A vida dos outros

Procurar easter eggs no Muito Interessante me fez ficar um pouco desatualizada do que ocorre atualmente. Não sei se mais um tsunami atingiu algum país asiático, mas aprendi que, se você digitar “1980” enquanto estiver assistindo qualquer vídeo do Youtube no “nada”, vai aparecer um joguinho bem bacana. Pois é, eu tenho meus momentos de procrastinação.
Daí que hoje, quarta-feira, vi que Chico Buarque está nos trending topics do Twitter. Levei um susto porque, né? Achei que o cara tinha morrido. Questionei isso e recebi alguns links como resposta.
Recentemente, certos burburinhos envolvendo biografias chegaram até mim. Alguns são isolados, outros prometem uma verdadeira polêmica. A subcelebridade Alexandre Frota está lançando sua Identidade Frota – o que levou às livrarias um grande número de pessoas visivelmente “estranhas” (“frequentadores do baixo meretrício”, segundo um amigo meu), conforme pude comprovar pessoalmente. Nesse livro, Frota expõe que já “comeu” boa parte do elenco feminino consagrado de quase todas as emissoras hoje. Nem Marília Gabriela D1V4 escapa.
No lado mais cult da coisa, a família Leminski quer proibir que uma nova edição da biografia de Paulo Leminski seja lançada. A biografia em questão recebe o título de Paulo Leminski – O Bandido que Sabia Latim, é de autoria de Toninho Vaz, que passou um aninho só recolhendo mais de oitenta depoimentos de quem conheceu o poeta. O livro foi lançado em 2001 e tem reedição agora, com um acréscimo curioso: Toninho entrevistou um morador antigo da pensão em que Pedro – irmão de Leminski que se matou no local lá para a década de 80 – morava. Esse vizinho de quarto do irmão de Leminski foi quem encontrou o corpo do rapaz.
Fiquei me perguntando qual seria a utilidade de entrevistar um homem que achou o corpo do irmão de uma pessoa famosa. Surpresa, fiquei sabendo que Estrela – filha de Paulo Leminski, compartilha de meu questionamento: “Qual é a relevância de detalhes sórdidos do suicídio para uma biografia dele? Que relevância tem para a obra? Ou seria para dar um molho e vender mais?”.

Áurea, outra filha de Leminski, afirma que o suicídio de um familiar em nada acrescenta na riqueza cultural que seu pai entregou para o Brasil. Isso é fato. Imagine quando essa obra chegasse às livrarias? Qual seria o marketing? “Saiba aqui tudo sobre o suicídio do irmão de um dos maiores poetas brasileiros de todos os tempos”? É semelhante ao marketing difamatório para com o leitor em dizer que Cinquenta Tons de Cinza é um novo símbolo cultural feminista!
E foi aí que eu cheguei no meu querido Caetano.
Eu já acho que Caetano é um caso muito diferente do de Leminski. Como fã, é claro que adoro biografias não-autorizadas, cheia de revelações sobre uma determinada personalidade (e autobiografia confere ainda mais fama para o biografado, não é mesmo? Aqui no Brasil, o disco ou o livro de Fulano sempre vende mais depois que ele morre ou ganha uma biografia!). Sobretudo porque isso é quase muito raro aqui no Brasil – uma biografia não-autorizada sobre um artista ainda vivo. Da última vez que eu me recorde que esse assunto veio à tona, foi com relação a Roberto Carlos – um artista que se esconde sob diversas carapuças, como quem está devendo a Deus e o mundo.
Bato na mesma tecla da maioria dos jornalistas: Caetano, uma pessoa que foi contra a ditadura militar no Brasil, que chegou inclusive a ser exilado por conta desse regime que castra a liberdade do outro em se expressar; sendo contra exatamente a liberdade do próximo em escrever e/ou saber os seus “podres”? Mas não era proibido proibir?
Que “podres” são esses?
Eu li Verdade Tropical, excelente autobiografia sobre o antes, o durante e o depois da ditadura na vida de Caetano e de quem o rodeava. Aquilo, para mim, ainda é o suficiente. Há muito da carreira artística desse moço, mas também um tanto de sua vida pessoal. Quando li essa biografia, eu era o tipo de fã absurdamente fervorosa, não aguentava quem falava mal do meu ídolo em minha presença. E, ainda assim, não quis procurar outras biografias sobre ele posteriormente. O que eu havia lido me parecia de bom tamanho.
Mas Caetano, junto com sua ex-esposa e atual empresária Paula Lavigne, decidiram reunir alguns artistas para fazerem valer seu ideal de que “só pode ser publicada depois que for aprovada pelo biografado”. Não sei se concordo ou discordo disso, confesso que fico um pouco em cima do muro. Por um lado, penso no trabalho imenso que um possível fã tem para imprimir a identidade de um artista em um punhado de papéis. Afinal, são anos de pesquisa, procura de fontes, aproximações e por aí vai. Por outro, imagino do que tanto os artistas tem medo: de serem biografados por uma espécie de Léo Dias? De que contem mentiras sobre a sua pessoa? De que digam que Fulano dormiu com Beltrana enquanto estava casado com aquela outra? Olha, por esse ponto, até que dá para entender.
Quem me conhece sabe que eu adoro um barraco de rede social (isso acontece porque, na minha infância, lá em Pato Branco, eu não tinha a menor capacidade psicológica de me defender dos opressores colegas de turma da escolinha – daí aproveito toda a minha coragem diante da tela de um computador para vociferar tudo o que está entalado aqui ó, na minha garganta, até hoje) e, sendo assim, recentemente discuti com uma menina que tem mais um desses vários perfis de fofoca engraçadíssimos que pipocam a todo momento no Instagram. O perfil dela é legal, interessante e tem comentários bons. Porém, uma questão passou a me incomodar. Ela decidiu “encarnar” feio numa subcelebridade que faz sucesso atualmente. Não preciso citar o nome, mas essa subcelebridade já saiu com jogador de futebol e espalhou para a imprensa (óbvio, #quemnunca?), já participou de reality show de quinta categoria e ficou nua, já saiu em algumas capas de revistas masculinas e faz a social nos eventos cotidianos com as roupas mais esquisitas (isso quando a criatura vai de roupa, né). Eu, como feminista, só dou risada do tanto que a pessoa apanha da vida que decidiu levar – vida da qual ela se diz arrependida por não ter o devido talento reconhecido. Para mim, quem entrou nesse bolo, já sabe que não vai dar certo, já sabe o rumo que levará. Eu vejo a notícia, gargalho e vou embora. Essa pessoa, entretanto, decidiu dedicar metade do seu Instagram para denegrir a imagem dessa Fulana, deixando a entender que a mesma é uma vagabunda de primeira. Não falta muito para que ela afirme que a tal Fulana até programa faz.
Das duas uma: ou ela é muito amiga íntima da pessoa para revelar tantos ~segredos~, buscando assim uma fonte de inspiração para o futuro; ou isso é, realmente, falta de vida própria.
Não digo que é errado criar um perfil numa rede social a fim de discutir fofocas. Acontece que muitos espaços ainda mantém um nível respeitável com relação aos “artistas”. Afinal, para fazer humor, não é preciso agredir o próximo – embora esse próximo se autoagrida, não se respeite, não se “dê valor” (que termo horrível) e coisa e tal, quem sou eu para taxar alguém de algo ofensivo e que não foi comprovado por ninguém? Suposição irrita, sabe? Quem faz um humor bacana com as subcelebridades, por exemplo, é o Te Dou Um Dado? e até a Shame com as blogueiras de moda.
Fico imaginando se o Caetano acredita piamente que, em uma futura biografia sua, dirão que ele se envolveu em alguma atividade degradante, sendo mentira. E, caso seja verdade, que tipo de censura é essa? Cadê aquele orgulho em não se arrepender do que fez? Por quê uma crença TÃO ABSURDA em fazer uma imagem puritana diante de todos? Desde quando, por exemplo, Roberto Carlos é santo e/ou bom moço? Até parece que ele passou esses anos todos admirando a imagem da falecida senhora sua esposa. Gente, instinto humano taí para isso. Óbvio que Robertão já teve muitas namoradas. Só que as nossas mães, eternas fãs desse cara, nunca foram uma delas.

Benjamin Moser (esse lindo, eu daria uns pegas nele, com barba), autor da biografia de Clarice Lispector, escreveu uma carta aberta ao mano Caetano. Outros questionamentos se abrem: “Você já parou para pensar em quantas biografias o Brasil não tem? Só para falarmos da área literária, as biografias de Mário de Andrade, de João Guimarães Rosa, de Cecília Meirelles, cadê? Onde é que ficou Manuel Bandeira, Rachel de Queiroz, Gilberto Freyre? Você nunca se perguntou por que nunca foram feitas?”.

Moser afirma ainda que a liberdade de expressão nunca é usada contra elogios, por exemplo. Você pode falar horrores de um artista sobre determinada ação dele diante de um fato. Agora, por exemplo, acho essa atitude do Caetano uma das poucas decisões mais idiotas referentes a si mesmo. Idiota, estranha, fora de contexto, do tipo que me faz questionar “mas porquê diabos agora?”. E, ainda assim, não deixo de amá-lo.
Enquanto a Folha faz um quiz para que você teste seus conhecimentos sobre biografias não-autorizadas (sério), descubro o motivo de Chicão estar nos TT’s: ele decidiu entrar nesse debate, mas já começa o texto cometendo um equivoco “terrível”: “Pensei que o Roberto Carlos tivesse o direito de preservar sua vida pessoal. Parece que não. Também me disseram que sua biografia é a sincera homenagem de um fã. Lamento pelo autor, que diz ter empenhado 15 anos de sua vida em pesquisas e entrevistas com não sei quantas pessoas, inclusive eu. Só que ele nunca me entrevistou”. Nunca entrevistou, Chicão? Parece que sim. Tem até vídeo, ó.

La-la-la

Vídeo

Meses atrás, num ato de nostalgia, decidi assistir alguma série que tenha feito parte de minha infância (aproveitando que meu marido baixa tudo via Torrent, e eu não me aplico em aprender nada disso). Como “série que fez parte de minha infância” entende-se tardes de sábado na frente da TV, assistindo Celso Portiolli oferecendo dinheiro a quem telefonasse para o SBT de duas da tarde em diante. Eu adorava esse programa dele porque, além da minha mãe ter ficado que nem uma louca ligando desesperadamente em busca de cem reais, eu assistia os seriados mais bacanas daquela época em que o único acesso de diversão tecnológica era a TV aberta. Eram mais de cinco séries. Terminava o capítulo de uma, começava o capítulo de outra. Dentre as minhas favoritas, uma delas era Gilmore Girls.

Eu não sei como eu achava O MÁXIMO assistir Gilmore Girls naquela época. Provavelmente, quando você tem doze anos, qualquer seriado norte-americano é encantador. Quando voltei a assistir agora, aos vinte e um anos de idade, percebi que não há nada demais e, inclusive, o enredo me dá vergonha alheia. Entretanto, Gilmore Girls é como quase todas as séries norte-americanas da década de 90: por mais ruim que seja a história, você se apega aos personagens. E é até capaz de identificar-se com eles, mesmo com uma porrada de coisa errada, tipo a ausência de personagens negros. A única personagem negra que apareceu em sete anos de seriado (além de Michel, o recepcionista da pousada) veio na última temporada, como uma juíza. O que é típico de norte-americano: incluir negros em seus seriados apenas como uma pessoa neutra, um personagem sem importância “vital”, mas “cheio de pompa”, como um juiz. Todo juiz de série norte-americana é negro. O negro, na mídia dos Estados Unidos, hoje, é sinônimo de justiça. O negro enquanto personagem bem-sucedido, significa que o mesmo lutou muito para chegar até ali e conquistar o seu direito. Um preconceito muito velado por parte deles. A história se passa dentro de uma cidade. E nessa cidade não existem negros. Mas não é sobre isso que quero falar agora.

Para quem não conhece, Gilmore Girls narra a história de uma família que, para os Estados Unidos, ainda é “atípica”: uma mãe solteira que engravidou aos dezesseis anos e, anos depois, cria sua filha adolescente que está enfrentando os desafios e descobertas do mundo. É uma série sobre como os relacionamentos humanos desabrocham enquanto nós amadurecemos. A mãe solteira em questão é Lorelai Gilmore (interpretada pela engraçadíssima Lauren Graham que, para mim, é uma Sandra Bullock da TV). Depois de engravidar de Rory (interpretada por Alexis Bledel – uma atriz mega sem graça, porém ideal para fazer Anastasia Steele na versão cinematográfica de Cinquenta Tons de Cinza – sério, eu torço por ela), Lorelai decide fugir com a criança para a linda, surreal e fictícia cidade de Stars Hollow (em Connecticut), a fim de criar Rory. Em sua nova cidade, Lorelai passa a trabalhar e morar numa pousada, que, futuramente, ela administrará. Aparentemente, Lorelai fez péssimas escolhas na vida. Ela veio de uma família rica e foi bem educada. Porém, dona de um espírito rebelde feito para contrariar sua mãe, quando descobre que está grávida, decide que a melhor saída é lidar sozinha com a situação, pois não quer que sua filha seja criada da maneira como ela foi: cheia de regras de etiqueta, pouco amor e nenhuma diversão. Lorelai engravidou de Christopher (David Sutcliffe), um namoradinho de infância tão irresponsável quanto ela, do tipo que nunca aprendeu a crescer e que, volta e meia, some e reaparece na série para, mais uma vez, tentar ser pai de Rory.

Mas a série não começa com esses lamentos de quem teve a juventude transviada por um balde de responsabilidade. No “capítulo piloto”, Lorelai – gerente de uma linda pousada em Stars Hollow, recebe a notícia de que sua filha Rory – de dezesseis anos -, foi aceita em uma escola muito bem recomendada, que oferece o tipo de educação ideal para que ambas as Gilmore realizem seus sonhos: ver Rory estudando Jornalismo em Harvard.

O relacionamento de Lorelai e Rory é incomum para a maioria das famílias do mundo todo. Elas não são apenas mãe e filha: são melhores amigas. Fazem tudo juntas, concordam em quase tudo, visitam os mesmos locais, gostam das mesmas músicas, assistem aos mesmos filmes (diversas vezes, inclusive), alimentam os mesmos sonhos e suas diferentes gerações não parecem ser empecilho para a amizade das duas. Com Rory, Lorelai tem uma relação que nunca tivera com sua própria mãe. E esse laço que as une é tão forte e sincero, que, não à toa, a série no Brasil, exibida pelo SBT, ganhou o a tradução de Tal Mãe, Tal Filha (que é subtítulo da série). Na primeira temporada, o grande dilema da vida de Lorelai é: Rory foi aceita na escola de bacana, mas não recebeu bolsa integral. Parte dos estudos teriam de ser pagos por ela, que não tem dinheiro para tão exorbitante mensalidade. Sendo assim, Lorelai é forçada a deixar o orgulho de lado e recorre aos pais, com quem conversa esporadicamente. Lorelai e sua mãe (Emily, interpretada por Kelly Bishop que também fez Dirty Dancing – não perguntem) fazem um acordo: os avós de Rory pagam a escola dela, desde que ambas as jovens Gilmore jantem na casa deles toda sexta-feira. Apesar disso ser uma tortura para Lorelai, ela concorda. Esses jantares, que vão perdurar até quando Rory já estiver na faculdade, trazem os momentos mais engraçados da série. É divertido acompanhar Emily e Lorelai competindo para saber quem consegue ser mais irônica. Ou víbora.

Uma surpresa agradável para os produtores da série surgiu logo no piloto: Luke Danes (Scott Patterson fez esse papel. Sensacional o cara), o dono de uma lanchonete (antes loja de ferramentas), devia ser apenas o cara que serviria café para as jovens Gilmore (na verdade, ele nem deveria ser “um cara”. Seria uma mulher, mas os produtores desistiram dessa ideia porque já haviam mulheres demais na série). Ele era um figurante que não passaria do primeiro episódio. Entretanto, nunca houve tanta química em servir café num copo de plástico na história da dramaturgia norte-americana. Todo mundo percebeu o quanto Luke e Lorelai podiam ser feitos um para o outro. Aliás, por sete temporadas, apesar de todas as idas e vindas dos romances frustrados de Lorelai, é por Luke que o telespectador torce.

Gilmore Girls – que não é um livro, um quadrinho, um filme, absolutamente nada além de uma história deliciosa saída da cabeça de Amy Sherman-Palladino, sua criadora –, não apresenta um enredo significativo, com exceção dos relacionamentos que a gente cria e amplia ao longo da vida. Rory tem uma melhor amiga coreana, Lane (Keiko Agena começou esse papel aos vinte e sete anos, com rostinho de quinze), vizinha sua, que não sabe lidar com todas as regras impostas pela mãe – regras piores do que aquelas que Lorelai sofreu na infância. Lane é obrigada a frequentar a escola Adventista e seguir uma religião na qual não acredita. Gosta de rock, sonha ter uma banda, mas esconde CD’s embaixo da madeira do assoalho. Revelar-se e ser aceita por sua ditadora mãe é um desafio na vida de Lane, que morre de medo dela e até chega a ser expulsa de casa. Rory apaixona-se por Dean, um rapaz estilo “bom moço” de Stars Hollow. Ele estuda e passa as tardes trabalhando em um mercado local. Entretanto, Dean será desprezado duas vezes por sua amada Rory. Ele será trocado por Jess Mariano (o garoto rebelde que toda mocinha tapada feito a Rory gostaria de ter, sobrinho de Luke, interpretado por Milo Ventimiglia) e, mais tarde, apesar de casado, será o responsável por “desvirginar” Rory e, ainda assim, será trocado pelo irritantemente riquinho e com cara de bunda de bebê real Logan Huntzberger (Matt Czuchry). Mas não tem problema. Dean, que é interpretado por Jared Padalecki, ao sair da série, vai fazer Sobrenatural, caçar monstros e deixar um monte de menininha ovulando por sua presença arrasadora (conforme o “antes e depois” dos personagens da série). Bem feito, Rory. Desprezou, perdeu.

Rory é uma personagem irritante. Ela quer fazer tudo certinho, quer ser um exemplo para a sociedade, acredita na paz mundial. Demora muito para essa garota evoluir, até porque, apesar de saber que certas coisas na vida não são tão fáceis de conseguir, tudo dá certo na vida de Rory. Um exemplo? Mesmo sendo aceita em Harvard, ela percebe que aquele foi um sonho criado por sua mãe. Uma escolha difícil precisa ser feita e Rory vai para Yale, que lhe parece mais qualificada que a anterior. Quando Rory termina a faculdade, ela tenta um estágio no The New York Times, no qual é rejeitada (imagine esses olhos azuis chorando litros). Entretanto, surge uma proposta melhor: cobrir a campanha presidencial de Barack Obama, viajando com sua equipe por todo o país. Claro que ela topa.

Manda Rory pular de um precipício. Ela vai.

Outro fato que irrita ao mesmo tempo que diverte, são os diálogos rápidos das jovens Lorelai, recheados de referência a cultura pop, misturando nomes e personagens de filmes antigos. O roteiro de cada capítulo de uma série norte-americana costuma ter de 45 a 50 páginas. Mas, com a rapidez do modo de falar e pensar entre Lorelai e Rory, o roteiro chegava a ter mais de 70 páginas, só de falação que, volta e meia, me enchia o saco. Mas era legal.

Lorelai deu seu próprio nome a Rory. Rory é um apelido carinhoso para Lorelai.

Dos momentos inesquecíveis da série, preciso destacar alguns. Kirk (Sean Gunn, o faz-tudo da cidade, que trabalha em trocentos lugares ao mesmo tempo), interpretando Jesus Cristo em mais um evento surreal da surreal Stars Hollow, passando um sermão para a população, utilizando Cristo (ou a si mesmo) como “exemplo de bom exemplo”. Infelizmente, não encontrei o vídeo dessa cena, mas aqui vai um “filme” que Kirk fez e exibiu no cinema local de stars Hollow. Ele foi o personagem mais hilariante e absurdo da série inteira:

Tem também Paris (Liza Weil), sempre esperta e nada comedida, destilando ironia nas incompreensões alheias, após uma briga com Rory, em sala de aula:

E Lorelai, num dos últimos capítulos da última temporada, declarando-se F I N A L M E N T E para Luke, cantando Whitney Houston (não há nada mais brega) num karaokê, como se fosse serenata.

E se você ainda não entendeu o “la-la-la” do título, eu explico com um aviso breve: aguentei isso o seriado inteiro:

Então, não se iluda: Gilmore Girls é para quem gosta de Sessão da Tarde, para quem deseja resgatar a nostalgia da infância. Para quem já teve um coração partido, para quem tem problemas com parentes próximos, para quem desejar retomar amizades aparentemente irresgatáveis. Com Gilmore Girls, eu aprendi que sua melhor amiga pode ser a pessoa que mais lhe detesta e compete com você, que um relacionamento entre mãe e filha nem sempre estará fadado ao insucesso graças a uma situação anterior: se você deixar o orgulho de lado, ainda pode salvar muita coisa. Aprendi que o amor da sua vida pode mesmo estar ali na esquina, literalmente – e ainda servir um bom café. Aprendi que, com as imprevisibilidades da vida, somos forçados a crescer, que quem nasce em berço de ouro pode deixar de voar e caminhar com pés no chão. E que relações aparentemente surreais são absolutamente possíveis, se você se dedica a cuidar verdadeiramente do outro. Sendo assim, boa sorte para quem começar – e se apegar.

Banalização literária

O meu plano de fuga para as férias é sempre o mesmo: passar o ano inteiro garimpando os livros que pretendo ler ou gastando excessivamente naqueles que não posso pechinchar. O fim de ano, hoje em dia, não é mais uma esperança tão certa. Quem trabalha em comércio deve esquecer dezembro ou janeiro e se focar lá para maio, agosto, setembro. Nos tempos da escola, era mais fácil. Eram três meses sem aula e muita literatura disponível. Foi assim que larguei os clássicos.
Os meus clássicos deram lugar aos novos autores latino-americanos (vez ou outra interrompidos por Agatha Christie, mas tudo bem). Eu descobri Mario Vargas Llosa e Mario Benedetti com imenso atraso, mas devorei-os o quanto pude. Quando Pola Oloixarac foi considerada “musa da FLIP” no ano passado eu senti que ficaria desatualizada novamente se não lesse As Teorias Selvagens. Depois que li essa obra ímpar e de estreia da autora argentina, senti que estava “por dentro” da alta literatura.
Ledo engano. Quando comecei a trabalhar na livraria, o livro da Pola era o que eu mais indicava quando alguém procurava presentear “uma pessoa muito inteligente”. Os mais intelectuais desconheciam o nome da moça – e pensar que o livro dela foi traduzido em diversos países. Mas depois dos últimos “bafafás literários” foi que compreendi a alma do negócio.
Capa da nova publicação da Granta.A lista da Granta (que publicou “os melhores jovens escritores” em língua espanhola e inglesa) é uma dessas polêmicas. Recentemente, a publicação britânica lançou Os Melhores Jovens Escritores Brasileiros, mas a lista (com excelentes nomes, a exemplo de Carol Bensimon, Antonio Prata, Michel Laub e Antônio Xerxenesky) não agradou a todos. Me pergunto, entretanto, o motivo. Até onde sabemos, “os 20 escritores foram escolhidos entre 247 autores que mandaram textos para a curadoria, composta por escritores e críticos literários. Destes, no entanto, os jurados afirmaram, durante a coletiva de imprensa do lançamento, que apenas 80 foram lidos. E do grupo selecionado boa parte fazia parte de uma lista prévia, entregue aos jurados pelos editores, mapeando bons escritores abaixo dos 40 anos”, segundo o site da Folha Pernambuco. Já não é novidade que tudo no Brasil se compõe de cartas marcadas, mas quando vi a lista pela primeira vez, não pude considerar mais justa a visibilidade desses escritores lá fora. Os nomes, em suma, eram absurdamente previsíveis e dentro do perfil e propósitos da Granta. Se 247, 500 ou 1000 autores fossem lidos, a lista permaneceria igual. E, mesmo que “jovens autores” não esteja dentro de um estilo literário, reconheçamos a estrutura que a Granta representa, pois se trata de uma publicação séria, competente e com alta visibilidade lá fora. Quem ainda discute esse assunto utilizando a palavra “injustiça” na maior parte do texto que me perdoe, mas só consigo enxergar como inveja ou, no mínimo, indignação por não estar presente na lista ou porque o seu pupilo que, na sua opinião, constrói narrativas fantásticas também se ausenta do privilégio de ter um lugar ao sol na Granta. Lembrando o fato de que essa lista foi gerada pelo acordo de um júri sério e não pelos seus 20 melhores da nova geração.
No mesmo sentido, sem desvios, vai o famoso El Libro que no Puede Esperar, uma publicação argentina que, segundo a Juliana Cunha, “eles focaram nos escritores contemporâneos porque são os que mais sofrem com o a falta de leitura. Borges já é Borges. Se você não quiser ler, azar o seu, ele permanecerá. Mas alguém que está começando agora não tem grandes chances caso não seja lido agora e a venda de novos autores latino-americanos caiu 37% nas últimas duas décadas, segundo os editores do livro”. A intenção dessa obra (que se trata de uma série com vários volumes) é fazer com que a pessoa compre o livro, mas tenha uma data para terminá-lo. A tinta desaparece após 60 dias. Nesse meio tempo, você precisa lê-lo ou “o segredo estará perdido para sempre” – o que equivale a um bom suspense norte-americano #sóquenão.
Compreendo que tudo isso é uma grande questão de mercado, mas quem trabalha em livraria sabe que, se for para um autor novo chamar a atenção da mídia, precisa publicar um escândalo literário e extremamente mal escrito para que você, leitor, passe por lá e gaste o seu dinheirinho antes que esgote ou ganhe versão cinematográfica. Trabalho diretamente com autores regionais que não vendem. Recentemente, tínhamos 80 exemplares de uma mesma obra de um escritor baiano. Os livros estavam lá há mais de um ano. Entraram 80, saíram 80 – só que nas mãos do escritor (que deve ter passado vergonha). Em suma, qualquer visibilidade possível para autores da nova geração, eu apoio. Imagino o quanto deve ser difícil para você, que gosta de escrever e tem menos de quarenta, ganhar um punhado a mais de leitores. Eu não imagino apenas – procuro vender esses livros. No fundo, eu te entendo.
Mudando “de pau para barraca” (como diz a mãe de uma amiga minha), vergonha alheia mesmo eu senti com essa situação: “a escritora e ex-garota de programa Vanessa de Oliveira decidiu fazer um protesto diferente para falar sobre a importância da leitura. Vanessa ficou nua em uma livraria de São Paulo, na tarde deste domingo (12), para protestar contra a pirataria em um ato que afirma também servir de estímulo à leitura. A moça estava apenas pintada. O artista desenhou um short vermelho e uma blusa branca, onde havia a mensagem: ‘não à pirataria’.”

Vanessa de Oliveira, "umazinha aí" que diz ser escritora.
Eu ri (sobretudo porque ela tem o apoio da FEMEN, que eu considero um grupo de mulheres com objetivos ridículos e sem o menor sentido, como já falei aqui), mas também fiquei triste. Afinal de contas, isso é o equivalente a mulher pelada no meio de um programa de comédia. Você ri? E quando uma loira aparece de biquíni no meio do comercial de cerveja? Você tem vontade de beber por causa disso? E quando a Vanessa de Oliveira (quem? Ah, só mais uma “garota-de-programa-que-pensa-que-escreve”) aparece “protestando contra a pirataria” (sei), você tem vontade de comprar o livro dela? Ou qualquer outro?
E agora, que os clássicos ganharão versão (aka) erótica, fazendo com que Jane Austen perca a virgindade sem a menor necessidade? Enquanto vocês surtam com Cinquenta Tons de Cinza e detonam a Granta, a banalização literária parece surreal, meus caros (vide Paulo Coelho pensando que é alguém para falar mal de James Joyce).

Não os abandone

Eles cresceram em Hailsham, um orfanato sob o belo disfarce de internato, tipicamente inglês, com suas tarefas a serem cumpridas e habilidades artísticas cada vez mais exploradas. Também haveria espaço no esporte, caso algum talento se manifestasse. Dos três, Tommy era o mais afastado, o que menos se adequava aos outros alunos. De temperamento explosivo em situações com as quais não conseguia lidar, provocava o riso de seus colegas. Isso despertou a compaixão de Kathy que, pouco a pouco, se aproximou do garoto o suficiente para comprovar que ali estava o seu primeiro amor. Mas a sua melhor amiga, Ruth, o beija – decidindo que, da noite para o dia, havia se apaixonado também pelo garoto desajeitado. Existe um coração partido, mas não há amizade desfeita. E essa história não trata apenas de mais um triângulo amoroso em época vitoriana, tampouco pode ser considerado como literatura de entretenimento.
Distopia faz o meu gênero. A visão realista, apesar de brutal, me atrai. Tirando a obra mais importante de Bradbury, eu gostei, por exemplo, de 1984 (do Orwell). Eu gosto dessa ausência de fé no futuro. Entretanto, admito ter cometido o erro crasso de ver o filme antes do livro, porque a minha atriz predileta e queridinha do hemisfério oposto (meramente “apática” na visão daqui) estava nele. Fora o fato de que eu nunca adivinharia que Não Me Abandone Jamais também é um livro do Kazuo Ishiguro (de quem eu ouvira falar, apenas).
Capa do livro Não Me Abandone Jamais, de Kazuo Ishiguro, pela Companhia das Letras.O estranho desse filme, cujo livro eu provavelmente JAMAIS conseguirei ler (a edição brasileira da Companhia das Letras está esgotada – e eu ainda não confio em compras pela internet, apesar da disponibilidade deste produto no Estante Virtual, por um precinho nada camarada), é o fato de que ele já começa de maneira fechada, mas intimista, com a informação-chave de todo o enredo: em 1952, a ciência avançara o suficiente, com a descoberta da cura para muitas doenças. E em 1967, a expectativa de vida no mundo ultrapassava os cem anos.
Kathy, interpretada pela excelente (e dramática) Carey Mulligan (aquela mocinha que encantou o mundo inteiro no filme Educação), é a narradora e personagem principal da história. Ela decide retomar o passado, mais especificamente para o ano de 1978, porque o início irá justificar o fim e os meios. Apesar das regras invioláveis, todo mundo é aparentemente feliz em Hailsham – essa escola de professoras velhas e opressoras. Uma das obrigações das crianças é se expressar o melhor possível nos quadros que pintam, para que a Madame, uma visitante misteriosa, possa escolher os melhores a fim de expô-los em sua galeria – famosa apenas nos corredores do orfanato.
Miss Lucy é uma professora jovem e nova no local. Ela observa Hailsham incrédula com o esforço e a ordem das crianças, até que, um belo dia, decide expor a verdade para eles, dizendo-lhes que muitos garotos e garotas poderão crescer e tornarem-se músicos, engenheiros, caixa de supermercado. Exceto eles. Porque são clones. E, desde o momento em que nasceram, estão irremediavelmente predestinados a serem doadores de órgãos. No mesmo dia, a professora é mandada embora.
Os alunos de Hailsham crescem assustados sob diversos aspectos, mas não tentam fugir e nem se desesperam, devido à educação que receberam. É importante frisar que algumas palavras sequer são citadas e, caso fossem, não representariam muito. Eles não sentem falta dos pais que nunca tiveram. E a morte só é mencionada se você ultrapassar as cercas do orfanato. O mais estranho de tudo é que o suicídio não é uma opção, eles tampouco se rebelam. Isso mostra que o sistema de clones seguido de doação realmente funciona (ou o filme se mostra incompleto, pois é sempre melhor acompanhar o livro antes). E não há como fugir. Em 1985 (que é para onde a cena migra) Kathy já é uma moça de dezoito anos, e se muda com Ruth (Keira Knightley, minha atriz predileta) e Tommy (Andrew Garfield, dizem por aí, O Espetacular Homem-Aranha) para os Chalés – uma espécie de moradia de clones, nas quais eles poderão conviver com outros seres nascidos em laboratório, vindos de orfanatos dos quais Kathy nunca tivera conhecimento. Em menos de um minuto ela consegue esclarecer que eles não estavam presos, de nenhuma forma. Pelo contrário, até poderiam fazer pequenas viagens, caso quisessem. A intenção era que o máximo fosse aproveitado, antes das primeiras doações.

Carey Mulligan, Keira Knightley e Andrew Garfield em cena para o filme Não Me Abandone Jamais.

Ruth e Tommy aparentemente deram certo. Continuam juntos, para infortúnio de Kathy. Esses três amigos acabam conhecendo outro casal nos Chalés. Um dia, esse casal diz para Ruth que viram a sua “original” em um escritório, pouco longe dali. Eles seguem de carro para o local, mas Ruth, ansiosa, se desespera ao comprovar que não era ela. Ruth provavelmente tem razão quando diz que eles devem ser clones de viciados, prostitutas e psicopatas. “Gente normal” não precisaria ter cópia, mas sim um rim ou pâncreas – e isso dá sentido a introdução do filme. “A cura” é a doação de órgãos, caso ainda não tenha ficado claro. E eu não sei se qualquer semelhança com o filme A Ilha (que eu não assisti) é mera coincidência.

Carey Mulligan e Keira Knightley em cena para o filme Não Me Abandone Jamais.

O casal expõe para os três que existia um boato de que, em Hailsham, os alunos que estivessem namorando conseguiriam um adiamento da primeira doação, de dois ou três anos, caso comprovassem que estavam apaixonados. O problema é que Kathy, Ruth e Tommy jamais souberam dessa história e, ainda assim, não perdem a esperança. É óbvio que Kathy ainda ama Tommy (e ele sabe e corresponde a isso), mas Ruth ainda é o maior empecilho. Os três brigam. Kathy passa cada vez menos tempo nos Chalés até ser transferida para trabalhar em um hospital, uma maneira de se sentir útil, enquanto Tommy e Ruth vão embora, em caminhos opostos.
Dez anos se passam.
Em 1994, Kathy se estabeleceu como acompanhante dos doadores, mas a morte de gente tão próxima não fez com que se acostumasse completamente ao ofício. Certo dia, ela reconhece Ruth no monitor de um dos hospitais e pede para vê-la. Sua amiga era sobrevivente da segunda doação, e já estava bastante debilitada.
As duas decidem procurar Tommy, que também se encaminhava para a terceira doação. Ruth sente que o seu fim está próximo, e pede perdão aos dois apaixonados, dando-lhes o endereço da Madame, a visitante de Hailsham, porque ela provavelmente precisava dos desenhos dos alunos para ter a comprovação de que aquilo lhes mostrava sua verdadeira alma – e poderia servir como prova de um passado no qual eles cresceram juntos e precisariam viver mais um tempo, um tempo perdido que não volta.
Porque essa chance de adiar o próprio fim não existe. Quem convive com a Madame também é a ex-diretora de Hailsham, e ambas recebiam constantemente, todos os anos, casais como Tommy e Kathy, em busca da lenda de adiar em prol de um amor insignificante para o mundo. E um questionamento é levantado: se fosse possível pedir ao mundo que seres humanos “normais” morressem para que clones vivessem, eles aceitariam? (Um amigo meu considerou o ótimo elenco, mas não suportou a “trama mal desenvolvida”, simplesmente porque o filme fica “em cima do muro”. Mas que lado há para ser defendido?)
Apesar de nascidos em circunstâncias tais; Kathy, Tommy, Ruth e tantos outros também são pessoas com sentimentos, sacrificando suas vidas geradas em frios laboratórios para salvar a espécie humana, sobrevivente na base do egoísmo. O enredo de Não Me Abandone Jamais, filme de 2011, nos traz exatamente a reflexão final de Kathy: será que a vida deles vale menos do que as vidas das pessoas para as quais seus órgãos foram doados?
Não Me Abandone Jamais, publicidade do filme.A brutalidade que poderia existir no filme é substituída por uma delicadeza ímpar. Não se assemelha a ficção científica, mas há um tom confessional e cenas minimalistas tal como imagino que seja o livro de Ishiguro, um escritor inglês nascido no Japão, que trouxera do Oriente essa percepção de grão de areia que somos no mundo. Vale à pena porque nos acrescenta a sabedoria de que nós, ainda mais humanos, constantemente erramos, quando se trata dos sentimentos de outras pessoas. Os personagens, apesar de inocentes ao extremo, sobretudo por acreditarem que podem e devem provar ao mundo o amor entre eles compartilhado, são bem construídos e amadurecidos. Vale ler, vale assistir, vale refletir. Fica a dica.

Kathy, personagem interpretada por Carey Mulligan.

Mallu crescida

Música nunca foi o foco deste espaço, ao contrário da literatura, que sempre adentrou meu universo e insistiu em ser o centro das atenções. Mas hoje, dia atípico, música é um caso à parte.

Eu sei que esse é um "antes e depois" bem cretino.
Assim como boa parte da população brasileira, também torci o nariz com a chegada da Mallu Magalhães lá em meados de 2008. Li suas entrevistas antes mesmo de ouvir suas músicas e percebi uma garota ingênua e alienígena, fora desse mundo cão tão fácil de adaptarmo-nos, que pregava uma referência folk juntamente com conversas sem nexo (a exemplo desta aqui). A única coisa em comum entre nós era a paixão por homens mais velhos. E eu juro que torcia para o Marcelo Camelo pôr um pouco de juízo na cabeça dessa menina que eu definia, singelamente, como “babaca” mesmo.
Mas o tempo passou, a Mallu “sumiu” da mídia e então voltou. E voltou linda, sambando de salto alto na cara da sociedade estúpida que duvidou do seu potencial. Demorei até agora para falar sobre o retorno dela porque ainda estava tentando ser convencida. Mallu lançou o disco Pitanga – com canções lindíssimas, ótimo arranjo e afinação certa. Ela soube entrar no tom e alegrar até mesmo um público que não faz o seu perfil. Mas o mais interessante de tudo é o fato de que ela cresceu.

Olha gentche! Que diferença...
Aquela garota que pintava um olho só com tons de laranja hoje é, esteticamente falando, uma donzela esguia e comportada. Vejo na nova Mallu um outro ritmo de elegância despojada e paixão por tudo o que faz. Mas a prova mesmo veio no especial Na Brasa, da MTV (que foi o seu primeiro show do disco mais recente). Quando a Mallu estava decolando na carreira, anos atrás, eu fui em um dos shows que ela fez aqui em Salvador, junto com duas outras bandas locais (logo, entende-se que não fui por causa dela) e notei que a apresentação da cantora estava sendo um fracasso. No palco, ela mal se mexia. Parecia “gesticular com a voz” e só. Hoje a Mallu se movimenta, bate palma, passa batom vermelho e não tem quem lhe tire seu riso frouxo, nem que lhe venham com algum conselho (parafraseando Velha e Louca, uma de suas músicas de trabalho). Hoje também a menina que virou mulher está mais segura de si, inclusive para responder perguntas imbecis em entrevistas como esta (respondendo lindamente afirmações como: “não existe feiura, o que existe são características consagradas social e culturalmente como bonitas e outras como feias. Uma pessoa sorrindo, uma pessoa feliz é uma pessoa bonita”), que ela concedeu para a revista Playboy. Parabenizo a Mallu pelo seu excelente trabalho atual, na base do amadurecimento, seriedade e conquista. Agora, ninguém tem dúvida do futuro dela e do que essa mulher é capaz!

Muito mais bela...

Mamãe, agora eu tô crescidinha!Entretanto, duas coisas não saem da minha cabeça. A primeira é o inegável…

O investimento a longo prazo do Marcelo Camelo.

E o fato de que, WTF?, ela poderia ser a Rebecca, personagem da Madeleine Martin e filha do David Duchovny (aquele cara que passou anos fazendo Arquivo-X) na série Californication. Comparem:

A fuça, não? E trocadas na maternidade.

Os escafandristas virão

Aquilo que, nesse momento, se revelará aos povos, surpreenderá a todos – mas não por ser exótico –, somente pelo fato de poder ter sempre estado oculto quando terá sido o óbvio: os escafandristas virão.

Caetano Veloso e Chico Buarque.
Digo isso porque, em Verdade Tropical, Caetano faz uma comparação rebuscada entre sua canção Alegria, Alegria e A Banda, de Chico Buarque. No inesquecível festival da TV Record de 1967, ambas as canções (se não me engano, ou Chico apresentou um ano antes A Banda, não me recordo) foram apresentadas: a primeira interpretada por seu compositor e a segunda, de Chico, na voz de Nara Leão. Sucede que o Caetano exibe o pensamento do quanto as canções são parecidas – apesar de Alegria, Alegria ter sido considerada uma “anti-A Banda”. Pois “caminhando contra o vento / sem lenço e sem documento” rima com “estava à toa na vida / o meu amor me chamou / pra ver a banda passar / cantando coisas de amor”. Acontece que, naquela época em que Chico já possuía uma importância considerável na música popular brasileira e Caetano era apenas um novato (porém não “mais um”) rebelde nordestino gerando o movimento tropicalista, Chico possuía a certeza de estar lançando uma obra menor, se comparada a Pedro Pedreiro (da mesma época), por exemplo. A Banda tratava-se de uma marchinha leve para ser cantada do carnaval ao resto do ano, com a pretensão de divertir, fazer acordar corações, para depois tudo voltar ao normal, feito desencanto, como manda o figurino presente ao findar da letra. Alegria, Alegria, não. E Caetano jamais poderia imaginar que o impacto que essa composição/interpretação causara ali, naquele festival, remotos anos atrás, perpetuaria por gerações inteiras, tornando-se hino de diferentes épocas decisivas no país em que vivemos. O trecho abaixo é o que mais intensifica isso:

“‘Alegria, Alegria’, seu bordão da temporada (ele lançou muitos que entraram na linguagem cotidiana) [trata-se de Chacrinha], se tornou o título dessa minha canção projetada para ser um mero abre-alas mas que se tornou o sucesso mais amplo e mais perene entre todas as minhas composições. Isso dentro do território nacional, uma vez que os estrangeiros – mais próximos de mim neste caso – não lhe percebem tanta graça. Sendo que os brasileiros, que nunca a esqueceram, jamais se acostumaram com o título, referindo-se a ela na maioria das vezes, não pelo primeiro verso, nem pelo último, nem mesmo pelo quase-refrão ‘eu vou’, mas pelo pregnante ‘sem lenço, sem documento’, que surge duas vezes, e em posições assimétricas, na mesma letra.”

Caetano reclama de duas coisas: da rivalidade que a mídia criara em relação a ele e Chico Buarque (rivalidade esta que, em suma, nunca existiu); e do fato de que Chico jamais ficará conhecido como “aquele cara que fez aquela música”, tendo em vista que Alegria, Alegria causou uma comoção grandiosa e de acordo com aquele período. Segue o trecho:

“Eu não estava plenamente consciente de todos os seus aspectos e implicações, mas sabia vagamente que ‘Alegria, Alegria’ era, entre outras coisas, uma espécie de paródia de ‘A Banda’, um aproveitamento mais descarado da oportunidade do festival, trazendo a um tempo mais crítica e mais aceitação do fenômeno TV. Hoje considero muito revelador (mais de minha ingenuidade do que de minha lucidez) o fato de Chico ter se livrado de sua canção-cartão-de-visita como eu não pude livrar-me da minha. Estou certo de que ele não se sentiria especialmente feliz se as pessoas ainda lhe repetissem que ‘A Banda’ é sua melhor música, ou que ligassem seu nome exclusivamente a ela, como frequentemente fazem comigo.”

O meu primeiríssimo contato com Chico Buarque se dera através de um livro didático de segundo grau, de Língua Portuguesa, que minha mãe trouxera para casa, em razão de ter retomado os estudos após ter cuidado de minha educação até meus quatro anos de idade. Ela estava a estudar interpretação de texto, e eu estava sendo alfabetizada em casa, pela minha avó paterna, que fora professora. Logo, era natural que gostasse de abrir qualquer livro em qualquer página e passasse a ler qualquer coisa. A Banda estava ali, estampada em estrofes de quatro versos (ou versos de quatro estrofes, pois juro que nunca cedi mais do que cinco segundos ao entendimento poético – apenas gosto – o que me torna ignorante diante da estrutura de um soneto, por exemplo), e eu lia devagar, para captar a dicção e compreender melhor, quando minha mãe começou a cantar, com ritmo e desenvoltura o que eu narrava com dificuldade e sem declamações.
Mas cresci ouvindo Caetano, que mais combina com minha personalidade libertária, apesar de ofuscar-me em todas as canções (Chico, ao contrário, permite nossos duetos, alcanço a sua voz). E sucedeu que, um dia, me vi diante de uma verdade irrefutável: não posso viver sem esses dois. Ambos foram – e ainda são – necessários para o Brasil que fomos, somos e haveremos de ser. A compreensão da musicalidade de Chico Buarque e Caetano Veloso vai muito além de épocas determinadas – o que os torna atemporais. Gosto mais do Caetano, é verdade: por toda a sua ousadia – característica ímpar que Chico, infelizmente, não possui, sempre apresentando “mais do mesmo”, enquanto o Caetano sai do samba e volta rock’n’roll, de uma maneira que ninguém esperaria.
Anna Vitória detestaria me ouvir cantar, como faço, enquanto lavo os pratos da cozinha, a belíssima Futuros Amantes, que já fora tema de uma crônica sua. Digo isso porque assumo um inevitável sotaque carioca ao afirmar que “os escafandristas virão explorar sua casa / seu quarto / suas coisas / sua alma / desvãos”, porque sai ao modo buarquiano de se cantar, ou seja: “os essscafandrissstas virão exxxplorar sua casa / seu quarto / suasss coisasss / sua alma / desvãosss”. E pior é que eu canto assim desde sempre, o que levara meu professor do coral a reclamar do excesso de “esses”, apesar de elogiar a grandiloqüência e firmeza da minha voz. Esses duetos que pratico com o Chico religiosamente aos fins-de-semana é que podem ser considerados culpados de minha nervosa dicção. Mas não me importo, não pretendo brilhar nos palcos por esse meio.
Daí que, tal como A Banda é plural em relação a Alegria, Alegria, também considero o fato de que Um Índio, do Caetano, é quase idêntica a Futuros Amantes, de Chico. Com a leve diferença de que a primeira traz um âmbito social, enquanto a segunda trata de um amor que se perpetua tanto quanto o trecho “sem lenço, sem documento” que intensifica a trajetória do Caetano.
Ambas parecem ficção científica. O fato de que um índio descerá de uma estrela colorida e brilhante em um futuro próximo do qual haveremos de arrependermo-nos pela civilização imposta através da expansão marítima de países europeus em busca de riquezas nos trópicos (séculos atrás), intensifica o fato de que vendemo-nos cada vez mais a uma cultura que nos julga indiferente: aquela que é mais americana ou japonesa possível. Esse futuro de Um Índio já existe – a cada dia que passa, tornamo-nos cada vez mais dependentes da tecnologia, de tal forma que a nova geração (a minha, em verdade) não saberá sobreviver sem ela, por já ter nascido com ela. Em meu período de colegial, meu excelente professor de História do turno noturno frequentemente afirmava um fato: não existem culturas superiores e/ou inferiores. Os franceses não são melhores do que os americanos e estes não são piores do que nós. E nós não somos melhores do que a África, por exemplo. No meio disso tudo, claro, há controvérsias. Mas não posso fazer, por exemplo, o que muitos evangélicos fazem aqui na Bahia: constroem um templo em cada esquina e condenam – ao mesmo tempo em que massacram, deliberadamente – o candomblé. Detesto ouvir alguém dizer que “português é burro” e que tal evento é “programa de índio”: porque a troça da resposta é o que somos – descendemos de índios e portugueses, isso explica o sobrenome de minha mãe e os olhos claros que herdei – não há como negar nosso próprio berço.
Futuros Amantes traz-nos um amanhã mais que distante: para quando a vida humana for extinta e o nosso amor continue a existir através de fragmentos que certos alienígenas descobrirão em um Rio de Janeiro debaixo d’água (imaginem). Esses intrusos virão em causa de pesquisa, e serão escafandristas a explorarem contextos acima de sua compreensão: a capacidade que uma pessoa tivera de esperar por outra, durante tanto tempo, pois a interpretação que a música apresenta é de que o amor chega para todos nós, portanto, não há necessidade de se afobar “que nada é pra já / amores serão sempre amáveis / futuros amantes, quiçá / se amarão sem saber / o amor que, um dia / deixei pra você”, um romance guardado a sete chaves, em forma de diário, em páginas de livros, resquícios de perfume, cartas, lembranças. Talvez, por isso, sempre achei essa canção meio adolescente, embora ela não tenha me consolado no período do amor primeiro, quando mais precisei.
Cerca de um ano atrás, estava em um bairro nobre daqui de Salvador, apinhado de restaurantes e hotéis, além de residências de alguns famosos e empresários, quando, ao findar da tarde, tomei um ônibus que passaria pelo trânsito próximo da orla marítima, e então recordei Futuros Amantes. Naquele dia, decidi que, assim que pudesse, compraria um carro, aprenderia a dirigir e faria todo aquele percurso: com o mar servindo de paisagem e ocular testemunha, ouvindo o disco que traz essa canção, ouvindo-a, repetidas vezes, atrevendo-me a dirigir de olhos fechados, sentindo o vento salgado de maresia no meu rosto – com as janelas abertas (“percorrer correndo corredores em silêncio”) ou, se eu tiver muita sorte e ficar rica, haverá de ser um conversível (vermelho, é claro). E estarei a dirigir rumo ao infinito (o que, certamente, me sairá semelhante a essas propagandas de carro, que abusam de intuição e/ou instintos humanos para vendê-los), provavelmente serei levada até alguma cidade submersa, ganharei roupa de escafandro e meu carro transformar-se-á em submarino. E verei minha casa, adiante: situada em um Rio de Janeiro que desconheço, mas repleta de minhas peculiaridades. E sentirei saudades: dos diálogos inacabados e daqueles que jamais existiram, também de uns papéis de carta debaixo do colchão e algumas embalagens de chocolate que determinem um momento marcante. Considero estranha a idéia de explorar minha própria vida, ou de tê-la explorada por outros. Mas penso que isso só demonstra o quanto somos supérfluos, efêmeros diante da magnitude que é o eterno – mesmo quando o eterno é utópico, em sua maioria. Recordando outro trecho de música, “o verdadeiro amor é vão”, e talvez eu já o tenha vivido, sem notar. Se não, ao menos resta-me o consolo de um Chico que me põe no colo e corta meus soluços, porque nada é para já, o amor não tem pressa e ele pode esperar, mas nunca em silêncio: sempre haverá esse par de olhos cor de ardósia para fazer-me companhia. E, se ele vier a faltar (Deus queira que não), ainda tenho o Caetano, que me sacudirá pelos ombros fazendo-me acordar. São eles os meus verdadeiros amores. E meus futuros amantes, quiçá.

“Eu já sabia então que as canções têm vida própria e que outros podem revelar-lhe sentidos que seu autor não teria suspeitado.”
:: Do livro Verdade Tropical, de Caetano Veloso.

Quatro anos de Gloss

Quatro anos atrás, eu ainda pertencia a um grupinho de ensino médio abaixo da última camada social; sofria de amor primeiro e platônico, começava esse blog. Há quatro anos atrás, a Capricho já não fazia mais sentido – pasmem – eu só tinha dezesseis anos. O Antonio Prata havia ido embora, de modo que eu me sentiria mensalmente órfã de suas crônicas. E as revistas balzaquianas para mulheres ricas da alta sociedade, creio, jamais darão sentido à minha existência. E foi então que surgiu a Gloss.
Uma revista super em conta (cinco reais bem investidos e que não farão falta), para meninas de vinte anos que mal saíram da adolescência, estão começando a vida profissional, entendem que a moda é mais do que um mero desfile sem personalidade e curtem música independente entremeado no cinema cult. Possuo a primeira edição até hoje, porque, sei lá, há quatro anos atrás eu ainda pretendia ser jornalista, sonhava escrever para as revistas da Abril, ter uma coluna semanal na minha predileta. E, caso acontecesse de meus textos estamparem a penúltima página da Gloss, eu poderia utilizar a primeira edição como desculpa de prefácio, como faço agora.
Primeira edição da Gloss, em outubro de 2008.Gisele Bundchen exibia uma expressão doce na capa – em suma, mais parecia uma menina comum – diferente daquele rosto exageradamente maquiado de campanhas publicitárias. E penso que é isso que se ausenta das capas de revista: demonstrar que uma pessoa pode ser bonita sem precisar de muito. Claro que isso pode ser considerado uma afronta, pois Gisele é lindíssima de qualquer modo, mas também podemos ser – isso mesmo: nós, meras mortais, tentando sobreviver em meio a tecnologia japonesa em um país subdesenvolvido, enquanto a “cultura” americana ainda impera, pegando fila no banco, trabalhando, sentindo o salto alto doer no pé ao fim do dia, comprando um esmalte na farmácia da esquina, uma vez na semana.
Estou tentando dizer que certas revistas vão além dos editorias de moda, das dicas de como se sair bem na cama e de testes estilo “será que ele está a fim de você?”. Há quatro anos atrás eu sentia falta de conteúdo, do tipo que realmente me interessasse, me apresentasse as possibilidades de futuro. E a Gloss me proporcionou muito de tudo isso. Quer viajar? A Gloss indica passeios bacanas, além de hotéis e restaurantes em conta. Quer subir na carreira? A Gloss explica como, mesmo que você esteja apenas começando. Quer ficar bonita sem gastar muito? A Gloss garimpa, te ensina que brechó pode ser tudo de bom, transforma suas páginas em espelho – então, não se surpreenda caso você “se encontre” na revista. A intenção é essa.
Quatro anos depois, decidi assinar a Gloss. Agora recebo meus exemplares em casa, religiosamente todos os meses. A recente edição trouxe sessões novíssimas e originais. Quatro anos depois, importo-me mais com os amigos que tenho do que o status que possuo. Quatro anos depois, já deu para entender que a vida é curta e sofrer por amor é bobagem. Quatro anos depois e consegui transformar o meu espaço literário em mais do que um informativo egoísta de desabafos. E, nesses quatro anos, estive com a Gloss, enquanto ela esteve comigo.

Distopia livresca

Quando recebi o meu primeiro pseudo-salário de estagiária, não deu em outra: fui correndo para a livraria mais próxima a fim de torrar meu dinheirinho suado, mérito do meu esforço em sorrir para pacientes idosos e distribuir fichas cujos números iriam parar em um painel. Já nessa época, eu conhecia de cabo a rabo as livrarias de minha cidade: detestava as “megastores”, sempre lotadas nos fins de semana; a Saraiva da Barra tem um acervo consolador de biografias; a do Iguatemi é ótima em lançamentos; a do Salvador Shopping compõe um razoável acervo de trilhas sonoras de filmes que ainda estão em cartaz no cinema; dois sebos no centro da cidade vendem a preços acessíveis; um sebo perto da orla marítima é caríssimo – só os turistas freqüentam; o antigo Cine Glauber Rocha ganhou, após a reforma, uma livraria pequena, porém moderna, que visitei recentemente; e a única Livraria Cultura daqui, um bebê de tão recente, ah, essa tem de tudo, mais um pouco e até aquilo que eu nem imaginava! Sinto-me em casa, principalmente quando sento na escada de marfim, puxo uma almofada fluorescente e folheio algum exemplar de Vargas Llosa, por exemplo.
No meu tempo de criança, havia uma Saraiva no Centro, onde minha avó me levava. Mas não deu muito certo e logo fechou. A Civilização Brasileira era a menos aconchegante e a mais vazia: descobri depois que a mesma fora “exterminada” e a Saraiva comprou (mas não sei se é verídico). Havia também a Siciliano – melhor de todas – você chegava lá, tirava um livro da estante, sentava no chão mesmo, passava horas lendo e “neguinho tava nem aí” para o que você fazia, os livreiros tampouco se incomodavam. Por conta disso, era o point dos estudantes dos mais variados cursos. Mas aos poucos também foi perdendo mercado, acho que faliu.
Pois bem. Com o meu primeiro pseudo-salário de estagiária, decidi o lugar, mas não o que iria comprar. Era sábado de manhã – eu teria um dia inteiro para decidir, tirar os livros das estantes, ler orelhas, julgar pela capa, essas coisas. Então, como eu estava em uma fase meio Jane Austen, comecei por aí e fui procurar. Acontece que eu não encontrava um livro sequer da dama da literatura inglesa no acervo da Saraiva do Shopping Barra. Estava começando a me irritar, quando recorri ao auxilio de um rapaz meio corcunda, de óculos, camisa preta, cabelos desgrenhados e “avental de empregada doméstica”, como diz minha mãe, com o logotipo da livraria.
– Moço, você trabalha aqui? – Essa pergunta é péssima. Se você sabe a resposta, pelo óbvio das circunstâncias, por favor, evite-a.
– Sim. Que deseja?
Senti que a solicitude dele acarretaria em meu desamparo. É sério, eu tinha uma relação distante com os livreiros: evitava-os o máximo que podia, pois eram ocupadíssimos, sempre de um lado para o outro, e eu não queria incomodar. Sobretudo porque gosto de procurar um livro e encontrar muitos outros, adoro essa busca implacável por um exemplar esgotado, procurar Jorge Amado e encontrar um Agualusa perdido, no lugar errado. Por outro lado, donos de sebo é outra coisa: torno-me melhor amiga (até porque, eles nada fazem o dia todo além de observar o movimento), ofereço-me para organizar o acervo (como foi bom ter sido voluntária em uma biblioteca!), invariavelmente ganho desconto em minhas comprinhas mensais. Além disso, eu morro de vergonha de dizer que “estou procurando livros de Jane Austen”, porque, né? Eu pareço uma fã de romances de banca de revista (embora Jane não seja isso, mas confundem-na bastante), livros de vampiros bonzinhos e mashups bizarros. Mas tomei coragem e perguntei:
– Vocês têm algum livro da escritora inglesa Jane Austen?
– Claro que sim! Mas só sobraram alguns, venha ver… – E ele me apontou o canto esquerdo de uma estante baixa – Há uma senhora que passa por aqui quase todo fim de semana e leva vários exemplares da obra dela.
Meu Deus, se essa senhora estiver lendo isso agora, favor deixar um comentário lá embaixo: precisamos nos conhecer.
E o livreiro continuou:
– Sabe, eu gosto muito de Orgulho e Preconceito. Elizabeth Bennet é uma das poucas personagens realmente inteligentes da época de Jane Austen. Penso que no quesito “comédia de costumes”, Jane foi a maior representante feminina.
Uma vez eu havia prometido a mim mesma que certamente me casaria com um homem que gostasse de Jane Austen. Mr. Darcy, i love you.
– Isso é sério? – Perguntei.
– Isso o quê?
– Você gosta mesmo dessa autora?
– Claro que sim. Por que, você não?
E foi assim que ganhei de presente um grande amigo de literatura. É estudante de Letras e gosta muito de conversar sobre quase todos os livros que chegam ao seu local de trabalho. Aos poucos, fui percebendo que tínhamos opiniões parecidas: amamos Saramago, detestamos derivados da geração 140 caracteres e jamais entenderemos Clarice Lispector ou Caio Fernando Abreu (apesar de gostarmos muito). É minha alma-gêmea literária.
Passei a ir lá quase todos os sábados: tomava um sorvete no café, selecionava minhas edições pocket (aliás, um abraço ao pessoal da L&PM – vocês preenchem o vazio da minha estante), recebia dele os detalhes mais elaborados dos lançamentos que poderiam me interessar. “Esse livro é bom”, “esse eu não curti”, e assim por diante. Eu não fazia idéia de como ele arranjava tempo para devorar uma livraria inteira, mas conseguia, de alguma forma. E estava sempre de bom humor. E encomendava os livros que eu pedia e não tinham no estoque. E me telefonava da própria livraria para avisar de algum título traduzido para o português, de algum autor que eu aprecio.
Em meu primeiro ano de colégio, com o assunto “estágio” rolando vagamente nas conversas aleatórias, era um sonho generalizado: “poxa vida, quero trabalhar em uma livraria”. Qualquer jovem da minha turma dizia o mesmo. Todos aqueles livros, todo aquele cheiro de páginas impressas com carinho, todo aquele acordo ortográfico in-su-por-tá-vel, aquele clima das cafeterias, aquela adoração cult, aquele desprezo por best-sellers, aquela vontade de tornar-se escritor e habitar as “ilhas” de lançamentos… Fora as conversas: encontrar leitores assíduos, inteligentíssimos, que sacam tudo de literatura e artes em geral, imagine. É. Mas aí o colégio terminou, fiz estágio em uma clínica de ortopedia e conheci a Hillé.
– Olha, tem um blog novo aí que eu achei interessante. Narra o cotidiano de uma livraria. – Me disse o livreiro da Saraiva da Barra, por telefone.
Ele me passou o endereço do dito cujo e percebi que o blog era novinho, tanto que li os posts em menos de trinta minutos, engasgando de tanto rir. Todos aqueles leitores confusos com títulos, autores trocados por seus personagens, situações inimagináveis, humor ácido – mas com razão plena. Divaguei: quem deve ser a criatura por trás da criação? Porque o blog é sensacional, engraçadíssimo, um passatempo excelente e um manual de boas maneiras para o leitor sem noção que visita um espaço sagrado que armazena livros. O blog dela quebrou aquele meu ideal de perfeição – criou uma “distopia”, como aquele livro do George Orwell, que terminei de ler agora a pouco.
Não agüentei, postei o link no Twitter e, pouco tempo depois, a autora apareceu por lá, agradecendo o elogio e começamos a conversar, numa boa. Nada sei da Hillé: pela lógica do avatar, presumo que seja meio ruiva e use óculos. Acho que mora em São Paulo. Fato é que ela prefere não se identificar, porque, sei lá, acha que vai perder o emprego, apesar do blog ser muito bom. A Hillé é minha “mãe literária”, me chama de filha, eu a chamo de mãe e a vida vai levando. A moça já foi destaque em alguns dos mais importantes jornais do país e, recentemente, escrevera para o blog da Companhia das Letras. Tudo isso sem precisar ser uma “it-girl-look-do-dia” ou fazer um vídeo idiota que garanta trilhões de acessos no Youtube. Não sei se o Manual Prático de Bons Modos em Livrarias é uma idéia original, mas é bem escrito, tem referências ótimas e já tornou-se sucesso instantâneo. O rapaz que me indicou jura que não conhece a autora, nem pessoalmente, mas adora o espaço.
Com a Hillé na minha vida, é ela quem alegra o meu dia, quando ocorre de estarmos online na mesma rede social, no mesmo horário. Com isso, cresceu a vontade de trabalhar em uma livraria. Seja como for, já coloquei meu currículo na Cultura e na Saraiva. Agora, é só aguardar.

Antes que a novela termine

Gilberto Braga andou espalhando vários boatos em relação ao final de sua atual novela, Insensato Coração. Ninguém conhece os destinos de muitos dos personagens, apesar do que tem sido divulgado por aí. A tática dera certo e passou a confundir até mesmo a emissora. E, como este folhetim global marcou o meu retorno como telespectadora, resolvi dar o meu parecer, antes que ela acabe e 2012 chegue.

Logotipo da novela Insensato Coração.

O casal mais sem graça, sem sal e sem açúcar dos últimos tempos, Pedro e Marina, ficarão juntos e terão uma linda filha, para variar. Aliás, quanta originalidade. Estou pasma. Daí que Bibi estará prestes a trair Douglas (por uma armadilha de Natalie), porém, cairá em si e dirá “eu te amo” para o boboca – e ambos terminam casando. Carol voltará para Raul, com o mero detalhe de que darão um irmãozinho para Antonio. Olha, isso é muito esquisito. Até outro dia, a personagem de Camila Pitanga não conseguia engravidar e agora já terá o segundo filho? Só em novela mesmo.
Desconheço o futuro do Herson Capri, mas espero que o seu personagem vá parar atrás das grades quando estiver saindo da Espanha a caminho da França, ao lado de sua filha (como li outro dia em alguma revista estilo “Minha Novela”). Porque banqueiro e ladrão, aí sim, na novela, pelo menos, merece comer o pão que o diabo amassou. Morrer seria muito fácil. Mas a gente quer justiça. Não facilidade. Já Natalie Lamour deverá mesmo tornar-se deputada tendo Roni como seu assessor. Detalhe para o fato de que ela será a deputada mais votada do país. Em suma, a versão feminina do Tiririca. Além de tudo, espero que a dondoca fique com Wagner. Eu sempre fui mais Wagner do que Cortez. Mas amo muito os dois (atores).
Duvido muitíssimo que André morra ao fazer a cirurgia nos testículos. Em minha opinião, ele assumirá um relacionamento aberto com Leila, a ninfeta. O que será ótimo para os dois, que detestam assumir qualquer compromisso. Ou seja, nada mais justo. Sartre e Simone de Beauvoir. Ahã, sei.
Vinícius vai passar a merecida temporada de criminoso no lugar que lhe confere: cadeia, mano. Entretanto, ocupará o mesmo lugar de Léo, mesmíssima cela. Lembram do “colega” de cela do Gabriel Braga Nunes? Pois é. O que foi que ele disse quando o Léo chegou lá? Que ele era “muito velho” para ele. E o Vinícius está na flor da idade, não? Quem diria…!
Com Vinícius fora do caminho, a Marrentinha e o Playboy casam-se e prometem um ao outro uma penca de filhotes. Que romântico.
Eunice vai ser pega na boca da botija com o Super-Man. Resultado: será expulsa de casa e da Liga da Justiça Carioca. Recolhendo-se na vergonha para o resto dos seus dias. Foge, foge, Mulher Maravilha!
Se Léo aparecer morto, não terá muito mistério: obviamente, Norma o assassinou. Digo isso porque ouvi boatos de que ela iria parar em um manicômio – tendo matado Léo antes, encontrando o corpo no jardim de sua casa, mas sem saber o que havia acontecido. Logo as provas surgirão e ela deverá ser internada em um hospício. É mais lógico e também mais trágico: no intuito de se vingar, acaba sendo consumida pela própria loucura do existir. Filosófico, não?
Gilberto Braga, me contrata. Lavo, passo, cozinho, escrevo roteiro de novela e escolho muito bem os atores. Caso se interesse, favor tratar aqui, na caixa de comentários.

Escuta, Lolita

Mixtape

É certo que ainda pretendo fazer um post inteiro sobre a minha leitura de Lolita, do Vladimir Nabokov. Entretanto, enquanto ainda me falta inspiração para tal, fui buscar inspiração ao menos para esta mixtape. De agora em diante, aliás, farei minhas mixtapes inspiradas em livros. Espero que essa idéia dê certo.

O que é: Lolita.
Quem escreveu: Vladimir Nabokov.
Qual é a história: Humbert Humbert – pseudônimo do narrador-personagem é um intelectual de meia-idade obcecado pelas “ninfetas” – termo com o qual ele designa adolescentes de nove a catorze anos. Europeu, viaja para os Estados Unidos e passa a morar em um quarto na casa da família Haze, composta apenas por Charlotte (uma viúva) e sua filha Dolores. Enquanto Humbert nutre uma paixão secreta por Dolores (a Lolita em questão), também a Sra. Haze por ele se apaixona. Admitindo que esta seja uma maneira fácil de se aproximar da jovem, Humbert casa-se com Charlotte. Após o falecimento desta, Humbert “adota” Dolores e ambos passam a viajar por todo os Estados Unidos, enquanto ele explora a garota pelo menos duas vezes ao dia.
Porque você precisa ler: É um dos romances mais cruéis, realistas e possíveis (sim, acredite!) do século passado. E já no primeiro parágrafo você tem uma noção do desespero do personagem em todo o livro:

“Lolita, luz da minha vida, fogo da minha carne. Minha alma, meu pecado. Lo-li-ta: a ponta da língua toca em três pontos consecutivos do palato para encostar, ao três, nos dentes. Lo. Li. Ta.”

A escrita inteligente de Nabokov remete Dolores Haze à geografia e estética dos Estados Unidos. O livro é polêmico até hoje e foi rejeitado, naturalmente, por diversas editoras até chegar a sua publicação. Graham Greene havia colocado Lolita na lista dos melhores livros de 1955, o que serviu para o sucesso do escritor, que tem outras obras maravilhosas e pertence a minha lista de autores prediletos. Além disso, Lolita teve dois filmes e sua primeira versão para o cinema foi dirigida por Stanley Kubrick.

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FAIXAS:
1. Ironside Excerpt – Quincy Jones;
2. My Girl – The Templations;
3. Green Hornet – Al Hirt;
4. Hollaback Girl – Gwen Stefani;
5. Je Suis Enfant – Carla Bruni;
6. Crazy – Aerosmith;
7. Porque Era Ela, Porque Era Eu – Chico Buarque;
8. Sweet Nothin’s – Brenda Lee;
9. Você Vai Me Seguir – Chico Buarque;
10. La Redecouverte – Yann Tiersen;
11. Daphnis Et Chloé – Maurice Ravel;
12. Ne Me Quitte Pas – Maysa.

Como cada canção presente tem um significado, me sinto na obrigação de explicá-las, e tentarei ser breve.
Primeira e terceira canção que abrem a mixtape representam o final de Lolita, por assim dizer, quando Humbert Humbert comete um crime. Significa também o medo que o narrador-personagem sente caso descubram suas relações com Dolores Haze. No meio das duas, existe My Girl, linda canção para definir a personagem-título. Hollaback Girl, da Gwen Stefani sempre me lembrou uma típica escola americana, com suas líderes de torcida e jogadores de futebol – o que pode insinuar um pouco da infância de Dolly e o gosto de Humbert em ver crianças de uniforme saindo das escolas. Você Vai Me Seguir é insinuação clara de Humbert quanto ao fato de que Lolita não pode abandoná-lo, embora o despreze. Carla Bruni, com sua voz doce, porque muito do livro tem trechos e passagens extensas em francês. Aerosmith e Brenda Lee representam o que eu penso que Lo ouviria no rádio enquanto estivesse trancada dentro do carro com aquele maníaco (até porque, o videoclipe de Crazy trata de uma viagem feita por ninfetas e Sweet Nothin’s está presente na trilha sonora de Educação – filme cuja personagem principal é também uma Lolita, só que muito inteligente). Porque Era Ela, Porque Era Eu demonstra a frustração de Humbert diante da manipulação e ausência de conhecimento e maturidade de Lolita. Daphnis et Chloé é um ballet de Ravel – cuja história se baseia na mitologia das ninfas e que está aqui presente para narrar os sonhos de Humbert. E o clássico Ne Me Quitte Pas, na voz da Maysa (que também estivera na trilha de Presença de Anita – série global fatalmente inspirada em Lolita) trata da fuga e talvez de um certo arrependimento final da pequena.
Já o título: Escuta, Lolita, escolhi simplesmente porque Dolly, enquanto criança e um tanto mimada, nunca ouve o que Humbert lhe diz, com a exceção de quando é subornada, além de ser o refrão da música Cecília, de Chico Buarque, ausente aqui e cujo título “furtei” para alterá-lo em seguida. As fotos são da segunda versão cinematográfica de Lolita. Vem a calhar.

Sonho de valsa

Odilon Wagner, ator.Fato inegável é que os melhores atores da Globo estão no teatro ou em emissoras concorrentes. Isso explica Eriberto Leão despreparado como protagonista da novela das nove. Rodrigo Faro também saiu dos folhetins de época, entretanto, apesar de sua excelente atuação, nunca passou para um papel de destaque na Globo. Hoje está na Record, colhendo os méritos que lhe são devidos. Murilo Benício, em reapresentação de O Clone, nota-se, evoluiu muito de lá para cá, mas ainda não convence tanto. Ana Paula Arósio acabou de sair. Camila Morgado não teve o contrato renovado. Enquanto os bons estão saindo, nós, telespectadores, ficamos sujeitos a participantes de reality show serem “transformados” em atores da noite para o dia. Assim fica impossível.
Voltei a adquirir o costume de assistir novelas. Da Globo. Inegavelmente, a melhor emissora do ramo. A última que assisti, pasmem, foi Chocolate com Pimenta. Fazia questão. Depois aquele velho roteiro “Leblon-Copacabana-e-adjacências” sendo pouco a pouco substituído pela cultura oriental da Glória Perez não me atraía mais. É possível que eu assista a versão recente de O Astro. E amo de coração as novelas do Gilberto Braga, apesar daquele invariável percurso. Ainda sou a favor do velho mandamento: “desligue a televisão e vá ler um livro”, compensa mais.
Daí que eu estava na sala. Devia ser quinta ou sexta-feira. Desabitada por mim, passei lá apenas para apanhar uma caneta que havia esquecido. E o Faustão no intervalo do jornal, no último volume quase (conseqüência de um pai surdo em casa), anunciando os novos participantes daquela fatigante Dança dos Famosos (que só é uma “experiência incrível” mesmo para quem participa. Assistir aquilo não diverte tanto). Voltei-me à luminosidade extravagante. Olhei precisamente enquanto o rosto do Odilon Wagner passava. Odilon Wagner, Odilon Wagner… Qual foi a última vez que eu o havia visto? É um rosto singular na televisão brasileira. E também muito versátil. Lembro-me de, certa vez, ter dito aqui em casa que preferia ter visto ele fazendo Presença de Anita em lugar do Zé Mayer. Mas o bacana das edições do Dança dos Famosos é que a produção coloca quem você menos espera. Tão cedo eu não iria imaginar que o Odilon participaria. Mas ele estaria lá.
Ninguém em sã consciência e com menos de trinta anos espanta o tédio em pleno domingo com Fausto Silva. Perdi os primeiros acontecimentos, porque me lembro do Odilon no forró e na lambada apenas. E gostei bastante, sobretudo pela expressão e gestos. Agora que voltei a praticar ballet, volta e meia penso nas diferentes particularidades das expressões do Odilon Wagner – e isso é atuar verdadeiramente. Óbvio: sendo ator, expressar-se na dança fica indubitavelmente mais fácil. Por exemplo: ele não foi muito bem na lambada, era notável. Mas Cláudia Raia, que participava do júri naquele fim-de-semana fez-me ver que o rosto diz tudo: “O Odilon tem essa cara de mau”, ela disse, esse é o charme dele (que eu não soube identificar) e eu concordo. E constatei: tô apaixonada pelo Odilon Wagner.
Mas é uma platonice bem cara-de-pau e desmedida mesmo. Sou incapaz de gostar do galã de Insensato Coração, mas o Herson Capri, apesar de interpretar um banqueiro/bandido, parece-me ótimo no auge da sua maturidade. Os anos que se seguiram após 007 deixaram Sean Connery melhor em todos os sentidos, é o meu ator predileto, fora do Brasil. Odilon Wagner tem expressão e postura ímpar – não se encontra em qualquer pessoa – e é um dom, absoluta e absurdamente necessário para quem trabalha com arte.
Considero ótimo que o Odilon tenha “ essa cara de mau”. Atualmente, para quem está “do outro lado da telinha” já podemos distinguir quem atua bem ou não do que render-se ao estereótipo “mocinhos” e “vilões”. É provável que eu não esteja resistindo àquele par de olhos azuis que ofuscam os meus que são verdes, mas quem se importa?
É notável a alegria no rosto dele enquanto dança. Alegria esta que nem a concentração mais precisa consegue dissipar. E fico contente pela felicidade dele, por ter se encontrado na dança – que, no mais das vezes, serve mesmo para isso. E se me permitem um trocadilho infame que julgo acabar de inventar, com licença, pois não tive festa de 15 anos, mas o Odilon é um sonho de valsa. Acaba de sair da “repescagem”, adentrando a reta final do concurso, embalado pelo ritmo do rock, que é dificílimo, portanto, enorme superação. Parabenizo também seu par durante as danças executadas, a belíssima Roberta Appratti que, sobretudo, captou a difícil tarefa de permitir-se ofuscar para não fazê-lo com o artista. Em todas as danças ela deixou claro que o Odilon precisava ser visto, mais do que ela, algo que poucos bailarinos conseguem deixar transparecer. Espero ver o Odilon, adiante, em alguma novela global. Anda fazendo falta. E como.