e todo aquele massacre contra os direitos humanos houvesse acontecido sim, em tempos remotos, hoje a coisa está bem diferente. “Ah, quer dizer que você acha que o racismo não existe mais?”, não, é claro que o racismo existe, eu vejo esse tipo de atitude também. E protesto até onde posso. Mas daí viver acreditando que estou sendo perseguida pelo preconceito contra a cor da minha pele? Jamais. Sigo em frente, porque eu sou uma pessoa, e tenho o meu potencial, independente de ser azul ou vermelha. Aqui em Salvador, com uma população negra em maioria, me surpreendo bastante com o fato de que o pessoal não saiu ainda do passado. A sua faculdade só teve professores brancos? Que tal estudar, tornar-se professor e – com competência – reverter esse quadro? É bonito quando dona Olívia Santana sobe no palanque do candidato que perdeu para ACM Neto e grita “pois a Bahia é a negrada e a negrada está conosco”, como se Salvador fosse apenas isso? “A negrada”? E eu, que sou amarela? Teria sido expulsa da cidade em que nasci porque Olivia não sabe fazer discurso, só “oba-oba”? Cadê as propostas para melhorar minha cidade? Não: só “a negrada” importa.
Mas existem assuntos nos quais a gente não deve se aprofundar ou aguçar o senso crítico caso não tenhamos um ponto forte: o conhecimento. Naquela noite, minha amiga continuou se sentindo muito ofendida, enquanto eu ignorava ou debatia contra os que me acusavam e me nomeavam como “a nova racista da internet”. Ela começou a narrar fatos de sua infância e então eu caí na real: eu nunca vou saber o que uma pessoa negra que sofreu preconceitos terríveis passou. Ao longo da jovem vida dela, não foi pouca coisa todo o racismo que lhe atiraram. Eu nunca vou saber. E por um fato simples: eu sou amarela. Então, fiz o que considerei mais sensato: pedi desculpas pelas ofensas que cometi, embora ainda tenha o meu ponto de vista que é diferente do dela. Ela aceitou, pois havia percebido que era sincero de minha parte. E tudo terminou bem.
Eis que, no fim dessa semana, lendo os blogs que costumo seguir, me deparo com a notícia do “pior pai do mundo” no Charlezine. Uma história que eu já havia visto repetida em tantos outros sites, só que com um título bem diferente. Essa é a história de um garoto de apenas cinco anos, da Alemanha, que gosta de usar vestidos. Por conta desse fato, ele sofre com as piadas em pleno jardim de infância, contra sua atitude. O que o seu pai resolveu fazer? Espancá-lo? Obrigá-lo a se comportar como um “homenzinho”? Não, de forma alguma. O pai veste uma saia e leva o garoto até a escola.

Pai veste saia para levar filho que usa vestido para a escola.

“Em uma carta, Pickert explicou que tenta criar seu filho de maneira igualitária. Ele escreveu que não age como os pais acadêmicos que divagam sobre a igualdade de gênero durante os estudos mas reprimem as crianças quando estão em casa com um ‘pensamento convencional’. O pai do garoto afirma ainda que não podia abandonar o filho ao preconceito alheio. ‘É absurdo esperar que uma criança de 5 anos consiga se defender sozinha, sem um modelo para guiá-la. Então eu decidi ser esse modelo’, afirmou Pickert.
Pai e filho atualmente passeiam pelas ruas da cidade de saias, atraindo muitos olhares curiosos. O garoto agora resolveu pintar as unhas e de vez em quando pinta as unhas do pai. Quando ouve chacotas dos amiguinhos do jardim de infância, prontamente responde: ‘vocês só não usam saias porque os pais de vocês não usam’.”

O sr. Charles A. Santana, dono do blog Charlezine, apenas copiou a notícia dessa fonte e alterou descaradamente o título para o que ele considera como “o pior pai do mundo”. Logo um comentário surgiu pedindo explicações sobre o motivo daquele ser o pior pai, e a resposta do sr. Charlie A. Santana foi a seguinte: “Porque em vez do papel de pai, de ensinar como se vestir adequadamente e ser modelo de conduta moral em quem o filho poderá se espelhar, ele faz o contrário”. Eu, como leitora daquele espaço, decidi expressar também o meu senso crítico, que resultou no seguinte (clique na imagem para ampliar):

Preconceito.

Decidi analisar o caso, e compartilhá-lo com vocês, quase como uma forma de divertimento. Bem, para começar, todo mundo aqui conhece a revista Veja. A revista que os pseudo-intelectuais leem e admiram. A revista que distorce toda entrevista que faz com algum artista (ou mesmo aquilo que os seus correspondentes escrevem). A revista que compara homossexuais a cabras, como se essa comparação fosse possível ou aceitável. A revista que pede que você tire fotos do ENEM e publique nas redes sociais, sob o motivo de que “as melhores serão publicadas em nossa próxima edição”, sabendo que esse é o tipo de atitude que prejudica os estudantes que estão fazendo a prova. A revista que perde uma edição inteira tratando de Cinquenta Tons de Cinza só para posar de moderninha diante da extrema direita no recheio de todo o conteúdo inútil, corrosivo e de distorção para mentes abertas e auto-suficientes. Enfim: a revista que pensa que fala por você e não com você (isso para citar apenas alguns dos casos mais recentes). Senhoras e senhores, o sr. Charlie A. Santana é mesmo o tipinho ideal que a revista Veja está perdendo. Confiram:

01

Em seguida, decidi checar o perfil do sr. Charlie A. Santana. E, como ele é um ser humano muito humilde e respeitador, o currículo egocêntrico também precisa ser exposto, não é mesmo? (decidi preservar a imagem da namorada dele para que a mesma não se sinta envergonhada, coitada.)

02

Foi um amigo no facebook quem me chamou a atenção para o perfil dessa figura, realmente invejável (e duvidoso). Em vinte e três anos de vida no planeta Terra, foram, pelo menos, quatro formações diferentes. E, diferentemente do que o meu amigo achou, penso que essa formação para uma pessoa tão jovem é completamente possível: tenho um conhecido que até hoje faz faculdade. Ele acaba de se formar em mais uma (deve ser a quinta). Com direito a festa de formatura e tudo. E, em breve, entrará mais uma vez em outra faculdade e se formará novamente. Qual o motivo disso? Linearidade. Ou uma pessoa que não possui objetivos claros, não salta. Qual o sentido de tanto diploma? Exibir na parede da sala para as visitas? E depois? Abrir um blog e contar para todo mundo que, apesar de tanto conhecimento, você já foi chamado de herege? Coitado, né? Apesar de todo o estudo obtido, você ainda é incapaz de perceber que o seu pensamento ou a sua ação não é a mais correta e nem a mais sensata para reger a sociedade da qual você é vítima? E se o “normal” fosse homem usar saia? Você se rebelaria contar um garoto de cinco anos que usa calças? Desde quando o que você pensa ser o certo é o certo?

03

Sobre assuntos nos quais eu não tenho a menor propriedade para tratar, também não me meto. Só uma única vez decidi escrever sobre religião por aqui, mas a maioria concordou e compreendeu o meu ponto de vista. Eu entendo literatura e é dela que gosto de falar. Desconheço bastante o assunto da homossexualidade, dos direitos das pessoas que possuem orientações sexuais diferentes das minhas, de como um pai deve educar seu filho também (ainda não sou mãe). Mas entendo sinceramente que ainda terei de comer muito feijão para ser uma Lola ou tratar de assuntos mais sérios com a extensão devida, como faz a Feminista Cansada (que também me apoiou, conforme o breve texto aqui). E algumas pessoas, tais como o sr. Charles A. Santana, precisa rever urgentemente seus conceitos de “achismos”. Porque opinião qualquer um tem. Apontar o dedo, todo mundo sabe. Mas colocar-se no lugar do outro e enxergar o mundo à sua volta a partir daí, parece um sacrifício enorme. E alterar o título de uma publicação para “amenizar” o impacto de seu preconceito não basta. Uma pessoa dessas não está fazendo nem de longe o seu melhor. Como uma amiga questionou no tópico que eu levantei no facebook, “como faz pra deixar de ser da mesma espécie que essa pessoa?”, porque nos dá vergonha, muita vergonha alheia.

A mesma notícia, diferentes pontos de vista.

Não vele, revele

Como todos vocês sabem, eu comecei este blog para curar um amor platônico e errado. Funcionava como uma terapia do desabafo. E dava certo. Na realidade, acho o blog surpreendentemente estúpido naquela época, mas vocês podem me perdoar, eu só tinha dezesseis anos.
Não percebi exatamente quando foi que este espaço migrou tão absurdamente para a literatura, mas acabei gostando do resultado e continuando por esse meio. Hoje sei que é ela que me motiva a estar cada vez mais presente aqui e, para tanto, quero deixar claro alguns pontos de como funciona este espaço, antes de adentrar o assunto principal.

“Escrito semana a semana, crônica após crônica, pequenos sismógrafo atento aos acontecimentos de fora e as lembranças de dentro.” – José Saramago.

Desde junho deste ano, comecei a me interessar em ser parceira de algumas das mais importantes editoras do país. Tomei essa iniciativa quando percebi que os treinamentos literários lá da livraria em que trabalho são divertidíssimos e enriquecedores. Eu gostava quando as meninas das editoras iam lá para contar a história dos livros que já eram o maior sucesso e daqueles que ainda estavam para chegar. Eu queria ser assim também. Queria falar dos livros. Então descobri a parceria entre editoras e blogs, o que me deixou muito contente, e decidi tentar.
Por um mês, comuniquei-me com diversas editoras propondo parceria, e descobri que a maioria delas abriria inscrições entre julho e agosto. Não perdi tempo e, dentre algumas chances que tive, a Não Editora e a Dublinense foram as primeiras que me aceitaram. Em seguida, veio o dramalhão que tive com a Companhia das Letras. Todo mundo aqui está ciente do fato de que eu sou apaixonada por essa editora que é muito a minha cara (amo os livros do Saramago e do Chico Buarque, publicados por ela). Eu vinha acompanhando os mínimos detalhes dessa seleção pelo twitter da Companhia e também da Diana Passy (que cuida da parte de mídias sociais da editora). Até hoje lembro de quando a Diana publicou as estatísticas: foram 512 inscritos. E eu achava que não tinha a menor chance.
Por sorte, metade dos inscritos jamais havia resenhado um livro da editora, o que deve ter aumentado minhas chances, já que resenhei vários por aqui e falei minimamente de outros tantos. No dia do resultado, fui trabalhar com a maior ansiedade e até o meu gerente estava na torcida pela minha escolha. E, quando cheguei em casa, vi o e-mail da Diana e quis sair correndo daqui para dar um abraço bem apertado nela. Eu fui selecionada.
Duas semanas depois, entretanto, veio uma notícia ruim. Em verdade, fiquei enraivecida pelo fato. Eu também havia me inscrito para ser parceira de uma editora específica para o público jovem. Não citarei o nome da dita cuja, mas basta dizer o seguinte: no dia do resultado, eles publicaram uma lista errada que tinha de sites desatualizados há sete meses até blog sobre macaco entre os escolhidos (pode?). Pois é. Na tal da lista divulgada na página do facebook da editora, entre muitos reclames e poucos elogios, fui visitar os blogs selecionados. Me surpreendi bastante. Os donos eram, em sua maioria, adolescentes de doze anos que não passavam do “título”, “autor”, “editora” e a resenha da própria editora meramente alterada por alguns sinônimos. E eram todos assim. Os melhores blogs que li, no entanto, mal eram atualizados.
Na época, não minto, achei que era dor de cotovelo por não ter sido aceita. Mas agora, analisando o perfil da editora, percebo bem o marketing deles: há interesse no público que lê e vende suas obras, mas não naqueles que se utilizam de uma intelectualidade realmente disposta a resenhar o que achou do livro. Isso é muito triste, pois livros exercitam a mente do leitor e consumidor. Eu, por exemplo, não indico um livro qualquer para os meus clientes. E, se um dia eu ler um livro da Companhia das Letras ou de qualquer outra por aqui que eu pense não ser bacana, vou afirmar categoricamente sobre isso, pois não sou obrigada a gostar da obra.
A parceria entre blogs e editora funciona da seguinte maneira: você pede o livro e eles encaminham. Você não precisa “gostar” do livro, basta fazer uma resenha após a leitura e publicá-la em seu espaço. Não há prazo para a resenha ir ao ar, mas também não é preciso demorar a vida inteira. Você não recebe dinheiro para divulgar a editora. Mas o conhecimento de um bom livro não tem preço. Na verdade, tem sim – e custa caro.
Faço essas parcerias porque tenho tempo para a leitura e por não possuir  dinheiro para ser gasto em livros. Livros são caros. É óbvio: tenho desconto lá na livraria (um desconto muito bom, obrigada), mas, ainda assim, livros são caros. Logo, receber presentes de editoras auxilia o preenchimento da minha biblioteca e me faz compartilhar conhecimento. Além disso, as resenhas daqui são diferenciadas: eu pego uma situação do meu cotidiano e a adapto aos livros. Tanto é que eu só peço livros que realmente têm a ver comigo. E isso vocês devem ter notado.
Na contramão disso tudo (só que nem tanto) existem os blogs de moda. Se você acompanha as notícias mais importantes do dia, deve ter percebido que, na semana passada, rolou o babado de que “bloguetes de muóda” estariam sendo pagas pela Sephora para elogiar os produtos da marca em seus espaços virtuais. Funcionava mais ou menos da seguinte forma: Sephora paga (isso mesmo gente, paga) para bloguetes diversas comentarem o último “batom bapho” da Dior, só que da seguinte maneira: “Amigsss, na minha recente viagem à Paris comprei esse batom vermelho da Dior, puro luxo!”. Daí você lia um lixo sem a menor revisão ortográfica de garotinhas analfabetas funcionais e ainda tinha inveja da vidinha bacana delas, indo de cá para lá barganhando grandes marcas. Pois é, ledo engano.
Daí que eu leio a Blogueira Shame e assumo sem reservas. Aliás, na minha opinião, ela pode até ser inescrupulosa, mas certamente ocupa o cargo de uma espécie de revolucionária, desmascarando esses espaços. Na crônica “Inconsciente Coletivo do Dia”, por exemplo, ela vai à caça desse péssimo exemplo de bloguetes pagas para mentirem ao consumidor.

“Sempre disse que as blogueiras podem e devem ganhar dinheiro com os blogs porque é uma coisa que despende tempo e tempo é dinheiro. Agora, dizer que os produtos foram comprados, que elas amaram e quiseram dar a dica é muita falta de caráter. É mentira, enganação e vai contra o Código de Defesa do Consumidor que, no seu artigo 36, diz: ‘a publicidade deve ser veiculada de tal forma que o consumidor, fácil e imediatamente, a identifique como tal’.”

E o pior de tudo é que isso não ocorre somente nos blogs ditos de moda. Nos literários a coisa não vai muito além. Quantas vezes já não me deparei com a frase “comprei na pré-venda” ou “ainda não foi lançado, chegou exclusivamente para mim” por aí? Isso expressa a falta de caráter do ser humano que insiste em passar uma imagem que não lhe cabe. Maquiagem custa caro. Livros custam caro. Se você foi paga para utilizar um produto e divulgá-lo ou para ler um livro e resenhá-lo, tenha o mínimo de responsabilidade em assumir por quais méritos vieram esses presentes. Caso contrário, seu nome ficará sujo, por exemplo, aqui.
Outra boa sugestão de leitura sobre o assunto também consta lá no espaço da Blogueira Shame. Vale à pena dar uma conferida no “Momento desabafo: algumas coisas sobre blogueiras, marcas e afins”. E, se você ainda não a conhece, cá está uma entrevista que a moça concedeu ao site da revista Veja.
Então, prazer. O meu nome é Nina, eu tenho 20 anos, sou parceira de editoras maravilhosas, trabalho numa livraria e não tenho dinheiro suficiente para manter uma biblioteca minimamente apresentável, mas estou tentando. E ah! Já ia me esquecendo: lanço agora a campanha “NÃO VELE, REVELE” contra a propaganda velada em blogs de todo tipo. O selo está aí embaixo e também aqui o lado e você pode auxiliar a divulgar essa iniciativa começando pelo seu blog. Conto com vocês!

Campanha "Não vele, revele".

Banalização literária

O meu plano de fuga para as férias é sempre o mesmo: passar o ano inteiro garimpando os livros que pretendo ler ou gastando excessivamente naqueles que não posso pechinchar. O fim de ano, hoje em dia, não é mais uma esperança tão certa. Quem trabalha em comércio deve esquecer dezembro ou janeiro e se focar lá para maio, agosto, setembro. Nos tempos da escola, era mais fácil. Eram três meses sem aula e muita literatura disponível. Foi assim que larguei os clássicos.
Os meus clássicos deram lugar aos novos autores latino-americanos (vez ou outra interrompidos por Agatha Christie, mas tudo bem). Eu descobri Mario Vargas Llosa e Mario Benedetti com imenso atraso, mas devorei-os o quanto pude. Quando Pola Oloixarac foi considerada “musa da FLIP” no ano passado eu senti que ficaria desatualizada novamente se não lesse As Teorias Selvagens. Depois que li essa obra ímpar e de estreia da autora argentina, senti que estava “por dentro” da alta literatura.
Ledo engano. Quando comecei a trabalhar na livraria, o livro da Pola era o que eu mais indicava quando alguém procurava presentear “uma pessoa muito inteligente”. Os mais intelectuais desconheciam o nome da moça – e pensar que o livro dela foi traduzido em diversos países. Mas depois dos últimos “bafafás literários” foi que compreendi a alma do negócio.
Capa da nova publicação da Granta.A lista da Granta (que publicou “os melhores jovens escritores” em língua espanhola e inglesa) é uma dessas polêmicas. Recentemente, a publicação britânica lançou Os Melhores Jovens Escritores Brasileiros, mas a lista (com excelentes nomes, a exemplo de Carol Bensimon, Antonio Prata, Michel Laub e Antônio Xerxenesky) não agradou a todos. Me pergunto, entretanto, o motivo. Até onde sabemos, “os 20 escritores foram escolhidos entre 247 autores que mandaram textos para a curadoria, composta por escritores e críticos literários. Destes, no entanto, os jurados afirmaram, durante a coletiva de imprensa do lançamento, que apenas 80 foram lidos. E do grupo selecionado boa parte fazia parte de uma lista prévia, entregue aos jurados pelos editores, mapeando bons escritores abaixo dos 40 anos”, segundo o site da Folha Pernambuco. Já não é novidade que tudo no Brasil se compõe de cartas marcadas, mas quando vi a lista pela primeira vez, não pude considerar mais justa a visibilidade desses escritores lá fora. Os nomes, em suma, eram absurdamente previsíveis e dentro do perfil e propósitos da Granta. Se 247, 500 ou 1000 autores fossem lidos, a lista permaneceria igual. E, mesmo que “jovens autores” não esteja dentro de um estilo literário, reconheçamos a estrutura que a Granta representa, pois se trata de uma publicação séria, competente e com alta visibilidade lá fora. Quem ainda discute esse assunto utilizando a palavra “injustiça” na maior parte do texto que me perdoe, mas só consigo enxergar como inveja ou, no mínimo, indignação por não estar presente na lista ou porque o seu pupilo que, na sua opinião, constrói narrativas fantásticas também se ausenta do privilégio de ter um lugar ao sol na Granta. Lembrando o fato de que essa lista foi gerada pelo acordo de um júri sério e não pelos seus 20 melhores da nova geração.
No mesmo sentido, sem desvios, vai o famoso El Libro que no Puede Esperar, uma publicação argentina que, segundo a Juliana Cunha, “eles focaram nos escritores contemporâneos porque são os que mais sofrem com o a falta de leitura. Borges já é Borges. Se você não quiser ler, azar o seu, ele permanecerá. Mas alguém que está começando agora não tem grandes chances caso não seja lido agora e a venda de novos autores latino-americanos caiu 37% nas últimas duas décadas, segundo os editores do livro”. A intenção dessa obra (que se trata de uma série com vários volumes) é fazer com que a pessoa compre o livro, mas tenha uma data para terminá-lo. A tinta desaparece após 60 dias. Nesse meio tempo, você precisa lê-lo ou “o segredo estará perdido para sempre” – o que equivale a um bom suspense norte-americano #sóquenão.
Compreendo que tudo isso é uma grande questão de mercado, mas quem trabalha em livraria sabe que, se for para um autor novo chamar a atenção da mídia, precisa publicar um escândalo literário e extremamente mal escrito para que você, leitor, passe por lá e gaste o seu dinheirinho antes que esgote ou ganhe versão cinematográfica. Trabalho diretamente com autores regionais que não vendem. Recentemente, tínhamos 80 exemplares de uma mesma obra de um escritor baiano. Os livros estavam lá há mais de um ano. Entraram 80, saíram 80 – só que nas mãos do escritor (que deve ter passado vergonha). Em suma, qualquer visibilidade possível para autores da nova geração, eu apoio. Imagino o quanto deve ser difícil para você, que gosta de escrever e tem menos de quarenta, ganhar um punhado a mais de leitores. Eu não imagino apenas – procuro vender esses livros. No fundo, eu te entendo.
Mudando “de pau para barraca” (como diz a mãe de uma amiga minha), vergonha alheia mesmo eu senti com essa situação: “a escritora e ex-garota de programa Vanessa de Oliveira decidiu fazer um protesto diferente para falar sobre a importância da leitura. Vanessa ficou nua em uma livraria de São Paulo, na tarde deste domingo (12), para protestar contra a pirataria em um ato que afirma também servir de estímulo à leitura. A moça estava apenas pintada. O artista desenhou um short vermelho e uma blusa branca, onde havia a mensagem: ‘não à pirataria’.”

Vanessa de Oliveira, "umazinha aí" que diz ser escritora.
Eu ri (sobretudo porque ela tem o apoio da FEMEN, que eu considero um grupo de mulheres com objetivos ridículos e sem o menor sentido, como já falei aqui), mas também fiquei triste. Afinal de contas, isso é o equivalente a mulher pelada no meio de um programa de comédia. Você ri? E quando uma loira aparece de biquíni no meio do comercial de cerveja? Você tem vontade de beber por causa disso? E quando a Vanessa de Oliveira (quem? Ah, só mais uma “garota-de-programa-que-pensa-que-escreve”) aparece “protestando contra a pirataria” (sei), você tem vontade de comprar o livro dela? Ou qualquer outro?
E agora, que os clássicos ganharão versão (aka) erótica, fazendo com que Jane Austen perca a virgindade sem a menor necessidade? Enquanto vocês surtam com Cinquenta Tons de Cinza e detonam a Granta, a banalização literária parece surreal, meus caros (vide Paulo Coelho pensando que é alguém para falar mal de James Joyce).

Foco

Em tempos de Cinquenta Tons de Cinza tirando o foco das cores do arco-íris (vide aqui), tudo serve de pretexto para demonstração de literatura comparada. Dessa maneira, vamos analisar o print a seguir, tirado do Grandes Tolices (sim, eu me divirto com os equívocos alheios das redes sociais):

Oftalmologista para quê, né pessoal...

Lendo o achado acima, eu só consegui me lembrar da capa da edição brasileira (CosacNaify, é bom frisar) para o livro História do Olho, de Georges Bataille:

Capa do livro História do Olho, de Georges Bataille, para a editora CosacNaify. Creiam.

Não é necessário salientar que a história dessa obra é essencialmente pornográfica (e a capa incrivelmente bizarra), mas eu quero deixar alguns pontos aqui em pauta, para vocês:
1.: Um dos livros mais requisitados pelo público homossexual é O Terceiro Travesseiro, de Nelson Luiz de Carvalho. Quando algum rapaz (geralmente os homens procuram muito) me pára na livraria em busca desse título, não é por nada não, mas já me aparece com a voz quase fanhosa, numa mal sucedida tentativa de tornar-se feminina, dizendo: “mooooça, vocês tem O Terceiro Travesseiro?”. Eis que o rapaz chegou hoje para mim, exatamente desse jeito e, antes que pudesse completar a frase, eu abri a boca com uma dessa: “já sei! Você quer O Terceiro Travesseiro, não é?”. Se eu fosse esse rapaz, teria falado curto e grosso com a livreira sacana aqui, perguntando se eu estava achando que ele tinha “cara de viado” (no grosso modo de expressão popular). Mas entendam, eu não sou preconceituosa, gente (simpatizo e respeito bastante, além de dar todo o apoio do mundo e ficar feliz quando um casal de pessoas do mesmo sexo adota uma criança, fazendo com que o noticiário fique mais bonito). O que eu tenho é uma mania terrível e horrorosa de adivinhar o livro que a pessoa quer pelo seu tom de voz ou maneira de agir. Assim, torna-se óbvio para mim que, quando algum engravatado passar pelo meu setor, já sei que estará procurando livros de Direito ou Administração, assim como as adolescentes góticas até hoje procuram pela versão (esgotada) de Entrevista com o Vampiro. Mas o rapaz que atendi levou no bom humor e perguntou: “nooossa, como você sabia?”, “adivinhei!”, foi a minha envergonhada resposta;
2.: Já viram o Marcelinho (aquele que lê contos eróticos no Youtube) lendo um trecho de Cinquenta Tons de Cinza? Pois é. Daí que eu estou pensando seriamente em organizar um movimento (ou enquete) para ter audiolivro do fantoche vendendo nas melhores casas do ramo;
3.: A gente sabe que Cinquenta Tons (o assunto “aka literário” mais insuportável do momento) não saiu de uma “escritora de verdade” e que a obra só existe mesmo para alavancar o comércio, né? Pois vem aí Toda Sua (Bared To You ) – que será lançado pela Companhia das Letras em breve e, pelos burburinhos, a narrativa é melhor e menos repetitiva que o novo sucesso da Intrínseca.

Porra, Maurício? Pudor?

Literatura comparada? A gente se vê por aqui.

Intolerância

Sem dúvida, a maior verdade sobre religião.

O assunto religião nunca me foi totalmente benéfico para ser conversando. Sobretudo porque é um discurso amplo e interminável – e já fui capaz de discuti-lo com fervorosos crentes, porém ausentes de qualquer capacidade intelectual de respeito e educação.
Para começar a história, parafraseando uma canção de Caetano, digo que diferentemente de Osama e Condoleezza, eu não acredito em Deus. Entretanto, ainda no sonho de tornar-me historiadora, esse é um dos assuntos que mais pesquiso e procuro me aprofundar. Considero-me leiga ainda em muito do que envolve religião, mas tenho sede de aprender cada vez mais, respeitando todas elas. Eu tenho uma história com a religião que é, basicamente, o seguinte: fui criada por pais católicos (não praticantes), mas minha avó paterna era pagã e meu avô paterno, judeu. Minha mãe teve uma educação que migrava do catolicismo para religiões cuja alcunha desconheço, mas que vieram dos índios. Em minha infância, na escola, fui cercada de evangélicos (em sua maioria), Testemunhas de Jeová e católicos.
Quando pequena, não gostava de ir à Igreja, pois não via sentido naquele ato em minha vida. Ia por obrigação, obviamente. Mas o tempo passou e minha mãe também deixou de ir, o que, em consequência, “livrou-me” daquele pesadelo de duas horas de domingo. Na adolescência, comecei a pesquisar um pouco de tudo, no intuito de “me encontrar”. E, acreditem se quiserem, o único livro que me deu uma convincente resposta até hoje foi um best-seller e atende pelo nome de O Código Da Vinci. Nele, Dan Brown deixa claro o seguinte: a Bíblia não chegou a nós via fax. E toda religião é baseada na invenção. O ser humano criou a religião para explicar o que nunca esteve ao nosso alcance. O sentido de nossa existência, por exemplo. Pensem o que quiserem, mas eu concordava com tudo isso.
Uma discussão frequente no meio preconceituoso que era o ensino colegial se insinuava em torno de uma igreja evangélica cujo bispo já fora acusado de “roubar o povo” diversas vezes (não citarei o nome da dita cuja, mas por aí vocês já devem saber do que falo). Naquele tempo, lembrei-me do fato de que existe uma “filial” desta “igreja” próxima a minha antiga casa. Coincidiu de eu ter sido convidada por um amigo do colégio para visitá-la, já que também ele frequentava. Esse meu amigo é uma das pessoas mais inteligentes que conheço, mas considero uma perda de tempo o fato de ele desperdiçar sua consciência ali. E já explico o motivo. Aceitei o convite para participar das reuniões de sua igreja porque gostaria de comprovar se aquela instituição cometia os tais dos crimes que os jornais divulgavam. Todo mundo adora dizer que “a igreja x rouba seus fiéis”, mas boa parte da população que possui esse costume sequer já colocou os pés por lá. Então eu fui, com a cara e a coragem. Foram cerca de seis meses de experiência.
Eu participava de um grupo aos sábados, no qual apenas os jovens se reuniam. Eu gostava. Gostava, sobretudo porque cantávamos e eu saía de lá com uma sensação de leveza ímpar. Até participava de brincadeiras e gincanas do tipo “menino contra menina” e era, de fato, algo diferenciado e divertido. Não demorou muito para que me convidassem a participar das reuniões de domingo de manhã, bem cedo, que eram as “oficiais” e “para a família”. Eu ia, recebendo todo tipo de troça até dos meus pais. E foi nesse ponto que comecei a desmascarar tudo.
A reunião de domingo parecia ser a maior de todas. Pessoas chegavam a ficar em pé, devido a falta de assentos suficientes. A grande maioria se vestia de branco e levava a Bíblia junto ao corpo. Antes da reunião, todos podiam chegar ao altar e fazer uma oração, se quisessem. Depois sentávamos.
A reunião era presidida por um pastor, que se inspirava em trechos da Bíblia par dar sua palavra de fé. Perguntas surgiam feito ameaças, tais como “o que você está fazendo da sua vida?” ou “por que você não aceita Jesus em seu coração?”. Era, no mínimo, assustador, mas aquilo não me afligia tanto. Porém, em um belo domingo ensolarado, repetimos todo esse ritual e aí o pastor veio com o seguinte absurdo: “anteontem, assistindo o ‘Programa do Jô’, na Rede Globo, vi uma entrevista com a cantora Daniela Mercury, na qual ela dizia que ‘Salvador é uma maravilha: tem um terreiro de macumba em cada encruzilhada’. Tá amarrado, em nome de Jesus!”.
Hoje lembrei esse fato por conta desse verdadeiro CRIME que aconteceu em Olinda, no último dia 15. Também era domingo, quando um grupo de evangélicos decidiu invadir um terreiro de raízes africanas. A matéria completa se encontra aqui.

Naquele tempo, porém, fui percebendo outras situações e, aos poucos, decidi me afastar. Não me importava se aquela igreja ou tantas outras “roubava” dinheiro dos fiéis: políticos, impostos, tecnologia e até a “cervejinha de fim-de-semana” também estão aí para isso mesmo. O que me preocupava seriamente era a educação tendo a ignorância pelo desconhecido como base. O candomblé (e afins) pertence ao “demônio” que os evangélicos criaram e submeteram ao outro grupo. Em suma, acontecia um desrespeito nítido: muitos evangélicos simplesmente não se aproximam se você fosse de uma religião africana. Você era repudiado. Lá fora, você não existia. Mas, se chegasse perto, poderia ser queimado vivo. É exatamente por isso que aqui em Salvador (imaginem: Salvador, Bahia. Cidade tropical, população negra e culturalmente africana em todos os cantos) não se vê um evangélico sequer participando de passeatas contra a intolerância religiosa.
Evangélicos, de certa forma, não sabem respeitar a religião de outrem. Mas não generalizo. Estou aqui falando de um ponto de vista, seguido da experiência que tive. Mas isso não significa dizer que TODOS os evangélicos se comportam de maneira semelhante. Conheço outras pessoas da mesma religião cuja mente não é tão limitada assim. Mas repito: é alarmante a educação que essas igrejas estão proporcionando aos seus fiéis. Posso não ter estudado a Bíblia tanto quanto eles, mas não duvido que todos nós sejamos iguais aos olhos de Deus, não importa a religião que tenhamos. E isso deve ser levado em conta, até porque, evangélico (ou umbanda, ou espírita, ou católico) não é ninguém para julgar as outras pessoas. A cultura do evangélico não é melhor do que a de um judeu, por exemplo. E vice-versa. São culturas diferentes.
Ainda não me considero uma pessoa totalmente resolvida com a religião. O meu marido é espírita e eu, até então, desconhecia essa cultura. Ganhei dele O Livro dos Espíritos, de Allan Kardec e gostei muito. Acredito que o espiritismo se baseia acima de tudo em uma lógica que ainda não compreendemos totalmente. Para o espiritismo, existem vários mundos a serem habitados por nós e cada vida nossa é uma evolução para o espírito. Iremos para mundos melhores, em breve. Esse é o melhor caminho para aproximarmo-nos de Deus. Embora seja difícil de digerir, acredito em muito do que o espiritismo declara, porque finalmente encontrei uma religião fundamentada na educação e respeito. E o melhor de tudo é que qualquer pessoa pode abrir O Livro dos Espíritos, mesmo que, assim como eu, não seja da religião ou nada conheça dela. É um livro extremamente direto e fácil de acompanhar. Fica a dica.

O abalo da monarquia dos Magalhães

Onze e meia da noite. Acordo, vou para a sala:
-Mãe, e ai? Quem é que vai para o segundo turno junto com ACM Neto?
-Ninguém vai com ACM Neto. A disputa será entre Walter Pinheiro e João Henrique.
E eu fiquei de queixo caído. Agora é um petista contra o atual prefeito. Sinceramente, pior do que está não pode ficar. To com o João. ACM choramingou na TV após a derrota. Deu até pena. Sério. Mas ainda acho que ele vai ser um grande político. Não tão melhor quanto o avô. A monarquia sempre prevalece.

O problema não sou eu

“O problema não é meu
O paraíso é para todos
O problema não sou eu
O inferno são os outros”
::O Inferno São Os Outros – Titãs

Eleições 2008. O cotidiano do povo brasileiro muda de acordo com a propaganda eleitoral e o horário que ela exerce. Se isso aqui fosse democracia de verdade, existiria um canal de graça só com propaganda política repetindo e repetindo o dia inteiro. Assistia quem quisesse. Desse modo, o Jornal Nacional não seria interrompido e o SBT, quem sabe, passaria mais um pouco daqueles seriados gringos com gostinho de fim-de-semana. Mas o que devo fazer entre oito e meia e nove horas?
“Desligue a TV e vá ler um livro” me pareceu a resposta mais convincente. Enfim, volto ao hábito de pegar um livro na biblioteca do colégio e ficar uma semana com ele, inteirinho, só para mim. Às vezes leva menos tempo – quando se trata de um livro de crônicas, consigo devorar em um dia, ou em uma noite. É só não ver novela e filme, acabo rapidinho.
O fato é que eu já passei dos quinze anos e já nem tenho todo aquele vigor e expressão política que tinha há… pouco menos de um ano atrás (quando tinha quinze). Cansei de defender ideais ou de gastar minha voz na aula de Filosofia e Ética na Sociedade Atual (aula esta que eu sou convidada a assistir na faculdade, de vez em quando). Naturalmente, como caçula, mascote da turma, fica difícil alguém acreditar que eu possuo “tanto interesse no assunto”. Mas enfim, isso não vem ao caso no momento.
De uns tempos para cá, tenho desistido de muita coisa que, até pouco tempo atrás, fazia algum sentido na minha vida. Eleições, por exemplo. Política nunca foi o meu assunto preferido, mas eu discutia, era até boa nisso.
Lembro-me de que, ano passado, conversava com um amigo (jornalista, por sinal) e ele me fez a seguinte pergunta:
-Vai votar ano que vem? Tá na hora, e você assim, tão feminista…
-O que te leva a pensar que vou me dar ao trabalho de caminhar no Pelourinho em dia de domingo com diversos panfletos de candidatos depravados jogados ao chão, me dirigindo, respectivamente talvez, ao Palácio Rio Branco a fim de cumprir meu dever de cidadã?
Ele ficou perplexo, sem resposta e eu prossegui:
-É claro que vou votar ano que vem. Mesmo tendo dezesseis, farei questão de mudar o país!
Defendia os de esquerda, detonava os de direita. Às vezes o contrário também acontecia, mas muito raramente.
Mas hoje me limito apenas a assistir aos debates que, vez ou outra, uma emissora de televisão decide fazer (ao vivo, é claro). Mas esses mesmos debates (políticos, lembremos), tem servido muito mais como motivo de riso do que algo que deve ser digno de audiência. De debate de pessoas civilizadas, acaba virando circo. E de circo, acaba acontecendo um teatrinho digno de exibição no programa da Márcia Goldsmith! Onde “a verdade tem que ser devidamente apurada”.
Ataques aqui e ali. Os candidatos criticam a administração do atual prefeito que, por sua vez, pretende ser reeleito.
Um já foi apontado, três vezes, como o melhor prefeito do Brasil (dois de seus governos foram aqui, em Salvador). Obviamente, ele não deixa ninguém se esquecer. Mas faz questão de frisar um outro fato: O atual prefeito de Salvador foi apontado como o pior do Brasil, segundo o jornal “tal”.
O petista causa briguinhas insignificantes aqui e ali. Cava o passado de cada candidato, típico ato de quem não tem proposta bem resolvida e quer mesmo confundir o eleitor dizendo: “Eu sou o melhor, eles que erram, votem em mim!”. Coisa de criança mimada procurando birra só porque não conseguiu o que desejava. O resultado é procurar o colo de outro partido. Não foi isso que o senhor fez Pinheiro? Ameaçando ir para o PSOL?
“A Salvador do século XXI” é o grito de guerra do meninão ACM Neto. Sim, mais um do império “terninho-e-gravata” exercido há mais de trinta anos pelo patriarca da família Magalhães: ACM, o legítimo que fez muito, muito mesmo pela minha cidade adorada. Mas um raio não cai duas vezes no mesmo lugar. Quem garante que ACM Neto vai ser o clone do avô? Ele mesmo? Hahaha, faça-me rir. Ele é quem tem propostas menos convincentes. Apenas se vangloria do nome (e sobrenome) que herdou. Parece ser o suficiente? Claro que sim! Ele vai pro segundo turno e vai ganhar. Está escrito.
O candidato do PSOL nem sequer pode ter esperanças. É o último dos últimos nas pesquisas de ibope (vox populi, como gostam de chamar) e não tem chance alguma de subir. Porém, suas propostas tem algum fundo de objetivo. Esse não brincaria em serviço.
Mas também fico com um pé atrás. Não confio em ninguém, muito menos nesses senhores que prometem, prometem e sabe-se lá Deus se vão cumprir. E o discurso se inicia: “Quando eu for eleito…”
Tenho dezesseis. Iria fazer este ano o meu título, mas desisti à tempo e não me arrependo disso. Votaria em branco. Aliás, o Brasil – e os políticos – só vão tomar vergonha na cara e consciência quando perceberem que metade da população nacional votou em branco. Seria um sonho pra alguém como eu, que ainda tem um pingo de esperança, mas não vai acontecer.
Enquanto isso, ou depois disso, quatro anos vão passar e eles continuarão a acreditar que “O Haiti não é aqui” com típicos bordões e frases de efeito como: “Não fui eu, eu juro!” e “Mas eu nem tinha conhecimento do ocorrido!”
É. O inferno são os outros.

Gênesis – Brincando de ser Deus

No início, Deus criou o céu e a Terra. Na Terra haviam flores, árvores que davam frutos, sol e chuva de verão, animaizinhos a voar, nadar e caminhar… Mas Deus viu que o negócio tava chato pra cac*** e resolveu criar os…arght! H U M A N O S !
Então nasceu Adão. E da costela do mesmo, veio Eva. Adão e Eva tiveram filhos. E os filhos de Adão e Eva tiveram filhos. E os filhos dos filhos de Adão e Eva também… ah, você já entendeu!
Mas Eva, sentindo-se lesada por ser minoria, provou do fruto proibido. E o resultado disso é o que temos hoje: Mulheres menstruadas todos os meses, com direito a TPM e salários mais baixos que o dos maridos; fanáticos religiosos que se unem a terroristas a fim de comprarem uma “vaga no céu”, cujo preço é matar milhares de pessoas (afinal, não basta apenas levar sua alma, tem que ter uma legião de inocentes atrás. O onze de setembro de 2001 te lembra alguma coisa?); senhores de terno e gravata discutindo propostas irrealizáveis durante o horário eleitoral (que é obrigatório, como se não bastasse); e os clássicos cientistas, que são basicamente seres humanos ateus viciados em “buscar sempre a verdade, nada mais além da verdade”. Pois bem.
A idéia de Deus era linda, poética, de um lirismo absoluto. Poderíamos simplesmente nos conformar com essa situação: Deus criou a Terra em seis dias, no sétimo descansou e ponto final. Poderíamos acreditar nessa hipótese que, como toda hipótese, supostamente aconteceu. Afinal, a história sobreviveu por diversas gerações, sem perder seu brilho e seu poder divino de fazer as pessoas acreditarem até os dias de hoje. Mas sempre tem que ter um contestador, tinha que vir “neguinho pra descer o pau”. Sempre tem um fulaninho, um ser-humanozinho-qualquer (que só usa 10% de sua cabeça animal, imagine), que também é filho de Deus (há chances de perdoar com essa?), dizendo que: “Não, não é bem assim, eu tenho outra teoria em mente”.
Afinal, a segunda teoria é de que a Terra (há zilhões de anos atrás) era habitada apenas por seres gigantescos e assustadores (denominados dinossauros) que comiam tudo o que viam pela frente. Aí um dia, do nada, BOOM! Houve uma grande explosão que fez com que os dinossauros simplesmente deixassem de existir, fazendo surgir uma “nova Terra”. Eis a teoria do BigBang.
Porém, a teoria ainda é incompleta. Afinal, depois dessa explosão, o que aconteceu? O que fez originar o ser humano? A pergunta ecoou no infinito de geração à geração até que, vinte anos atrás, cientistas e pesquisadores resolveram elaborar um “acelerador de partículas”, ou LHC, cujo intuito é colidir átomos a uma poderosa velocidade que procure refazer a explosão que supostamente originou nosso planeta. A máquina é o futuro, pois pode explicar de onde viemos e se realmente existe a “partícula de Deus”, responsável pela nossa formação orgânica.
Obviamente, quando o acontecimento foi recentemente anunciado, catástrofes religiosas correram o mundo afora:? Uma garota cometeu suicídio na Índia (!!!) e especulações de que pequenos buracos negros seriam formados entre França e Suíça (onde se localiza o LHC) fazendo com que a Terra, pouco a pouco, fosse engolida por eles.
Muitos dizem que a Bíblia será reescrita. Que teremos “o Evangelho segundo a Ciência”, que será o novo Apocalipse e que Judas, dessa vez, será o próprio homem.
O fato é que muitos são contra, por medo de perderem a própria identidade. No entanto, outros apoiam, pois acreditam que esta pode sua uma descoberta significativa. A conclusão ainda é indefinida, precisamos dar tempo ao tempo. Enquanto isso, peguem papel e caneta, dêem seus testemunhos, começem suas anotações. No futuro talvez faça muita diferença.

“Terra, Terra
Por mais distante
O errante navegante
Quem jamais te esqueceria?”
::Terra – Caetano Veloso

Noite prosaica

Sábado à noite, luzes acesas, mas nenhuma badalação. Ele põe sua jaqueta, pega as chaves, a carteira e diz que vai sair. Passa a mão nos cabelos – já grisalhos – e cantarola um rock. Assim, pelo menos, se sente mais jovem.
Do mesmo modo que caminha, olha a rua movimentada, onde uma garota passeia em sua bicicleta e um casal se beija no banco da praça. O Rio de Janeiro continua lindo, continua sendo e nada irá mudar este fato. O Leblon ainda é o espaço de pessoas atarefadamente capitalistas. E ele é obrigado a confessar que se rende a isso.
As luzes e o colorido da rua por onde anda ainda o fascina, mesmo apesar de ver tudo aquilo todos os dias: Cafeterias, uma loja de discos e, logo mais à frente, o seu destino – a locadora. Ele entra, sorri para o vendedor e apresenta seu cartão de “cliente assíduo”. O rapaz faz um sinal de positivo com a cabeça, ao mesmo tempo que lhe indica as inúmeras estantes visivelmente repletas de DVD’s. Ele caminha calmamente e despreucupado, sem notar que já havia passado um longo período de tempo, na difícil decisão do que assistir. Acaba decidindo por Um Peixe chamado Wanda, por gostar da Jamie Lee Curtis, talvez. Volta ao balcão, reapresenta seu cartão ao vendedor, paga e sai.
Olha para os lados e se surpreende ao ser abordado por um jovem:
-Tio, me dá um trocado?
O garoto, obviamente, não havia percebido com quem estava falando. Os dois se olham nos olhos, o guri se vê tomado por brilho, o velho tira a carteira do bolso, o guri abre um sorriso, o velho entrega uns trocados ao morador de rua. Este observa, perplexo, a atitude do senhor de idade, já. Recordando-se de quando passava algumas tardes, ouvindo suas músicas.
-Poxa… Poxa, foi mal. Se eu soubesse que era o senhor, não teria…
-Que é isso, garoto? Aqui está, para ajudar você. Sei que os tempos andam difíceis.
-É… para todos nós.
Os dois caminhavam, alegres, falantes. E ambos não perceberam que um fotógrafo que ali passava, havia registrado o momento.
O rapaz se despede e toma seu rumo enquanto o outro muda de calçada. Na cabeça, relapsos de uma nova era, um discurso de Fidel e o mal da sociedade capitalista que impede o futuro de muita gente. E tudo acaba sendo como aquela música, que ele mesmo compôs, cujo refrão afirma que “alguma coisa está fora da ordem/fora da nova ordem mundial”.
Adiante, várias pessoas o fazem parar novamente e ele sorri, um tanto quanto confuso, logo entendendo o recado, aos pedidos insistentes daqueles que queriam um autógrafo.
Um sábado à noite qualquer, um rock a ser cantarolado. O Rio de Janeiro continua lindo, continua sendo. E a noite de sábado, com um programa típico de sábado, é prosaica. Mas Caetano não.

“O cantor e compositor Caetano Veloso, 63, foi visto no sábado, 21 de junho, saindo de uma locadora no Leblon, Rio de Janeiro, onde reside. Foi abordado por um morador de rua que lhe pediu esmola. O músico sacou a carteira e andou pela calçada conversando com o rapaz. Mais adiante, ele foi novamente abordado – dessa vez, para dar autógrafos.”

Há controvérsias

Meu hábito sofisticado de comer bombom de rum depois do almoço, como sobremesa, terá que acabar assim que eu tiver minha habilitação em mãos. A Lei Seca está ai para provar que o Brasil ainda tem condições de poupar muitas vidas, com uma ordem rígida e funcional.
Porém, ainda assim, favorável a muitos e lastimável a quase todos. Afinal, muitos remédios e enxaguantes bucais contém alcóol. O que faremos agora? Ficaremos doentes e perderemos o senso de higiene? Uma taça de vinho num almoço com a família já é o suficiente para que todo o romantismo desencante – volte a pé, ou de táxi.
A lei, de fato, é de uma rigidez terrível. Mas, por outro lado, as consequências de sua atuação são otimistas. É muito melhor tomar vergonha na cara do que assistir nos noticiários da vida que cerca de trinta mil pessoas morrem por ano em acidentes de trânsito que envolvem o uso exagerado da bebida.
Entretanto, já se sabe que uma indústria de bebidas está pronta para processar o governo, contra a lei, consideravelmente absurda. Quando, na verdade, absurdo é desejar a morte de inocentes, tentando convencer o governo de que venda vale muito mais a pena, enchendo o c* de dinheiro (me perdoem o termo). Eis a decadência moral, social e intelectual de nossa sociedade capitalista.
Dia desses, presenciei uma infeliz discussão entre um guarda, um boêmio e o dono do bar. Ambos defendiam uma votação para anular a lei, assim como foi com o porte de armas. É incrível a capacidade do ser humano de pensar apenas no seu próprio umbigo e nada mais. Sem saber que, um dia, o mesmo pode ocorrer com eles.
Entre pragas e mal presságio, sempre haverá controvérsias. Toda história tem dois lados.

Falha no sistema

Uma grande metrópole como São Paulo se assemelha tanto a Nova York quanto a qualquer outro lugar do mundo: Prédios altíssimos, engravatados aqui e ali, pressa, correria e o tictac latejando na cabeça e nos relógios de uma conturbada Big Apple made in Brazil.
Que, de repente, pára. No meio de um três de Julho qualquer, deixando os nerds, os geeks e boa parte dos operadores de telemarketing sem saberem o que fazer. Entre tantas suposições hollywoodianas sobre o fim do mundo, senhor Spielberg bem que poderia adiantar um roteiro, baseado em fatos reais, sobre o dia em que a cidade de São Paulo parou, em meio ao caos urbano, sobre uma crise tecnológica repentina, com o aviso de que “Esta página não pode ser exibida”.
A princípio, me perguntei: “Mas e daí? Alguém vai morrer se ficar um dia só sem internet?”
Bem, nenhum caso de suicídio fora relatado até então, e nem poderia: Delegacias pararam por não terem conseguido registrar boletins de ocorrência, tribunais perderam ou suspenderam processos e os outros estados também se sentiram prejudicados com a lentidão naquele dia.
Enfim, foi um dia totalmente perdido, se normalizando, porém, às nove da noite, quando a Placa-Mãe abençoou a América, fazendo tudo voltar ao normal.
Fazendo com que eu pudesse me comunicar com a galera de Sampa e ler as últimas notícias sobre o resgate de Ingrid Betancourt, no Yahoo.
Pelo menos é prazeroso saber que morreremos super aquecidos com o sol e não com o “Error 404″ tão famoso pela net.