A vida dos outros

Procurar easter eggs no Muito Interessante me fez ficar um pouco desatualizada do que ocorre atualmente. Não sei se mais um tsunami atingiu algum país asiático, mas aprendi que, se você digitar “1980” enquanto estiver assistindo qualquer vídeo do Youtube no “nada”, vai aparecer um joguinho bem bacana. Pois é, eu tenho meus momentos de procrastinação.
Daí que hoje, quarta-feira, vi que Chico Buarque está nos trending topics do Twitter. Levei um susto porque, né? Achei que o cara tinha morrido. Questionei isso e recebi alguns links como resposta.
Recentemente, certos burburinhos envolvendo biografias chegaram até mim. Alguns são isolados, outros prometem uma verdadeira polêmica. A subcelebridade Alexandre Frota está lançando sua Identidade Frota – o que levou às livrarias um grande número de pessoas visivelmente “estranhas” (“frequentadores do baixo meretrício”, segundo um amigo meu), conforme pude comprovar pessoalmente. Nesse livro, Frota expõe que já “comeu” boa parte do elenco feminino consagrado de quase todas as emissoras hoje. Nem Marília Gabriela D1V4 escapa.
No lado mais cult da coisa, a família Leminski quer proibir que uma nova edição da biografia de Paulo Leminski seja lançada. A biografia em questão recebe o título de Paulo Leminski – O Bandido que Sabia Latim, é de autoria de Toninho Vaz, que passou um aninho só recolhendo mais de oitenta depoimentos de quem conheceu o poeta. O livro foi lançado em 2001 e tem reedição agora, com um acréscimo curioso: Toninho entrevistou um morador antigo da pensão em que Pedro – irmão de Leminski que se matou no local lá para a década de 80 – morava. Esse vizinho de quarto do irmão de Leminski foi quem encontrou o corpo do rapaz.
Fiquei me perguntando qual seria a utilidade de entrevistar um homem que achou o corpo do irmão de uma pessoa famosa. Surpresa, fiquei sabendo que Estrela – filha de Paulo Leminski, compartilha de meu questionamento: “Qual é a relevância de detalhes sórdidos do suicídio para uma biografia dele? Que relevância tem para a obra? Ou seria para dar um molho e vender mais?”.

Áurea, outra filha de Leminski, afirma que o suicídio de um familiar em nada acrescenta na riqueza cultural que seu pai entregou para o Brasil. Isso é fato. Imagine quando essa obra chegasse às livrarias? Qual seria o marketing? “Saiba aqui tudo sobre o suicídio do irmão de um dos maiores poetas brasileiros de todos os tempos”? É semelhante ao marketing difamatório para com o leitor em dizer que Cinquenta Tons de Cinza é um novo símbolo cultural feminista!
E foi aí que eu cheguei no meu querido Caetano.
Eu já acho que Caetano é um caso muito diferente do de Leminski. Como fã, é claro que adoro biografias não-autorizadas, cheia de revelações sobre uma determinada personalidade (e autobiografia confere ainda mais fama para o biografado, não é mesmo? Aqui no Brasil, o disco ou o livro de Fulano sempre vende mais depois que ele morre ou ganha uma biografia!). Sobretudo porque isso é quase muito raro aqui no Brasil – uma biografia não-autorizada sobre um artista ainda vivo. Da última vez que eu me recorde que esse assunto veio à tona, foi com relação a Roberto Carlos – um artista que se esconde sob diversas carapuças, como quem está devendo a Deus e o mundo.
Bato na mesma tecla da maioria dos jornalistas: Caetano, uma pessoa que foi contra a ditadura militar no Brasil, que chegou inclusive a ser exilado por conta desse regime que castra a liberdade do outro em se expressar; sendo contra exatamente a liberdade do próximo em escrever e/ou saber os seus “podres”? Mas não era proibido proibir?
Que “podres” são esses?
Eu li Verdade Tropical, excelente autobiografia sobre o antes, o durante e o depois da ditadura na vida de Caetano e de quem o rodeava. Aquilo, para mim, ainda é o suficiente. Há muito da carreira artística desse moço, mas também um tanto de sua vida pessoal. Quando li essa biografia, eu era o tipo de fã absurdamente fervorosa, não aguentava quem falava mal do meu ídolo em minha presença. E, ainda assim, não quis procurar outras biografias sobre ele posteriormente. O que eu havia lido me parecia de bom tamanho.
Mas Caetano, junto com sua ex-esposa e atual empresária Paula Lavigne, decidiram reunir alguns artistas para fazerem valer seu ideal de que “só pode ser publicada depois que for aprovada pelo biografado”. Não sei se concordo ou discordo disso, confesso que fico um pouco em cima do muro. Por um lado, penso no trabalho imenso que um possível fã tem para imprimir a identidade de um artista em um punhado de papéis. Afinal, são anos de pesquisa, procura de fontes, aproximações e por aí vai. Por outro, imagino do que tanto os artistas tem medo: de serem biografados por uma espécie de Léo Dias? De que contem mentiras sobre a sua pessoa? De que digam que Fulano dormiu com Beltrana enquanto estava casado com aquela outra? Olha, por esse ponto, até que dá para entender.
Quem me conhece sabe que eu adoro um barraco de rede social (isso acontece porque, na minha infância, lá em Pato Branco, eu não tinha a menor capacidade psicológica de me defender dos opressores colegas de turma da escolinha – daí aproveito toda a minha coragem diante da tela de um computador para vociferar tudo o que está entalado aqui ó, na minha garganta, até hoje) e, sendo assim, recentemente discuti com uma menina que tem mais um desses vários perfis de fofoca engraçadíssimos que pipocam a todo momento no Instagram. O perfil dela é legal, interessante e tem comentários bons. Porém, uma questão passou a me incomodar. Ela decidiu “encarnar” feio numa subcelebridade que faz sucesso atualmente. Não preciso citar o nome, mas essa subcelebridade já saiu com jogador de futebol e espalhou para a imprensa (óbvio, #quemnunca?), já participou de reality show de quinta categoria e ficou nua, já saiu em algumas capas de revistas masculinas e faz a social nos eventos cotidianos com as roupas mais esquisitas (isso quando a criatura vai de roupa, né). Eu, como feminista, só dou risada do tanto que a pessoa apanha da vida que decidiu levar – vida da qual ela se diz arrependida por não ter o devido talento reconhecido. Para mim, quem entrou nesse bolo, já sabe que não vai dar certo, já sabe o rumo que levará. Eu vejo a notícia, gargalho e vou embora. Essa pessoa, entretanto, decidiu dedicar metade do seu Instagram para denegrir a imagem dessa Fulana, deixando a entender que a mesma é uma vagabunda de primeira. Não falta muito para que ela afirme que a tal Fulana até programa faz.
Das duas uma: ou ela é muito amiga íntima da pessoa para revelar tantos ~segredos~, buscando assim uma fonte de inspiração para o futuro; ou isso é, realmente, falta de vida própria.
Não digo que é errado criar um perfil numa rede social a fim de discutir fofocas. Acontece que muitos espaços ainda mantém um nível respeitável com relação aos “artistas”. Afinal, para fazer humor, não é preciso agredir o próximo – embora esse próximo se autoagrida, não se respeite, não se “dê valor” (que termo horrível) e coisa e tal, quem sou eu para taxar alguém de algo ofensivo e que não foi comprovado por ninguém? Suposição irrita, sabe? Quem faz um humor bacana com as subcelebridades, por exemplo, é o Te Dou Um Dado? e até a Shame com as blogueiras de moda.
Fico imaginando se o Caetano acredita piamente que, em uma futura biografia sua, dirão que ele se envolveu em alguma atividade degradante, sendo mentira. E, caso seja verdade, que tipo de censura é essa? Cadê aquele orgulho em não se arrepender do que fez? Por quê uma crença TÃO ABSURDA em fazer uma imagem puritana diante de todos? Desde quando, por exemplo, Roberto Carlos é santo e/ou bom moço? Até parece que ele passou esses anos todos admirando a imagem da falecida senhora sua esposa. Gente, instinto humano taí para isso. Óbvio que Robertão já teve muitas namoradas. Só que as nossas mães, eternas fãs desse cara, nunca foram uma delas.

Benjamin Moser (esse lindo, eu daria uns pegas nele, com barba), autor da biografia de Clarice Lispector, escreveu uma carta aberta ao mano Caetano. Outros questionamentos se abrem: “Você já parou para pensar em quantas biografias o Brasil não tem? Só para falarmos da área literária, as biografias de Mário de Andrade, de João Guimarães Rosa, de Cecília Meirelles, cadê? Onde é que ficou Manuel Bandeira, Rachel de Queiroz, Gilberto Freyre? Você nunca se perguntou por que nunca foram feitas?”.

Moser afirma ainda que a liberdade de expressão nunca é usada contra elogios, por exemplo. Você pode falar horrores de um artista sobre determinada ação dele diante de um fato. Agora, por exemplo, acho essa atitude do Caetano uma das poucas decisões mais idiotas referentes a si mesmo. Idiota, estranha, fora de contexto, do tipo que me faz questionar “mas porquê diabos agora?”. E, ainda assim, não deixo de amá-lo.
Enquanto a Folha faz um quiz para que você teste seus conhecimentos sobre biografias não-autorizadas (sério), descubro o motivo de Chicão estar nos TT’s: ele decidiu entrar nesse debate, mas já começa o texto cometendo um equivoco “terrível”: “Pensei que o Roberto Carlos tivesse o direito de preservar sua vida pessoal. Parece que não. Também me disseram que sua biografia é a sincera homenagem de um fã. Lamento pelo autor, que diz ter empenhado 15 anos de sua vida em pesquisas e entrevistas com não sei quantas pessoas, inclusive eu. Só que ele nunca me entrevistou”. Nunca entrevistou, Chicão? Parece que sim. Tem até vídeo, ó.

Porque não vou para Marte

E daí que eu estava num barco, navegando há uma distância infinita de onde deixei o navio – pois aquela viagem eu teria de fazer sozinha; quando encontrei um vestígio de ilha, daí pensei “até que fim cheguei”. Ledo engano, mas eu precisava passar por ali para avistar meu objeto de destino.
O mar acabava onde começavam as nuvens: isso mesmo, eram nuvens, um vapor gelado que vinha do chão e iniciava um arco-íris. A entrada da ilha era esse arco-íris. Atravessei-o e, apesar da névoa, vi uma ruazinha sem fim com casas todas juntas. Fui andando, andando, andando: tudo me parecia vazio. Parei de frente a uma casa lilás, semelhante as outras, em tons pastéis. Havia ali uma moça muito loura (os cabelos cacheados), muito branca, segurando uma criança nos braços, tão albina quanto ela, de costas para mim. Quando a cumprimentei, ambas se viraram. Tinham os olhos negros. Completamente negros. Cílios cor de rosa. Um risco no lugar dos lábios. Questionei quem eram, que lugar era aquele. Como elas não conseguiam me entender, exclamei “oh Aslan!”, enfim me apontaram a entrada de uma orla. Caminhei até ali, pude ver o mar. Do outro lado, o sol ia embora, uma ilha pequenina com um balanço de criança ocupando todo seu espaço, segurado por dois coqueiros. Eu sorri. Meu barco, extraordinariamente, havia parado ali. Quando olhei de novo para a ilha, havia um leão no lugar do balanço. Gritei “Aslan!”, mas acordei em seguida.
É claro que eu sonhei isso depois de ler A Viagem do Peregrino da Alvorada, um dos livros que compõe a saga As Crônicas de Nárnia, de C. S. Lewis.

Da outra vez, eu estava na praia, com o meu marido. Eu tinha cabelos louros, longos, em ondas. Usava uma viseira, olhava o mar. Daí o sol ficou cada vez mais quente e o brilho nos cegava. Em poucos segundos, a humanidade já não existia, estávamos sendo vítimas de uma possível explosão solar. O engraçado é que estávamos sorrindo. Morremos felizes?
É claro que esse sonho veio depois que li o incrivelmente impressionável A Idade dos Milagres, de Karen Thompson Walker.

De tão medrosa, eu seria a pessoa menos apta a fazer essa viagem sem volta até Marte. De tão alheia que me comporto a tudo isso, eu nem sabia que existe gente interessada, de fato, em colonizar o planeta. Um grupo de vinte e quatro pessoas, de diferentes lugares da Terra, será escolhido entre cem mil humanos que se inscreverem nesse site. Vai funcionar assim: em 2023, duas pessoas entrarão em uma nave rumo a Marte. Essa viagem durará sete meses. E serão sete meses sem tomar banho (creiam. E não perguntem). Chegando lá, esses dois humanos deverão construir sua própria casa e viver, esperando as próximas duas pessoas que chegarão em seguida. Até que os vinte e quatro estejam lá. Juntinhos. Vivendo. E procriando marcianos, olha só.
Não sei vocês, mas pensar em uma colonização em outro planeta me faz questionar: e foi assim conosco? Meu marido, que é um grande fã confesso de ficção científica (em seriados e filmes, jamais na literatura), me contou, certa vez, sobre o final de um seriado nesse estilo (teria sido Caprica? Battlestar Galactica? Whatever), em que um planeta está morrendo e correm boatos de que existe um mundo perfeitamente habitável para aquelas pessoas. Esse mundo seria uma tal de Terra, com todos os recursos naturais propícios para a sobrevivência deles. A viagem é feita, eles chegam aqui, e o último capítulo mostra uma garotinha chamada Eva, crescendo e casando com um terráqueo, procriando e oferecendo as características físicas, emocionais e tecnológicas que temos hoje.
Por que não?
Para quem acredita em Deus, fico imaginando como será a vida em Marte caso todos concordem em não mencionar a palavra divina que designa o desconhecido e superior. Como seria ignorar divindades e formar sua própria cultura? Como será educar crianças marcianas? Que desculpa teríamos a dar, qual a resposta exata para os que filosofarem da onde viemos e para onde iremos?
Ir para Marte exigirá um desapego enorme. Não só de localização geográfica, como também de toda uma cultura criada, estabelecida. É como se tivéssemos a chance de ser outra pessoa. O lado bom? A Terra já está tão mal cuidada, que Marte servirá de válvula de escape, local reserva para a sobrevivência caso uma explosão solar – ou coisa pior, acontecimentos provocados por nós mesmos – venham a tona. Entretanto, inicialmente, precisamos de cobaias. E serão essas vinte e quatro loucas pessoas.
O espiritismo acredita que, quando morremos, reencarnamos para evoluir, para sermos melhores e fazermos o melhor na outra vida. Para consertar erros, basicamente. Indo por essa vertente, deixo uma sugestão: o filme Cloud Atlas, que possui um elenco impecável (Tom Hanks, Halle Berry, só para começar. Sendo que Halle aparece branca e, se você assistir e sentir que existem lacunas, leia isso), conta a história de seis pessoas em seis épocas diferentes – mas tudo sendo contado ao mesmo tempo. Em cada época, elas possuem a chance de salvar um ideal, mas são surpreendidas com a morte, quase sempre em forma de assassinato. São pessoas que confrontam a escravidão e iniciam uma revolução. Segundo o espiritismo, existe uma “escala” evolutiva. Semelhante ao ideal darwinista. Se somos animais em uma vida, na outra podemos chegar a humanos. Sendo humanos, não voltamos a animais. Depois dos humanos, que mais podemos ser? Reencarnamos em outro planeta.

Não estou pedindo que acreditem nisso, mas se a humanidade deseja ir até Marte e lá conceber vidas, isso significa a intenção de uma evolução, mesmo que seja uma intenção inconsciente?
A tecnologia me assusta. Me parece excessiva. Saramago dizia que é absurdo procurar alcançar galáxias, planetas, estrelas, sendo esse mundo o que é – uma banalização que vai da pobreza a ignorância. Fico com a opinião dele.
Mas ainda é cedo para pensar no assunto. Temos dez anos pela frente.

Capacidade de “artista”

Essa semana, a blogueira feminista Lola Aronovich – uma das mais queridas da internet, grande defensora das vítimas de estupro (mas também detestada por muitos reacionários – e isso inclui outras feministas, vejam só), publicou o relato de um homem que se diz arrependido de ter estuprado sua irmã e um primo, quando ambos eram ainda menores de idade.
Lola recebeu o e-mail desse indivíduo em dezembro. Ela diz que hesitou muito em publicar o relato, passou semanas pesando prós e contras de fazê-lo.
Como já era de se esperar, muita gente chegou lá para comentar o caso e humilhar a Lola. Gente que era “fã”, de repente passou a exigir que ela não mais tocasse no feminismo, pois não é isso que ela defende, que ela não deveria passar a mão na cabeça de um estuprador, muito menos dar voz e vez ao mesmo.
Eu acho tudo isso muito irônico.
Lola explicou claramente, após o relato, que haveriam represálias nesse sentido. E levantou uma questão interessante: tem feminista que é mesmo reacionária. Que considera absurdas as piadinhas machistas do cotidiano (e são), mas apoia a pena de morte. Como a própria Lola diz, o “reaça” é aquele que acredita em justiça na forma de massacre, jamais na reabilitação do ser humano.

Do lado de cá, não faz muito tempo, discuti no Twitter com uma feminista que, até então, eu admirava – apesar da sua constante brutalidade para com quem comentava em seu blog. Quando eu comecei a me interessar pelo movimento feminista (e isso depois que casei – com um homem), fui procurar páginas na internet que tratassem do assunto. O meu erro foi ter comentado de cara nas publicações dessa moça. Eu ainda estava aprendendo sobre slut-shaming, por exemplo, quando a mesma, sem querer dialogar, acusou-me de praticar o que nós duas mais detestamos: quando você diz para uma mulher que ela deve se comportar de uma determinada forma para adequar-se a sociedade (tipo “meninas não podem usar azul, porque azul é a cor dos meninos” e “mulher ‘direita’ não pode sair na rua com roupa curta, porque isso atrai estupro”, enquanto homens que passam pela rua sem camisa não correm o mesmo risco). Essa mesma feminista resolveu escancarar no Twitter o seu total desrespeito por símbolos religiosos de alheios. Nas palavras dela, “respeito humanos, não símbolos”. Olhando desse lado, parece que ela está certa, mas os símbolos religiosos são a cultura de um grupo de pessoas. E as pessoas, em essência, são sua própria cultura. De modo que eu não posso agredir a religião do outro, mesmo que o outro faça o mesmo com as religiões de outros. E será que a melhor forma de você “defender” a humanidade é denegrindo sua cultura? Acho uma tolice.
Mas isso é assunto encerrado. Eu só estou dando um exemplo de atitude de gente reacionária.
Porque a Lola é o que podemos chamar de “figura pública”. No Brasil, seu espaço virtual é referência de feminismo. Mas o blog dela também é pessoal. Ela publica o que quer, mesmo que isso não agrade a maioria. E daí eu lembro que, em questões polêmicas, algumas pessoas tem capacidade de artista: cê faz uma coisa “errada” e é marcadx por aquilo a vida inteira.
Eu não considero a publicação desse arrependimento uma ofensa aos direitos humanos. Muito pelo contrário. Senso de compreensão e perdão são atitudes para se colocar em prática. É muito fácil apontar o dedo para o erro do próximo e condenar. Mas e perdoar? É possível?
Tudo bem: provavelmente um estuprador não merece perdão. Mas merece ser ouvido, assim como a vítima. Se o ser humano a tudo se adapta, nós também podemos ter senso de recuperação. Tem gente que é presa por ter provocado uma chacina. Mas toma a consciência de seus atos, passa por um acompanhamento psicológico, cumpre sua pena e é libertado. A reinserção dessa pessoa na sociedade é mais difícil e complexa do que uma vítima que tenha sofrido qualquer tipo de agressão: é difícil conseguir um emprego digno, amigos interessantes e até formar uma família. E isso por problemas internos e externos.
Não. Eu não estou defendendo o estuprador.
Aliás, no próprio relato, o que ele menos quer é perdão e piedade dos outros – já que não consegue fazê-lo consigo mesmo.
Fico pensando nas pessoas que jamais serão perdoadas por seus atos: Suzane Von Richtofen, o casal Nardoni, outros tantos criminosos e/ou estupradores. E olha que tem pessoas estupradas escrevendo seus relatos e esperando que o agressor se desculpe. Exemplos? A filha do Dias Gomes. Vale à pena também dar uma conferida no excelente Fui Estuprada, sobretudo para quem estuprou alguém.
E também fico pensando nas pessoas que serão eternizadas por uma fase ruim: Chris Brown como agressor de Rihanna, Jennifer Aniston como traída e trocada por Angelina Jolie.
Quem era “fã da Lola desde pequenininho” demonstra agora ser mais um reaça que, da noite para o dia, condena e exclui de suas vidas este ou aquele, para o seu bel-prazer.
Chega a dar pena. Sobretudo de quem é feminista e reaça. O que uma pessoa dessas quer com um movimento tão humanitário?

Pilha de significados

Minha biblioteca aumentou consideravelmente, dinheiro em minha mão já percebi que é vendaval, o que eu tinha para sobreviver nas férias acabou em quinze dias (que sorte não ter viajado). No início do ano, fiz um panorama do que estive lendo e que não foi envio de alguma editora parceira. Acabei tratando de mais de seis livros numa única crônica – e passei mal depois de tanto ter escrito. De uns tempos para cá, esse fluxo literário deu uma melhorada – e me sinto até mesmo privilegiada – pois li uns títulos que me fizeram pensar: “MEL DELS! COMO ASSIM NÃO LI ISSO AQUI ANTESSSS???”.
Tipo Zafón, gente. Sério: eu ainda não havia lido Zafón (assim como não li George Martin – e ó, nem pretendo – e como, até pouco tempo atrás, eu nunca havia lido Khaled Hosseini). Alice, minha amiga livreira, teve a ideia de lançarmos um clube do livro, entre os colaboradores do setor de literatura. Escolheríamos um autor e cada um levaria para casa, durante um mês, qualquer obra dele. Escolhemos Zafón e eu levei A Sombra do Vento. Para quem ainda não conhece (mas COMO ASSIM VOCÊ AINDA NÃO LEU???), A Sombra do Vento (editora Suma de Letras, 399 páginas) é um livro que, se você gosta de best-sellers, aproveita e se joga nesse pois, além de extremamente cuidadoso, minucioso em detalhes e muito bem escrito; nesse livro você encontra romance, comédia, investigação policial, memória, épico, TUDO! Raramente me deparo com uma obra tão completa – e olha que um livro nem precisa ter todas essas características para ser um bom livro para mim. Mas A Sombra do Vento tem e, em poucas palavras, digo-lhes o seguinte: pare sua vida para conhecer Daniel Sempere – o garoto que, já esquecido do rosto de sua mãe, é levado pelo pai – um livreiro – até o Cemitério dos Livros Esquecidos, um local para onde vão os títulos esgotados, as obras raras, os livros abandonados por donos levianos. Passeando entre as labirínticas estantes do Cemitério, Daniel puxa um livro da prateleira. O título? A Sombra do Vento. O autor? Julián Carax. Daniel volta para casa criança, lê a obra e torna-se um homem disposto a encontrar Julián e toda a sua prosa. Entretanto, um mistério surge para afligi-lo: alguém está queimando os livros de Carax, alguém quer fazer com que Julián suma do mapa, da história da literatura, mesmo que não tenha sido um autor interessante, ou famoso. Com o auxílio de uma garota cega, um mendigo sabido e muitos outros companheiros, Daniel Sempere cativa o leitor na jornada que busca desenterrar o passado de Julián e apresentá-lo ao mundo e a si mesmo. É um livro sobre livros. E sobre o poder que os livros têm para mudar pessoas. Não sei se vocês sabem, mas A Sombra do Vento não era um livro famoso, até que a editora decidiu presenteá-lo a alguns livreiros que começaram a ler a obra e indicá-la aos seus clientes. Em pouco tempo, A Sombra do Vento já constava como um dos livros nos topos das listas dos principais mais vendidos. Tanto sucesso tem justificativa para além do boca-a-boca. Confira você mesmo.

“Os livros são espelhos: neles só se vê o que possuímos dentro.”

Contrapondo consideravelmente o livro de Zafón, está Nada, da dinamarquesa Janne Teller (editora Record, 127 páginas). Quer título mais atraente e significativo do que Nada? Eu achei genial. A história também é, tanto que esse foi o segundo livro escolhido em nosso clube de livreiros. Em minha busca por obras niilistas (eu ainda não tinha A Menina Sem Qualidades aqui), Nada narra a decisão repentina de Pierre Anthon – garoto do sétimo ano de uma escola em um bairro simples – em passar o resto de seus dias em cima de uma ameixeira, pois, segundo ele, “nada importa”.

“Se viverem até os 80 anos, terão dormido durante 30 anos, ido à escola e feito deveres de casa por 4 anos e trabalhado quase 14 anos. Como já passaram mais de 6 anos sendo crianças e brincando, e ainda passarão no mínimo 12 anos limpando, fazendo comida e cuidando dos filhos, sobrarão no máximo 9 anos para viver.”

Sob essa perspectiva, os colegas de Pierre não sabem o que fazer, apesar de se sentirem incomodados com o comportamento dele. Seus amigos percebem que, pouco a pouco, os sonhos de crescer e lutar por um futuro já não fazem tanto sentido quanto antes, já que o objetivo da vida é morrer. Após algumas tentativas frustradas de fazer com que Pierre Anthon desça da árvore, surge uma ideia: construir uma “pilha de significados” com tudo que importa para cada um deles. Assim, a vida repentinamente terá sentido e Pierre Anthon seguirá com a sua. Os estudantes começam a jogar nessa pilha diários, sapatos, animais de estimação. Entretanto, a mesma torna-se bizarra quando, de repente, significados macabros passam a fazer parte do monumento: cabelos, membros amputados, entre outros. Apesar de ser um livro curto, essa obra testa os limites do real e do surreal, de como o ser humano pode sobreviver em situações aflitivas. É um livro claustrofóbico e muito bem narrado – por uma das amigas de Pierre, que também ajuda a compor a pilha. Só não entendi a capa do casal abraçado até hoje.
E por último, Sylvia Plath. A editora Globo relançará no ano que vem A Redoma de Vidro, mas comprei o Kobo e decidi encarar de vez esse título esgotado e impossível de se encontrar em sebos. Nele, Sylvia conta a história de uma jovem que trabalha em uma revista feminina de Nova York. Seu trabalho é uma espécie de estágio, mas ela vive em um hotel luxuoso com outras amigas jornalistas – e é bolsista em uma universidade excelente. O fluxo narrativo de Plath é maravilhoso: ela não narra, ela conversa com o leitor, como quem está fofocando com a melhor amiga. A vida de glamour da protagonista transforma-se em um vazio existencial e, de Nova York, o leitor migra para a cidade natal da moça e das loucuras que ela começa a ter, ocasionadas por sua recente depressão. Ela enlouquece e busca tratamento. E a sua dor não tem nome – nem parece ter cura. Esse romance é quase autobiográfico, pois Sylvia também sofreu depressão e também já escreveu para revistas femininas, além do fato de ter se suicidado em casa, enquanto seus filhos estavam no quarto ao lado (anos depois, um dos filhos de Sylvia também sofrera depressão e matou-se em seguida).

“Eu era a única garota na praia com saia e salto alto, e me ocorreu de que eu estava chamando atenção. Eu tirei meus sapatos de couro envernizado depois de um momento, por meterem-se tão fundo na areia. Alegrou-me pensar que eles ficariam para o mar, como uma espécie de bússola para a alma, depois de eu estar morta.”

Todas essas leituras valeram à pena, foram bons intervalos para relaxar de livros mais sérios. Literatura de muita qualidade e sem amarras. Todas significativas, muito significativas.

Melodraminha

O Correio não vai com a minha cara e sempre decide entregar as correspondências quando não estou em casa. Até então, isso nunca foi uma problemática constante, exceto pelo fato de que agora recebo muitos livros, de modo que me sinto aflita cada vez que solicito uma nova empreitada e esta só chega duas semanas depois, por motivos de: me chamaram e eu não estava lá para receber e assinar; ou a minha vizinha idosa recebeu, mas esqueceu de avisar.
Por sorte, espero que o último caso seja mais frequente, pelo menos alguém recebe. E isso já é uma garantia de que a encomenda chegará em minhas mãos, mesmo que Deus, o mundo e a vizinhança querida me façam a egípcia e decidam não me contatar de alguma forma.
Mas esse assunto é chato. De modo que não é ele que eu pretendo abordar, embora tenha a ver com a essência desse texto. Meu marido bateu na porta da vizinha e pegou as duas encomendas de diferentes editoras que eu aguardava desde o início do mês. Uma dessas encomendas era o livro Já Matei Por Menos, da Juliana Cunha, que marca a estreia da editora Lote 42 (isso aqui ainda não é uma resenha, mas serve de introdução. Ainda estou na página 50). Abro o livro de imediato e me deparo com uma notinha da autora:

“Antes o blogueiro era o colunista de jornal que não deu certo. A gente queria escrever crônicas, dar opinião sobre as coisas, sobre todas as coisas. Hoje o que vinga são blogs específicos, com um tema delimitado. Cinema, culinária, moda, tecnologia, fotografia. Valoriza-se o sujeito capaz de ajudar na vida prática do leitor. De ensinar o melhor jeito de assar um pão de queijo ou de usar um delineador. A internet virou um poço de dicas. A pessoa que tem um blog já não quer ser articulista, quer ser especialista. Eu particularmente não gosto de ajudar as pessoas. Essa tendência de ‘facilitar a vida do leitor’ e de ‘se aproximar de sua realidade’ é algo que me irrita no jornalismo atual e que tento manter o mais distante possível do meu blog.
Espero que esse livro funcione como um presente de grego para as pessoas que ainda gostam de ler blogs generalistas, desses que você lê o histórico inteiro e não consegue tirar uma única dica útil para a sua vida.”

Fiquei me perguntando qual é a utilidade dos blogs, afinal. Será que vale à pena filosofar sobre o assunto? Daí recordei que, para aquela menina que fui,a os dezesseis anos de idade, sofrendo horrores por conta de um garoto da escola, a utilidade do blog era desabafar. Devo estar sendo repetitiva nesse assunto, mas convém falar dele agora, mais do que nunca.
Quando saí da fase “como sou triste, tenham pena de mim”, calhou migrar o assunto central dessa bagaça para a literatura porque, além de viver amores platônicos, os livros eram a minha segunda paixão (hoje, com a quantidade de frustrações amorosas superadas e o “happy end” aparentemente permanente, os livros são paixão primeira mesmo). No entanto, não seria bacana de minha parte levantar dados como “título, autor, editora, número de páginas, resenha da editora e o que eu achei do livro”. Mas o pior dessa situação é que, até hoje, a nata blogueira entrou no piloto automático de seguir essa linha tendenciosamente ambiciosa e insuportável de tratar do assunto “por cima”.
Eu visito blogs “úteis” e blogs pessoais. São raríssimos os espaços que unem ambas as colocações. Mas eu tento fazer do meu espaço virtual um lugar-comum para que essas disposições se encontrem (prometi a mim mesma que trataria de literatura colocando a minha vida no meio da história, meti o bedelho mesmo). E a Juliana também, acredito. Afinal, ela trata de cinema, literatura e adjacentes tão bem e com tanto cacife quanto eu. Mas rola essa identificação de, se for para falar, vamos pensar no próprio umbigo também. Aí está uma ideia interessante. Ninguém é sofredor de amores errados o tempo inteiro. E, mesmo que a arte não tenha a menor utilidade em nossas vidas, a gente pode ensinar outros a utilizarem “corretamente” a calça de efeito doppler contando um causo estilo “é pavê ou pra comer”. Pode não dar “bossa ao look“, mas dá graça ao texto. Ao menos assim, deixamos de ser artificiais e provamos (para nós mesmos) que somos capazes de um tantinho de sensibilidade cotidiana sem precisar fazer melodrama.

Cacife

 

Eu ainda estava lendo Cinquenta Tons de Cinza (e detestando), quando uma amiga do trabalho me enviou pelo facebook a vídeo resenha de uma tal de Tatiana, que eu nunca havia visto na vida e sequer ouvi falar. Dei play e me surpreendi bastante ao ver que todas as opiniões que formei ao longo da minha leitura sobre este livro estavam lá também. E assim começou a minha “descoberta tardia” pelos vlogs. Eu nunca tive muita paciência para vídeos. Vez ou outra assistia alguma coisa de PC Siqueira e Felipe Neto – aquelas reclamações ácidas que eu não levava a sério, mas fazem-me rir até hoje. E todo domingo, religiosamente, acompanho as atualizações dessa moça que se chama Tatiana Feltrin.
Paralelo a isso, muita gente me pergunta como eu consegui fazer deste espaço um sucesso. “Sucesso” é uma palavra estranha, pois parece algo instantâneo e ausente de esforço. Em primeiro lugar, o Sobre Fatalismos nunca foi um sucesso completo: já tenho o blog há quase cinco anos e só agora ele recebeu uma visibilidade maior pelo fato de eu ter deixado de ser uma adolescente romântica e imatura, oferecendo algo melhor para quem vem aqui à procura de conteúdo. Indico livros, vivo disso, esse ato paga as minhas contas, os meus outros livros, e o resto vocês já sabem.
Frequentemente me perguntam se eu estudo Letras ou sou formada em Jornalismo. Na realidade, saí do ensino médio nos idos de 2010 e, desde então, encarei um cargo de secretária (do qual não usufruí por muito tempo) e hoje estou na posição de livreira, trabalhando com o que gosto, aos trancos e barrancos do cotidiano. Logo, existem pessoas que passam por aqui semanalmente, acompanham este espaço, discordam e concordam com o meu senso crítico e, dessa forma, conferimos um diálogo.

O assunto do vídeo mais recente da Tatiana foi “quem tem ou não cacife para falar de literatura”. Ela já se deparou com muitas perguntas como “quem é você para falar do autor ‘x’” ou “quem você pensa que é para falar do livro ‘y’”. Eu também não conheço a Tatiana e acompanho o seu canal há muito pouco tempo. Mas sei que ela é professora de inglês, mora em São Paulo e possui uma biblioteca invejável, contra os meus pouco mais de sessenta livros na capenga improvisação de estante que tenho aqui na sala. Já discordei de algumas opiniões que ela tem, o seu estilo literário é muito diferente do meu. Em contrapartida, concordo com muita coisa que ela expõe com relação a obras e autores e leitores, inclusive – e essencialmente – com o vídeo acima.
A Tatiana é professora de língua estrangeira, eu sou livreira. Não me formei em Letras ou Jornalismo. De minha parte, pelo menos, não pretendo fazê-lo tão cedo, e acredito que a ideia já não passa pela cabeça dela (de fazer Jornalismo), que já tem uma vida estabilizada na profissão de ensino.
E, mesmo assim, na opinião de alguns de nossos leitores e seguidores, somos “capacitadas” para falar de literatura.
Recentemente li uma crônica da Gervason destinada àqueles que estão começando um blog literário e o tópico que me chamou a atenção foi sobre pessoas que desejam receber livros das editoras para formar uma biblioteca. No que segue:

“Não faça um blog literário porque você quer fazer uma biblioteca, faça porque você já tem uma: porque as editoras parecem distribuidoras de livros, as pessoas estão fazendo blogs para ganhá-los. Por isso as parcerias estão parecendo empregos e ao mesmo tempo, ‘sopão da meia noite’. É fácil perceber a diferença entre um blog que vive de ‘doações das editoras parceiras’ e um que tem um leitor de verdade que vive do que gosta de ler e tem um gosto literário definido. Sem contar que, quando você começa a fazer parte dos alvos das editoras, você se torna ‘só mais um blog que fala dos mesmos livros que todo mundo já está falando’. Seu tempo de vida útil será curto, sinto muito.”

Não minto que a minha biblioteca ultimamente têm sido constituída por obras que as editoras enviam, mas isso se deve ao fato de que, em minha infância e adolescência, sempre frequentei bibliotecas públicas, raramente ia a uma livraria, dependia dos meus pais que não costumavam gastar dinheiro com algo que era considerado supérfluo por eles. Nos corredores das bibliotecas de minha cidade, aprendi a ter Saramago como minha principal influência e escritor predileto, percebi que os ibero-americanos me confortam mais do que os nórdicos, adquiri meus gostos literários ali. E não porque li teoria, não porque pesquisei artigos e mil outras críticas sobre determinados autores, pois é como a Tatiana deixou claro: toda essa pesquisa é importante – e acrescento até que interessante para aprendermos e passarmos conhecimento – mas isso não é essencial.
A pessoa que eu acredito que tem cacife para falar de literatura é aquela que tem o seu gosto definido – mas sabe abrir a mente para outros estilos. Eu não gosto de ler um blog que trata apenas de livros para adolescentes, ou livros destinados ao público feminino. Precisamos saber um pouco de tudo, mesmo que esse “tudo” não atraía tanto os nossos olhares. Você pode ler apenas best-sellers e querer resenhar a obra de um Nobel em Literatura, tudo bem. O ruim é quando essa pessoa compara o Nobel ao best-seller que lhe é favorito, uma comparação que não cabe. Não existe um único parâmetro em nossas vidas. É absurdo dizer quem Morte Súbita é ruim porque difere de Harry Potter, sendo que ambos são obras singulares que pertencem a mesma autora. Darei dois exemplos simples com relação a isso: conheço uma garota portuguesa que adora quando falo de Saramago, embora na escola em que ela estuda, o autor seja obrigatório e, consequentemente, “chato” para os de sua idade (e até para alguns mais crescidos). Lembro-me de quando era criança, e Machado de Assis era “chato” porque obrigatório. Saramago, para Portugal, é o Machadão de lá. Mas tanto um quanto o outro, são essenciais para o leitor que queremos ser. Tudo bem se você gosta de Nicholas Sparks e derivações de Crepúsculo, mas me desculpe: eu nunca poderei confiar totalmente em sua opinião se (você tem mais de vinte anos e) a única experiência literária que você tem está nesses autores e em suas obras. Da mesma forma que nos encaminhamos para um segundo exemplo: quando falei de Cinquenta Tons lá no twitter, uma blogueira ~famosa~ escreveu algo como: “fala mal do livro, como se fosse obrigada a lê-lo, bitch, please”. Mas o que eu poderia fazer? Falar mal (ou bem) da obra, sem nunca ter lido? Como a maioria faz, inclusive ela mesma? Bitch, please.
Eu li Paulo Coelho e aprendi a não gostar, não tenho opinião sobre André Vianco por motivos de: nunca li e as histórias não me atraem. Sou leitora voraz de García Márquez e Vargas Llosa, mas também já sentei para ler as quatro obras principais de Stephenie Meyer. Vi muito mais filmes inspirados em livros do que suas obras correspondentes e resenho muitos livros para as editoras sem conhecer o autor e sua obra.
E claro: desconfio quem põe Cinquenta Tons de Cinza e adjacentes no céu. Se você questionar as últimas leituras das pessoas que o fazem, perceberá que essa é a pessoa que não tem o menor cacife para falar de literatura, pelo simples fato de que ela não conhece literatura. E não digo isso porque o meu ego inflado define que, para falar de livros, é necessário ler os clássicos, os modernistas, os russos e o caralho a quatro (me perdoem a expressão). Digo isso porque essa pessoa lê a Veja, lê o que está na boca do povo, lê o que o marketing de determinadas editoras promove. Lê o que “está na moda”, sendo que todos nós sabemos que nem sempre os modismos alheios são bons exemplos de alguma coisa. Essas pessoas apenas leem o que está diante de seus olhos, mas não possuem o interesse de procurar um autor nacional para além de Augusto Cury, ou o livro erótico de um autor russo do século passado. Essas pessoas, sinto muito, não merecem a minha confiança em termos literários, assim como jamais vão merecer minha opinião em culinária, porque eu não sei cozinhar, não faço ideia sequer de como fritar um ovo (desculpa, sociedade).
Na maioria das vezes, por interesse, pesquiso sobre determinados autores ou a repercussão de suas obras. Mas é claro que sei muito menos daquele que pode ser considerado um fã. Mas e daí? Sou menos capaz porque pedi um livro cuja história sequer conheço? Não posso resenhá-lo porque não o conheço suficiente? Gente, opinião qualquer um tem, senso crítico é outra história, é algo com o qual ninguém nasce pronto, apuramos com o tempo. Como eu saberia que Saramago era tão bom se eu não houvesse lido e escrito o que pensei ou senti a respeito? Como eu saberia que Crepúsculo é ruim só de ter visto os filmes?
É isso, o que define quem tem ou não cacife de quem pode falar de literatura vai muito de cada um. Você pode achar que eu e a Tatiana somos completas incapazes, e que Paulo Coelho tem razão quando diz que Ulysses é um dos maiores equívocos da literatura. Vai de você. Mas eu só espero sinceramente que a sua opinião – que é alheia – sirva de construção, e não para calar a voz do outro, não para inferiorizar o outro. E lembrando que opinião é exatamente isso: apenas uma opinião. Não é uma verdade absoluta, não é a chave para alguma crença, sequer a permissão ou não do que você deve ler.  Há leitores e leitores. E ainda bem que os temos.

A cor amarela

Homem amarrado a um poste.

Um homem foi amarrado a um poste. Ele estava quebrando vidraças de lojas em um centro comercial e já havia cometido outros atentados. Ele tem problemas mentais. A família já fez de tudo, mas os hospitais não possuem vagas. As atitudes desse homem ficaram cada vez mais violentas. Um homem perdeu a sua dignidade porque foi amarrado a um poste, na frente de outros homens.
Todas as informações acima vieram dessa fonte. Mas o que fica é o seguinte parágrafo, retirado do mesmo texto:

“Mas há um outro histórico que pesa sobre Francisco do Nascimento: nasceu negro e pobre. E pior: necessita de acompanhamento psiquiátrico. Dessa forma, por ser negro, pobre e louco, Francisco Nascimento pôde ser amarrado, exposto a ridicularização pública e violentado em sua dignidade humana, tal qual seus ancestrais.”

Achei interessante veicular a notícia, para sabermos até onde vai a crueldade humana contra outro ser humano. Entretanto, acredito que a autora do texto pecou ao levar o assunto para o lado do racismo. E se fosse branco e rico? Todo mundo aplaudiria? Se fosse com um político, por exemplo: desses bem asquerosos, que cometem mil roubalheiras – seria bonito? Ah, seria. Porque a dignidade é afetada apenas para aqueles que sofrem mais, que são oprimidos, já os brancos, esses merecem tudo de ruim.
Há um racismo curioso distribuído pelo mundo virtual: o racismo que faz do negro ou do indígena um ser humano melhor do que qualquer outro. Parece aquela frase errônea: “feminismo é o mesmo que machismo”. Machismo é quando o homem fala que “mulher no volante é sinônimo de perigo constante”. Feminismo é quando a mulher diz que “homem não presta para nada” ou “só pensa com a cabeça de baixo”. Não. Feminismo não é isso. E vamos tirar essa questão e também a notícia acima para focar em outra coisa.
As questões raciais que eu vejo diariamente nas timelines da vida são discutidas da mesma forma incoerente, negativista e até vingativa. Já falei que discuti com uma pessoa no twitter porque uma revista de moda publicou um editorial “étnico” com uma “modelo branca”, o que significa, na perspectiva daquela cidadã que comentou o feito, que havia racismo no editorial. Na mesma noite, outras pessoas vieram me indagar “o que é racismo para você” até ofensas do tipo “odeio essa gente branca que acha que existe racismo contra eles”.
Eu vou dizer o que eu penso sobre racismo: que sim, ele existe. Mas o que existe, para mim, é a raça humana, apenas.
Tive excelentes professores de História no ensino médio que me ensinaram algo muito valioso: não existe cultura inferior ou superior. O que existem são culturas diferentes. O americano não é melhor que o mexicano, o inglês não é pior do que o japonês. O nordestino não é pior do que o sulista. O evangélico não é correto quando rebaixa o candomblé – pois a religião africana é uma das principais fontes de inspiração para os rituais evangélicos (banho com folhas, vem da onde mesmo?). Estou andando e cagando para o “movimento afro” – tão vigente em Salvador – buscando apenas exibir a sua cultura, como se todas as outras fossem piores e “contaminadas” pelos “arianos”.
E não fico no passado. O meu marido é espírita e o lema do centro que ele frequenta é “para frente e para o alto”. É essencial que lutemos para que atitudes nitidamente racistas sejam criticadas e devidamente punidas. Entretanto, utilizar o argumento de “anos de batalha” não nos confere. A geração é outra: somos outros, temos mais oportunidades do que muitos outros tiveram, podemos falar abertamente sobre ofensas morais, podemos denunciá-las. Não estamos pagando por erros ancestrais e muito menos reparando-os. Não seremos éticos, também, se fingirmos que esses erros não existiram. O que podemos fazer com os erros? Aprender e não mais repetir. Mas se você é negro e declara que detesta gente branca, sinto muito, mas você está fazendo o mesmo que gente branca fazia com pessoas negras. E isso não significa aprendizagem. Isso quer dizer repetição. E vingança.
O que devemos procurar, sendo azuis, amarelos, homossexuais, heterossexuais, budistas ou católicos é o respeito mútuo. Parece uma conversa já batida, mas muita gente ainda não aprendeu que vivemos no mesmo planeta e aniquilar o próximo para impor suas certezas, crenças ou “raça” não é o correto, não vai mudar nada. Pelo contrário: a consciência de cada um só pesa. Eu me considero amarela (filha de indígena e descendente de europeus) – ou incolor, tendo em vista que na minha certidão de nascimento, consta um traço no local do nome da minha cor. Eu me considero amarela e sou contra as cotas nas universidades – porque o vestibular é a única forma que temos de provar que o filho do médico pode não ser tão bom assim quanto o filho da empregada doméstica, quando ambos disputam uma vaga para Direito. Eu sou amarela – e combato o racismo colocando-me no lugar de quem foi agredido. Eu sou amarela – já trabalhei como modelo e perdi editoriais de moda porque não nasci negra. Eu sou amarela – e já sofri preconceito pela cor da minha pele, quando fiz um curso de informática numa escola em que a maioria dos alunos era composta de pessoas com a pele mais escura que a minha, e tive de sair, pois estava sendo forçada por esses outros estudantes. Eu sou amarela – e não vou fechar os olhos ou me calar quando o racismo que existe contra mim acontecer também. Eu sou amarela, heterossexual, feminista, de olhos verdes e magérrima. Tudo que vocês detestam. Tudo que muitos de vocês tentam criticar e excluir. O senso de “perfeição” que vocês mesmos reclamam, mas acreditam ser correto para que a sociedade exponha. A modelo precisa ser “magra”. A mulher precisa casar com um “homem”. A menina bonita precisa ter “olhos claros”. Eu sou assim e não pedi para nascer dessa forma. E não irei me vitimizar diante do racismo, nem julgar o próximo, pela essência daquilo que lhe confere.

Inspirando correções, evitando equívocos

Nesta semana, um amigo da livraria compartilhou um texto em minha timeline do Facebook, sobre uma história batida que já conheço há tempos, ao que segue, na íntegra:

01

Em ocasião de meus três (merecidos) dias de folga (Carnaval, né gente), decidimos ir à Ribeira tomar um sorvete e telefonamos para Alice, minha colega de trabalho e nossa amiga em comum. Curiosamente (ou não), o último assunto do qual tratamos, antes de Alice viajar, foi esse texto, completamente equivocado em seu conteúdo (mas compartilhado mais de onze mil vezes) e que só nos remete a uma constatação: a internet também é um meio comum para criticar sem conhecer.

Tirinha do gênio André Dahmer.

Não li a obra de Martel e muito menos a de Scliar. Ambas devem ser excelentes, embora não façam o meu tipo de literatura no momento. Yann Martel é um autor canadense que, após ter lido uma crítica negativa num jornal sobre a obra Max e os Felinos, decidiu pegar a ideia inicial do livro de Scliar para criar o seu A Vida de Pi, vencedor do Booker Prize de 2002. O fato de Martel ter ganho o Booker Prize foi apenas uma mera coincidência (assim como Scliar é um Imortal da Academia Brasileira de Letras) e, como explicou-me Alice, Martel e Scliar escreveram livros absolutamente diferentes, com objetivos dispares.
Em Max e os Felinos, publicado em 1981, o alemão Max sofre com a severidade do pai que lhe educou na base da insegurança e, após um envolvimento com a esposa de um militar,  precisa deixar o país, mas sofre um naufrágio e é obrigado a dividir o barco com um enorme jaguar que não lhe parece uma boa companhia. O livro é uma crítica a ditadura militar, trazendo a metáfora de como o homem sente-se preso em um determinado local, sendo forçado a cumprir regras que discordam de seus princípios e convivendo com pessoas que lhe inspiram medo. Max e os Felinos é, portanto, uma obra política.

Os livros de Scliar e Martel. Comparem também as capas.

Já em A Vida de Pi, Martel criou um naufrágio no qual um garoto indiano se vê obrigado a conviver com um tigre (e outros animais) dentro de um barco, mas o sentido dessa obra é completamente espiritualista, buscando convencer o leitor e os personagens do livro na busca da existência de Deus, ou mesmo em sua simples crença. Fora a ideia inicial de “garoto dentro de um barco, acompanhado de um tigre”, não existem outros trechos que se assemelham em ambas as obras.
Essa polêmica, vivida em 2002, encerrada em 2008 e reavivada agora em 2013, por ocasião do filme inspirado no livro de Martel – e sim! – indicado ao Oscar deste ano, só merece uma resposta, escrita pelo próprio Scliar (ele também gravou um vídeo sobre o assunto) e que serve de prefácio para a edição da L&PM de A Vida de Pi. No que seguem alguns trechos (mas você pode ler o texto na íntegra clicando aqui):

“O Destino ainda bate à porta, claro, mas nesta época de comunicações instantâneas prefere o telefone. Na tarde de 30 de outubro de 2002, voltando para casa cansado de uma viagem, recebi uma ligação. Era uma jornalista do jornal O Globo, dando-me uma notícia que, a princípio, não entendi bem: parece que um escritor tinha ganho, na Europa, um prêmio importante com um livro baseado em um texto meu.
Minha primeira reação foi de estranheza: um escritor, e do chamado Primeiro Mundo, copiando um autor brasileiro? Copiando a mim? Ela se ofereceu para me dar mais detalhes, o que foi feito em telefonemas seguintes, e assim aos poucos fui mergulhando no que se revelaria, nos dias seguintes, um verdadeiro torvelinho, uma experiência pela qual eu nunca havia passado.
(…)
Minha primeira reação não foi de contrariedade. Ao contrário, de alguma forma senti-me envaidecido por alguém ter se entusiasmado pela ideia tanto quanto eu próprio me entusiasmara. Mas havia, na notícia, um componente desagradável e estranho, tão estranho quanto desagradável. Yann Martel não tinha, segundo suas declarações, lido a novela. Tomara conhecimento dela através de uma resenha do escritor John Updike para o New York Times, resenha desfavorável, segundo ele.
Esta afirmativa me perturbou. Max and the Cats não chegou a ser um best-seller, mas os artigos sobre o livro, que me haviam sido enviados pela editora, eram favoráveis ― inclusive o do New York Times, assinado por Herbert Mitgang. Teria Updike escrito uma outra resenha ― para o mesmo jornal? Se era esse o caso, por que eu não a recebera? Será que os editores só mandavam resenhas favoráveis?
À afirmativa seguia-se um comentário de Martel. Uma pena, dizia ele, que uma ideia boa tivesse sido estragada por um escritor menor. Mas, em seguida, levantava uma outra hipótese: e se eu não fosse um escritor menor? E se Updike tivesse se enganado? De qualquer maneira a ideia principal do livro serviu-lhe de ponto de partida para sua obra The Life of Pi. E qual é essa ideia?
(…)
Incomodava-me a suposta resenha e também a maneira pela qual tomei conhecimento do livro. De fato, não fosse o prêmio, eu talvez nem ficasse sabendo da existência da obra. No lugar de Martel eu procuraria avisar o autor. Aliás, foi o que fiz, em outra circunstância. Meu livro A mulher que escreveu a Bíblia teve como ponto de partida uma hipótese levantada pelo famoso scholar norte-americano Harold Bloom segundo a qual uma parte do Antigo Testamento poderia ter sido escrita por uma mulher, à época do rei Salomão. Tratava-se, contudo, de um trabalho teórico. Mesmo assim, coloquei o trecho de Bloom como epígrafe do livro ― que enviei a ele (nunca respondeu ― nem sei se recebeu ―, mas eu cumpri minha obrigação). Martel agiu de maneira diferente. No prefácio, em que agradece a muitas pessoas, atribui a ‘fagulha da vida’ (…) que o motivou a mim. Mas não entra em detalhes, não fala em Max e os felinos.
(…)
Uma ideia é uma propriedade intelectual. Isto não significa que não possa ser partilhada. Pode, sim, e frequentemente o é. Um editor propõe um mesmo tema para vários autores e faz uma antologia com os trabalhos: nada demais nisso. Um autor não está prejudicando o outro. É diferente da situação de um produto qualquer que é copiado, o que implica prejuízo para o produtor original ― a pirataria. Usar a mesma ideia literária não chega a ser pirataria.
(…)
Literatura não é fonte de contentamento. Nem é coisa que possa ser feita pelo membro de um bloco. Ela é, essencialmente, um vício solitário. Isto não quer dizer que tenha de ser praticada numa isolada torre de marfim. A grande literatura inevitavelmente reflete o contexto social da época. Mas o faz como um sismógrafo, cuja agulha desloca-se como resposta a movimentos profundos. Espero que isso tenha acontecido, ao menos em parte, ao menos em pequena parte, com uma história chamada Max e os felinos. Todo o resto, francamente, não tem muita importância.”

O que eu soube – e de fontes muito confiáveis – como blogs literários (que não precisam fazer oba-oba para jornal, emissora, editora ou qualquer outro meio que envolva a literatura), foi que, muito provavelmente, Updike distorceu as palavras de Martel, sobre Scliar ser um “escritor menor” e, mesmo que Martel o tenha dito, a postura de Scliar foi bastante correta diante de todo o embaraço. Martel provavelmente era imaturo, mas soube reconhecer o erro que cometeu e hoje consta nas edições de A Vida de Pi no mundo inteiro uma dedicatória em agradecimento a Scliar, onde o autor está devidamente reconhecido por sua obra que trouxe inspiração ao livro de Martel.
Minhas considerações finais, por outro lado, desencadeiam na sorte de coisas que tudo isso gerou. Para começar, quem saberia da existência de Max e os Felinos caso Martel não tivesse se inspirado nele? O que seria da obra de Scliar sem o Booker Prize de Martel? Muitas vezes a literatura nos prega essas surpresas justamente para revelar duas obras impactantes em suas particularidades, unidas por uma ideia comum. De fato, não é considerado plágio a “cópia” de uma ideia. Muitos de vocês não sabem, mas às vezes um autor envia sua obra para as editoras e quando algum determinado editor se interessa pela história, mas não necessariamente pela escrita, propõe o enredo para um já consagrado autor, de modo que este se baseia numa história já existente para formular a sua. Pode não parecer o correto, mas é o que ocorre sem que percebamos. Além disso, “plágios” literários é o que mais acontece. Frequentemente somos surpreendidos por ideias repetidas em ocasião de algum best-seller (J. K. Rowling, por exemplo, consagrada pela série Harry Potter, bebeu na fonte de muitas outras obras por aí que inspiraram as aventuras de seu bruxo adolescente). O do momento é o Cinquenta Tons de Cinza, no que surgem variações como Cinquenta Tons de Prazer, do Sr. Darcy, de Vergonha, etc. Algumas dessas versões são paródias e outras tantas considero apenas como “pegar carona no sucesso dos outros”, mas tudo também dependerá de quem está disposto a ler esse tipo de coisa. Tem muita gente que reclama do “plágio de Martel contra Scliar”, mas lê mais do mesmo. O ápice desse absurdo foi quando atendi recentemente uma cliente que tratou desse assunto, mas segurava uma sacola repleta de livros “eróticos”, no mínimo cinco contendo histórias de mocinhas virgens apaixonando-se por milionários sadomasoquistas, isso porque ela tinha adorado Cinquenta Tons de Cinza. Pessoas com esse nível intelectual não possuem a menor capacidade de julgar um caso como o de Martel sem um estudo prévio.
Logo, esses 11 mil usuários que compartilharam aquela crítica, desconhecem tanto o caso quanto o indivíduo que a escreveu. E para tudo deve haver cautela, afinal de contas, o New York Times pode ser para os americanos o que a revista Veja é para a maioria dos brasileiros não-alienados: uma maravilhosa fonte de equívocos que procura deturpar a imagem de determinadas pessoas e/ou manifestações artísticas. Afinal de contas, pagar pau para literatura estrangeira de merda é fácil. A Veja pode desperdiçar quantas edições ela queira em prol de um best-seller sem o menor sentido, assim como um jornal americano pode não compreender a intenção de um autor brasileiro que tratou da política de seu país naquela obra. Tudo é relativo. O que precisamos é pesquisar mais para tratar de determinados assuntos com maior propriedade. E pesquisar bastante, em diversas fontes – inclusive aquelas menos conhecidas pela grande mídia. Foi-se o tempo em que jornais e revistas eram formadores de opinião. A internet está aí para isso: para que pensemos sozinhos, apurando o senso crítico. Façam suas próprias fontes, saibam do que estão falando e, o mais importante de tudo: não sejam facilmente impressionáveis, vocês podem muito mais que isso.

Os Miserávão

Esta semana deparei-me com a matéria que trata da quantidade vergonhosa de lixo que os soteropolitanos despejam nas ruas, um fato que não me surpreendeu. Quem anda em minha cidade se espanta com a ausência de educação por parte de seus habitantes: um orgulho demasiado e sem fundamento, um quê de se expressar como melhor do que qualquer outro mortal. Reclamam que as ruas andam imundas, mas são os primeiros a jogar lixo nelas, descaradamente. É algo que vejo em meu cotidiano, indo e vindo do trabalho, a cidade inteira fede: esgoto a céu aberto, pessoas que jogam embalagens de lanche pela janela do ônibus, homens que urinam em ladeiras e escadarias. Há alguns anos atrás, um motociclista morreu em pleno trânsito, atingido por uma latinha de refrigerante, atirada da janela de uma condução. E essa falta de educação não está apenas no que se refere ao lixo da cidade – esse é apenas um dos fios condutores para uma falha muito maior.

EstreiaHoje fui ao cinema assistir o excelente Os Miseráveis, adaptação do famoso livro de Victor Hugo, quando deparei-me com Eike Batista, já nos primeiros minutos do filme – que é um musical – dizendo: “Tá parecendo até um musical da Broadway”, porque, sem sombra de dúvida, este mesmo senhor que fez essa bela observação e constatou, antes de sair da sala, em alto e bom som que o filme “era chato” e preferia esperar “sair na Sky”, só podia ser o Eike Batista baiano: esse ser humano típico daqui, que esbanja pose e posses, mas é incapaz de saber o significado de cultura (o que justifica o título desta crônica).

#partiuPara aqueles que desconhecem o enredo de Os Miseráveis, saiba que esta é a história de Jean Valjean (Hugh Jackman), um homem pobre que decidiu roubar um pão para alimentar o filho de sua irmã mais nova, e acabou cumprindo dezenove anos de escravidão por um crime mínimo que, atualmente, compreendemos como instinto de sobrevivência. Anos depois, quando solto, Valjean não se sente de todo livre, carregando consigo um documento que expressa seu extremo perigo, mas o rapaz tenta se redimir auxiliando fracos e oprimidos, já com outro nome. Apesar disso, ele ainda é perseguido por Javert (Russell Crowe), um inspetor em busca de vingança. A história se passa no século XIX.

Hugh Jackman, como Jean Valjean.O filme, que tem direção de Tom Hooper, começa com um Hugh Jackman diferente de tudo que ele sempre foi: está careca, barbudo, muito mais magro – e faz jus ao título da obra. Jackman é confrontado por Crowe a levantar a bandeira da França, enorme e pesada. Consegue fazê-lo, e o inspetor Javert concede-lhe a liberdade, mas deixa claro que passará toda a vida como prisioneiro de sua própria sorte.
Valjean busca refúgio em uma igreja, os anos passam e ele enriquece, tornando-se uma espécie de herói na cidade, auxiliando aqueles que dele necessitam. Um belo dia, Fantine (Anne Hathaway), uma de suas empregadas, é mandada embora por um subordinado de Valjean, sob a acusação de ter uma filha – o que pressupõe que ela esteja roubando para mandar dinheiro para a garota, algo como “de dia, uma virgem; à noite, vagabunda”. Fantine implora socorro a Valjean, mas o homem está ocupado com a visita do inspetor Javert, com quem se depara pela primeira vez em anos. Fantine é deixada na sarjeta, torna-se prostituta para não permitir que a filha passe fome, é salva por Valjean – mas já está à beira da morte. No entanto, ele promete que será o tutor de sua filha, Cosette (Amanda Seyfried).

Anne Hathaway como Fantine.Ao meu lado, uma moça reclamava: “esse filme só tem música!”. De fato, todo e qualquer diálogo do filme é tratado ininterruptamente como um musical, os personagens falam através de canções, o que o torna magnífico, além de uma experiência muito menos cansativa do que O Fantasma da Ópera de 2005, por exemplo (ambos os filmes tiveram os mesmos produtores, pelo que ouvi dizer). Assim como a maioria dos brasileiros, também não sou acostumada a musicais e, até então, só fui capaz de gostar de um deles, o Chicago. Mas, mesmo desacostumada, tive o máximo de respeito pela obra, até porque, eu sabia que o filme era tratado nessa perspectiva, não saí de casa esperando algo diferente daquilo. A garota que estava ao meu lado certamente não se deu ao trabalho de pesquisar sobre o que o livro se tratava, antes de reclamar tanto no cinema. Do outro lado, perto de onde minha enteada estava, uma moça começou a chorar cantando baixinho, junto com Anne Hathaway, a música a seguir:

O que sucede ao longo do filme, como uma segunda parte, só me cabe resumir: o medo renovado de Valjean reencontrar Javert; um amor que nasce e floresce através dos jovens; o período posterior a Revolução Francesa como cenário de uma luta válida. Pouco antes dessa cena acontecer, há muito um grupinho atrás de mim estava tagarelando praticamente desde que o filme começara. E tem certos momentos em que a solução é explodir mesmo. Olhei para trás e lancei o seguinte questionamento: “vocês por acaso nunca vieram ao cinema? Vocês sabem o que significa respeito? Estão conversando há minutos, então agora calem a boca! Se não possuem sensibilidade para esse tipo de filme, deviam ter ficado em casa”. O meu estresse deu resultado. Eles não deram “um pio” até o filme terminar. Afinal, eu tinha razão e a situação é um absurdo: você paga caro para assistir e ouvir o filme, enquanto uma turminha fica lá atrás cantando metade das músicas e conversando na maior parte delas. Eu pago o cinema para respeitar e também para ser respeitada. É o mínimo (eu, como “lanterninha”, ia dar o que falar, já sei).
Entretanto, apesar desses infortúnios tão típicos da educação daqui, alguns pontos altos (e outros nem tanto) puderam ser observados ao longo da película: Russell Crowe merece o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante. Ele foi um vilão exemplar – mas não do tipo que se vinga por qualquer bobagem. Victor Hugo traçou um personagem que possui humanidade, ainda que errônea. O inspetor Javert é um homem sedento por justiça, a plena e cega justiça que só um homem ganancioso e de posição elevada pode ambicionar. Anne Hathaway – o que dizer? Sua participação foi a mais tocante e sensível, o exemplo da mãe que faz tudo por seu filho. Amanda Seyfried, no entanto, infelizmente, não teve o seu papel tão bem explorado, apesar de interpretar uma personagem central na trama – faltaram-lhe diálogos maiores, embora sua “descoberta” do amor tenha sido uma das melhores cenas: o amor indizível, à primeira vista, que não necessita de palavras, romanceado demais (por ser francês), inenarrável. Mas o casal responsável por dar humor ao filme foram Madame e Monsieur Thénardier (Helena Bonham Carter e Sacha Baron Cohen, respectivamente). A presença de Baron Cohen me impressionou bastante, quando chequei o elenco, meses atrás. Ele fez Borat e Brüno. Qual participação teria em um drama como Os Miseráveis? Quem assistir, verá. E um ponto negativo para o filme: as transições de cenas não foram bem exploradas. Uma cena termina, para que outra comece. Algumas dessas transições foram excelentes e, em outras, faltou muita técnica. Mas é algo que quase não se repara, pois não destrói a película.

Antes que alguém me pergunte, devo dizer que nunca li a obra de Victor Hugo. Mas conheci a história através de uma adaptação infanto-juvenil. Era um livro que as escolas públicas distribuíam, bem fininho, em forma de teatro, mas que me impressionou bastante pelo seu conteúdo: por muitos anos, Jean Valjean foi o personagem que mais amei. A paixão dele por Fantine e sua fidelidade a Cosette me pareciam sentimentos puros e heróicos. Pelo que vi no filme, a pobreza dos franceses daquela época fora muito bem explorada, algo que eu gostaria muito de conhecer a fundo através do livro. A editora Cosac Naify acaba de relançar Os Miseráveis em dois volumes. Infelizmente, não duvido que sejam caros – como quase todos os bons clássicos o são. Isso é uma pena: o Brasil já é tão reconhecido por ser um país avesso a alta literatura, disposto apenas aos livros de auto-ajuda e/ou best-sellers. Mas não é à toa: os clássicos universais estão disponíveis a preços exorbitantes e desnecessários. Compreendo que as novas traduções, principalmente aquelas que vem diretamente do russo ou do japonês, sejam caríssimas exatamente pelo cuidado e tempo que se leva para traduzir. Mas uma tradução que veio do francês? Sinceramente, não justifica.
Por fim, digo a vocês que a impressão que tive do filme foi de que ele, como um todo, é uma carta para Deus: uma carta de esperança e resistência, que implora liberdade aos oprimidos e paz de espírito aos opressores. Uma linda e longa carta de arrependimento, alegando a defesa de que nascemos culpados porque o pecado existe, mas não serão pelos humanos que seremos julgados. Na última cena, todos os que morreram cantam que um dia voltarão, mas sem armas, e com muito mais inteligência para enfrentar as aparentes impossibilidades do destino. Uma perspectiva um tanto quanto espírita, como observou meu marido, mas uma verdade de justiça, que clama por um mundo melhor.

O cartaz oficial de Os Miseráveis.

O pior blogueiro do mundo

Não faz muito tempo, uma amiga publicou no twitter o que ela considerava um absurdo: um editorial de moda de uma famosa revista sobre roupas étnicas, estampas africanas, etc. E uma modelo branca para ilustrar o conteúdo.
Eu, que já trabalhei como modelo, questionei qual era o problema do editorial. E ela me especificou que o erro estava na escolha “racista” da mulher branca. Em contrapartida, perguntei se, por acaso, uma mulher negra não poderia fazer uma sessão de fotos com temática, sei lá, russa ou alemã. Para mim, daria no mesmo. O preconceito racial no meio da moda tem diminuído bastante. Se você é modelo em Salvador, onde moro, já deve ter percebido que aqui não tem mercado para brancas. Na minha época, havia perdido vários trabalhos por conta da cor da minha pele – e eu me considero apenas amarela. Portanto, na questão da moda, acredito que se uma modelo branca possui beleza e competência para posar em um editorial “africano” (oi?), ela o fará, sem problemas. Assim como a modelo negra pode alcançar um status bem maior: ser a principal da Victoria’s Secret, por exemplo.
Mas em 140 caracteres, infelizmente, não é possível expressar tanta coisa. E essa amiga discordou de mim, e outras pessoas, que eu desconhecia (e ainda desconheço), mandaram mensagens perguntando: “o que é racismo para você”? E, diante de minhas respostas (que eu ainda perdi tempo digitando), as ofensas se multiplicaram, até absurdos como “essa gente branca que pensa que o racismo contra eles existe”. Como é que é?

Imagem compartilhada no facebook.

O meu argumento era que, embora a escravidão e todo aquele massacre contra os direitos humanos houvesse acontecido sim, em tempos remotos, hoje a coisa está bem diferente. “Ah, quer dizer que você acha que o racismo não existe mais?”, não, é claro que o racismo existe, eu vejo esse tipo de atitude também. E protesto até onde posso. Mas daí viver acreditando que estou sendo perseguida pelo preconceito contra a cor da minha pele? Jamais. Sigo em frente, porque eu sou uma pessoa, e tenho o meu potencial, independente de ser azul ou vermelha. Aqui em Salvador, com uma população negra em maioria, me surpreendo bastante com o fato de que o pessoal não saiu ainda do passado. A sua faculdade só teve professores brancos? Que tal estudar, tornar-se professor e – com competência – reverter esse quadro? É bonito quando dona Olívia Santana sobe no palanque do candidato que perdeu para ACM Neto e grita “pois a Bahia é a negrada e a negrada está conosco”, como se Salvador fosse apenas isso? “A negrada”? E eu, que sou amarela? Teria sido expulsa da cidade em que nasci porque Olivia não sabe fazer discurso, só “oba-oba”? Cadê as propostas para melhorar minha cidade? Não: só “a negrada” importa.
Mas existem assuntos nos quais a gente não deve se aprofundar ou aguçar o senso crítico caso não tenhamos um ponto forte: o conhecimento. Naquela noite, minha amiga continuou se sentindo muito ofendida, enquanto eu ignorava ou debatia contra os que me acusavam e me nomeavam como “a nova racista da internet”. Ela começou a narrar fatos de sua infância e então eu caí na real: eu nunca vou saber o que uma pessoa negra que sofreu preconceitos terríveis passou. Ao longo da jovem vida dela, não foi pouca coisa todo o racismo que lhe atiraram. Eu nunca vou saber. E por um fato simples: eu sou amarela. Então, fiz o que considerei mais sensato: pedi desculpas pelas ofensas que cometi, embora ainda tenha o meu ponto de vista que é diferente do dela. Ela aceitou, pois havia percebido que era sincero de minha parte. E tudo terminou bem.
Eis que, no fim dessa semana, lendo os blogs que costumo seguir, me deparo com a notícia do “pior pai do mundo” no Charlezine. Uma história que eu já havia visto repetida em tantos outros sites, só que com um título bem diferente. Essa é a história de um garoto de apenas cinco anos, da Alemanha, que gosta de usar vestidos. Por conta desse fato, ele sofre com as piadas em pleno jardim de infância, contra sua atitude. O que o seu pai resolveu fazer? Espancá-lo? Obrigá-lo a se comportar como um “homenzinho”? Não, de forma alguma. O pai veste uma saia e leva o garoto até a escola.

Pai veste saia para levar filho que usa vestido para a escola.

“Em uma carta, Pickert explicou que tenta criar seu filho de maneira igualitária. Ele escreveu que não age como os pais acadêmicos que divagam sobre a igualdade de gênero durante os estudos mas reprimem as crianças quando estão em casa com um ‘pensamento convencional’. O pai do garoto afirma ainda que não podia abandonar o filho ao preconceito alheio. ‘É absurdo esperar que uma criança de 5 anos consiga se defender sozinha, sem um modelo para guiá-la. Então eu decidi ser esse modelo’, afirmou Pickert.
Pai e filho atualmente passeiam pelas ruas da cidade de saias, atraindo muitos olhares curiosos. O garoto agora resolveu pintar as unhas e de vez em quando pinta as unhas do pai. Quando ouve chacotas dos amiguinhos do jardim de infância, prontamente responde: ‘vocês só não usam saias porque os pais de vocês não usam’.”

O sr. Charles A. Santana, dono do blog Charlezine, apenas copiou a notícia dessa fonte e alterou descaradamente o título para o que ele considera como “o pior pai do mundo”. Logo um comentário surgiu pedindo explicações sobre o motivo daquele ser o pior pai, e a resposta do sr. Charlie A. Santana foi a seguinte: “Porque em vez do papel de pai, de ensinar como se vestir adequadamente e ser modelo de conduta moral em quem o filho poderá se espelhar, ele faz o contrário”. Eu, como leitora daquele espaço, decidi expressar também o meu senso crítico, que resultou no seguinte (clique na imagem para ampliar):

Preconceito.

Decidi analisar o caso, e compartilhá-lo com vocês, quase como uma forma de divertimento. Bem, para começar, todo mundo aqui conhece a revista Veja. A revista que os pseudo-intelectuais leem e admiram. A revista que distorce toda entrevista que faz com algum artista (ou mesmo aquilo que os seus correspondentes escrevem). A revista que compara homossexuais a cabras, como se essa comparação fosse possível ou aceitável. A revista que pede que você tire fotos do ENEM e publique nas redes sociais, sob o motivo de que “as melhores serão publicadas em nossa próxima edição”, sabendo que esse é o tipo de atitude que prejudica os estudantes que estão fazendo a prova. A revista que perde uma edição inteira tratando de Cinquenta Tons de Cinza só para posar de moderninha diante da extrema direita no recheio de todo o conteúdo inútil, corrosivo e de distorção para mentes abertas e auto-suficientes. Enfim: a revista que pensa que fala por você e não com você (isso para citar apenas alguns dos casos mais recentes). Senhoras e senhores, o sr. Charlie A. Santana é mesmo o tipinho ideal que a revista Veja está perdendo. Confiram:

01

Em seguida, decidi checar o perfil do sr. Charlie A. Santana. E, como ele é um ser humano muito humilde e respeitador, o currículo egocêntrico também precisa ser exposto, não é mesmo? (decidi preservar a imagem da namorada dele para que a mesma não se sinta envergonhada, coitada.)

02

Foi um amigo no facebook quem me chamou a atenção para o perfil dessa figura, realmente invejável (e duvidoso). Em vinte e três anos de vida no planeta Terra, foram, pelo menos, quatro formações diferentes. E, diferentemente do que o meu amigo achou, penso que essa formação para uma pessoa tão jovem é completamente possível: tenho um conhecido que até hoje faz faculdade. Ele acaba de se formar em mais uma (deve ser a quinta). Com direito a festa de formatura e tudo. E, em breve, entrará mais uma vez em outra faculdade e se formará novamente. Qual o motivo disso? Linearidade. Ou uma pessoa que não possui objetivos claros, não salta. Qual o sentido de tanto diploma? Exibir na parede da sala para as visitas? E depois? Abrir um blog e contar para todo mundo que, apesar de tanto conhecimento, você já foi chamado de herege? Coitado, né? Apesar de todo o estudo obtido, você ainda é incapaz de perceber que o seu pensamento ou a sua ação não é a mais correta e nem a mais sensata para reger a sociedade da qual você é vítima? E se o “normal” fosse homem usar saia? Você se rebelaria contar um garoto de cinco anos que usa calças? Desde quando o que você pensa ser o certo é o certo?

03

Sobre assuntos nos quais eu não tenho a menor propriedade para tratar, também não me meto. Só uma única vez decidi escrever sobre religião por aqui, mas a maioria concordou e compreendeu o meu ponto de vista. Eu entendo literatura e é dela que gosto de falar. Desconheço bastante o assunto da homossexualidade, dos direitos das pessoas que possuem orientações sexuais diferentes das minhas, de como um pai deve educar seu filho também (ainda não sou mãe). Mas entendo sinceramente que ainda terei de comer muito feijão para ser uma Lola ou tratar de assuntos mais sérios com a extensão devida, como faz a Feminista Cansada (que também me apoiou, conforme o breve texto aqui). E algumas pessoas, tais como o sr. Charles A. Santana, precisa rever urgentemente seus conceitos de “achismos”. Porque opinião qualquer um tem. Apontar o dedo, todo mundo sabe. Mas colocar-se no lugar do outro e enxergar o mundo à sua volta a partir daí, parece um sacrifício enorme. E alterar o título de uma publicação para “amenizar” o impacto de seu preconceito não basta. Uma pessoa dessas não está fazendo nem de longe o seu melhor. Como uma amiga questionou no tópico que eu levantei no facebook, “como faz pra deixar de ser da mesma espécie que essa pessoa?”, porque nos dá vergonha, muita vergonha alheia.

A mesma notícia, diferentes pontos de vista.

Em caso de contato com os olhos

(Um texto que deveria ter saído no fim do mês passado)
Gal Costa interpretando Caetano Veloso define.

Dia desses me apareceu, na livraria, uma senhorinha muito simpática, lusitana. Devia estar perto dos sessenta anos, duvido muito que tenha alcançado essa idade. Contou-me sua história. Disse que precisava de um livro para um amigo muito especial – que ela não via há anos, porque uma guerra em Angola os separou. Reencontraram-se via Facebook. Pelo modo como ela falava, percebi uma paixão despertando de um longo período em que estivera adormecida. Recordei os livros de Lobo Antunes sobre a guerra. Até mesmo em Safran Foer, com seu livro sobre um garoto em busca de vestígios o próprio pai, cujos avós tiveram uma extraordinária e infeliz história. Mas optei por Inês Pedrosa, e seu Fazes-me Falta, a história dos amantes que se comunicam, apesar da enorme distância.
Devo ter escrito mil ensaios sobre o assunto, ao longo desses sete anos. Falando assim, parece até que o tema é religião, feminismo, essas importâncias amplas demais e muito pessoais para serem expostas em poucas linhas (principais geradoras de polêmicas, para ser mais exata). É apenas, no entanto, o fato mais interessante que já me ocorreu, se você contar que até meu livro predileto, esgotado na editora, foi encontrado no meio de um balaio nesse passado mês de Outubro. Estranhezas acontecem.
Eu era uma menina ainda. Apaixonava-me semanalmente por um perfil mais atraente, vejam só. Estudava música, não tinha o menor talento. Não sabia que seria de meu futuro, escrevia em um diário estampadíssimo de insignificâncias, destinados aos olhos de minha mãe, que furtava meus segredos para usá-los contra mim, posteriormente.
Foi em uma dessas brigas que saímos juntas e fechadas uma com a outra do shopping center no qual trabalho hoje. Isso faz sete anos, creio. Paguei, sentei na frente, ela ao meu lado. Não conversamos. Decidi olhar para o fundo do ônibus, quando me deparei com aqueles olhos grandiosos que me fitavam.
Existe uma palavra húngara intraduzível para qualquer outro idioma (tal como “saudade” – um sentimento inenarrável). “Délibáb” significa “miragem”, no sentido mais leigo. Quando você vê sem saber muito bem o que é, uma utopia enfim. Algo inesperado, que veio feito presente. Foi isso que senti quando pousamos quase que simultaneamente o olhar um no outro. Uma troca apenas. Sete anos.
Engraçado, desci do ônibus ainda observando indiscretamente. Ele continuou lá, igualmente perscrutando-me. Desci no ponto perto de minha moradia atual. Acaso?
Era dezembro, ainda me lembro, e recordo-me muito bem de seu rosto – logo eu, tão boa com nomes inteiros e péssima de fisionomia. Na semana posterior, tive uma reunião, uma festa de encerramento anual na escola de música. Quem estava lá? Vejam só. Reconhecemo-nos de imediato. Com o auxílio de colegas, recolhi informações.
Era francês. E dava aulas de flauta na escola que eu viria a estudar todo o meu ensino médio. E só. Tinha um nome muito complicado, que eu não saberia escrever então, mas inesquecível.
O terceiro dia foi uma manhã chuvosa, na qual eu saía do colégio pegando carona em guarda-chuva alheio. Ele vinha na direção oposta, completamente vestido de preto, como eu o vira nas outras ocasiões. Olhou e sorriu. Retribuí. Depois, nunca mais.
Tudo bem, eu me apaixonei ali. Mas isso não vem ao caso. Levem minha pouca idade em consideração. Devia ter doze, treze anos. Um sinal menor de atenção despertava-me imaginações diversas para o que nada poderia significar. E ele era um rapaz “mais velho”. Eu não tinha chance. Mas fazia o meu tipo. E um olhar atormentador.
Os encontros cessaram (na verdade, ele desapareceu quando o novo ano chegou), pesquisei seu nome na internet – e qualquer outro termo em comum com sua pessoa. Nada foi encontrado. Devia estar errando alguma coisa.
Deixei o tempo passar, fui me apaixonar novamente outras tantas vezes, quebrei a cara no ensino médio, criei um blog para curar minhas mágoas, mas ainda procurava-o vez ou outra, só para não perder a esperança (ou as estribeiras). Acostumei-me com a ausência de resultados. Poderia questionar os comuns, mas isso despertaria suspeitas, visto que nunca nos falamos.
E daí que hoje, madrugada de terça, outubro, 2012, eu casada e feliz, abrindo e fechando páginas de uma rede social tão comum – eis que me deparo com a lista de amigos de um determinado indivíduo – e quem está lá afinal? Justamente.
“Oi Fulano. Nos conhecemos ‘de vista’ quando você estava no Brasil. Duvido que se lembre. Caso esteja curioso, mantenha contato”, escrevi. Vi suas fotos – o mesmo rosto. Porém, está calvo. Logo ele, que adornava uma cabeleira vasta.
Não é nada demais. É só quando você olha e sente que conhece há anos – ou de muito tempo, outras vidas, talvez. Ainda mora em mim uma constatação do “deixei escapar”, pois tive a chance de dizer um simples “bon jour” sete anos atrás – mas isso era tudo que eu sabia de francês e espero – sinceramente – que ele compreenda meu português infeliz. E que me responda. E que não tenha me esquecido.